“Puro Voyeurismo: A minha vida íntima com José Sócrates em Évora” (Onde relato, pelo meio, factos de facto importantes)

“Era uma vez Píramo e Tisbe. Ele era o mais belo dos jovens, ela a mais deslumbrante de todas as moças que o Oriente teve. Moravam em casas contíguas, naquela cidade altíssima que se diz Semíramis ter rodeado de muralhas de tijolo.”

Talvez seja um pouco exagerado, talvez ninguém acredite nisto, conquanto ofereça título espantoso: “José Sócrates e vizinho da P.J. vivem amor proibido.”

Imaginem os textos jornalísticos carregados de mensagens subliminares: “atracção socrática por “infante” da P.J.”, “amor grego em Évora”, “reclusão aquece o coração.”

Está tudo relacionado dirá o meu caro(a) Leitor(a): Semíramis foi rainha da Babilónia, Babilónia Luxúria, muralhas muros, muros Évora, em Évora faltam guardas prisionais para que se possam realizar as visitas íntimas previstas por lei, facto que tem como consequência a inibição de uma das pulsões mais básicas do ser humano – a sexual – logo amor espartano, não em tendas de campanha, mas sim intramuros!

É o que faz estar há 334 dias preso preventivamente, faltarem somente 32 dias para a acusação e nada! Agora não estou a referir-me a sexo, refiro-me à autêntica tortura que é estar preso sem acusação há 11 meses!

Mas não é isto que realmente importa. O que importa é que esta semana que passou, num dos nossos passeios diários, o José (como o trato) solicitou-me que lhe observasse o gémeo da perna direita, pelo que levantou a calça e baixou o cano alto da bota (as famosas botas mais famosas que as aladas sandálias de Hermes. Hoje estou muito grego), e perguntou:

– João, o que acha disto? É bicho? Estou cheio de comichão!

Deixem lá o Píramo e a Tisbe, claro que não coçei! Olhei e sentenciei:

– São pulgas, José. O meu caro tem pulgas!

Pulgas! Disse o meu camarada de reclusão com a mesma expressão facial, que vezes sem conta lhe vejo, quando cerrando os dentes afirma: “Canalhas! É uma canalhice!”

– O que faço agora? – questionou-me um Sócrates de sorriso amarelo.

– Lave com maior regularidade a cela. Varra o espaço!

Instintivamente afastei-me um pouco dele, mas depois, como alguém que partilha o infortúnio, uma vez que os homens só se juntam na desgraça ou no lucro comum, reduzi o espaço vital e continuámos a conversa. Afinal, uns meses antes também eu tinha sido vítima das pulgas!

Num outro dia, de uma outra semana (já são tantas: 47 semanas!) estava eu a tomar o meu banho pós-treino, entra o José para fazer o mesmo. Mais uma vez o alertei:

– Não entre descalço para o banho! Não deixe os chinelos cá fora! Olhe que “apanha” uma micose!

Já desnudado, José vira-se agradecendo a chamada de atenção. Quando se vira, direcciono o meu olhar e o que vi …

Captei a vossa atenção? Vou aproveitar: no dia 9 de Fevereiro de 2015, o meu advogado apresentou as provas materiais da violação do segredo de justiça do inquérito no âmbito do qual estou preso preventivamente (cerca de 40 fotografias de páginas do processo, obtidas com recurso a um telemóvel). Passados 16 dias: nada! Já passaram 9 meses e 29 dias desde que foi denunciado o crime de violação de segredo de justiça, apresentei as provas a até ao momento em que escrevo: nada!

A Procuradora-Geral da República Portuguesa, numa entrevista à Rádio Renascença, declarou estar indignada com as violações do segredo de justiça, acrescentando que a existir, a violação por parte do Ministério Público, são “deslizes”, é fenómeno que “se encontra limitado ou não existe”!

Como disse, Dra. Joana Marques Vidal?!

Na primeira “fotografia” do meu processo lê-se: “Despacho para apresentação judicial nos termos e para os efeitos do disposto no artº 141 do CPP. Remeta, de imediato, o expediente ao MM. Juiz.”

Mais, nas fotografias do despacho a apresentar ao MM. Juiz pode-se verificar que as folhas não estão ainda numeradas, logo inseridas no processo, inferindo-se com segurança que são peças processuais emanadas pelo Ministério Público (tenho as provas físicas do que explanei!).

Como disse, V.Exa.?! Instaura-se processo-crime sempre que existam suspeitas ou denúncias?

É falso, com a devida vénia. Há 9 meses e 29 dias que aguardo qualquer acção!

Mas nada disto interessa. Nada disto é notícia!

Vamos ao que de facto interessa: a semana passada, durante o treino matinal, José Sócrates não teve um deslize como o Ministério Público, nada disso. Na passada semana o José descuidou-se!

Assim foi! Durante a realização de exercício físico que solicitava os músculos da parede abdominal, encontrando-se inserido num grupo de trabalho formado por mais seis reclusos, todos deitados em decúbito dorsal, pés a um palmo de altura, ouviu-se sofrido flato!

Acto contínuo, o grupo toca de imediato com os pés no chão, desistindo da posição de esforço, à excepção do José, que com ar aliviado mantém o exercício. Silêncio ensurdecedor no pátio. Olhares comprometidos.

Por vergonha ou por não quererem melindrar Sócrates, ninguém referencia o ocorrido, apenas se afastam os mais próximos, somente um pouco, do recluso 44!

Não é nada interessante conhecerem das condições que se experimentam aqui em Évora, o frio, a fome, o facto de não ser uma possibilidade adoecer, porque somente vem casos extremos, quem nos guarda, reconhece que não se trata de fingimento mas sim de algo grave!

Que interesse pode ter o Dr. Garcia Pereira, Ex-Presidente da Associação de Apoio ao Recluso, afirmar na quarta-feira passada que quando alguém entra num estabelecimento prisional perde a liberdade mas também os seus direitos cívicos?!

Totalmente desinteressante é saberem que é absolutamente desumano sujeitarem um indivíduo a 11 meses de prisão preventiva sem apresentarem acusação, agravando-se o facto porque quem agora escreve, conhece perfeitamente como se trabalha na sua instituição, como trabalha o Ministério Público, como funciona o sistema de Justiça em Portugal. Ainda assim, numa escandalosa manifestação de desrespeito intelectual, protelam ao máximo a pronúncia de acusação ou ameaçam instaurar processos-crime ao colega de profissão, ou mesmo processos disciplinares olvidando mais uma vez que também estive desse lado das grades, esquecendo os ensinamentos de Tucídides: “Há três coisas que empurram os homens para a guerra, a honra, o medo e o interesse próprio”.

Os três alimentam a minha acção. O que é um processo-crime por difamação ou injúria, o que é um processo disciplinar, comparado com o atentado à minha Honra quando me indiciam por corrupção, o que são processos disciplinares comparado com o medo de não conseguir sustentar a minha Família, o que é isso comparado com o interesse “muito meu” de não querer definhar, azedar aqui?

Como o meu Caro(a) Leitor(a) já se apercebeu, este texto é “dolosamente sensacionalista”.

Tenho a esperança que por ser intencionalmente sensacionalista, venda jornal ou revista! (e se rima é porque é verdade, já dizia o poeta)

Ao que chegámos: ter de berrar para ser ouvido, ter que fazer exercícios de voyeurismo para ser escutado.

A minha voz, aqui, assemelha-se à de uma pequena ave que chilreia a plenos pulmões numa gaiola (cela) insonorizada. Tenho que fazer como aquelas senhoras activistas que expõem fartos seios para que possam ser ouvidas! O meu problema é que não são fartos os seios (até porque não faço exercícios de “supino” como o José) e de acordo com tudo o que foi publicado sou o “Inspector do Ouro”, o “Inspector corrupto”, encontrando-me assim epitetado, desacreditado, num limbo, num autêntico purgatório onde peno há 11 meses. É medievo!

Mas nada disso interessa.

O que interessa é que esta semana o José foi prestar declarações sobre a violação do segredo de justiça. Esta semana “renovou o contrato aqui em Évora: mais três meses!”

Como é lógico, humano: “Sócrates é homem. Os homens vacilam, precisam de desabafar. Logo Sócrates desabafou!”

Depois do interrogatório / inquirição desta semana, após conhecer a decisão do Juiz Alexandre, José, durante um dos nossos passeios, disse-me a verdade sobre os 25 milhões do amigo Carlos.

Surpreso ouvi-o dizer:

– João, a verdade é esta …

Espere Caro(a) Leitor(a)! Estão a abrir a minha cela. Estranho. Falso alarme: devia ser outro recluso na brincadeira.

Onde é que íamos? Ah! Sócrates explicou:

– …. A verdade é que o Carlos …

O que é que se passa? Novamente a porta da cela!? Querem ver que vão colocar mais um indivíduo aqui ao pé de mim? Já colocaram 4 em 10 meses! Informaram-me que o sistema de “colocação-a-dois-num-espaço-desenhado-para-uma-pessoa” é rotativo, ou seja, o último a entrar no estabelecimento recebe novo recluso na sua cela. Mas eu tenho a sensação que só me toca a mim: 4 em 10 meses!

Coitado do José que já levou com as pulgas mas tenho de o dizer (já o disse a ele): existe mesmo tratamento privilegiado aqui em Évora, ele chegou depois de mim e ainda não foi presenteado com companhia!

O responsável máximo pelo estabelecimento prisional explicou-me que junta as pessoas porque o espaço físico não é suficiente, recorrendo ao tal “sistema de rotatividade”, observando as características de personalidade dos indivíduos, hábitos de higiene … é isso! “Eureka”! (estou mesmo grego esta semana, possivelmente é por estar a ver-me grego para conseguir sair daqui para fora!)

Agora percebo! O José não tem ninguém na sua cela porque tem pulgas! O José ainda tem as botas porque os guardas receiam que ao tocar nas mesmas contraiam uma micose!

Já sei o que fazer: vou deixar de varrer e lavar a cela, assim como não vou mais lavar os pés!

Não oiço mais a porta!

Voltando ao interessante:

– … os 25 milhões, João, eu e o …

Abriu-se a porta da cela. É o Sr. Guarda. Não posso continuar. Espero que não seja, mais uma vez (a quinta em dez meses!) o famoso “sistema de rotatividade” a ofertar-me outro companheiro com quem partilhar o espaço, odores corporais, ressonar e afins!

Antes de ir, só mais uma chamada de atenção: se o título da capa de um qualquer jornal for algo do género, “Inspector da P.J. ouve confissão dos milhões de Sócrates”, desconfie, porque o que se pretende com este puro exercício de voyeurismo é que leiam e se informem dos factos, de facto, importantes!

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