“Se não Agora, então Quando?”

Recorda-se o meu Leitor(a) do filme “Braveheart” (1995)?

Está a ver o Mel Gibson de olhos esbugalhados, com a face pintada de azul, salpicada com o sangue dos inimigos? Recorda-se?

O personagem histórico, Sir William Wallace (1272-1305) foi derrotado em Falkirk, em 1293, pelo tirano Eduardo de Inglaterra, tendo sido executado em Smithfield. Perdeu!

A passagem do filme que recordo, e que importa agora invocar, é a de um William Wallace preso, acorrentado a uma parede escura e húmida de uma masmorra fétida, antecâmara de uma morte anunciada.

Na narrativa “Hollywoodesca”, William Wallace é visitado pela princesa francesa, casada com o filho de Eduardo de Inglaterra.

A princesa transporta consigo um veneno líquido, rogando a um Wallace, com medo do pouco futuro que lhe resta, que o beba. William, num gesto de puro cavalheirismo (um cavalheiro nada nega a uma bela senhora, a não ser que esta o peça) bebe. Quando a chorosa dama sai, cospe o “elixir do não-sofrimento”, a saída fácil pelo sono, a fuga da morte através da morte.

Antes do descrito, Wallace (ou o guionista genial do filme) diz que não quer ingerir o veneno porque Todos os homens morrem, mas poucos vivem de facto!”

Não queria Wallace estar anestesiado, não desejava silenciar-se, queria manter a sua Honra, defendê-la, mostrar aos algozes que o podiam quebrar mas não vergar, queria ser homem, queria ser livre.

Esta semana reuni aqui em “Ébola” com o meu advogado.

Antes de abordarmos o tema do Julgamento, questionei-o sobre a medida cautelar que interpus relativamente ao meu ordenado, confrontando-o com as notícias da reintegração ao serviço do ex-director do SEF, Manuel Palos e de Manuela Antónia Anes (ex-secretária-geral da Justiça) até ao julgamento de ambos, estando acusados de corrupção, tráfico de influências e prevaricação.

Manifestei-lhe a minha indignação, justificada pelo facto de eu estar a ser discriminado negativamente: há 18 meses que não recebo a parcela do meu ordenado a que tenho direito, conforme previsto legalmente.

O desespero é tal que somente quero que se pronunciem: sim ou não!?

O meu estimado advogado aconselhou-me calma e paciência, a única coisa que se podia fazer era solicitar a aceleração processual e … esperar! Esperar serenamente, sem grandes manifestações públicas!

“E relativamente ao desfecho do processo-crime onde se investiga a violação do segredo de Justiça, no inquérito no âmbito do qual estou preso há 20 meses? Como está o processo, agora que o senhor foi ouvido e apresentou as provas materiais? – questionei-o, tentando pacificar o que sentia, tentando ter paciência.

Respondeu que estava a seguir os trâmites normais, os tempos da Justiça.

Quão sinuosos, rotineiros, paulatinos são os caminhos da Justiça: 20 meses, 1 ano e 8 meses, com provas materiais e nada!

“Que podemos fazer? Vou para Julgamento com uma acusação apresentada por um Procurador que, tendo ao seu cuidado um processo sob segredo de Justiça, permite (por acção ou omissão, desejo eu saber) realizarem-se 40 fotografias dos autos, e difusão das mesmas pelos “média”? – questionei: mais uma vez.

Mais uma vez, invocou o meu caro advogado, as vantagens de um espírito paciente, sereno. O facto de estarmos a menos de dois meses do Julgamento impõe agora discrição, contenção.

“Muito bem!” – concedi, dissimulando – “E o castigo por “delito de opinião”? Os 6 dias fechado 22 horas por dia, o facto de ter sido epitetado de mentiroso, de dar notícias falsas?”

Focalização! Mais tarde pode-se tratar desse assunto. É extremamente importante não criar ondas, serenidade.

O meu advogado é um indivíduo com experiência, uma pessoa com conhecimento das idiossincrasias do sistema, tem experiência na “Barra do Tribunal”.

As suas palavras são sensatas: que utilidade tem para o meu Julgamento toda esta indignação que sinto e a necessidade de a transmitir publicamente?

Como posso lucrar, em Julgamento, criticando o Dr. João Davin, denunciando as falhas do sistema, criticando o uso abusivo do instituto da prisão preventiva?

É uma forte possibilidade que ao criticar Procuradores, Juízes, a Polícia Judiciária; os Juízes e o Procurador do Julgamento estejam “com um pé atrás em relação ao Inspector João de Sousa”.

– Agora não, João! – afirmou sensatamente o meu advogado.

– Então quando, Dr.?

– Agora não, João, só se prejudica. Pense em si, no seu futuro! Pense na sua corajosa mulher e nos seus filhos! – acrescentou com sinceridade.

Por momentos vi à minha frente o Coordenador dos Homicídios de Lisboa, quando me pediu para não entregar a informação de serviço onde criticava e repudiava o que se passava na secção.

Apareceu também a imagem de alguns profissionais do corpo de guardas prisionais, a alertarem-me para o facto de estar a “mexer com o sistema” e prejudicar-me.

Logo de seguida tinha à minha frente o Director de “Ébola”, a assegurar-me que iria instaurar procedimento disciplinar por escrever sobre o “Outro”.

Até apareceu o “Outro”, o “44”, a dizer-me: “João, vou aguardar a decisão da Relação, e somente depois publicarei mais uma carta!” Clara declaração de “oportunismo político”, “tacticismo”!

Entretanto voltou a imagem, real, do meu advogado segurando a minha mão em cima da mesa, reiterando: “Agora não, está bem João?” – expectante – “Pare com o Blogue! Deixe de criticar. Você tem de compreender que as coisas são como são. Pare, João! Está bem?

– Sim. Vou parar!

– Não vai nada, eu estou a ver que não – como que rendido a uma evidência inamovível.

– Eu paro … eu paro … – sossegando-o.

– Claro! Não vai parar, eu sei – sorrindo.

O meu advogado, conquanto eu ainda aqui esteja, é uma pessoa sensata e conhecedora …

Sigmund Freud afirmava que somos feitos de carne mas temos de viver como se fossemos de ferro.

A minha carne está massacrada, fustigada, mas o meu espírito, a minha mente, os meus valores e convicção são de aço, puro aço. Está aí ao virar da esquina: 2 anos de prisão preventiva!

Quando estamos no pedestal, quando somos o Sr. Inspector João de Sousa que salvou o Dr. Mário Mendes no acidente da Av. da Liberdade; o único polícia membro da Academia Americana de Ciências Forenses; o “Mentalista” que extraía confissões impossíveis a homicidas e pedófilos; o “masterblaster” da cena de crime, confortavelmente podemos virar a cara para o lado e deixar andar: nunca o fiz! Critiquei, alertei!

Quando estamos no pelourinho, algemados, derrotados, descredibilizados, rotulados de corruptos, então aí, nesse momento, o valor da acção, da palavra, é incomensurável. Aí, na lama, a coragem de manter os nossos valores, a nossa convicção, é a chama que nos aquece.

No primeiro caderno do “Expresso”, na coluna dos “Altos e Baixos”, o autor da mesma, o jornalista Bernardo Ferrão, coloca o Procurador, Dr. Rosário Teixeira, no negativo espaço dos “baixos”, sentenciando: “Não se pode deixar alguém durante tanto tempo em lume brando”. Refere-se a José Sócrates e ao facto de ter estado preso, sem acusação, sem julgamento.

Então e eu?! Está já aí, ao virar da esquina: 2 anos, preso preventivamente, a aguardar Julgamento!

Não devo indignar-me? Falar? Gritar o que sinto “sobre os telhados do mundo”, como ensinava Walt Whitman?

Vai prejudicar-me esta minha atitude?

Dia 29 de Novembro de 2015: 20 meses preso preventivamente. 1 Ano e 8 meses!

Tenho mais tempo de prisão preventiva do que o tempo que o Dr. Isaltino Morais cumpriu de pena efectiva, por crimes da mesma natureza daqueles de que sou acusado!!!

Faça, meu Estimado(a) Leitor(a), por favor, este exercício mental: recorde os últimos dois anos da sua vida! A evolução dos seus filhos, se os tiver. A realização de uma viagem há muito programada. Um casamento, um baptizado. O primeiro passo, ou a primeira palavra do seu bebé.

Uma promoção profissional. O término de um curso. Aquele concerto desejado, a estreia ansiada de um filme. Uma noite de paixão, o fim de um romance, o seu recomeço. O nascimento de um filho. A morte de um ente querido. A última representação de Luís Miguel Cintra …

A sua vida durante 2 anos! Foi isso tudo que eu perdi, sem estar condenado.

O meu doutoramento agora já estaria terminado; não assisti ao nascimento do meu “filho-homem”; roubaram-me dois Natais; colocaram-me no meio de nada, tendo que suportar tudo!

E não devo falar, escrever? Se não agora, então quando?

Não devo açular quem me sujeita a isto?

Não devo indignar-me quando um avô de 73 anos, que abusou sexualmente da neta, fotografou-a, filmou-a, e difundiu essas imagens na “net”, é presente a Juiz e fica em Liberdade?

Não devo referir que isto se passou no Departamento de Setúbal da P.J., local onde eu trabalhava, onde conheço os meus colegas, sei como trabalham (suas capacidades e falibilidades) pelo que afirmo (ao contrário do que é useiro na P.J.) que a culpa não é do Magistrado do M.P. ou do Juiz, mas sim da falta de tecnicidade dos elementos da P.J. que não estão capacitados (lacuna na formação) para investigar proficuamente crimes desta natureza?

Saber, conhecer, compreender como funciona o sistema e nada fazer para alterar o “estado da arte”, é muito mais censurável do que a omissão daquele que desconhece por ser ignorante, e nada faz!

Os onze anos de investigação de homicídios, o contacto com a morte (seja na cena de crime ou nas centenas de exames autópticos a que assisti) sensibilizou-me para a fragilidade da vida e a gritante “falta de tempo” que a nossa condição mortal impõe, logo, se não agora, então quando?

É neste preciso momento que estou gelado, encolhido na cadeira de plástico onde me sento, junto à sanita, escrevendo este texto.

É neste preciso momento que, à noite, dentro da minha cela, autêntico jazigo, estão temperaturas negativas, não permitindo o Director que os reclusos tenham um ventilador com aquecimento.

É neste preciso momento que passo fome.

É neste preciso momento que, em minha casa, o meu “filho-homem”, que tem 18 meses de vida (eu tenho 20 meses de prisão) brinca, desconhecendo eu qual o brinquedo ou a brincadeira que gosta mais.

É neste preciso momento que a minha mulher está a cuidar do meu lar, a preparar as suas aulas, a ajudar as minhas duas filhas com os trabalhos de casa, a fazer de mãe, pai, e ainda a passar este texto “a limpo”.

É neste preciso momento que conto os dias para não ser esmagado por eles.

É neste preciso momento, quando as lágrimas ameaçam cair, que eu sinto vontade de gritar toda esta injustiça, é nestas ocasiões que me sinto frustrado por a musa não ter sorrido para mim e as minhas palavras não possuírem a capacidade de expressar tudo o que sinto, consequência da falta notória de talento do autor.

Perante tudo aquilo a que me sujeitam, meu Caro Defensor, eu não posso dar-me ao luxo de nada fazer ou dizer.

Quando a injustiça, a iniquidade, são um facto, a contestação, o público repúdio, o gesto e a palavra são um dever!

Como alguém maior, pródigo em talento predilecto da musa: “Poeta castrado, não!”

William Wallace perdeu! Ou melhor: ganhou perdendo!

Nunca proferiu as palavras que o seu seviciador lhe exigia, nem manteve o silêncio que o verdugo desejava impor. No fim “Hollywoodesco” que conhecemos, esventrado, reuniu forças para gritar liberdade … e … venceu!

A imagem que acompanha este texto ilustra o espírito indómito do homem livre, o desafio à tirania, o escárnio saudável que devemos alimentar e votar àqueles que injustamente nos sujeitam ao infando castigo que apesar de execrável tem de ser publicitado.

É a imagem da sátira, da capacidade superior do indivíduo que, apesar de se encontrar em desvantagem, com as apostas contra si, sorri, ri-se do perigo, desafia a ignorância e a tacanhez do opressor injusto.

Escolhi esta imagem, e não a cena em que os valorosos homens de Wallace levantam o “kilt” e revelam frontalmente a sua masculinidade, porque não era muito abonatório para a minha pessoa. Com o frio que se faz sentir aqui em “Ébola”, frialdade que transforma todos os apêndices em pequenas e humildes partes anexas, eu que metaforicamente desejo imitar o gesto, pouco tinha para mostrar que pudesse intimidar o adversário!

“Alvíssaras! Escutai! Alvíssaras!”

Alvíssaras, Caro(a) Leitor(a)! Alvíssaras!

Interjeição, é uma palavra que serve para exprimir de modo enérgico e conciso um sentimento violento, uma emoção. “Alvíssaras”, é uma interjeição que serve para anunciar boas novas!

Alvíssaras!

Qual é a boa nova? Pergunta o(a) Caro(a) Leitor(a) se vou para casa?

Não, não é isso (infelizmente). O motivo de tamanho Júbilo (vejam lá o desespero!) é simples: finalmente, após 602 dias, foi agendada a data para o início do julgamento! Alvíssaras!!!

A primeira sessão realizar-se-á no dia 12 de Janeiro de 2016, pelas 9h15, nas Instalações do Tribunal do Seixal!!!

Quando eu comparecer no dia 12 de Janeiro de 2016, perante o colectivo de juízes, nessa data, estarei preso preventivamente há 655 dias! Faltarão menos de dois meses para completar 2 anos de prisão preventiva!!! Alvíssaras!!!

A notícia “apanhou-me” a reler “O retrato de Dorian Grey”, do genial Oscar Wilde. Releio Wilde porque há 20 meses que não degusto uma refeição saborosa, não visto um fato, não posso oferecer-me o pequeno luxo de aspergir o meu “Acqua di Gio” sobre a minha pele, não estou com quem me ama, não defeco na minha sanita, não tenho o meu bidé para as minhas abluções íntimas, e, para agravar o facto, já não permitem compras no “Continente”, o que inviabiliza a aquisição dos indispensáveis toalhetes perfumados!

E Wilde não me decepcionou, mais uma vez! Atentem: “[…] Desde sempre o tinham atraído os métodos das ciências naturais, mas o assunto comum dessas ciências parecera-lhe trivial e insignificante. E por isso começara a dissecar-se a si próprio e acabara por dissecar os outros. A vida humana parecia-lhe a única coisa que valia a pena investigar. Comparado com ela tudo perdia o valor. Era verdade que, observando o estranho cadinho de prazer e dor da vida, não se podia usar uma máscara de vidro sobre o rosto, nem evitar que os vapores sulfúricos afectassem o cérebro e turvassem a imaginação de fantasias monstruosas e sonhos grotescos. Havia venenos tão subtis que, para conhecer as suas prioridades, era preciso adoecer pelo seu efeito. Havia doenças tão bizarras que era preciso sofrer na pele para compreender a sua natureza.

E, porém, como era grande a recompensa! Como o mundo se tornava maravilhoso aos nossos olhos! Seguir a lógica difícil e singular da paixão, e os arroubos emocionais da inteligência, atentar no ponto de fusão de ambas e no ponto onde se separavam, em que momento estavam em Uníssono e em que momento divergiam – o prazer que dessa actividade retirava! Que importa os custos que tinha? Jamais se podia pagar um preço demasiado elevado por uma sensação […]”.

Não estou louco! Ainda. O preço que estou a pagar é elevadíssimo: a dor estampada nos olhos da minha mulher, exausta, porque tudo isto suporta, sozinha. A bela face triste das minhas filhas quando, semanalmente, se despedem de mim. O meu “filho-homem” que ainda não sabe dizer “pai”, nem o sente quando me vê!

Mas tudo isto é de facto maravilhoso. A sensação de estarmos a “conhecer”, de estarmos a confirmar o que equacionámos, de se cumprir o que afirmámos e escrevemos. Sim, eu sei: pura soberba intelectual!

O fascínio incómodo que lhe causava, Dra. Maria Alice, a forma como o Inspector João de Sousa interagia com homicidas, pedófilos, com o Outro, a tal “manipulação”, ou mesmo o “espírito burlão” (porque quando desconhecemos, ou somos incapazes, depreciamos) está agora apurado, aguçado, calibrado.

Adoeci aqui – até fisicamente – mas o espírito, a personalidade prevaleceu.

O pouco subtil veneno que administraram afectou mas não derrubou. Sopetear foi o verbo transitivo que aqui utilizei, desfrutei tudo, saboreei tudo, ainda o faço neste preciso momento.

Retiraram-me o ordenado. Presentemente, passados 20 meses, o Tribunal Administrativo ainda não se pronunciou sobre a medida cautelar interposta! Sofri, a Família sofreu e sofre, mas prevalecemos. Não desenterrei ouro escondido, não trafiquei, reinventei-me, lutei, e perante tudo isto, muitos – familiares, amigos, desconhecidos – ajudaram e ajudam!

“Arroubos emocionais da inteligência” detectei na investigação, pontos de “fusão” entre “lógica difícil e singular da paixão” e os “arroubos” de Wilde, foram visíveis e notórios: “[…] o arguido João de Sousa recebia, pelo pagamento dos seus serviços dinheiro, admite-se acondicionado, por norma, num envelope […]”; “[…] o facto das contas bancárias de João de Sousa, pese embora os escassos depósitos em ATM, não reflectirem movimentos considerados suspeitos, não é de estranhar tendo em conta a qualidade daquele […]”.

O mais famoso dos “presumíveis inocentes” (grupo a que notoriamente não pertenço) brada aos quatro ventos (e até nos aparelhos de ar condicionado) que não apresentam prova, que só fazem suposições, insinuações. A minha acusação, parida a 13 de Março de 2015 (há 8 meses atrás!) está pejada de termos como “admite-se”, “aparente”, ou frases como: “não foi possível cabalmente apurar”, ou mesmo, “em circunstâncias não apuradas”!

Sem acusação ainda, o mais famoso dos “presumíveis inocentes”, repete até à exaustão (mais a nossa que a dele) que tudo é uma “canalhice”. Imaginem se a acusação dele fosse como a minha!

Todos os comentadores, simpatizantes e não simpatizantes, o próprio e até eu, partilhamos a mesma opinião relativamente ao “prender para investigar”, assim como partilhamos a indignação atendendo ao facto de se ter prendido alguém durante 11 meses e não apresentarem a acusação.

Repare o meu Leitor(a) que eu escrevi “alguém”, não escrevi “um ex-1º ministro”! “Alguém”, porque milhares de portugueses passaram pelo que passou José Sócrates, passam por isso, ou até suportam pior: estou a suportá-lo há 20 meses, e suportarei mais até à primeira audiência de julgamento e ulteriores audiências!

Violação de segredo de Justiça. Todos falam, todos opinam. Passados 18 meses, tendo apresentado prova material o meu advogado, da violação do segredo de Justiça, nada! Ninguém responsabilizado.

O mesmo Procurador, Dr. João Davin, que me acusa de violação de segredo de funcionário, o titular do inquérito que tendo à sua guarda o processo no âmbito do qual, e por sua promoção, encontro-me preso preventivamente há 20 meses, tem de explicar a razão pela qual foi permitida a realização de fotografias ao inquérito em questão, fotografias que depois foram difundidas pelos “média”. Imaginem o mais famoso dos “presumíveis inocentes” com estas provas na mão!

Arguia de imediato a anulação do inquérito e solicitaria indeminização ao Estado português. Eu, presumível culpado conforme convicção do Dr. João Davin, aguardo o resultado do processo-crime no qual se investiga a violação de segredo de Justiça há 18 meses!

O Inspector da Autoridade Tributária, Paulo Silva, surge agora propalando que não possui a investigação meios suficientes. Opinião pública, Sócrates, comentadores e afins indignam-se! Aquando do debate instrutório no meu processo, o Exmo. Sr. Procurador, Dr. João Davin, afirmou, para espanto dos presentes (inclusive do Juiz Carlos Alexandre), que a investigação não confirmou as suas suspeições consequência da escassez de meios do Departamento de Setúbal da P.J., mas era sua convicção que o Sr. Inspector tinha praticado crimes!

No caso do Eng. José Sócrates, esta insuficiência traduz-se em atrasos, dúvidas em relação à idoneidade de Investigadores, Procuradores, Juízes; no caso do Inspector João de Sousa, resulta em 20 meses, até à data, em prisão preventiva!

Como o mundo se torna maravilhoso aos nossos olhos quando compreendemos! Nas suas “Geórgicas”, Virgílio sublinha a felicidade daqueles cuja inteligência penetra os segredos da natureza e ultrapassa as vulgares superstições: Felix qui potuit rerum cognoscere causas ( “Feliz aquele que pode conhecer as causas das coisas”).

E como não conhecer, não perceber o que se está a passar: eu, 18 meses sem ordenado, e o Dr. Manuel Palos (ex-director do SEF, caso “Vistos Gold”) reintegrado no serviço até julgamento! O mesmo Manuel Palos que partilhou a minha cela onde agora estou, fechado, a escrever. O mesmo que partilhou comigo a sanita que está aqui ao meu lado!

Maria Antónia Anes, ex-secretária-geral da Justiça, já não está suspensa de funções, poderá regressar à Polícia Judiciária! Eu, sem ordenado e já culpado!

Uns, os famosos presumíveis inocentes, em liberdade plena ou presos no aconchego do lar, falando, ofertando a sua “narrativa”, limpando o “bom nome”, lançando a sua candidatura à presidência do país (quiçá), outros, aqui o “filho de um Deus menor”, castigado por delito de opinião, por expressar o seu livre pensamento!

Mas alvíssaras, novamente: Fui autorizado a dar uma entrevista (uma verdadeira entrevista com contraditório e tudo!) Aqui em “Ébola” para a CMTV!

Como diz o meu Caro(a) Leitor(a)!?! Queixo-me de “barriga-cheia”, é isso?

Olhe que não, olhe que não!

O estabelecimento prisional, cumprindo a lei, questionou o Tribunal relativamente à autorização, ou não, para o arguido preso João de Sousa dar entrevista ao órgão de comunicação antes referenciado. Fui autorizado… constando, no despacho do Tribunal de Almada, algo como: “autorizado, pressupondo-se que não ultrapassará os limites da liberdade de expressão!!!”

Como dizia Oscar Wilde, há doenças tão bizarras que é preciso sofrer na pele para compreender a sua natureza. Eu não me sinto, com este despacho, nada, mas nada mesmo, condicionado. Porque haveria de me sentir assim?

Chegam ao ponto de não se pronunciarem sobre aquilo que é da sua competência – prejudica ou não prejudica a investigação – condicionam o indivíduo impondo limites ao seu pensamento. Leiam a crónica do Ricardo Araújo Pereira – “Assassinos sanguinários que se melindram facilmente” (in, “Visão”, nº 1185, 19/11 a 25/11/2015) e interiorizem os perigos das limitações da liberdade de expressão!

Dia 12 de Janeiro de 2016. Tribunal do Seixal.

O mesmo tribunal que permitia ao Inspector João de Sousa, coordenador-formador do curso de enfermagem forense, leccionar, in situ, a disciplina por si criada: “Gestão Psicológica de Testemunho em Tribunal”.

As mesmas instalações onde inúmeras vezes passava os dias a inquirir vitimas e testemunhas, das investigações de homicídio e abusos sexuais, na sala de arquivo (também utilizada para as rápidas refeições dos funcionários judiciais) facilitando desta forma as deslocações dessas mesmas vitimas e/ou testemunhas. Será nesse mesmo espaço que vou chegar escoltado, algemado, vai ser nesse local, numa das salas onde ensinava outros a depor, atendendo a variáveis como a postura, a prosódia ou até mesmo a roupa, a cor das roupas que deveriam vestir!

No dia 12 de Janeiro de 2016, tenho que comparecer à 9h15!

Terei que acordar às 6h00, desfazer a barba e rapar o cabelo com água gelada do lavatório da minha cela, olhando a película metálica que serve de espelho.

Às 7h00 vão abrir a cela para eu realizar o meu banho. Levarei um saco com fruta, um pacote de leite, e pão com queijo. Transportar-me-ão numa carrinha claustrofóbica, sem visibilidade para o exterior, algemado.

Já no Tribunal aguardarei numa cela, fechado, que me chamem. Das 9h00 até à última hora de julgamento desse e de outros dias (possivelmente 18h00/19h00), só vou urinar ou defecar acompanhado, almoçarei na cela a refeição que será apresentada em caixas de plástico, e saberá a plástico!

Depois, novamente o regresso na carrinha claustrofóbica, a cela, e repetir tudo no dia seguinte. Estão agendadas sessões diárias, quatro sessões por semana e outras “modalidades temporais”, até Março de 2016!

Os meus alunos que possam estar agora a “ler-me”, vejam bem o teste extremo à capacidade de “sprezzatura”, ao domínio da palavra e do gesto ou à resiliência que já irá faltando ao fim de 22 meses (tempo decorrido quando começar o julgamento).

E diz o Sócrates que sofreu “uma violência injustificada”, que o seu “bom nome, dignidade e o governo anterior foram lesados”?!

E afirma o Tribunal da Relação que “é aceitável Ricardo Salgado estar num estabelecimento prisional como medida de coacção”!?

E grita ao mundo José Sócrates que “foi uma selvajaria aquilo a que o sujeitaram”, e tem o “direito a defender-se”?!

“Para o tolo a sabedoria é coisa inacessível, e no Tribunal não abrirá a boca” (Pr. 24,7)

Encontra-se na Bíblia este provérbio. Não me considero tolo e adoro falar, conversar, dizer, ainda que ultimamente tenha sentido na pele o quanto custa exercer esse direito.

Estou animado, diria mesmo, feliz. Dia 12 de Janeiro de 2016, inicia-se a batalha.

Quantos de nós já saborearam tanto? O fel e o mel!

Oscar Wilde afirmava que jamais se podia pagar um preço demasiado elevado por uma sensação, eu asseguro que nunca é demasiado o preço a pagar pelo conhecimento: De nós mesmos e dos outros!

Conhecer os nossos limites, as limitações dos outros, a falibilidade do sistema, o sentimento nobre e o pior da humanidade. Nunca o desejei, mas é um privilégio ter estado dos dois lados das grades! Uma enriquecedora aventura.

Uma última palavra para a Família. Sofia de Mello Breyner, nas cartas que escreveu a Jorge de Sena, colocou no papel: “O verdadeiro aventureiro moderno é o pai de uma família numerosa.”

Que grande aventura temos vivido, não é assim Família? Vamos agora entrar num novo capítulo, e como se diz no teatro, mesmo nas tragédias: no final, tudo acabará bem!

“Os Malefícios da Indiferença na Saúde Pública”

Ainda que modesto, desejo deixar aqui o meu contributo para a manifestação de profundo repúdio que deve animar todos nós, em relação à bárbara e cobarde acção terrorista que feriu Paris.

Não podemos, nem devemos, ser indiferentes!

A temática que pretendo abordar neste texto é a “Indiferença”. Antes da barbárie na cidade Luz, já se formava na minha mente debruçar-me sobre o tema, atendendo a tudo o que se passou relativamente ao meu castigo por “delito de opinião”. Observando o sucedido em França, reforcei a convicção da pertinência do assunto.

Na passada semana relatei-vos parte do cumprimento do ignóbil castigo. Como na canção, na voz gigante do pequeno Nelson Ned, tudo passou, porque tudo passa e passará, sempre!

E como tudo passa, o que realmente importa é a forma como realizamos a caminhada, nós e os outros. Assim como é de capital importância retirar consequências, adquirir experiência, colher conhecimento sobre as pessoas, as instituições e o sistema.

De acordo com o regimentado, quando um recluso é sujeito à medida disciplinar que me foi imposta, o visado fica sob vigilância clínica, sendo regularmente observado pelo médico (art.º 109º do Código da Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade). Aqui em “Ébola”, o médico aparece às terças e sextas, mas o serviço é assegurado por enfermeiras (quatro indivíduos que realizam escala).

No primeiro dia de castigo, como se impõe pelo normativo vigente, fui observado: foram registados os valores de tensão arterial e pulsação, única forma de apurar objectivamente, para além da conversa que se mantém com o sujeito, se o mesmo encontra-se ansioso, ou pelo contrário, está a aceitar e a experimentar o castigo com “uma perna às costas”.

No segundo dia, perguntaram como estava, e, por sugestão minha, lá fomos “medir a tensão”, caso contrário ficaríamos por aí!

Como era expectável, porque “quem não se sente não é filho de boa gente” (e os meus progenitores são gente excelente!) a minha tensão arterial estava alterada.

As regras, as normas, os protocolos, existem para se colmatar a variável subjectiva inerente à condição humana. Como a beleza do ser humano é a diferença na igualdade, das quatro profissionais de enfermagem, três são de facto profissionais, uma é o exemplo vivo da arbitrariedade, da falta de vocação e da indiferença!

Um procedimento que existe para assegurar a integridade física do recluso, mas também para salvaguardar os profissionais que têm por obrigação garantir essa mesma integridade, não deveria de ser exigido pelo visado, mas sim praticado como regimentado.

Como é lógico, resultou numa discussão, breve (porque perante a evidência, argumentar é sinónimo de estultícia) o facto de a designada enfermeira colocar entraves ao cumprimento do estipulado.

Igualmente lógico, é resultar da discussão uma alteração dos valores da tensão arterial.

Monitorizados os valores após a troca acesa de palavras, e como alterados se encontravam, a designada enfermeira resolve a situação: administrar um “comprimido para colocar debaixo da língua!”

Primeiro: a falta de profissionalismo!

Segundo: químicos para cima do problema!

Bastava não apresentar elevados índices de indiferença, e a “pílula” prescrita (que recusada foi) não precisava de ser invocada!

Neste caso, é a indiferença consequência do traço de personalidade e da falta de profissionalismo, mas existe outro tipo de indiferença, quiçá mais perniciosa. Uma indiferença consequência da miopia gritante e alarmante da nossa sociedade.

Outra enfermeira (“o dia em relação à noite”) disponível, profissional. Novamente a monitorização dos valores da tensão arterial.

– Sr. João, tem a tensão muito alta. Vamos aguardar um pouco para medir novamente – disse enquanto apontava o registo do tensiômetro. – Não há razão para estar assim, fechado ou fechadinho vai dar ao mesmo! – contemporizou sorrindo.

Referia-se ao facto de eu estar preso e só diferir do habitual porque estava, somente, um “bocadinho mais preso”, de castigo!

– E você está sempre a sorrir, bem-disposto, está a levar isto bem! – acrescentou.

Não citei Voltaire – “Nem sempre podemos agradar, mas podemos falar agradavelmente” – para demonstrar à simpática profissional de enfermagem que podemos discordar, repudiar algo com veemência, mantendo sempre a elegância e a urbanidade, mas (e admito que não se faz) questionei-a: “Que idade tem?”

– 33! – expectante.

– Perdoe-me o reparo, mas já tem idade suficiente para saber que 41 anos depois do 25 de Abril, alguém ser castigado por “delito de opinião”, deveria alterar os parâmetros da tensão arterial a todos nós! – e esperei, também expectante, a reacção às minhas palavras.

– … Ah! Isso … – alheia.

Alheamento, desinteresse, indiferença.

Outra enfermeira, já depois de terminado o impensável castigo (terminou às 8h00 de quarta-feira, 11 de Novembro de 2015) monitorizou a minha tensão arterial:

– Está elevada Sr. João! Agora já não existe razão para estar assim! – convicta – já acabou o castigo!

Expliquei-lhe que, conquanto o castigo tivesse terminado, a minha revolta perante a injustiça e notório atentado à nossa Constituição, mantinha-se.

– Pois, mas já terminou. Está preocupado com algo, alguma coisa o deixa ansioso?

– Estou preso há 594 dias, sem julgamento marcado, não recebo ordenado! Não ficava ansiosa se estivesse nesta condição? – questionei sorrindo.

– Certo, mas já está assim há muito tempo, agora já deveria estar estabilizado! – garantiu-me.

Simon Blackburn, na sua obra, “Vaidade e Ganância no séc. XXI”, diz-nos: “Para isso, o lado mais humano do estoicismo, o que é admirável é manter-se firme perante a adversidade, e não o tipo de indiferença anestesiada e melancólica que nem sequer sente a adversidade.”

Conforma-te, resigna-te, consolida filho, consolida!

A indiferença da sociedade perante o atentado aos direitos do outro é preocupante. Tudo está distante de nós. Diariamente observamos na televisão atentados no Médio Oriente, náufragos no Mediterrâneo, e como que anestesiados, na maior parte das vezes sem qualquer melancolia (tristeza vaga, pressão intensa traduzindo sentimento de dor moral) fazemos “zapping” porque é “mais do mesmo”!

Para despertarmos desta letargia, tem de aparecer uma criança, parecida com a nossa, parecendo dormir como a nossa, mas numa situação onde é notório não estar a dormir porque nunca conseguiria respirar, pois a sua pequena boca e delicado nariz estão enterrados na areia, na mesma areia onde a nossa criança brinca e nós a vigiamos porque receamos deixar de a ver.

Somente em Atocha, Madrid, aqui ao lado, ou em Paris onde passeámos e fomos ao Louvre, próximo de nós, ainda que suficientemente distante para nos sentirmos seguros, sentimos algo, sentimento que podemos afastar com o nosso comando da televisão.

O nosso umbigo obriga-nos a seleccionar unicamente aquilo que nos pode afectar ou beneficiar. Weber alertou-nos: “O nosso interesse determinará a gama de valores culturais que determina a história”.

E posso ofertar ao meu Caro(a) Leitor(a) um exemplo vivo e vivido do que anteriormente explanei.

O mesmo recluso que me alertava para o facto de que tudo o que escrevo poder prejudicar-me, o mesmo que notoriamente se sentia incomodado, possivelmente por não reunir a força necessária para “falar” também, abordou-me esta semana. A Juíza do Tribunal de Execução de Penas de Évora, não decidiu por forma a satisfazer a sua pretensão.

– Esta Juíza, João… revolta-me tudo isto… não é justo, não existe justiça! – Indignado.

– Eu tenho afirmado isso, lembras-te? Até foste crítico em relação ao meu posicionamento – confrontei-o.

– Está bem, mas agora toca-me a mim! – ironizou.

Claro que acabámos a rir. Desta forma ele reconheceu a sua indiferença e egotismo extremos.

“O egoísmo motiva, e pode aguçar a nossa atenção aos pormenores essenciais.” (novamente Simon Blackburn, “Vaidade e Ganância no séc. XXI”).

Só atendemos ao que nos toca, o Outro não nos diz respeito, esse quintal ainda não é o nosso, esquecendo que por vezes tudo o que separa os quintais contíguos são pequenos muretes facilmente transponíveis! E as muralhas de indiferença que erguemos, oferecem falsa protecção e real isolamento, assim como nefasta miopia.

Conforme esquecemos o “Charlie Hebdo” (abjecto atentado terrorista ocorrido há cerca de 11 meses) vamos esquecer esta vil acção em Paris. Da mesma maneira vai ser esquecido, ou nem sequer foi referenciado, o facto de um cidadão português ter sido castigado por “delito de opinião”, em pleno séc. XXI, em Portugal.

Pouco ou nada incomodou os portugueses o facto de a imprensa nacional ter sido censurada por um concidadão nosso, prejudicando todos os outros, mantendo os mesmos na obscuridade, no desconhecimento, na mais profunda ignorância.

Que interesse pode ter isso? Prejudica-me como?

O idiotismo é uma insuficiência de desenvolvimento mental relacionado com lesões ou deformações cerebrais, que acarretam a incapacidade de aquisição da linguagem e a inaptidão para se governar.

Trata-se do grau mais grave do retardamento.

Estamos, consequência da nossa indiferença, a criar uma sociedade de idiotas, de indivíduos com visíveis sinais de retardamento afectivo, de ausência de sentimentos, de partilha, de sentimento de pertença, sem prejuízo do nosso egotismo (como se verifica com os psicopatas!).

Ainda que as enfermeiras não percebam, continuo a apresentar aumento anormal da tensão arterial ou nervosa.

Ainda que sorria, seja cortês e educado, não estou feliz.

Espinosa afirmou que “vivemos num estado de variação perpétua, e, segundo formos mudados para o melhor ou o pior, diz-se que somos felizes ou infelizes”.

Aqui, em “Ébola”, a mudança é sempre para pior. Aqui, em Portugal, estamos a regredir.

Aqui, no deserto em que caminho, há 594 dias (no próximo dia 18 de Novembro de 2015, novo marco temporal: 600 dias, mais de 19 meses, sem julgamento marcado, preso preventivamente!) a indiferença dos outros é como ferro em brasa, a queimar, a marcar-nos para sempre!

Mas, optimista como sou, ainda que por vezes a força nas pernas me vá faltando, não esqueço as palavras de Elias Canetti: “Quanto mais tempo assim permanecer, tanto mais viva se torna a esperança num súbito sucesso. Mas para que, por fim, algo se consiga, a sua paciência tem de crescer indefinidamente. Se esta lhe faltar um momento antes do tempo, foi tudo em vão e ela tem, com a sobrecarga da desilusão, de começar outra vez do princípio.” (in, “Massa e Poder”).

Aprendi a ser paciente. Tenho esperança que, finalmente, acabem por agendar o julgamento. Sei que não existe prisão perpétua em Portugal. Estou profundamente convicto que tudo isto indigna alguns e que muitos mais vão partilhar essa indignação. Já me reinventei aqui inúmeras vezes, estou desiludido mas não me sobrecarrega muito mais do que a força que a indignação me dá.

Quando a força me falta, a Família apoia e os amigos também. Vou buscar força nos comentários que semanalmente aqui me deixam (a todos!)

Não vou deixar de opinar, apesar dos castigos provocarem-me hipertensão e a indiferença que sinto em relação à injusta decisão de castigar por “delito de opinião” ser por vezes esmagadora, e prejudicar mais que o sal em demasia na comida!

Não sejam indiferentes. Renunciem à idiotice. Participem na construção de uma sociedade mais justa. Indignem-se!

Permitam-me, porque “com a minha mão queimada eu tenho agora o direito de escrever frases sobre a natureza do fogo” (Flaubert), não sejam indiferentes para com a injustiça, garanto-vos que quando a sentirem na pele, no vosso quintal, fará horrores à vossa tensão arterial!

“Diário de um Tratamento Penitenciário de 6 dias”

A imagem que o Estimado(a) Leitor(a) observa a acompanhar este texto, é a imagem digitalizada de um postal que me ofereceram no dia 5 de Novembro de 2015 (quinta-feira). O postal, do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, encontra-se ilustrado com a obra de João Abel Manta, “O Ornitóptero” (1960). Tem uma dedicatória: “Ser livre é voar todos os dias mais além, e para tal criamos mecanismos que nos permitem alcançar a plenitude. Mesmo que na primeira tentativa fracassemos a vontade e o sonho são maiores que as advertências e os percalços do caminho”. Quando ofertaram-me o postal disseram-me: “Vou-lhe dar algo porque quando o vi pensei em si!”

Na segunda-feira, 2 de Novembro de 2015, fui fechado na minha cela, isolado, às 9H23.

Consegui brincar com o guarda que me fechou, dizendo-lhe na ocasião: “Sr. “x” vai ficar na história! 41 anos após o 25 de Abril, vai fechar, castigar pela primeira vez, alguém por delito de opinião!” O guarda sorriu enquanto enfiava a chave na fechadura e o recluso na cela. E pronto, fez-se silêncio dentro do meu jazigo de 9 metros quadrados. Estava só, isolado, silenciado!

Como está previsto no normativo vigente, a enfermeira verificou os valores da minha tensão arterial e da minha pulsação: 12/7, 76 pulsações por minuto!

Neste primeiro dia usufruí do meu “céu aberto” (2 horas) na parte da tarde, pelas 14h35.

O pequeno pátio, isolado da restante população recluída, talvez o dobro dos meus 9 metros quadrados de “jazigo” (cela) mas com o céu por cobertura, estava alagado. A água das chuvas não tinha escoado, não permitindo o meu “passeio circular de hamster”. Um elemento do corpo dos guardas ainda perguntou, brincando: “Trouxe barbatanas, Sr. João?”

Às 15h15 terminei o “céu aberto”, que não foi nada a “céu aberto”, uma vez que fiquei sentado numa cadeira, dentro do espaço contíguo à entrada para o pequeno pátio, tudo porque não possuía barbatanas! Após comunicar aos guardas que queria ir para a cela, fui novamente fechado. Na cela preparei a reunião com o meu advogado, que apareceu nesse mesmo dia, pelas 15h55. Resultou da reunião que iríamos apresentar recurso da decisão, sendo que no recurso já realizado pelo mesmo e que me facultou, faltava referir que eu era colaborador do C.M., contrariando aquilo que o Tribunal de Execução de Penas referiu no seu despacho, a saber: “[…] Desde já se afasta a aplicação do direito fundamental de liberdade de imprensa consagrado no artº 38º da Constituição da República Portuguesa, pois que, e como resulta deste normativo, estamos perante um direito constituído na esfera jurídica dos jornalistas e seus colaboradores – no que não se inclui o impugnante […]”.

O “impugnante”, eu, escrevo todas as semanas, ao domingo, uma crónica que é publicada no “Correio da Manhã”. Eu, o “impugnante”, sou colaborador do C.M.! (retenha o meu Leitor(a) esta informação, porque mais à frente vai ser importante!).

Após a reunião com o meu advogado: novamente fechado! Eu, o beliche, a sanita e o meu pensamento!

Dia 3 de Novembro de 2015. 2º dia do “Tratamento Penitenciário de 6 dias”.

7h30. Abrem o “jazigo” para eu realizar a minha higiene – não há água quente nem chuveiro no interior da cela. Por esta altura já comi um croissant que a minha mulher trouxe no domingo. Vou telefonar. Como a minha brava esposa não sabia que iria ser “aberto” mais cedo, ainda não tinha reunido toda a informação habitual: número de visitas do blogue, número de assinantes da petição a correr na “net”, as crianças, notícias do advogado, etc. E ainda 10 segundos para o “Amo-te”!

Mas foi pior: o Jr. passou a noite com febre, a Helena vomitou a noite toda, e no momento da chamada preparava-se para regurgitar mais uma vez, e ainda ouvi a Leonor a gritar, dentro da casa de banho, a pedir algo à mãe, talvez a toalha do banho esquecida. A minha mulher, verdadeira “mãe coragem”, desesperava. Só com 5 minutos para falar com o marido preso há 19 meses, 585 dias, agora castigado, isolado, tentando transmitir tudo, escrevendo tudo o que eu transmitia, desesperava!

Depois, imagino como ela ficou. Eu, de novo fechado após o telefonema, isolado: chorei!

Percebe o meu Leitor(a) como é revoltante ser castigado por denunciar o “44” quando ia telefonar ao gabinete do subdirector? Entenda o desespero de quem quer defender-se, exercer a sua defesa jurídica e vê-se cerceado diariamente.

E se o recluso quiser ligar ao defensor? Tem somente 5 minutos!

Então que venha o advogado! Correcto, mas o “recluso médio”, onde eu me incluo, não tem um ou dois advogados em exclusividade, não possui meios financeiros para tal!

E o advogado, coitado, também tem despesas, logo, tem que reunir vários clientes! É a vida!

Após o telefonema, depois de fechado, abre-se a porta:

– Sr. João, pode ter o pátio (“céu aberto”, duas horas) à tarde, às 14h30! “ – peremptório.

– Mas, Sr. “x”, eu queria agora! (9h49) – afirmei.

Estava sol, e previa-se chuva para esse dia, previsão que facilmente se confirmava pela cor do pouco céu que eu conseguia ver através da gradeada janela do meu jazigo!

Voltando após consultar alguém, o elemento do corpo de guardas prisionais abre novamente a porta e informa: “Não existem condições para o “céu aberto” agora. Só à tarde, 14h30. Não temos pessoal!” – tudo dito com um repetido encolher de ombros.

Fecha-se a porta e pronto. Aguenta!

Comuniquei que desejava falar com o meu advogado, antes de a porta se fechar mais uma vez.

10h12. Chave na porta: “Pode telefonar!”

Relatei o sucedido ao meu advogado: “Vou informar a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais!”

Sorri quando desliguei o telefone. A D.G.S.P., a mesma que me castigou … ainda sorria quando o Sr. guarda fechou novamente a cela!

14h37. “Céu aberto”. Pequeno pátio inundado, novamente, e eu sem as barbatanas!

14h48. Começa a chover! Sentei-me novamente, no espaço contíguo à entrada no pátio descrito, e por ali fiquei a ler. Entretanto surgiu um elemento do corpo dos guardas prisionais e por ali ficámos a conversar, já no exterior, no pátio, na faixa não alagada. O teor da conversa? Reservada! O elemento do corpo dos guardas não é figura pública, nunca governou uma nação, é apenas uma variável do sistema, cumpre ordens, não legislou!

16h35. Acabou o “céu aberto”.

Novamente fechado na cela, sou informado, às 17h24, que o “Tratamento Penitenciário” (castigo) fora interrompido, consequência do recurso que o meu advogado apresentou!

Outra vez livre dentro da prisão. Tinha cumprido cerca de 32 horas de um castigo de 144 horas: um dia, uma manhã e uma tarde de outro, de um total de 6 dias!

Afinal a democracia funciona, afinal pensar que o Sócrates está por trás disto é pura mistificação (aqui dizem que é ele a vingar-se). Vamos provar que o que eu disse é verdadeiro, está garantido o inegável direito ao livre pensamento!

Nada disso, Caro(a) Leitor(a).

Nada disso. Dois dias após a porta do “jazigo” ter sido aberta, na 5ª feira, 5 de Novembro de 2015, fui notificado: o Tribunal de Execução de Penas não admite o recurso interposto pelo recluso João de Sousa!

Não interessa a declaração emitida pelo jornal “Correio da Manhã” confirmando que sou colaborador do jornal! (Lembra-se do argumento do Tribunal? “O impugnante (eu) não é colaborador!”)

Não interessa o artigo 19º presente na Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948: “[…] direito a não ser inquietado pelas suas opiniões […]”!

Não interessa o artigo 10º da mesma Declaração Universal dos Direitos do Homem: “[…] Qualquer pessoa tem direito à liberdade de expressão. Este direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber ou transmitir informações ou ideias sem que possa haver ingerência de quaisquer autoridades públicas e sem considerações de fronteiras […]”!

Não interessa, ao Tribunal de Execução de Penas de Évora, o referido no artigo 37º, nº1 e nº2 da Constituição da República Portuguesa: “[…] Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informado, sem impedimentos nem discriminações […]”, e, “[…] O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura […]”.

Não interessa, ao Tribunal de Execução de Penas de Évora, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1966): “[…] Ninguém poderá ser molestado por causa das suas opiniões […]”

Quer saber o meu Leitor(a) como é que o Tribunal de Execução de Penas passou por cima disto tudo? Eu informo-o, transcrevendo a última frase no despacho:

“[…] Isto posto, dúvidas não temos quanto à ilicitude da conduta do impugnante, pois que ultrapassando os limites do direito de liberdade de expressão e de informação […]”!!!

Em Évora, Portugal, num Tribunal, um Juiz(a) estabeleceu (os seus) limites para o direito de liberdade de expressão e de informação! Como dizia o Peça: “E esta, Hein?!”

Só faltava, para tudo isto ser um verdadeiro retrocesso, um regresso ao passado, que a tinta das letras impressas fosse azul!!!

6 de Novembro de 2015. 11h05. Acabei o meu treino matinal. Um elemento do corpo dos guardas prisionais: “Sr. João, lamento, mas vai regressar hoje, pelas 16h23 ao castigo!”

Informo a minha mulher que vou “regressar ao castigo”, acrescentando que amanhã (7 de Novembro de 2015) ligarei mais cedo – 7h30/7h45 – como fiz enquanto cumpria os dois dias iniciais.

– Aguenta Pedro! Tem paciência! – Diz-me a minha mulher.

– Claro. Também te amo! – Respondo.

15h42. Médico. Tensão arterial: 11/7. Pulsação: 73.

16h25, 6 de Novembro de 2015: retomo o “Tratamento Penitenciário de 6 dias” (vulgo castigo).

20h15. “Jornal da noite (SIC): “António Figueiredo, ex-presidente do Instituto de Registos e Notariado, vê a sua medida de coacção alterada. Estando preso preventivamente há quase um ano, no âmbito do processo “Vistos Gold”, vai aguardar o julgamento, em casa, com pulseira electrónica.”

Começo a rir, atinjo a gargalhada, perco o ar de tanto rir, é o paroxismo, possivelmente estou louco. Recomponho-me. Fito a televisão sem a ver. Estou preso preventivamente há… vai fazer 591 dias no dia da publicação deste texto! Neste mês, Novembro, completar-se-ão 20 meses!

Estou de castigo. O Tribunal de Execução de Penas de Évora, o Director-Geral dos Serviços Prisionais e o Director do estabelecimento prisional de “Ébola”, afirmam impunemente que eu digo inverdades, sou mentiroso. E deve ser verdade: todos aguardam julgamento em casa ou em liberdade, só o “tipo do ouro da P.J.” está preso. Deve ter feito “poucas e boas”!

7 de Novembro de 2015. Não abriram às 7h30. Estou preocupado. A minha mulher vai inquietar-se. Controlo-me; deixo de andar de um lado para o outro – dois metros para um lado, dois para outro – apercebo-me que pareço um animal enjaulado. Compreendo que o sou!

8h00. Abrem o jazigo. Dirijo-me ao guarda:

– Bom dia. Posso ir tomar banho, posso telefonar à família? – tentando não transmitir ansiedade.

– Não sei. Vou ver. – e fecha a porta.

8h06. Barulho de chaves. Abre-se a porta:

– Só às 10h00 tem pátio (“céu aberto”), só nessa altura telefona! – outros ombros o mesmo gesto: o encolher ignorante da parte mais alta dos braços.

Dizem os teóricos que a prisão, a reclusão, é um “processo biunívoco desequilibrado”. Um desequilíbrio constante  entre o meio e o organismo. Existe uma constante “dissonância cognitiva”: entre o “eu” que sou e o “eu” que tenho de ser.

09h38. Abre-se a porta: “Pode tomar banho e telefonar!” – diz-me outro guarda. O mesmo encolher de ombros.

A enfermeira também está à porta. “Precisa de alguma coisa?” – diz a enfermeira.

Respondo que sim. Quero medir a tensão: 15/8, 65 (pulsação).

– Está a sentir alguma coisa? Este valor não é normal em si – alerta a Sra. Enfermeira.

Explico o que se passou na abertura do “jazigo” e avanço a hipótese: “ É uma somatização da ansiedade!”

– Pois… deve ser. – acrescentou a simpática profissional que trata dos doentes na enfermaria.

Quando saí da enfermaria, questionei o elemento do corpo de guardas prisionais se não poderia ser “aberto” às 7h30 para realizar a minha higiene e telefonar à família. Foi-me dito que sim! Perguntei ainda se a minha mulher tinha telefonado: disseram-me que sim.

Antes de ir à enfermaria, porque primeiro o que realmente importa, telefonei à minha mulher.

Disse-me que estava aflita, que já tinha telefonado e tinham-lhe dito que não possuíam qualquer informação relativamente à minha pessoa. Se eu não tivesse perguntado, ninguém informaria do contacto da minha mulher! Aguenta “mãe coragem!”

Mas nem tudo é mau. Actualmente já não se realizam lobotomias aos indivíduos incómodos, já não são administrados electrochoques, presentemente o que interessa é a ressocialização, a reinserção social de forma rápida, por isso é que os telefonemas só podem durar 5 minutos! Temos de ressocializar rapidamente!

Actualmente, “outros métodos de tratamento penitenciário foram introduzidos no aparelho prisional, aqui já com o propósito claro de resolver “situações-problema” colocados por este ou aquele recluso no seu processo adaptativo.” (Gonçalves, 1983)

E qual é a “situação-problema” do recluso João de Sousa? Resistência à autoridade? Incumprimento das regras do estabelecimento prisional? Desordem?

Por mais inacreditável que possa parecer: delito de opinião! Expressou a sua opinião, o seu pensamento, valores, convicções.

A 7 de Julho de 2015, a revista “Sábado” publicou uma entrevista minha (“Sábado”, edição especial aniversário, nº 575), o editor, Fernando Esteves, colocou-me a seguinte questão:

“ – Está a ser vítima de tentativa de censura?

– Censura, actualmente, é impossível. Diria que existe uma tentativa de condicionamento.”

Nesta data, neste momento em que escrevo, fechado, castigado, isolado por opinar, tenho que admitir que estou a ser vítima de censura de uma instituição dogmática, totalitária, de indivíduos medíocres, formatados.

Mas não estou só, ainda que isso seja pouco: o grupo Cofina também está a ser censurado. E o mais engraçado é que existe um factor comum: José Sócrates!

O grupo Cofina não pode informar sobre Sócrates, eu não posso opinar ou criticar Sócrates!

Os americanos defendem na sua Constituição, a protecção das opiniões de que não gostam; para os mesmos isto é Liberdade de expressão!

Sócrates não quer que o grupo Cofina noticie o que está no processo, a materialidade da investigação, os factos verídicos; a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais não deseja que eu propale o que por aqui se passou com o José, ou aquilo que se passa ou passou com os que cá ficaram!

O que posso fazer? Nada. Não disponho de dinheiro para custear processos internacionais nos Tribunais Europeus; não disponho de advogados em exclusividade, não tenho consultores de imagem, ou gestores de informação, não estou em casa com disponibilidade de contactos, disponibilidade de pesquisa de legislação; não permite o estabelecimento prisional, entrevista televisionada, ou de outro tipo, desde Setembro solicitado! Desculpem, agora foi uma inverdade: a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais e/ou o E.P. de Évora, pura e simplesmente não respondem!

Imaginem se isto fosse com o José Sócrates, como seria? Desculpem, novamente:

Seria como foi! O recluso 44, conquanto não dispusesse de autorização do Juiz Carlos Alexandre e dos Serviços Prisionais, deu entrevistas, fez comunicados, opinou, criticou e … nada! Nada sucedeu, ou melhor, está livre como o seu pensamento!

Tenham vergonha, Srs. Directores dos Serviços Prisionais e do E.P. de Évora! Tenha vergonha o Juiz(a) que não admitiu o recurso! Tenha vergonha o Juiz(a) que decidiu pela manutenção do castigo!

Tenha vergonha quem me mantém aqui ainda – há 591 dias! – não estando, até agora, marcado o julgamento!

Será que as 10.000 páginas do meu processo são mais complexas que as 21.954 páginas do inquérito “Caso Marquês”, que ainda não está concluído, complexidade que faz com que, 4 meses após o término da fase de instrução, ainda não esteja agendado o Julgamento?!

Eu não consigo deixar passar esta, é hilariante: Será que no meu caso, ouviram-me nas escutas a pedir “quatro garrafas de vinho, que deveriam ser transportadas acondicionadas num envelope fechado com fita-cola” !!!?? Esta é tão boa! Isto era o José a falar em código a pedir dinheiro! O “Zé” é o maior!

Caro(a) Leitor(a), por aqui vou continuar o meu castigo, o meu “Tratamento Penitenciário de 6 dias”.

Já pedi à minha mulher para trazer as minhas barbatanas, não vá o “pátio” estar alagado.

Domingo, 8 de Novembro, vou ressocializar com a família, rapidamente, durante 60 minutos.

O resto do tempo que me falta de castigo? Vou ler livros, vou ler novamente as cartas da família que guardo aqui comigo. Leio em “alta voz” mas tenho de ter cuidado, pode o guarda pensar que falo ao telemóvel! Gosto de ler alto porque sinto que a “ninhada” e a senhora estão aqui, a falar comigo. Sempre são 22 horas sozinho, sem contacto com ninguém!

E o que faço mais … bom, vou dizer-vos o que não deixarei de fazer: escrever, expressar a minha opinião, relatar. Basicamente tudo aquilo a que tenho direito e obrigação, devido a ser a pessoa que sou, e que por maior que seja a vontade de imporem uma autêntica tortura, uma “mortificação do eu”, eu nunca deixarei de fazer!

Até para a semana que vem. O preso político (rói-te de inveja José Sócrates):

João de Sousa

“A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos”

Dia 29 de Outubro de 2015: 580 dias de prisão preventiva. 19 meses sem julgamento marcado.

No dia da publicação deste texto, 2 de Novembro de 2015, 584 dias de prisão preventiva e o primeiro de 6 dias de castigo, fechado 22 horas por dia, com duas horas de “céu aberto”, isolado da restante população reclusa, e apenas 1 hora (durante os 6 dias) para estar com a Família.

Armando Teixeira de Sousa é o nome do meu falecido avô paterno, cuja fotografia acompanha este texto.

Sempre o achei parecido com o Anthony Quinn, principalmente com a magnífica figura de Zorba, o Grego!

Não completou a 4ªclasse, mas encerrava em si uma sapiência telúrica, um humanismo e uma ética a toda a prova. Ensinou-me algo que transformei num quadro – a frase – que contém toda a sabedoria necessária para o “bem viver”: “O que é doce nunca amargou, e daqui a cem anos está cá outra gente”. Era a máxima que guiava a sua vida, os seus passos.

Tinha eu 6 ou 7 anos, passeando com ele pelas ruas de Lisboa, aproximámo-nos da porta de um quartel militar. Um jovem militar realizava o serviço de “porta de armas”. Avançado em relação à guarita cerca de um metro e meio/dois metros, o soldado segurava a sua arma, relativamente relaxado. Eu, que adiantei-me uns metros em relação ao meu avô, saltitando, conduzo os meus apressados passos com trajectória definida: vou passar por trás do militar, no espaço que estava disponível entre as suas costas e a porta da guarita.

– Quieto! Pára! – ouve-se uma voz de trovão. Eu estanquei de imediato. Era a voz do meu avô. O militar ficou hirto, em sentido e um pouco atónito, com uma expressão de embaraço estampada no rosto.

– Nunca se passa por “detrás de um MAGALA”! – com um olhar capaz de fuzilar ambos, o “Magala” e eu .

Pegando-me na mão, olhando o “Magala”, continuámos o passeio. Mais uma lição.

Primeiro aprendi que “Magala” quer dizer soldado. Segundo, que era uma “regra de ouro” nunca passar por trás de um “Magala” ou de um polícia, pois uma vez um vizinho, no “tempo do outro” (o “outro” era o António Oliveira Salazar) “levou uma cacetada de um chui!”

Aprendi mais. Aprendi que era preciso uma licença para ter isqueiro, coisa que nunca o incomodou porque nunca fumou (algo que ele esperava que eu nunca fizesse – fumar – e até hoje cumpri!); assim como fiquei a saber que duas ou três pessoas não podiam juntar-se a conversar.

Existiam livros proibidos, locais que quando nomeava baixava a voz e elevava as sobrancelhas, abrindo muito os olhos: “Torel” ou a Rua António Maria Cardoso, à qual ele um dia me levou para “mostrar o que aqueles animais fizeram!”

Dias antes de falecer, no seu leito de morte, no hospital, ensinou-me de novo.

– Vô, entrei na Judiciária! – junto ao seu ouvido.

– Cuidado com os malandros. Não deixes que te coloquem as mãos no peito porque estão a “trabalhar-te para a cabeçada”. Nunca caias no chão, está atento às rasteiras! – e ficou a olhar o vazio.

– Eu vou ter cuidado – sosseguei-o.

Esboçou então um sorriso, olhou-me e disse: “E cuidado, porque estão lá muitos tipos da PIDE! Nunca deixes que te ponham o pé nos ombros!” – e voltou a fitar algo no vazio.

De facto, existia um tipo que diziam ter sido da PIDE, já faleceu. O meu avô tinha razão. Eu segui sempre os seus conselhos.

Na 3ª feira, dia 27 de Outubro de 2015, fui notificado. O Tribunal de Execução de Penas (o mesmo que o Dr. Rui Rangel afirma que funciona mal!) julgou improcedente a impugnação por mim apresentada e manteve integralmente a decisão proferida em 8/10/15 pelo Sr. Director do Estabelecimento Prisional de Évora: sujeitar-me ao castigo por delito de opinião!

O Tribunal de Execução de Penas afirma que eu “ultrapassei os limites do direito de liberdade de expressão e de informação”.

Acrescentou ainda: “[…] Desde já se afasta a aplicação do direito fundamental de liberdade de imprensa consagrado no art.º 38 da Constituição da República Portuguesa pois que, e como resulta deste normativo, estamos perante um direito constituído na esfera jurídica dos jornalistas e seus colaboradores – no que se não inclui o impugnante”. Afinal o Dr. Rui Rangel tinha razão: o Tribunal de Execução de Penas funciona mesmo mal! Ou então a desenfreada e urgente necessidade de silenciar alguém incómodo – como faziam no tempo do meu avô – tolda o raciocínio e a serena apreciação dos factos desta gente: Eu sou colaborador do C.M., tenho uma crónica semanal!

Mas nada disto importa a esta gente. É para calar, é para castigar: castiga-se!

O recluso João de Sousa é isso mesmo, um preso, alguém acusado de corrupção, logo mente.

Não interessa a presunção de inocência, tanto tempo preso algo fez; logo não é verdade aquilo que escreveu.

O Tribunal de Execução de Penas afirma que o impugnante (eu) “agiu de forma irresponsável ao “informar” (e colocou entre aspas “informar”) […] pois que, e como referido, bastou-se com parte de uma realidade, sem cuidar de conhecer o todo dessa realidade […]”.

Aqui dou razão ao Tribunal, foi só parte. A parte que o Serviço de Auditoria e Inspecção queria quando me interrogou, eu não apresentei: queria que eu apontasse nomes dos guardas e/ou dos reclusos que poderiam testemunhar os privilégios do tal prócere recluso agora em liberdade. Isso não fiz, porque o meu avô nunca me perdoaria a delação, o pior que existia no tempo em que os “Magalas” agrediam quem passasse “detrás deles”!

Mas aqui, nas profundas do inferno, houve quem se oferecesse para testemunhar. Eu não referenciei essas pessoas porque sei perfeitamente o que as esperava, e não estou a falar de reclusos somente.

– Sr. João, 99,9% daquilo que escreveu no C.M. é verdade! – diz-me sussurrando um profissional do estabelecimento prisional.

– E os 0,1%? – questionei.

– São os textos que não consegui ler! – respondeu sorrindo.

– Sr. João – interpela-me outro profissional do E.P. – quando vieram cá por causa dos telefonemas do Sócrates no gabinete do Subdirector, não ouviram um único guarda como testemunha. Não quiseram saber.

Outra ocasião.

– Então vai ficar fechado, de castigo, Sr. João? – pergunta o profissional do E.P. – sabe, nós reconhecemos aquilo que escreve… eu não era preso se falasse… mas ia logo a andar daqui para fora… veja lá… aguente!

O Serviço de Auditoria e Inspecção conclui que: “[…] do funcionamento diário deste serviço e da (ausência) de notícias aqui chegada das outras entidades responsáveis pelo controlo do funcionamento do sistema prisional, nada se retira que possa indiciar serem verdadeiras as (gravíssimas) afirmações do recluso João de Sousa […]”.

É este o problema de ser o Director a instaurar um processo, o próprio serviço dos estabelecimentos prisionais instruir o mesmo, e ouvir quem quer e como quer!

Quando fui interrogado, declarei que não falei só do Sócrates; falei da morte do João Furtado, o “recluso nº 2” (título da primeira crónica do C.M.). Sabe o meu Leitor(a), o que respondeu o indivíduo que me interrogava? Eu digo: “Não sabia que tinha falecido aqui alguém!”

Sabe o meu Leitor(a), o que está consignado no Código de Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade, normativo no qual foram “beber sofregamente” os artigos para me castigarem?

Eu digo: “Artigo 63º (comunicação de internamento, doença grave ou morte), nº 3 – a morte do recluso é comunicada de imediato: […] d) Ao Serviço de Auditoria e Inspecção da Direcção-Geral […]”

Como escrevi no texto, “De commodo et incommodo”: “[…] Iniciado o interrogatório foi notória a “percepção selectiva” do indivíduo que conduziu o mesmo. De entre as respostas que eu dava, o indivíduo interrogador desconsiderou aquelas que colidiam com as suas perspectivas, ou não confirmavam aquilo que era a sua – ou de outro alguém, um superior talvez! – convicção […]”.

Como no tempo “da autorização para o isqueiro” só interessa aquilo que esta gente quer!

E o que dizer disto? “[…] Aliás, a este propósito, o próprio recluso […], prestou declarações nas quais revelou exactamente o contrário do que pretendeu fazer crer perante a opinião pública o recluso João de Sousa […]”.

Referem-se ao recluso que esteve acamado, algaliado, situação sobre a qual escrevi neste espaço – texto “(In) Dignidade Humana” – e no C.M. – crónica “Birra por iogurtes”.

Quem, neste espaço, leu o texto referido antes, pôde verificar que a imagem que ilustra o mesmo é uma carta manuscrita pelo recluso em questão, autorizando a divulgação da sua situação. Imaginem que eu não tinha, num exercício de presciência, antecipado tudo isto? Segundo esta gente, era um corrupto mentiroso. Obrigado, Vô, por teres ensinado a não deixar que me passem rasteiras! Como dizia o outro: “E o (burro) mentiroso, sou eu!!?”

Então, diz esta gente que ninguém se queixa, só eu?

O recluso acamado enviou cartas para a Comissão Parlamentar de Direitos, Liberdades e Garantias, e para o Provedor de Justiça.

Tenho aqui à minha frente, facultadas por outro recluso, cópias de reclamações dirigidas ao Director do E.P. de Évora, assim como para o Director dos Serviços Prisionais, manuscritas pelo mesmo ou redigidas pelo seu advogado. Relativamente a deficiente apoio médico (30 de Novembro de 2013, recepcionada pelo E.P. a 2/12/2013); mesmo assunto (7 de Março de 2014, recepcionada pelo E.P. a 7/3/2014).

Solicitação de visitas íntimas (4 de Outubro de 2014, enviada para Direcção-Geral, recurso a decisão do Director do E.P. de Évora, de 25/9/2014. Um pedido de 26 de Agosto de 2014); o mesmo assunto (22 de Novembro de 2014, 5 de Dezembro de 2014) entre outras.

Ninguém se queixa, só eu? Quando “rebentou” a questão levantada pelo sindicato do corpo de guardas prisionais, relativamente aos privilégios de José Sócrates, nomeadamente efectuar chamadas telefónica no gabinete do sub-director, o processo foi arquivado. Estava tudo bem? Nada disso! Nessa altura, um recluso fez 2 dias de greve de fome porque não permitiram a realização de um telefonema para a mãe! Mentira? Existem registos!

Lê-se no Código de Processo penal português: “[…] Artigo 127º (livre apreciação da prova): Salvo quando a lei dispuser diferentemente, a prova é apreciada segundo as regras da experiência e a livre convicção da entidade competente […]”. Desafio o meu Leitor(a) a vestir a beca. Assuma o papel de Juiz, utilize o Art. 127º do C.P.P., e responda à minha questão: Conhecendo o “animal feroz” José Sócrates, após ler e ouvir, assim como ver, tudo o que o mesmo faz, faz e antecipa-se que faça, acha que o recluso João de Sousa mentiu quando relatou os privilégios que este tinha em “Ébola”? Não dispa ainda a beca: Crê que está tudo bem nos Serviços Prisionais Portugueses, que isto por aqui é o verdadeiro paradigma da reinserção social, da reeducação do preso, que por aqui reina a equidade e a mais valorosa Justiça?

Bem me parecia, Caro(a) Leitor(a)!

A sociedade aberta e os seus inimigos, o título deste texto é o título da obra incontornável de Karl Popper; incontornável se desejarmos ser cidadãos esclarecidos, participantes na construção justa da nossa sociedade e instituições. Incontornável se desejarmos um “regime democrático e autocrítico”: não podemos desistir da responsabilidade pessoal pelo que acontece na sociedade, temos de saber e exigir que as “coisas não estejam condenadas a acontecer!”

Não tolerar e denunciar tratamentos indignos não é uma ameaça à ordem, não deve dar castigo! O que nos castiga, como postulava Popper, é a “teoria conspirativa da ignorância”. É tudo aquilo que o Sr. Director do E.P. de “Ébola”, o Director dos Serviços Prisionais, o Serviço de Auditoria e Inspecção e o Tribunal de Execução de Penas de Évora construiu neste processo: falar só do que interessava, articular esforços para ocultar, socorrer-se de um verdadeiro “metabolismo social partilhado” (juntemo-nos, o que corroborarmos uns dos outros lucra a todos e quem desconhece julgará mentirosas as palavras do recluso). Como a verdade não interessa, como os factos não são conhecidos, então vamos avançar com a nossa autoridade para interpretar e propor a nossa verdade!

Estamos assim inseridos na sociedade do meu avô, na sociedade fechada do tempo do outro, onde se prendia e castigava por opinar diferente. Não podemos esquecer as lições dos nossos avós!

Cerceia-se agora, 41 anos depois do 25 de Abril, a liberdade de expressão? Regredimos?

  1. Século XIX. “Da democracia na América”. Alexis de Tocqueville:

“Ora, o poder de opinião é o mais difícil de utilizar, pois é impossível determinar quais os seus limites. Muitas vezes é tão perigoso ficar aquém deles como ultrapassá-los”.

Esqueceu-se em Portugal os ensinamentos dos Mestres, desprezamos em Portugal as conquistas dos nossos avós, dos nossos pais? Seremos livres?

Criticamos Angola por causa do bravo Luaty Beirão? Repudiamos o rei da Arábia Saudita e o seu regime por aplicar 1000 chicotadas a um bloguer, indivíduo crítico em relação ao regime?

E por cá?

Popper: “Tanto a ideia de crítica como a prática democrática permitiram aos seres humanos iniciar a sua progressão em direcção à sociedade aberta onde poderiam tornar-se conscientes da importância de decisões pessoais e da responsabilidade moral individual”. Querem contrariar isto em pleno Século XXI?

Conquanto a grandeza literária indiscutível de Fiodor Dostoievski, discordo completamente:

“ O ser humano é um biltre que se habitua a tudo!” (“Crime e Castigo”)

Eu não sou um biltre e nunca me habituarei a isto: Dogmatismo, ignorância, obscurantismo, totalitarismo, sacrifício dos direitos da personalidade humana, censura!

Liberdade e razão são valores políticos centrais.

“A prisão é uma violação dramática da dignidade porque, como afirmei, o controlo sobre aquilo que acontece ao meu corpo é uma parte particularmente importante da responsabilidade pessoal” (Ronald Dworkin)

Fecham-me todos os dias às 19h00, abrem o “jazigo” às 08h00, dizem quando devo levantar-me da mesa! Agora o que pensar, falar, opinar, isso não. É só isso que me resta: liberdade de pensamento, de opinião!

Não esqueçam os nossos avós, cidadãos portugueses no tempo da “velha senhora”! O tempo do “Torel”! O tempo do “Forte de Peniche” e da “Frigideira”! Não coloquem no sótão das coisas más tudo o que os outros passaram para que fossemos livres, livres como aquilo que querem agora agrilhoar: livres como o pensamento!

Possivelmente pouca gente ouviu falar de Chuk Palahniuk. Palahniuk escreveu um romance, publicado em 1996, chamado “Fight Club”. Três anos depois, David Fincher dirigiu Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter no filme “Fight Club” (“Clube de Combate”, título português). Falo nisto porque muito me marcou o facto de o personagem de Brad Pitt ter dito que eramos “filhos do meio da história”, não tínhamos causas pelas quais lutar! A “porrada gratuita” dos clubes de combate servia para os envolvidos despertarem da passividade em que viviam; as lutas são metáforas: resistir à anodinia, à dormência da sociedade!

Em Washington visitei o Museu do Holocausto. Entrei num vagão no qual eram transportadas, em condições sub-humanas, as vítimas da “Decisão Final”. Fechei a porta e vi nas paredes internas arranhões, a madeira “esgravatada”, porque as pessoas tentavam chegar às pequenas entradas de ar existentes; foi uma experiência horrível, a minha, em nada comparada com a deles: vítimas, de um regime totalitário.

Ouvi o meu pai e o meu avô a contarem histórias sobre o regime totalitário antes do 25 de Abril de 1974, fascinava-me, mas estava sempre distante, ausente. Era algo grave, muito importante de reter, recordar, mas, como no vagão no museu nos E.U.A., sabia eu que a porta ia abrir, eu sairia ileso. Na segunda-feira, 2 de Novembro de 2015, às 8h00 a porta não se vai abrir, vou estar fechado por delito de opinião, em Portugal, Évora, 2015, séc. XXI.

Sempre defendi a liberdade, o livre pensamento, a criatividade, sempre foi essa a minha opinião, não porque tenha sido privado do usufruto, sempre foi essa a minha opinião porque ouvi quem por isso passou. Mas podem existir pessoas que não percebam a gravidade do que se vai passar no dia 2 de Novembro de 2015, pelas 08h00, porque estão distantes de tudo isto. Como disse Ronald Dworkin: “ Não deveríamos ter medo de admitir que as opiniões morais de todas as pessoas são acidentais neste sentido: se as suas vidas tivessem sido suficientemente diferentes as suas crenças teriam também sido diferentes”.

Eu estou a partilhar com o meu Leitor(a) porque é importante saber que estamos a regredir, e eles, esta gente, não quer que se saiba.

A minha mulher deu uma entrevista à “Nova Gente” e à revista “Flash”. Reportagem fotográfica da minha casa para se provar que não é um castelo!!!

Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015: “Nova Gente” nas bancas!

Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015: “Flash” nas bancas mas sem a reportagem à mulher do Inspector João de Sousa preso em Évora, consequência da limitação imposta pelo Tribunal a pedido de José Sócrates!

Atenção, Caro(a) Leitor(a), não coloque a história das coisas más no sótão da sua memória. Isto está a acontecer hoje, hoje mesmo enquanto criticamos, e bem, o governo angolano por causa do Luaty Beirão!

O que vou fazer? Henrique Monteiro, na edição de 15 de Agosto de 2015, do Jornal “Expresso”, na sua crónica, “Sobre homens e ratos”, escreveu: “[…] os que se aventuram e desafiam a sorte por boas causas, e os que se entrincheiram com o medo dos outros ou receio dos tempos […]”.

Eu não vou desafiar a sorte, vou desafiar esta gente, continuar a denunciar o que se passa, não calarão a voz do meu pensamento!

Quanto àqueles que aconselham a resignar-me, calar-me, “jogar pelo seguro”, faço minhas as palavras de Gregorio Duvivier (“Porta dos fundos”, “Caviar é uma ova”): “ Quem não faz nada para mudar o mundo está sempre muito empenhado em provar que a pessoa que faz alguma coisa está errada – melhor seria se usasse essa energia para tentar mudar, de facto, alguma coisa. Como diria minha avó: Não quer ajudar não atrapalha!”

Lembrem-se dos vossos avós e do tempo deles, dos inimigos da nossa (por enquanto) actual sociedade aberta. E ali está ela, ao lado do meu avô, a mulher dele, a Maria Leonor de Sousa.

Ela era uma matriarca no tempo dos três “F`s” – “Fátima, Família e Futebol”, e cantava o quarto “F”: Fado. Se ainda estivesse entre nós, já tinha ido a Fátima, dar umas voltas à capela das aparições, com uma vela do meu tamanho, pedindo à Senhora para eu sair daqui.

Já vai fazer dois anos que não vou a Fátima. Todos os anos vou, em sua memória, porque desde tenra idade (todos os anos) através da Paróquia da Penha de França (Lisboa), íamos em excursão. Para lá, ia a coluna de autocarros em peregrinação, a rezar. Para cá, a Leonor brilhava: agarrava o microfone, ao lado do motorista, e cantava Fado, sempre o mesmo fado muito requisitado pelas outras avós impregnadas de beatitude. Parece que a estou a ver:

“Com voz serena/ perguntaram-me ao ouvido/ valeu a pena/ vir ao mundo ter nascido/ com lealdade vou responder, mas primeiro/ consultei meu travesseiro/ sobre a verdade/ tive porém, que lembrar o meu passado/ horas boas do meu fado/ e as más também/ Valeu a pena/ ter vivido o que vivi/ Valeu a pena/ ter sofrido o que sofri/ Valeu a pena …”

Que pena eu não acreditar, porque sempre podia pedir para a minha avó Leonor meter uma cunha lá em cima, para eu sair daqui.

Mas uma coisa asseguro-vos: Tudo isto vale a pena, tudo isto é importante, não podemos compactuar com esta sociedade fechada, totalitária.

Atentem no exemplo dos nossos avós.

Segunda-feira vai começar o castigo, e, minha mulher, meus filhos, meus pais, sogros, amigos, valerá sempre a pena a forma de luta que eu possa adoptar.

Valerá sempre a pena, nem que seja para honrar a memória dos nossos avós que muito lutaram por uma sociedade aberta e contra os seus inimigos!