A Paixão de João de Sousa

Já está! Amanhã, um dia após a publicação deste texto: já está!

Dia 29 de Março de 2016: 2 anos de prisão preventiva!

“[…] Naquela noite, o Povo de Deus foi finalmente libertado da escravidão. A Páscoa é, assim, uma celebração do dom divino da Liberdade […]”

Assim destaca a “Bíblia Sagrada”, o “Livro da Verdade” (Editada pela Pia Sociedade de São Paulo, Paulus Editora), a Páscoa, o período do calendário liturgico ocidental que presentemente se celebra.

Liberdade!

“[…] Na festa da Páscoa, o governador costumava soltar o prisioneiro que a multidão quisesse. Nessa ocasião tinham um prisioneiro famoso, chamado Barrabás. Então Pilatos perguntou à multidão reunida […]” (Mateus, 27, 15-17)

A pergunta todos nós conhecemos, a resposta também, assim como tudo o mais que sucedeu: a Paixão daquele que foi zombado.

A Liberdade!

Estou a escutar, enquanto escrevo, da ópera “Rinaldo”, de Georg Friedrich Händel, a ária “Lascia ch’io pianga”: “Lascia ch’io pianga, mia cruda sorte / E che sospiri la Libertà…” (“Deixa que eu chore o meu cruel destino / e que suspire pela Liberdade …”)

A voz que escuto foi apurada através do contributo da soprano Ewa Mallas-Godlewska e do contra-tenor Derek Lee Ragin, assim como da “mistura” de ambas as vozes num computador. Tudo isto para reproduzir a voz do “Castrato”, Carlo Broschi, mundialmente conhecido por “Farinelli”.

A fabulosa e apaixonante história deste invulgar ser humano encontra-se retratada no filme de Gérard Corbiau, “Farinelli, il Castrato” (1994)!

A personagem da ópera de Händel “chora pela sua Liberdade”, anseia por ela.

Como suportei eu 2 anos de privação da minha Liberdade, de zombaria, de atentados à minha Dignidade?

Hoje, antes de ser fechado pela milésima vez, realizando pela milésima primeira vez (ou segunda, talvez terceira…) a minha caminhada pelos “passos perdidos”, na companhia do meu companheiro de deambulação, de vagueação a esmo, que foi preso pela brigada onde eu trabalhava (imagine-se lá isto!) conversávamos olhando o infinito ladrilho:

– É já terça-feira, dia 29: 2 anos de prisão preventiva – eu, com o mais amarelo dos sorrisos.

– Dois anos… – com a expressão de quem já os viveu e tem a certeza de lhe faltarem três vezes o mesmo número, que após adicionar aos já vividos duas vezes estes dois, na melhor das hipóteses, experimentará a desejada Liberdade – o pior é que são dois anos perdidos para nada! Não achas?

– Não! Claro que não, aprendi imenso… – decidido, convicto, sem qualquer verniz porque aqui o verniz nota-se à distância, aqui somos obrigados à autenticidade.

– Eu dispensava o ensino e a sabedoria, preferia ser ignorante! – e rimos os dois.

Aqui está toda a diferença e a forma de suportar. A minha forma de suportar. A forma insuportável para aqueles que me obrigam ao insuportável: eu estou a aprender, eu estou, ainda, supreendentemente, a medrar!

Será que a Maria Alice perante a clausura, o confinamento, a exclusão, identificava-se, deleitava-se, vertia as suas lágrimas invocando a beleza de uma composição de Händel?

“[…] o alcance de uma obra de arte mede-se pelo número e pela variedade dos elementos provenientes de experiências passadas, organicamente absorvidos na percepção vivida aqui e agora […]” (John Dewey, “A arte como experiência”)

“Obra de arte”?! Estás louco, João? Qual “obra de arte”? Estás preso, acusado de corrupção!

Nada disso!

Vinicius de Moraes, na sua obra “O operário em construção e outros poemas”, apresenta-nos Jaime Ovalle, no seu poema “A última viagem de Jaime Ovalle”.

Ovalle, como todos nós vamos ser convidados, foi chamado pela Morte para a última viagem e a Morte que “Levou-o em bela carruagem / A viajar – ah, que alegria / Ovalle sempre adora viagem.”

E perante a finitude do seu ser, cada vez que a Morte lhe mostrava a escuridão, a sua condição humana e a dos outros, Ovalle, maior que a Vida, retribuía:

“A cada vez que a Morte, a sério / Com cicerônica prestança / Mostrava a Ovalle um cemitério / Ele apontava uma criança!”

Assim se sobrevive a 2 anos de prisão preventiva!

Desejava isto? Claro que não!

“Meu Pai, se é possivel, afaste-se de Mim este cálice” (Mateus, 26,39)

Até Ele, questionou o Pai e, esperançoso, tentou eximir-se ao cálice amargo; era condição desse mesmo Pai que ele o degustasse, assim como é condição imposta pela estranha Justiça lusa que eu sinta o sabor do fel.

Recordo nova passagem do Evangelho segundo S. Mateus, quando João Baptista baptizou Jesus: “«Sou eu que devo ser baptizado por Ti, e tu vens a mim?» Jesus, porém, respondeu-lhe: «Por enquanto deixa como está! Porque devemos cumprir toda a Justiça» E João concordou […]” (Mateus, 3, 14-15)

Eu, também João, mas De Sousa, igualmente considero que se deve cumprir a Justiça, mas Jesus encerrava em Si uma certeza (que alguns que por aqui passaram e outros que nem por aqui estiveram, também a tiveram ou têm!): “Depois de três dias ressuscitarei” (Mateus, 27,63)

A Páscoa não é igual para todos, assim como a aplicação da Justiça lusa, concluindo-se o enunciado pela observação do número de estações da “Via Sacra” a que uns estão sujeitos e outros, milagrosamente, se eximem!

Observa-se diariamente indivíduos que ressuscitam ao “terceiro dia”, e eu, passados 732 dias (2 anos) ainda encontro-me dentro do sepulcro, aguardando: “Então eles foram manter o sepulcro em segurança: lacraram a pedra e montaram guarda” (Mateus, 27,66)

“Ó suprema soberba, Ó vaidade desmesurada! Mesmo preso, repelido, descontado, compara a sua condição à Paixão do Outro?”

Concerteza! A exclusividade, o “extra-ordinário” são vocês, os anónimos e os revelados que atribuem à minha pessoa, a importância é ofertada por vós:

Quantos estiveram em prisão preventiva 2 anos?

Quantos foram castigados por delito de opinião, 41 anos após o final da censura, da injusta reclusão por opinar?

Quantos tiveram um Judas que até Pratas, como as moedas, tem como apelido (Pedro Miguel Ventura Pratas da Fonseca)?

Quantos experimentaram isto: “Ora, os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum falso testemunho contra Jesus a fim de O condenarem à morte. E nada encontraram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas” (Mateus, 26, 59-60)

129 testemunhas ouvidas, vinte e uma sessões depois, as próprias testemunhas de Acusação contrariaram a tese da investigação (P.J.)!

“Então o Sumo Sacerdote levantou-se e perguntou a Jesus: Nada tens a responder ao que estes testemunham contra Ti? Mas Jesus continuou calado” (Mateus, 26,62)

Mas este João não ficou, não fica nem ficará calado!

Mesmo se no dia 6 de Abril de 2016, a Juiz-Presidente considerar que o pressuposto previsto na alínea c), do artigo 204º do C.P.P. existe: “[…] c) perigo, em razão […] da personalidade do arguido […] perturbe gravemente a ordem e a tranquilidade públicas […]”; justificando, desta forma, a manutenção da minha prisão preventiva!

Se isto se verificar, depois de assistirmos aos Salgados, Sócrates, Manueis Godinhos, Duartes Limas e afins, então, Estimado(a) Leitor(a), cautela, muita cautela ou muitos contactos no “sistema” e maior disponibilidade económica e, mais importante que tudo isto: “Bico calado”, falsa humildade, resignação, coluna vergada, “respeitinho do bom”, ignorância visível porque, como dizia o Filho que celebramos agora: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu” (Mateus, 5,3)

Utilizo beati pauperes spiritu (“Bem-aventurados os pobres de espírito”) no seu sentido deturpado, uso-o ironicamente, ou seja, aqueles que realizam com pouca inteligência, os ignorantes que não desejam mais, os ignorantes da Lei, aqueles que passivamente aceitam, os que não contestam.

Não serei mais um “primitivo da espera no cais”, como o nosso Pessoa descreveu.

Como o fado nos diz, “choro a chorar tornando maior o mar”! Se sorrio, é por nutrir profunda repulsa por tudo isto. Alberto Gonçalves, sociólogo, cronista da revista “Sábado”, no seu espaço “Juízo final”, na edição nº 620, sobre o porquê dos portugueses ainda se rirem apesar do “estado” de todos nós, compara a lusa gente com as hienas: “[…] acrescento a inevitável analogia da hiena, bicho que ri imenso, acasala uma ou duas vezes na vida e se alimenta parcialmente de fezes. Eis a “punch line”: Um bicho que não fornica e come merda ri do quê? […]”

Conquanto deseje ser um Leão, forte, resiliente, sujeitam-me a ser uma hiena, senão vejamos: Há dois anos que não faço “o Amor” e a comida aqui é uma… porcaria!

O que vou fazer? Lutar!

A semana passada a APAR (Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso) convidou-me para ser o Delegado da APAR no Estabelecimento Prisional de Évora!

O que fiz? Aceitei de imediato. Que tipo de homem/mulher é alguém que não tenta mudar, para melhor, o local por onde passa?

Prejudica-me? Não é sensato? Estrategicamente errado?

O tal Filho pródigo que celebramos nesta Páscoa alerta-nos para a necessidade de superarmos a Justiça dos hipócritas: “Prestai atenção! Não pratiqueis a vossa Justiça diante dos homens só para serdes elogiados por eles. Fazendo assim, não tereis a recompensa do vosso Pai que está no Céu” (Mateus, 6,1)

E eu, que até sou agnóstico: Não espero recompensa do Pai!

Antecipo, pelo contrário, resistências, condicionamentos, adversidades, mas, como nos disse o poeta Ruy Belo, “Só é vencido quem desiste de lutar” e este João não consegue oferecer a face esquerda após ter sido esbofeteado na face direita!

Na semana passada, a minha diligente defensora apresentou no Tribunal um requerimento, solicitando a revogação da medida de coacção a que estou sujeito.

Singelo texto, vinte e oito pontos, porque simplex sigillum veri (a simplicidade é o sinal de Verdade).

Não é necessário ornamentar o que foi produzido em Tribunal, a Verdade foi apresentada, não estão reunidos os pressupostos para manter o arguido João de Sousa em prisão preventiva!

O número de estações da Via Sacra está definido, estabelecido. Só será cumprida a Justiça se, com equidade, distanciamento, pragmatismo, decidir o Tribunal de acordo com a Lei!

Menos que isto ou mais que isto é um sinal de improbidade de quem decide.

A minha Paixão dura há 2 anos! A impudência será continuar o sacrifício, sustentar o castigo, o meu e o dos meus.

Dois anos sem ordenado, dois anos preso, dois anos longe dos meus filhos, da minha mulher, dos meus pais, sogros, amigos, distante da minha Casa!

Eu aguento porque escuto Händel, conheço Vinicius de Moraes, comparo a minha Paixão à do Outro, aprendo sobre mim e sobre os outros, mas já chega porque o Outro era Divino, sabia, antecipadamente (por via directa), que estaria no final do dia sentado à direita do Pai. Eu desconheço, não tenho garantias e a única coisa que asseguro ao Leitor(a) é que isto é uma profunda injustiça: comparem, num exercício simples, o que estou a passar com tudo aquilo que outros não passaram!

No monte Gólgota, as cruzes estão sem ninguém. Será o momento antes da crucificação ou o exacto momento após a retirada dos corpos crucificados?

Será possivel que ninguém seja pregado na cruz?

Não sei! Sei, porque o sinto, que há dois anos que estou a caminhar carregando a cruz, a pesada cruz que, não “um homem chamado Simão, da cidade de Cirene” (Mateus, 27,32), mas sim, a minha mulher e “ninhada” ajudam a transportar.

Cansado, exausto, eu e os que me auxiliam, só tenho uma alternativa: continuar a caminhar, suportando!

Caminho, vergado, vivendo a minha Paixão, nutrindo a esperança de que o “sistema” não se defenda, não faça questão de manter o erro, não condene o homem e a sua personalidade, mas condene somente os actos, até porque sangrando, sujo, obrigado à ignomínia, garanto-vos algo, algo que se manterá: a firme e inamovível vontade de gritar bem alto esta vil INJUSTIÇA!

Prolegómenos mínimos de minha Autoria.

Estimado(a) Leitor(a), faltam somente oito (8) dias, nesta data – 21 de Março de 2016 – para eu estar preso preventivamente, há setecentos e trinta e dois dias, cento e cinco semanas, o que é o mesmo que dizer: 2 anos!!!

“Prolegómenos mínimos”! Prolegómenos é uma longa introdução no começo de uma obra. Ora, como é fácil de detectar, verifica-se no título uma contradição: se é uma longa introdução, como pode ser mínima?

Ofertem-me a mesma indulgência para comigo como eu tenho demonstrado para com a Justiça, uma vez que aquilo que experimento também é uma profunda e dolorosa contradição.

Prolegómenos também significa o conjunto de noções preliminares de uma ciência.

Eu pretendo hoje apresentar um conjunto de noções, preliminares a uma tomada de decisão que está anunciada para breve (6 de Abril de 2016), tomada de decisão que considero um marco de importância capital para o princípio do fim da minha travessia do deserto ou, a continuação penosa deste já longo e árduo caminhar.

Dia 6 de Abril de 2016 é a data-limite para a reavaliação dos pressupostos da medida de coacção a que estou sujeito: prisão preventiva!

A cientificidade que pretendo imprimir nos factos que vou apresentar, encontra-a o meu leitor(a) na publicidade das audiências de Julgamento, ou seja, o que vou expor aconteceu e está documentado, gravado em registo áudio e é público: é só entrar que a porta da sala de audiências está aberta, não se deixando intimidar o(a) Leitor(a) com o forte aparato policial e o detector de metais (até porque quem está a pagar todo aquele espectáculo somos nós, o cidadão comum, e é nosso direito/dever assistir à aplicação da Justiça!)

Alétheia é uma palavra grega que significa “busca pela verdade”.

Tive conhecimento do étimo grego quando lia sobre o caso que envolve o ex-Presidente do Brasil, Lula da Silva. É a designação de mais uma das fases do inquérito, algo como nós temos por cá: “Operação Marquês”, “Caso BES”, “Operação Furacão” ou o “Caso Casa Pia”.

Em sede de Julgamento, busca-se a Verdade, avalia-se a credibilidade da tese da acusação e a idoneidade da refutação da defesa, trabalha-se em prol da Verdade!

Até à interrupção para as férias da Páscoa, foram realizadas 21 sessões de Julgamento, encontrando-se ouvidas até à presente data, 129 testemunhas, tendo a Acusação prescindido de 7 depoimentos.

Todas as testemunhas foram arroladas pela Acusação, testemunhos considerados pertinentes para a tese da investigação (P.J.), relevantes para o raciocínio lógico-dedutivo de quem acusou (Ministério Público).

Quatorze destas testemunhas, seleccionadas pela Acusação, prestaram testemunho relacionado com o Inspector João de Sousa, eu, preso preventivo.

Quero agora deixar quatro notas, científicas, que vou transcrever da obra “Psicologia”, de Henry Gleitman et al.:

1 – “[…] A nossa concepção, do que é real, é grandemente afectada pela confirmação dos outros, como foi demonstrado pelo estudo de Asch sobre os efeitos da pressão grupal, e pela necessidade de comparação social, especialmente nas situações ambíguas […]”;

2 – “[…] Para dar um sentido ao mundo, as pessoas procuram consistência cognitiva. De acordo com a teoria da dissonância cognitiva elas farão tudo o que puderem fazer para reduzir qualquer inconsistência (dissonância) que for percebida, reinterpretando a informação para se adequar às suas crenças, atitudes e acções […]”;

3 – “[…] A interpretação da situação que as pessoas encontram é afectada pelas suas atitudes, que variam de uma pessoa para outra. As atitudes são posições mentais particularmente estáveis, sustentadas relativamente a uma ideia, um objecto ou uma pessoa, que combinam crenças, sentimentos ou avaliações, e alguma predisposição para a acção […]”;

4 – “[…] Os psicólogos sociais estudaram algumas abordagens à mudança de atitudes. Uma diz respeito à eficácia das comunicações persuasivas. Esta depende em parte das diversas características da fonte (emissor) da mensagem, incluindo a credibilidade e fidelidade da fonte.”

Presente no Código de Processo Penal português:

  1. Título II (Dos meios de prova), Capítulo I (Da prova testemunhal), Artigo 128º (Objecto e limites do depoimento):

1 – A testemunha é inquirida sobre factos de que possua conhecimento directo e que constituam objecto da prova […];

Artigo 138º (Regras da inquirição):

               1 – […]

               2 – Às testemunhas não devem ser feitas perguntas sugestivas ou impertinentes, nem quaisquer outras que possam prejudicar a espontaneidade e a sinceridade das respostas […]

  1. Título II (Da audiência), Capítulo III (Da produção da prova), Artigo 348º (Inquirição das testemunhas):

1 – À produção da prova testemunhal na audiência são correspondentemente aplicáveis as disposições gerais sobre aquele meio de prova, em tudo o que não for contrariado pelo disposto neste capítulo […].

Não, não vou invocar incidente de suspeição ou nulidade relativamente à condução das inquirições por parte do Ministério Público e do colectivo de Juízes (hoje, pelo menos!)

Quero que o(a) Leitor(a) retenha a informação anterior por forma a servir de guia, balizamento teórico-legal do que vou expor de seguida, e, também, para memória futura!

Teoria da investigação/acusação: o Inspector João de Sousa prestava serviços de segurança à associação criminosa, nomeadamente às lojas de ouro.

Testemunha “X”, funcionária de uma loja na localidade “Y”:

– O que fez o arguido João de Sousa quando foi à sua loja? – Ministério Público.

– Não entrou […] ia a caminho do Algarve, acompanhado pela esposa, julgo eu, e disse-me para apresentar queixa na G.N.R. de “Y”! – a testemunha.

– O Inspector João de Sousa exigiu dinheiro, tornou a ir à loja, fez segurança – a minha advogada.

– Não, só o vi nessa ocasião e o que disse foi para apresentar queixa-crime na G.N.R.

– O Sr. “X” (meu co-arguido) não enviou alguém para estar segura, para proteger a sua mãe? – a Juiz-presidente.

– O Sr. “X” (meu co-arguido) disse que ia falar com um amigo da Polícia e que depois este diria algo. O Sr. João de Sousa telefonou-me e depois, passados dias, falou comigo em “Y” (localidade) tendo dado instruções para apresentar queixa na G.N.R.!

Testemunha “O”. Indivíduo que assistiu a um encontro, porque estava no interior do veículo do meu co-arguido:

– O que é que o Sr. “X” (meu co-arguido) disse-lhe em relação ao arguido João de Sousa? – o Ministério Público.

– Disse tratar-se de um amigo da Judiciária – a testemunha.

– Mas disse o quê em relação a ambos?; ele falava com o arguido João de Sousa sobre o quê? – insiste o Ministério Público.

– Não sei! Disse que era um amigo, nunca me concretizou do que falaram! – impotente, a testemunha.

– Não tenho mais perguntas, V. Exa. – Ministério Público dirigindo-se à Juiz-presidente.

Nesta altura a Juiz-presidente interpela a testemunha e “alerta-a” para o facto de poder incorrer na prática de um crime porque já tinha prestado declarações antes e se apurassem que mentia…

Muito atrapalhada, a testemunha, titubeante mantém o depoimento!

O que tinha dito a testemunha antes, perante os meus colegas, nas instalações da P.J.?

Declarou que o Sr. “Y” (meu co-arguido e presumível corruptor) era um indivíduo que fazia o que queria e tinha por hábito comprar as pessoas!!!

Um “relato de diligência externa” é uma “pseudo-peça processual” (deveria ser um “Auto de Diligência Externa”) que a P.J. lavra, relatando uma diligência no terreno onde se descreve o que se apurou/observou. É realizado num dia e hora precisa. Documenta uma acção investigatória.

Existe um “RDE” (Relato de Diligência Externa) lavrado pelos meus colegas que tem como data, 9,10 e 15 de Janeiro de 2014!!! Tudo no mesmo!

Eles não estiveram no local, eles trabalharam sobre imagens que os meios técnicos recolheram.

Mas, mais incrivel, é este relato: “[…] No dia 15 de Janeiro, cerca das 17:00, o JS (eu) chega ao […], estaciona no interior do pátio junto ao […] do […] e dirige-se para a entrada, mas antes de entrar oberva atentamente como que a confirmar ou não a presença de alguém […]”

Como é que é?!

Estaria eu corcovado, manco (como os mais perigosos bandidos) com um sorriso maléfico, a verificar se alguém me seguia, ou, possivelmente, a olhar para os formosos glúteos de alguma senhora que passava?!

Quando cheguei a Setúbal “herdei” vários processos pendentes de outros colegas. Inquéritos de homicídios e crimes sexuais.

Num deles, um suspeito de violação tinha assumido esta penosa qualidade porque uma testemunha, inquirida por uma colega minha, à qual foi atribuída a maior credibilidade, afirmou que viu o sujeito a sair da casa de banho (local do abuso sexual) e tinha “um olhar de quem tinha estado a praticar sexo violento”!!!

Acredite Caro(a) Leitor(a)!

Quando “peguei” no processo (que estava parado há muito tempo) como é lógico, não relevei aquele testemunho e as suspeições (que enfermavam por falta de cientificidade) da minha colega e concluí a investigação, apurando a identidade do autor do abuso sexual! Como?! Claro que não era o do “olhar de quem tinha estado a praticar sexo violento”! Desde esse dia que uso óculos escuros!

Sempre que regresso a “Ébola”, os companheiros reclusos e os profissionais que aqui trabalham, questionam-me: “Então Sr. João, como está a correr o Julgamento?”

– Mal! – respondo eu, enquanto baixo as cuecas, durante o desnudamento perante o guarda.

– Ai sim? – o guarda.

– Claro, se estivesse a correr bem não estava aqui a conversar consigo e a expor a minha genitália.

É sempre a mesma resposta.

Mas agora, fazendo um balanço, posso afirmar: ouvidas 129 testemunhas, pode-se, facilmente, inferir que o raciocínio lógico-dedutivo da Acusação, está errado, erro demonstrado pelas próprias testemunhas arroladas pelo Ministério Público!

Até a “Dona da Geringonça”, Dra. Maria Alice, reconheceu que não conhecia qualquer acto de corrupção, não sabia o que continha o envelope, o que eu fazia na cave com o meu co-arguido, encontrando-se igualmente demonstrado, que eu não fazia qualquer tipo de serviço de vigilância, acompanhamento ou segurança à suposta associação criminosa! Isto retira-se através do depoimento das testemunhas de acusação!!!

Testemunhas que foram ameaça… perdão, alertadas para o facto de terem prestado declarações anteriormente, “conquanto o que importa são as declarações neste momento, em sede de produção de prova”, acrescentou a Juiz-presidente e temos que o referir em abono da Verdade!

– Então – questiona agora o(a) Leitor(a) – estou com fortes expectativas em relação à alteração da medida de coacção?

Sim! Claro! Racionalmente, posso estar optimista!

E se não alterarem? Então será “canalhice abracadabrante”, perseguição, punição não pelo que pratiquei, mas sim pelo que sou!

“[…] A revista “Época” […] “o mero poder de Lula como ex-presidente não deve ser motivo para prendê-lo. Fazer discursos por mais virulentos que sejam, não atrapalha o trabalho de investigação a ponto de exigir uma medida tão grave quanto uma prisão preventiva […]” (in  “Público”, sábado, 12 de Março de 2016, texto de Kathleen Gomes: “Até os adversários de Lula acham exagerada a prisão preventiva”).

“[…] Há no processo de José Sócrates, uma dúvida insuperável. Tal dúvida antecede a que se refere à verdade dos factos e tem a ver com o modo como se fundamenta a prisão preventiva […]. Na verdade, está apenas em causa um juízo de perigo, que incide sobre uma mera probabilidade […].

Mas em que se fundamenta essa probabilidade? Em circunstâncias objectivas conhecidas ou em simples apreciações da personalidade do arguido […]”  (in “Correio da Manhã”, domingo, 1 de Março de 2015, texto de Fernanda Palma, professora Catedrática de Direito Penal: “O dever da dúvida”).

Serei eu “filho de um Deus menor”? Vamos ver.

P.S. – Um estimado Leitor enviou-me uma carta desejando-me boa sorte e uma rápida resolução de toda esta situação. Mais, comunicou-me que tinha “clicado” no “link”, disponibilizado neste espaço e assinado a petição!

Eu nunca quis lucrar monetariamente com publicidade neste espaço, e também reservei-o para a divulgação das minhas ideias, receios e afins.

Já dei uns “açoites virtuais” ao meu devotado “secretariado” que perdeu o respeito pelo pater familias ausente (as mulheres e o Jr. conquistaram o Poder!).

Conquanto o exposto, quero agradecer a todos que assinaram porque esse pequeno gesto é um oceano de Força para mim. Grato a todos. O autor destituído do Poder: João de Sousa.

“Foi medo, Pedro, ou os meus “Idos de Março”?

Mais importante que tudo o mais, mais nobre, elevado e inspirador, uma nota prévia:

No dia da publicação deste texto, uma parte de mim, fora de mim (uma das três melhores partes) celebra a data em que apareceu na minha vida.

Parabéns, minha filha Leonor, pelos teus 13 anos de Vida! Como o pai te ensinou, não vou dizer que te amo muito porque não se ama muito ou pouco, ama-se, e o pai, incondicionalmente, ainda que condicionado pela reclusão, simplesmente AMA-TE!   

Dignitas

A mais intangível de todas as possessões de um nobre romano: Dignitas.

A auctoritas era a sua capacidade de influência política, a sua capacidade de influenciar a opinião pública e todas as instituições públicas, desde o Senado aos Sacerdotes passando pelo Tesouro.

Dignitas era outra coisa. Era algo de intensamente pessoal e muito privado. E, no entanto, estendia-se a todos os parâmetros da vida de um homem. Tão difícil de definir. Era por isso, evidentemente, que existia uma palavra para a designar. Dignitas era a capacidade que um homem tinha de se elevar acima dos outros, a sua capacidade de Glória. Dignitas equivalia àquilo que um homem era. Enquanto Homem e enquanto Líder da sua sociedade. Era o total do seu Orgulho, da sua Integridade, da sua Palavra, da sua Inteligência, dos seus Feitos, das suas Capacidades, do seu Conhecimento, da sua Posição, do seu valor como Homem. A dignitas sobrevivia à morte de um homem, era a única forma que ele tinha de triunfar sobre a Morte. Sim, essa era a melhor definição.

Dignitas era o triunfo de um homem sobre a extinção do seu ser físico!

(in colecção “O Primeiro Homem de Roma”, de Colleen McCullough)

“Acautelai-vos com os “Idos de Março”” – com voz trémula, o cego áuspice adverte Júlio César.

Os “Idos de Março”, no calendário do mundo romano da antiguidade, era a 15 de Março.

Na terça-feira, 15 de Março de 2016, celebram-se os 2060 anos da morte de júlio César às mãos de vários conspiradores, homens esquecidos, só lembrados pelo acto praticado.

Como nos legou John Fitzgerald Kennedy: “Perdoa os teus inimigos, mas nunca te esqueças dos nomes deles”. Assim sendo: Caio Cássio, Décio Bruto, Metelo, Cina, Casca, Trebónio e, claro, o célebre Marco Bruto, célebre porque César, segundo Plutarco na sua obra “Vidas dos Nobres Gregos e Romanos”, terá pronunciado antes de morrer: “Et tu, Brutus?”, ficando para todo o sempre o seu nome associado à palavra Traição, assim como Judas, depois dele.

É por aqui, Caro(a) Leitor(a), que quero abordar a temática de hoje: O que motivou Marco Bruto a assassinar, há 2060 anos, Júlio César?

A Inveja? “O monstro de olhos verdes” que assolou Iago e que conduziu à morte, a bela Desdemona, Otelo e o próprio vil Iago?

A sede de poder que o monstro Ricardo III possuía e que o conduziu à usurpação e à mais demoníaca planificação e requintado ardil, sujeitando-o à insustentável condição que o obrigou a gritar por um cavalo: “O meu reino por um cavalo!”

Shakespeare revela-nos um nobre Bruto que amava César, mas amava mais Roma.

Admirava César, mas não admitia que um homem se elevasse acima dos demais, amava a República e desprezava a deidificação de um só indivíduo.

Na adaptação da peça “Júlio César” de William Shakespeare, realizada por Joseph L. Mankiewicz, em 1953, deleitamo-nos com a fabulosa interpretação de Marlon Brandon, que dá vida a um Marco António que assim resume Marco Bruto nas palavras do Bardo Inglês: “Foi o mais nobre romano dentre todos. Todos os conspiradores, excepto ele, fizeram o que fizeram por inveja do Grande César. Apenas, Bruto, com mente honesta e para o bem comum de todos, juntou-se aos outros.

A sua vida foi gentil, e os elementos tão unidos nele que a natureza se poderia levantar para proclamar ao mundo: “Eis, aqui, um homem!””

Na quarta-feira, 9 de Março de 2016, 2060 anos (menos 6 dias) após Bruto matar por um ideal, e não esquecendo as palavras de John Kennedy, Pedro Miguel Ventura Pratas da Fonseca, Coordenador da P.J., apresentou-se às 16h09 na sala de audiências do Tribunal do Seixal e prestou declarações.

E a questão coloca-se 2060 anos depois: O que motivou Pedro Miguel Ventura Pratas da Fonseca a prestar as declarações que ofertou, o que o motivou a desempenhar aquele papel?

“Por uma questão de lealdade para com a Dra. Maria Alice Fernandes e salvaguarda da investigação, comuniquei-lhe de imediato, logo após ouvir o Inspector João de Sousa …”

“Foi um tiro no porta-aviões quando falei com a Dra. Maria Alice …”

Entendi. O que motivou a acção do Pedro Miguel Ventura Pratas da Fonseca foi o dever de lealdade! Nobre propósito.

Esta é mais para quem trabalha na P.J.: será que a nobre Lealdade para com a Dra. Maria Alice surgiu depois do “leal Pedro” sair de Setúbal? Sim, porque enquanto por lá andou, e muito falou ao telemóvel com o “escutado” João de Sousa, por vezes com recurso ao impropério fácil e brejeiro, criticava a sua superior hierárquica, não abonando muito favoravelmente a opinião que o mesmo tinha da coordenação desta, expondo as limitações e defeitos da mesma, contrastando, exuberantemente, essas mesmas falhas com as auto-reconhecidas virtudes do próprio no campo da liderança e gestão de brigadas, ou, se necessário fosse, do próprio departamento de Setúbal!

Para alguém que já se encontra reformado e assistia às conversas: o “leal Pedro” muito se indignava e revoltava porque foi colocado no gabinete do outro Coordenador-Superior., numa pequena secretária, parecendo o “menino Tonecas”, em sala de aula com o professor. Quem o obrigou à desprestigiante condição? A Dra. Maria Alice! Como reagia o “leal Pedro”?

Com um amarelo sorriso quando o Coordenador-Superior, reconhecido pelo sentido de humor mordaz apuradíssimo, invocava “Tonecas”; revoltado e profusamente descritivo em relação às faltas da Maria Alice quando comigo privava e soltava o verbo!

Como é lógico, as conversas posteriores sobre tudo o que se descreveu, e que, para sempre, ficou marcado a fogo na mente do “leal Pedro” (muito cuidado com os homens magros!) não se revestiram de interesse para os autos.

O “leal Pedro” afirmou ter sido um dos patrocinadores da carreira do Inspector João de Sousa, um bonus pater (conforme declarou) mas nunca manteve relação estreita com o mesmo!

Eu nunca parqueei a minha carrinha na garagem do “leal Pedro”, porque a garagem deste é no -3, e “não cabia um carro tão grande”!!!

Eu só pontualmente, poucas vezes, fui a casa do “leal Pedro” e nem sequer conseguiria reconhecer a minha mulher e filhas se as visse (isto, somente após insistência da minha advogada)!

Somente duas vezes deu aulas após eu o ter convidado e a título gracioso (aqui o “leal Pedro” cometeu o erro, e ele estava tão bem no seu imaculado papel!)

Nunca o “leal Pedro” fez pesquisas sobre o meu co-arguido, ou com situações relacionadas com este, a meu pedido. Mais tarde, menos taxativo: “Não me recordo de o ter feito!”

Quem conhece (e muita gente conhece) a relação que eu mantinha com o “leal Pedro”, chega facilmente à conclusão a que cheguei quando o ouvi e vi no Tribunal. Não foi um sentimento nobre que conduziu o seu acto, não foi a lealdade, foi uma emoção a todos comum e muito primária: Puro Medo!

Eu posso ser corrupto, bandido, ardiloso delinquente, mas em sede de Julgamento, afastei qualquer tipo de suspeição sobre colegas, amigos, conhecidos e “ambíguos” que comigo se relacionavam e contactavam. Afirmei que o “leal Pedro” nunca, de forma ilícita ou para favorecer o meu co-arguido (acrescentando que eu poderia valer-me da confiança dele ou de outros, sem que estes soubessem o porquê de solicitar esta ou aquela informação), colaborou comigo em qualquer prática criminosa.

Mas o “leal Pedro” que de facto pesquisou, relacionava-se comigo, deu aulas e lucrou, criticou quem coordenou o departamento de Setúbal e foi escutado, não venceu o Medo e a insegurança relativamente à isenta prática dos seus actos e, comprometido, não pelas acções, porque foram lícitas, mas pelo peso das palavras que frontal e publicamente não ousou proferir, rendeu-se ao básico instinto de sobrevivência e como Juvenal nas suas “Sátiras” nos legou, pela vida perdeu a razão de ser da Vida!

Alienou a sua Dignitas!

Charles Darwin na sua obra, “A expressão das emoções no homem e no animal”, revela-nos a profunda semelhança de ambos; na sua explicação da teoria evolutiva, coloca-nos no mesmo ramo que os primatas. Todo o animal tem medo e reage fugindo ou lutando.

Como nos dizia Albert Camus: “A grandeza do homem está na sua decisão de ser maior do que a sua condição.”

Não somos nós e as circunstâncias, mas sim nós próprios apesar das circunstâncias!

“Leal Pedro”, eu já podia estar em casa com os meus, no conforto do lar, se tivesse compactuado com a tese da Maria Alice e da acusação e denunciado o(s) colega(s) que eles acham que me avisaram!

“Leal Pedro”, embora a minha Fortuna, tenha mudado, não mudou a minha condição: eu sou um Homem!

Compreenderia e enalteceria a atitude (caso se tivesse verificado aquilo que foi relatado) se fosse a virtude que tivesse conduzido o acto, mas o Medo, o irracional Medo … a falta de confiança nas acções praticadas …

Num artigo DN/The New York Times, “Amor moderno-mudar de pele no zoo”, Amy Bonnaffons escreve: “[…] A frase de Dar Williams que mais frequentemente humedecia a manga azul da minha t-shirt dos gorilas era: “Estou decidida a nascer, e assim resignada à coragem” […]”  

“Leal Pedro”, para sermos mais que uma ameba temos que, necessariamente, resignarmo-nos à coragem!

Quando li as declarações (prestadas somente um ano depois do que alegou ter acontecido) e que se encontram no inquérito, previ a “actuação” da passada quarta-feira.

Desassossegou-me o que li, e como no “Livro do Desassossego” de Pessoa, soube-o “com uma antecipação amarga e irónica”, mas soube-o “com a vantagem intelectual da certeza” de que o “leal Pedro” iria representar o mais vil papel na sala de audiências.

Nem os mafiosos o fazem, mas o “leal Pedro” fê-lo: envolveu a Família.

Declarou que eu tinha preparado a Família e a minha residência para uma eventual busca domiciliária. A minha mulher estava grávida de 7 meses, da terceira melhor parte de mim que conheceu o Mundo já estava eu preso, tendo passado mal com o sucedido.

“Leal Pedro”, a Família não! Não vale tudo!

Mais uma vez, o grande Mestre Umberto Eco: “Quando pensamos num livro não devemos perguntarmo-nos o que é que diz mas o que significa”.

O que significam as palavras do “leal Pedro”, mais do que dizem? Significam Medo!

André Malraux: “A verdade de um homem é em primeiro lugar aquilo que ele esconde”.

E o que esconde o “Leal Pedro”? Medo!

Dois colegas arrolados como testemunhas pela Acusação, compareceram antes do “leal Pedro”, poderiam ter compactuado facilmente com a Maria Alice, não o fizeram, e numa manifestação de apoio, um piscou-me publicamente o olho, o outro, à vista de todos, num gesto, desejou-me força e declarou ser meu amigo. Não se macularam ou foram considerados corruptos, apenas assumiram as suas acções, confiantes nas mesmas e na sua idoneidade.

Somente se deve olhar outro homem de cima para baixo, “leal Pedro”, quando se lhe estende a mão para o ajudar a erguer-se!

Há dias lia sobre os “Sonderkommando”, judeus que trabalhavam nos campos nazis, policiando os outros judeus, trabalhando na queima dos cadáveres. Li o seguinte: “[…] Além de ser moralmente abusivo fazer apreciações sobre a atitude de seres humanos involuntariamente colocados em situações-limite (“um homem na prisão não é um homem, é um homem na prisão”, disse um dia o escritor Mário de Carvalho”) deve notar-se que a esmagadora maioria dos prisioneiros, em todos os lugares dos campos, não tiveram um comportamento moralmente irrepreensível para os (nossos) padrões convencionais: lutavam ferozmente entre si por um pedaço de pão ou pelos melhores lugares nos beliches, roubavam-se e agrediam-se, mentiam, atraiçoavam, formavam grupos e facções, denunciavam os caídos em desgraça […]” (in, revista “Ipsilon, 26/Fev/16, por António Araújo, “Sonderkommando: a morte entranhada na pele”)

Vês, “leal Pedro”, eu até nem posso ser moralmente condenado se, à semelhança do que o “leal Pedro” fez, mentisse e praticasse traição, porque há dois anos que estou “involuntariamente colocado em situação-limite”!

Então porquê, “leal Pedro”? Medo?

Quando questionado por um advogado (não foi a minha defensora) a quem tudo aquilo que disse o “leal Pedro”, o fez sentir fétido miasma: “Quando ouvi o que o Inspector João de Sousa me disse, nada do que disse o comprometeu.”

Mas, segundo declarou, de imediato comunicou à Dra. Maria Alice, conquanto as suas declarações só surjam nos autos, um ano depois do que afirmou ter sucedido!!!

Assim vivi eu os meus “Idos de Março”!

Não sendo eu grande quanto César foi, não possuindo o favor da Musa que sorriu para o bardo Shakespeare, vou adaptar ao “leal Pedro” o discurso final de Marco António perante o cadáver de Marco Bruto. Assim será porque o “leal Pedro” não apresentou, apesar de tentar fazê-lo crer no Tribunal, a nobreza de Bruto. Se assim fosse, poderia terminar com um “Et tu, Pedro?”, mas este Pedro não foi nobre nos actos e propósitos.

Vamos adaptar e terminar assim: “É o menos nobre e mais vil entre todos. Todos os conspiradores, ele incluído, fizeram o que fizeram alimentados por algo medíocre. O “leal Pedro”, com desonesta mente, e para se salvaguardar, juntou-se aos outros.

A sua vida foi maculada pelo seu acto, e os vários falsos elementos tão unidos nele, que a natureza pode levantar-se para proclamar ao Mundo: “Eis, aqui, um Rato!””

Apelo

Caros Leitores,

Como é do Vosso conhecimento o Inspector está preso preventivamente faz dia 29 de Março, 2 anos! E sem quaisquer provas apresentadas contra o mesmo, pela acusação, que o justifique.

Faltam apenas 258 assinaturas para ser possível enviar a petição para a Assembleia da República.

Assinem por favor, divulguem e ajudem nesta causa:

Petição – Vamos Ajudar Quem nos Ajudou

Muito Obrigado.

A Família de João de Sousa

 

Castigat ridendo mores

Castigat ridendo mores: rindo, castiga os costumes!

Esta locução latina é a divisa da Comédia, fruto da imaginação do poeta Santeul, divisa que o arlequim Domínico aproveitou para o pano de boca do seu teatro.

Uma Comédia é uma peça teatral que provoca o riso, apresentando ao público os costumes, as idiossincrasias ridículas de algo ou alguém, assim como a sucessão de episódios inopinados que, surgindo inesperadamente, provocam a saudável gargalhada.

A Tragédia leva à cena personagens, muitas das vezes ilustres, cuja acção se destina a inspirar terror ou piedade através do espectáculo das paixões humanas e das desgraças que provocam.

A Tragicomédia é uma obra dramática que encerra em si a Tragédia e a Comédia. No séc. XVII, era uma Tragédia amenizada cujo desenlace é feliz.

Entendo a Vida como um breve acto, uma representação, o desempenho de um papel com muita improvisação (na melhor das hipóteses, improvisos calculados, estudados, preparados).

Neste momento da minha Tragicomédia (julgo que as nossas vidas, a minha e a do(a) Estimado(a) Leitor(a), são obras dramáticas que alternam entre a Tragédia e a Comédia), a subida e a descida do pano é regida pelo início e final de cada sessão de Julgamento. Presentemente estamos prestes a iniciar, dia 7 de Março de 2016, o 16º acto (16ª sessão).

A beleza e o fascínio da Vida residem no facto de, durante a representação, existirem momentos de riso, choro, exaltação, dor, prazer, um caleidoscópio de emoções e estados que, mesmo no mais baixo e escuro dos momentos, nos leva a dizer “que isto é melhor que falecer”, senão vejamos:

Tragédia: Aquando da publicação deste texto, faltarão 22 dias para 2 anos de prisão preventiva! Conquanto eu adore ser distinto dos demais, apesar de ser extremamente competitivo e desejar sempre ir mais além, dispenso o título de preso preventivo com mais tempo de reclusão em “Ébola”, ou mesmo, o indivíduo que há mais tempo está em prisão preventiva em Portugal.

Profundamente orgulhoso de ser quem sou, incomoda-me um pouco não ter a influência de um Ricardo Salgado ou mesmo a presumível inocência de um José Sócrates, assim sendo, a expressão é de tristeza, até porque, no dia 14 de Março de 2016, a minha filha mais velha faz 13 anos e, pelo segundo ano consecutivo, não a vou ver a soprar as velas. Estamos no reino da Tragédia.

Comédia: Esta semana que passou, quando entrei na sala de audiência cantava-se os “Parabéns a você”! O colectivo de Juízes e o Ministério Público não se encontravam.

Juntei-me à parabenização. No final disse à Sra. Dra. que festejava o seu aniversário:

– Sra. Dra., parabéns. Se gostar de peças de ouro, não hesite! – apontando os meus co-arguidos.

De forma célere, urbana e acintosa:

– Sr. Inspector, o que eu precisava mesmo era que fizesse umas pesquisas, que me visse umas matrículas! – sorrindo.

A réplica foi mordaz, inteligente e elegante. Rimos com gosto, no meio do espaço da dura lex, sed lex a Comédia surgiu e o ensinamento ficou: nunca se deve provocar um causídico!

Tragédia: Será que eu de alguma forma provoquei o meu anterior advogado ou o mesmo é de facto, relapso?

Como já escrevi amiúde neste espaço: o meu ordenado foi cortado na totalidade, ao contrário do que aconteceu com outros presos preventivos que por aqui passaram, ou que estão nas mesmas condições que eu.

O meu anterior advogado entrou com uma providência cautelar e recorreu da sentença do TAC de Lisboa, sentença datada de 1-4-2015.

Tenho escrito, manifestando a minha indignação, que poderiam, pelo menos, ser céleres na decisão, não deixando neste limbo um indivíduo que há 2 anos não recebe parte do ordenado a que tem direito e que a lei considera presumivelmente inocente até o final do Julgamento.

Tenho que pedir desculpa ao “sistema”! A minha advogada oficiosa, profissional diligente, ainda que não me represente na “questão da medida cautelar”, entregou-me cópia do acordão datado de (atenção) 9 de Julho de 2015, do Tribunal Central Administrativo Sul, cuja decisão foi “negar o provimento ao recluso interposto e confirmar a decisão recorrida”, i.e., estou sem ordenado!

Chamei a atenção do(a) Leitor(a) para a data do acordão porque o meu anterior advogado que pediu-me 10.000€ só para o Julgamento (7.000€ já tinham sido dispensados para a fase de inquérito!) até à data em que “rescindimos contrato” – uma semana antes do início do Julgamento (11 de Janeiro de 2016) – não me informou que o resultado do seu recurso fora negativo.

No meu texto anteriormente publicado (4 de Janeiro de 2016) “Show me the money”, escrevi:

“[…] O meu advogado, Dr. Santos de Oliveira, não tem culpa que o sistema não dê resposta à minha providência cautelar, nem é o responsável […]”

Vamos corrigir e aceitar a Tragédia, identificando os “actores” para evitar futuras Tragédias: o Sr. Dr. Victor Santos de Oliveira, da “Santos de Oliveira e Associados – Sociedade de Advogados, R.L.”, com escritório na Rua Marquês da Fronteira, nº 133 – 2º, 1070-292 Lisboa, telf: 213 143 313, Fax: 213 143 315, NIF: 509493772, registada na O.A. sob o nº 69/10, http://www.santosdeoliveira.pt, foi relapso, o que é o mesmo que dizer, que foi negligente no cumprimento de suas obrigações, relaxado, displicente.

E quem duvidar ou considerar que é o mau feitio do João de Sousa a falar, consulte o Acordão do Tribunal Central Administrativo Sul, processo 12219/15, secção CA-2º juízo, data do acordão: 9-7-2015; relator: Rui Pereira.

Eu fico com muito mau feitio quando a minha mulher e a minha “ninhada” passam dificuldades, tudo porque alguém a quem eu paguei um serviço (sempre a tempo e horas) foi relapso.

Alguns excertos do acordão referido: “[…] A evidência de procedência do processo principal deve, naturalmente, poder ser facilmente constatada pela simples leitura da petição, ou resultar, de forma inequívoca e, portanto, sem qualquer esforço exegético, de qualquer elemento documental junto ao processo […]” Como?! Então o Sr. Dr. Santos de Oliveira não apresentou e justificou de forma clara o quanto prejudica a suspenção da minha remuneração?

Mais: “[…] o recorrente não fez prova quanto à alegada situação de desemprego por parte da sua mulher […] não basta fazer afirmações vagas e inopinadas conclusões, mas sim, citar doutrina e jurisprudência que se mostram assentes; sobre que versam; qual ou quais as suas fontes onde estão publicadas, em que datas e as referências dos processos e tribunais onde foram proferidos tais sentenças/acórdãos […]”

Deuses! Mas eu paguei para este indivíduo fazer exactamente o quê?!?

Vejam esta: “[…] De salientar que o recorrente não pôs em crise a análise efectuada pelo Douto Tribunal a quo […] isto é, o recorrente conformou-se, pelo que, quanto a este requisito, a sentença recorrida, transitou em julgado […] Por fim, quer os articulados quer as conclusões do recorrente são extensas, repetitivas e prolixas […]”

Observem o desenrolar da Tragédia (ainda o acórdão): “[…] De igual modo, a sentença recorrida afastou a verificação do requisito do periculum in mora, porquanto o requerente não explicou, alegando factos concretos, porque razão a não adopção da providência requerida lhe causa prejuízos irreparáveis com a acção principal, nomeadamente porque não alegou nem fez prova sumária da composição do seu agregado familiar, o montante das despesas que suporta, as receitas e as suas fontes de rendimento – v.g. patentes na declaração de IRS, que não juntou […]”

Mas o que é que este notório e evidente relapso andou a fazer com o meu dinheiro e com toda a documentação que eu, através da minha mulher, lhe facultei?

Este indivíduo relapso que não dignifica a classe profissional a que pertence, dizia-me para eu me conformar porque era assim o sistema: moroso, injusto!

O próprio acórdão citado refere aquilo que deveria ter sido feito e não o foi, à semelhança de um acórdão da Relação sobre a alteração da minha medida de coacção, acórdão em resposta a um recurso do Dr. Santos de Oliveira!

Enquanto isto, uma boa Tragédia é sempre rica em infortúnios: a minha mulher foi informada que ficará desempregada a partir de 6 de Abril!

Comédia: Uma advogada “mais madura” que defende um co-arguido meu, na terceira ou quarta sessão, conjuntamente com a minha actual defensora, abordou-me na sala do Tribunal:

– Deixe-me dizer-lhe que um colega meu é fã do seu “blogue”.

– Muito bem. – disse eu.

– Eu não sou, não gosto de si, acho-o um forreta. Então não tem 10 mil para o advogado? Eu por 5 defendia-o, mas não o faço porque é forreta! – sorrindo.

Tragédia: Como o(a) Leitor(a) sabe, estive fechado 24 horas por dia, durante 6 dias, com somente duas horas de “céu aberto”, isolado, com restrição das horas de visita de familiares, (1 hora semanal), tudo porque opinei e denunciei as condições do estabelecimento prisional de Évora, tendo sido castigado ao abrigo do artigo 104º (infrações disciplinares graves), alínea G) (divulgar dolosamente notícias ou dados falsos relativamente ao estabelecimento prisional e criar deste modo perigo para a ordem e segurança deste).

Na sexta-feira, 4 de Março de 2016, no programa da RTP1, “Sexta às 9”, ex-reclusos, guardas prisionais com a voz distorcida e capuz a cobrir a cabeça e o rosto, denunciaram tudo aquilo que eu, neste espaço, propalei, só que no meu caso foi, como sempre, com a cara a descoberto e nunca de costas oferecidas a quem me escutava, julgava ou castigava!

Ainda recordo as palavras presentes no despacho que determinava o castigo, algo como isto: só eu é que me queixava, todos os outros não o faziam, logo eu mentia!

A Tragédia continua, Domingo, 6 de Março de 2016, vou novamente para o estabelecimento prisional junto da P.J., onde serei fechado, isolado, sem “céu aberto”, sujeito ao autêntico “bullying” por parte da restante população reclusa que não gosta muito de “P.J.`s porcos” e fazem questão de me fazer sentir essa “disposição contrária”.

E porque é assim? Porque a D.G.S.P. e o Director de “Ébola” assim o decidiram, independentemente do bem-estar do preso preventivo, independentemente de, como aconteceu esta semana, ser despejado aqui em “Ébola” e nem sequer terem providenciado pela minha refeição do almoço atempadamente.

Tragicamente, sou como o pedaço de carne que Shylock exige a António, na peça o “Mercador de Veneza” de Shakespeare! Carne do flanco dispensável!

Comédia: Mas como tudo o que desce, sobe e depois de chorar temos que rir: José Manuel Coelho, deputado madeirense, em plena sessão da Assembleia Regional, desnuda-se e fica em cuecas, meias e chapéu na cabeça, em sinal de protesto!

Castigat rindo mores!!!

Eu, como gosto de ser diferente e ir mais além, quando atingir o desespero – e já faltou mais – com todo o respeito, e é muito, perante o “meu” Tribunal, nem as cuecas ficam!

Tragédia: Para a semana, dia 9 de Março de 2016, convocada para as 14h00, apresentar-se-á uma testemunha de acusação que irá representar um papel tão antigo quanto o próprio homem. Uma personagem que quase sempre se apresenta sombria, com pústula escura produzida pelo bacilo do carbúnculo cobrindo a pele verde, trajando pusilanimidade, corcovada e coxa como a mentira.

Os “Idos de Março” chegaram 6 dias mais cedo; será o tema do próximo texto.

Até lá, e porque já estão agendadas sessões até Junho, não podemos anunciar como no teatro antigo, acta est fabula, ou seja, “acabou a representação”.

Até lá, até aos meus “Idos de Março”, vou sorrir mais algumas vezes, penar outras tantas mas sempre fascinado por tudo isto, pela maravilhosa e terrível experiência que é Viver de facto e suportar aequo animo os golpes da adversidade e da traição.

Não se esqueçam: mesmo assim, isto “é melhor do que falecer”!