“Voando sobre um ninho de cucos (em “Ébola”)”

Liberdade daqui a: 451 dias!!!!

Recordam-se do episódio do “recluso desequilibrado” que aquando da minha primeira saída jurisdicional – ao fim de 4 anos e 4 dias – tentou agredir-me e depois simulou uma agressão de que se dizia vítima? Tudo isto, 5 minutos antes de eu sair!

Estão recordados do processo de inquérito que foi aberto, após denúncia do “recluso desequilibrado”, no qual eu era referenciado como agressor e que protelou a minha saída de curta duração concedida pela Directora do E.P. de “Ébola”?

Para aqueles que desconhecem, leiam o texto deste blogue, “Intramuros, no meio da merda, é inevitável: sujamo-nos!”

Regresso ao infeliz incidente porque não Vos relatei como tudo se resolveu (ou não resolveu).

A “palhaçada” foi levada ao palco a 30 de Março de 2018; eu fui ouvido como testemunha no processo de inquérito a 22 de Maio de 2018; a 24 de Maio de 2018 assino o meu RAI (atribuição de Regime Aberto no Interior); a 1 de Junho de 2018, vou três dias a casa; a 7 de Junho de 2018, o “recluso desequilibrado” é colocado em liberdade!

Cumpridos os 120 dias de prisão efectiva porque não pagou umas multas (diz-se por aqui) o “recluso desequilibrado”, reinserido e ressocializado, foi colocado em liberdade!

Entretanto, o recluso João de Sousa viu a sua saída de 3 dias protelada durante 2 meses, assim como esteve sob a ameaça de processo disciplinar e consequente condenação, situação que comprometeria o seu tratamento penitenciário (o que é o mesmo que dizer que não estaria a ressocializar e a reinserir de forma capaz, como fez o “recluso desequilibrado”) ameaça que pairou sobre si durante 52 dias!!!!

Reparem na resistência à frustração, na resiliência e na capacidade de diferir a gratificação que o filho da D. Julieta e do Sr. Fernando encerra na sua pessoa: tudo suporta sem estrilar!

Mas tudo se resolveu, dizem Vocês? Não, Estimados e Estimadas! Quando fui ouvido pelo adjunto da Directora, que me sossegou sublinhando que eu não era arguido, logo não se tratava de um processo disciplinar, acrescentou, como que colocando a “espada de Dâmocles” sobre a minha cabeça rapada: “Sr. João, se por acaso surgir alguma testemunha ou um dado novo, ainda pode ser constituído arguido. O processo continua aberto!” – com aquele sorriso de uma cor que se situa, no espectro solar, entre o verde e o alaranjado.

Desde 30 de Março de 2018 até à data da publicação deste texto, decorreram 87 dias!!!!

O “recluso desequilibrado” já está em liberdade; decorreram 87 dias mas, atenção, pelo sim pelo não, vamos deixar isto em aberto porque reclusos equilibrados, serenos e focados no cumprimento da pena não é o que se pretende.

Ninguém é voluntariamente miserável, nem involuntariamente feliz, e, aqui em “Ébola”, há quem faça questão de reforçar a máxima enunciada.

Tudo isto é o “sistema penitenciário” mas, admito-o, é também muito de mim! Eu, após ter sido prejudicado por falsos testemunhos e simulações de agressões, pretendo que sejam responsabilizados os autores morais e materiais: afinal isto não é uma prisão de OPC´s e afins (orgãos de polícia criminal e outros) ?

Então, não se dispôs um miserável, um doente mental aqui recluído, a ser testemunha do “recluso desequilibrado”, garantindo ao corpo dos guardas que tinha sido testemunha do ocorrido, quando, (felizmente guardas prisionais assim o testemunharam) este verme amblíope nada viu porque não estava presente no local da simulação?

E agora: o que vai acontecer a este sujeito aqui recluído, autêntica varejeira, que com o seu falso testemunho condicionou o meu tratamento penitenciário?

A imagem deste texto é do filme de 1975, de Milos Forman, “Voando sobre um ninho de cucos”, e vão perceber como ilustra bem o que aqui se passa assim que eu Vos apresentar este personagem, um miserável que nos provocaria pena ou seria alvo de chacota, não se revelasse o mesmo extremamente perigoso neste microcosmo em que eu e outros temporariamente estamos inseridos.

Tricotilomania: arrancamento recorrente do próprio cabelo/pêlo, resultando em perda capilar/pilosa.

Este sujeito apresenta-se com visíveis peladas em ambas as regiões parietais.

Sempre que se verifica uma alteração do seu estado emocional, algo que ocorre diariamente, no dia seguinte, desencadeado pelo sentimento de ansiedade que experimenta, precedido por uma sensação crescente de tensão, aparecem as peladas!

Esta perturbação é mais comum em indivíduos com perturbação obsessivo-compulsiva; o sujeito em questão apresenta várias obsessões e/ou compulsões. É conhecida a compulsão dos “baldes de água na casa de banho”! Teve que ser chamado à atenção!

Com uma frequência quase diária, o sujeito coloca na caixa de madeira destinada para esse efeito, reclamações dirigidas à Directora do E.P.

Uma das últimas foi a reclamação relativa ao facto de os produtos de higiene, nomeadamente os champôs, apresentarem as propriedades e indicações em língua estrangeira!!!!!

Estão a rir agora, não é? Eu também ria até há pouco tempo atrás!

Observem o grau de perigosidade da criatura: antes de o afastar definitivamente, de “cortar” os encontros diários, o sujeito amiúde deslocava-se à minha cela para auxilia-lo na escrita de petições, pedidos de precária ou no esclarecimento de uma qualquer questão jurídica.

Certo dia, com o maior dos cuidados, de uma forma sigilosa pediu para falar comigo.

Notoriamente a experimentar um episódio hipomaníaco, solicitava a minha ajuda para redigir um texto a partir das ideias desconexas que apresentou-me manuscritas em cerca de 20 páginas, nas quais expunha, denunciando, uma rede de indivíduos (entre guardas e reclusos) que introduziam e transacionavam aparelhos telemóvel na prisão de Évora, destacando entre estes um guarda em particular que o tinha abordado, sondando-o no sentido de lhe vender um telemóvel!

Conquanto uma das principais regras (possivelmente a mais importante regra da prisão) seja “mete-te na tua vida e na tua vida somente”, não foi a observação rígida do “normativo do submundo” que fez com que eu tenha mandado o tipo arejar, foi o padrão de excessiva emocionalidade do seu discurso verbal, as distorções cognitivas e/ou perceptivas que apresentava, tudo isto condimentado por um padrão de desconfiança e suspeição, atribuindo invariavelmente a todos aqueles que não conseguiam ver o que via ou não estavam de acordo, motivações malévolas (eu, depois do descrito, fui incluído neste lote de proscritos!).

Para o(a) Leitor(a) com conhecimentos nessa área do Saber, é fácil perceber que estive a descrever comportamentos que são critérios de diagnóstico para Perturbações da Personalidade!

Para o Serviço de Segurança e Vigilância do E.P. de Évora ou para a área do Tratamento Prisional e da Prestação dos Cuidados da Saúde, ou mesmo para a Direcção do E.P. de “Ébola”, não sei como interpretam as acções deste sujeito, apenas verifico que recebem-no, ouvem-no e por vezes são alterados procedimentos/regras que a todos prejudicam, tudo consequência dos delírios paranóides deste verme infeliz!

Para mim, esta alimária é um constante teste à capacidade de “controlo-de-mim-mesmo”, algo totalmente diferente de “ter controlo” sobre algo: “[…] o controlo refere-se à competência do indivíduo para fazer o que quer fazer, livre de forças ou obstáculos externos. O “controlo de si próprio”, ao contrário, refere-se à competência para ultrapassar forças e obstáculos internos, a competência para se impedir de fazer algumas das coisas que deseja fazer e, do mesmo modo, para fazer algumas que preferiria não fazer, com o objectivo de conseguir, um dia, o que realmente pretende […]”

(“Psicologia”, Henry Gleitman et al.)

Termino deixando-Vos um excerto  do Decreto-Lei nº 215/2012, de 28 de Setembro: “No âmbito do Compromisso Eficiência, o XIX Governo Constitucional determinou […] A criação da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais permite uma intervenção centrada no indivíduo desde a fase pré-sentencial até à libertação, preparando, em colaboração com os serviços do sector público e privado, oportunidades de mudança e de reinserção social, diminuindo as consequências negativas da privação da liberdade e reduzindo os riscos de reincidência criminal […]”

Digam lá, sinceramente, se eu não estou aqui em “Ébola” a voar sobre um ninho de cucos?!?

 

P.S. – Para a semana relato-Vos outra pérola do meu percurso de reinserção e ressocialização!

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Grato pela atenção,

O Inspector João de Sousa

“História de (des)encantar!”

Liberdade daqui a: 458 dias!!!!

Lamento, Estimados e Estimadas, o atraso na publicação do texto da passada semana mas, infelizmente, é assim mesmo o “sistema”; assim é o “tratamento prisional” que, teoricamente, incentiva (“proporcionando”) a manutenção dos “contactos através de telefonemas ou troca de correspondência, como forma de manter e reforçar laços familiares por se revelarem importantes para a manutenção da sua estabilidade emocional.” (“sua”, do recluso)

Na quarta-feira, 13 de Junho de 2018, a “mãe da ninhada”, a minha “irmã”, celebrou mais um aniversário natalício que (vejam lá a sorte madrasta dela) coincide com o aniversário do nosso casamento. Liguei para a parabenizar. A chamada caiu e não foi possível ligar outra vez! Não cheguei a falar com ela: como é que se mantém desta forma os laços familiares?!?

Deixemos o “mais do mesmo” e vamos ao tema de hoje!

Hoje quero deixar-Vos uma história de (des)encantar, avisando que qualquer semelhança com a realidade, com pessoas ou factos recentemente noticiados é pura coincidência, e assim terá que ser considerado porque tenho uma “ninhada” para alimentar e não posso (não consigo) pagar indemnizações!

Escutem com atenção!

“Era uma vez um belo país à beira-mar plantado, cujo povo era considerado herói de uma grande extensão de água salgada, que nas suas trovas, no seu imaginário sempre foi descrito como distinto, dono de uma elevação moral superior, uma comunidade humana fixada, na sua maioria num pequeno rectângulo, com unidade histórica, linguística, religiosa e económica, epitetada pelos seus como valente e imortal.

Neste cantado utópico país, certo dia, inesperadamente para alguns (uma larga maioria) uma coisa indecorosa, contrária aos bons costumes, deixou todos (os que desconheciam) num estado de perplexa indignação!

Muitos notáveis, entre estes vários que se dedicavam à nobre actividade da política, inclusive quem administrava o Estado, foram vistos envolvidos em “fantasias sexualmente excitantes, impulsos sexuais ou comportamentos recorrentes e intensos, envolvendo actividade sexual com uma criança ou crianças pré-púberes (geralmente com 13 anos ou menos), por um período de pelo menos 6 meses.”

O abalo foi enorme, a violenta comoção sentida traduzia-se num povo boquiaberto que criticava tudo e todos!

Por esta altura, no meio de todas estas convulsões, um jovem, no seu local de trabalho, após ser solicitada a sua presença para que fosse testemunha do indizível e assim ajudasse a aliviar o pesado fardo que um colega mais velho involuntariamente carregaria, ouve em directo, na primeira pessoa porque o aparelho destinado a transmitir e reproduzir o som da fala humana foi colocado em “modo de alta voz”, uma mãe (que infelizmente comerciava profissionalmente a prática sexual e que também auxiliava ocasionalmente a administração da ordem e segurança públicas) a denunciar um indivíduo nascido do mesmo pai e da mesma mãe que o sujeito que agora estava preso, e que até à sua prisão se dedicava à ciência do governo do povo valente e imortal, povo esse que, após ser conhecida a perturbação parafílica do indivíduo em questão, passou a reprovar violentamente o sujeito!

A mãe coragem, solicitava ajuda à instituição que o jovem e o mais velho colega serviam, denunciando o tal irmão porque tinha este oferecido dinheiro para a mãe industriar um dos seus filhos (na altura preso pela prática de crimes, consequência da necessidade e da rebeldia da adolescência) a alterar as suas futuras declarações, ilibando o irmão governante, não o colocando a participar em festins licenciosos com menores de idade, não descrevendo ou fazendo menção sequer a qualquer particularidade da sua superfície corporal que pudesse individualizar o sujeito (irmão do zeloso irmão), pormenor que imprimiria idoneidade ao testemunho do adolescente que para além dos crimes praticados para sustentar a sua família e os seus “luxos/vícios”, também comerciava o seu corpo para satisfação da parafílica lubricidade de terceiros!

“O que é que eu faço?” – questionava a mãe.

A instituição que o jovem e o mais velho colega serviam era pródiga nestas ocorrências, porque gozava de um prestígio muito grande, era considerada o último bastião da Justiça e, naturalmente, as pessoas recorriam a esta.

Talvez por ser jovem e inconsciente, o jovem resolveu de imediato assumir as rédeas de tão delicada diligência e, perante um indeciso colega mais velho que ficou por onde estava, deslocou-se ao espaço reservado a quem incumbia orientar e harmonizar os trabalhos do grupo, e comunicou-lhe o sucedido.

Convolações várias ocorreram. Convexidades e concavidades foram cobertas. Forças centrífugas e centrípetas libertadas. Passaram-se meses e o irmão do outro, que preso estava, libertado foi. A recepção foi apoteótica. Os correligionários em êxtase celebraram (alguns, porque outros ainda aguardavam que por eles passasse a sombra da suspeição).

Tudo o que deveria ser retido foi esquecido, e o valente povo que maiores provações entretanto sentiu na pele, relevou mais a dor que entretanto sentia na economia da sua Casa do que a dor moral que mais facilmente se suporta porque é mais fácil passar ao lado dos deveres e do modo correcto de proceder dos homens nas relações com os seus semelhantes.

Mais do que meses, passaram-se anos. O governante que foi preso remeteu-se a um cauteloso e táctico “ensombramento”.

Maior escândalo ocorreu e um dos correligionários que na altura ao irmão do outro auxílio não prestou, demarcando-se, provou o fel ao ver-se na prisão, repudiado pelos seus que a roda da Fortuna colocava a reinar!

O povo teve alegrias cantadas e jogadas, entretanto!

O jovem achou-se maculado, caído em desgraça e recluído viu as alegrias jogadas e cantadas do povo do qual fazia parte!

Ainda a atravessar o deserto da reclusão, certo dia, o jovem vê no aparelho receptor de imagens que branqueia ou mancha reputações, o tal irmão do filho do mesmo pai e da mesma que tentou comprar uma testemunha (sujeito que aproveitou a sombra e foi para uma terra que não a sua aumentar a sua fazenda) a ser nota breve sobre a compensação por incómodos causados agora lhe devida, vil metal que será retirado da fazenda pública!

Ó Justiça, filha deste pequeno país, desta pequena gente com um grande coração, do que não serias capaz se todos nós fossemos valentes e dedicados? Mas vê a tua fraqueza, traduzida neste triste espectáculo, nesta dolorosa história de (des)encantar!”

Aqui Vos deixo a minha história de (des)encantar, um dia depois do Ronaldo nos encantar!

Aqui Vos deixo a minha pequena história, um dia depois do encanto do Cristiano, um dia antes do desencanto do aniversário da tragédia de Pedrogão!

Aqui Vos deixo a minha humilde história de (des)encantar que é só isso, uma história que, admito, por partilharmos símbolos, por existirem certas semelhanças físicas, linguísticas ou funcionais todos Vós podem identificar com algo muito incómodo e grave.

Deixo-Vos agora a triste realidade: “Agindo desta forma, o arguido sabia que as suas condutas eram proibidas por lei.” (Expressão ritual da Justiça) A ausência desta numa acusação do Ministério Público levou o tribunal a absolver um pai que violou o filho de 14 anos, apesar de os factos do crime terem sido considerados provados e não se tratar de um acto em relação a cuja ilegalidade os cidadãos tenham dúvidas” (in Jornal “Expresso”)

Será que o jovem de 14 anos vai receber dinheiro da fazenda pública, como o personagem da minha história de (des)encantar, por a Justiça do seu belo país à beira-mar plantado ter (mais uma vez) falhado?

“Minudências: um primeiro passo para a indignidade!”

Liberdade daqui a: 465 dias!

Quando voltei para a prisão de “Ébola” após a minha primeira saída jurisdicional, no dia 2 de Abril de 2018, há dois meses atrás, questionei-me: voltar à prisão para quê?

Tinha estado 72 horas com aqueles que amo, com aqueles que têm sido de uma firmeza inquebrantável no auxílio da minha pessoa, dos meus e da minha causa, e, dolorosamente, não fazia sentido algum voltar para o caixote do lixo das forças de segurança e afins!

Conforme Vos deixei no texto da passada semana, as segundas 72 horas que gozei, concedidas pela Directora do E.P. de Évora (as primeiras foram concedidas pela Juiz do T.E.P. de Évora) foram igualmente prazerosas e, desta vez, profícuas em termos de actividade académica e profissional futura.

Na segunda-feira, 4 de Junho, dia do regresso a “Ébola” (para entrar no lixo até às 19h00) ajudei a bela Rita a traduzir estudos farmacológicos ingleses (espero ter sido útil) e reuni com um Mestre e Amigo com o objectivo de ultimar os passos finais para o arranque de um projecto que Vos apresentarei, algo que sem a colaboração, entusiasmo, orientação e dádiva do mesmo era de todo impossível concretizar.

Durante estas horas felizes de trabalho, preenchidas com diálogos inteligentes, gestos educados, etiqueta e urbanidade, esqueci completamente “Ébola” e 4 anos e 3 meses de verdadeiro Inferno, onde medra a miséria humana, a falsidade, a mediocridade e tudo aquilo que de pior pode encerrar o ser humano.

Cronometrado ao minuto, o tempo que dispensei para todas estas actividades foi o tempo em que me senti normal outra vez, outra vez cidadão, outra vez pessoa, outra vez alguém que contribui para algo válido.

Quando toquei à campainha do E.P. de “Ébola”, invoquei de imediato a obra de Primo Levi, “Se isto é um homem”.

Como todos sabem, Primo Levi foi um resistente contra a ocupação nazi, tendo sido preso e internado no campo de concentração de Auschwitz.

“Se isto é um homem”, é o título de um livro seu que relata a experiência que viveu em Auschwitz. Porquê recordar Primo Levi no regresso de 3 dias de liberdade?

O vasto oceano que separa os horrores das vítimas dos campos de concentração nazis e aquilo que eu passo/passei aqui, é de uma imensidão incomensurável, mas, existem pequenas áreas comuns, espaços que no momento actual de desenvolvimento civilizacional só se explicam com a ignorância, a mediocridade e a falta de bom senso.

Chegar e desnudar-me completamente em frente a dois guardas, quando existe tecnologia que permite detectar o mais pequeno dos artefactos inserido no meu ânus, eu até dou de barato, mas existem momentos e decisões que aqui vivi e presenciei que, como dizia Levi, só podem ser apanágio de “vermes sem alma”, neste caso não epitetaria de “vermes”… talvez “ignaros desalmados” porque reúnem pequenos poderes.

Eu explico. Revistada a minha pessoa, exposta a minha nudez (com as cuecas pelos pés!), abriram a minha mala e verificaram o seu conteúdo. Tudo bem, regras!

Entre a minha roupa vinham dois pacotes de papel (10cm x 13cm) de perfumador de armários, daqueles que se penduram no carro ou no armário. Marca “La casa de los Aromas”, essência: Algodão.

– Sr. João, isto não pode entrar! – Ainda estava eu a ajeitar a genitália nos “boxers”

– Mas entrou com os seus colegas na minha saída anterior! – Enquanto colocava o “Elvis” para o lado esquerdo.

– Pois é, mas isso foi com eles! Vai ficar aqui e pode fazer uma petição para a Directora a pedir. Se ela autorizar… – enquanto o colega, que antes tinha permitido a entrada, olhava fixamente o chão.

Claro que o filho da D. Julieta não fez qualquer petição e informou o zeloso guarda que podia colocar os “ilegais” sacos de cheirinho a algodão no caixote do lixo.

Esta banalidade, esta minudência, esta “minigância” ridícula é uma semente de erva daninha danosa da dignidade humana.

Eu cumpro, escrupulosamente, todas as regras, eu exijo a observação rigorosa dos meus direitos e isto é deveras incomodativo para alguns – guardas e reclusos.

Numa prisão onde artefactos proibidos (sim, desses que estão a pensar) são apreendidos mais vezes do que seria normal numa população de “ex-orgãos de polícia criminal”, com “apenas” 40 indivíduos recluídos; numa prisão onde um indivíduo há mais de um ano não toma banho e ninguém o chama à atenção para isso, não permitir a entrada dos saquinhos de cheiro, é como alguém se queixar de uma incómoda comichão no cotovelo a um indivíduo em fase terminal de cancro no pâncreas!

Em Auschwitz lia-se num aviso: Nach dem Abort, vor dem Essen Hände Waschen, nicht vergessen” (Depois da latrina, antes de comer, lava as mãos, não esqueças).

Enquanto eram avisados uns, outros eram “alvo de banho” que os tornavam cinzas!

Aqui em “Ébola” quem quer tornar mais salubre o espaço onde vive não pode, porque alguém com um pequeno poder não deixa.

A questão é: como é que uma situação destas, que Vos pode parecer banal, sem significado, é útil para alguma coisa, nomeadamente a minha reinserção?!?

Como é que esta despersonalização, este despir de humanidade vai contribuir para o melhoramento da minha pessoa, para a minha ressocialização?

Em Auschwitz era atribuído um número ao sujeito que entrava, sendo o mesmo tatuado no antebraço. Levi fala de um sujeito, o “Null Achtzen” (zero dezoito – 018). Escreve Levi: “Não tem outro nome, Zero Dezoito, os últimos três algarismos do seu número de matrícula: como se cada um se tivesse apercebido de que só um homem é digno de ter um nome, e de que Null Achtzen já não é um homem”. Eu tenho um número atribuído mas não respondo por ele, só quando chamam o meu nome. Aqui tratam os reclusos pelo nome mas por vezes solicitam o número. Eu só respondo pelo nome. Quando perguntam o meu número, respondo invariavelmente: João de Sousa!

Acham um capricho. Uma questão menor. Dois saquinhos de cheiro, um número?

Deixo-Vos Primo Levi que muito mais sofreu do que eu:

“É preciso lutar contra a corrente; dar batalha todos os dias e todas as horas à fadiga, à fome, ao frio e à inércia que daí deriva, resistir aos inimigos e não ter piedade dos rivais; aguçar a inteligência, endurecer a paciência, afinar a vontade. Ou então destroçar qualquer dignidade e apagar qualquer relâmpago de consciência”.

Façam este exercício: se isto é assim com dois saquinhos de cheiro, imaginem como será com a comida, a observação capaz dos reclusos, a educação, o respeito, a reinserção, a ressocialização…

Informação

Caros Leitores,

Devido à morosidade no processamento de envio do correio, o Inspector lamenta não ser possível a publicação semanal do texto com a assiduidade habitual, sendo a responsabilidade dos Serviços Prisionais e dos CTT. Contudo, o mesmo será publicado logo que possível.

Infelizmente, estamos dependentes dos Serviços Prisionais e dos Serviços dos CTT.

Grato pela atenção,

O Inspector João de Sousa

“Tempus fugit”

Liberdade daqui a: 472 dias!!!!

Hoc opus, hic labor est

Assim falava a Sibila de Cumas quando a Eneias explicava a extrema dificuldade de regressar dos Infernos: “Aqui é que está o trabalho, aqui reside a fadiga”.

São 23h15 de Domingo, 3 de Junho de 2018.

Estou exausto, mal consigo abrir os olhos. A “ninhada” já está deitada – a Helena e o Júnior.

A Leonor, agora com 15 anos e a poucos meses de iniciar o “10º ano”, está na terra dos Templários, na sua viagem de finalistas. Hoje fui levá-la ao autocarro. A minha Leonor, a minha “Princesa Nô-Nô”, que agora é uma senhorita.

Estes três dias, estas 72 horas que demoraram 60 dias a nascer, demonstrando que mais uma vez tudo é tão difícil de parir quando se trata do filho da D. Julieta, já passaram. O “trabalho que foi” atribuírem o “Regime Aberto” ao recluso João De Sousa, a fadiga que experimentei durante estes 60 dias a suportar provocações diárias, a resiliência e paciência demonstradas que só são comparáveis ao extremo cansaço que agora experimento após o cumprimento de um plano traçado com uma semana de antecedência , no qual todo o “Secretariado” e afins proporcionaram a satisfação de alguns desejos, a concretização de “momentos doces” ou como o meu filho-homem disse quando soube que eu ia a casa: O Pai vem para brincar e sermos felizes?

Durante estas primeiras 48 horas fomos tão felizes que a palhaçada foi recorrente e nem deu para ver o Portugal-Bélgica.

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Passarinhos não havia mas compraram codornizes pequeninas!

Caracóis! Coelho à caçador! “Cheesecake” de frutos vermelhos! Tarte de amêndoa! Marisco!

– Que cerveja bebe o Pedro?

– Preta!

– Não temos! Vai comprar…

Um Sábado inteiro a comer. Compreendam, eu passo muita “fominha” em “Ébola”.

Cantamos, dançamos – kizomba, tango, sevilhanas – e uma coisa esquisita que um boneco verde na “net” dançava com uns movimentos estranhos dizendo: “Dame tu cosita!” (ou algo semelhante)

Cães aos saltos  – o Bono e a Molly – o Júnior em cima do Bono, a Molly em cima da Helena, a Leonor em cima de mim, eu debaixo de todos!

Cheguei a pensar: “Devia ter antecipado isto quando os fiz! E se eu sou preso por corrupção daqui a uns anos e depois tenho que vir a casa três dias para descansar…e ninguém me larga? Nem os cães!

– Amanhã temos uma nova aventura! – eu, beijando-os antes de irmos dormir.

Hoje, Domingo, acordar às 6H00 para levar a Leonor ao autocarro que a aguardava para a viagem de finalistas.

Quando chegar a casa os outros ainda estarão a dormir; vou aproveitar e durmo mais um pouco.

Abro a porta e….

– Pai, vais fazer os ovos mexidos e panquecas? – deuses, a Helena já está de pé e com fome.

– Helena ainda é cedo. Vai dormir que o mano ainda está a dormir!

– Não Pai, “extou” aqui a “faxer” “xi-xi”! Quero panqueca! Panqueca! Panqueca! – o Júnior com as cuecas em baixo e ainda agarrado ao apêndice ameaçado urinar o hall de entrada!

Não digam a ninguém, mas nesse momento quase que achei “Ébola” e a solidão  da reclusão uma coisa boa. Acreditem!

João de Sousa faz o pequeno- almoço.

– Tudo pronto? Apertem o cinto e vamos à aventura!

Fomos todos, excepto a Leonor, à Feira do livro! Há quatro anos que não visitava a feira, um ritual de sempre. Livros! A paixão desde pequenino. Foi a melhor feira de sempre…bom, quase, nas anteriores não existia o Júnior e a Patrulha Pata! Mais, não existia o Júnior e a Helena juntos…mais a Patrulha Pata e livros…da Patrulha Pata!

Correram, caíram, mexeram, tocaram, desbravaram páginas e páginas…da Patrulha Pata!

Talvez porque só oiça indivíduos recluídos a falar do mesmo – meio da pena, a suposta inocência, o erro judiciário – talvez porque só ande às voltas no pátio, ou para trás e para a frente nas alas, o Parque Eduardo VII mais me pareceu uma imensa selva, uma terra imensa onde existiam seres irrequietos – a Helena, o Jr. e a Patrulha Pata!

E se por acaso acham que a Patrulha Pata é mau, então é porque não conhecem o Capitão Cuecas!!!!

Vejam!

capitao cuecas

Mas eu sou um manhoso do crime, eu sou um manipulador, um gajo da corrupção, um mentalista! Solução: deitar na relva e deixá-los correr no “Mamirinto”!

Devem ler “labirinto” onde se lê “Mamirinto”, porque “mamirinto” é como o Jr. diz Labirinto!

No meio dos jardins desenhados do Parque Eduardo VII, os “monstros” da Patrulha Pata correram, correram, correram e correram…

O primeiro a desligar foi o Jr.!

gozo

A Helena gozou. Mas passados alguns minutos…

sono

25 minutos de viagem sem a Patrulha Pata, o Capitão Cuecas ou eles em cima de mim!

Tenho algum receio de estar a partilhar tudo isto com o(a) Leitor(a) porque temo que não seja isto a reinserção, a ressocialização que se exige a um condenado por corrupção.

Durante estes dias cheguei a desejar estar em “Ébola”. Será que já não tenho recuperação possível?  Será que já não consigo viver “na sociedade das pessoas normais”?

Esperem, chegou uma mensagem. É a Leonor! Vai dormir agora!

Tempus fugit! O tempo foge! O Tempo voa!

Somente 72 horas e ainda havia mais edições da Patrulha Pata para descobrir.

Amanhã já não estou com a “ninhada”. Amanhã não sou eu que vai buscar a Leonor e ouvir as suas “aventuras”!

Só saberei das ”aventuras” da Leonor daqui a 15 dias! Nessa altura, nas duas horas da visita, tenho de gerir o tempo que voará, que passará num ápice, por forma a escutar a Leonor e os outros dois da Patrulha Pata. A Helena e o Jr. vão querer contar-me o que leram.  O Júnior vai levar o livro que “comprou” na feira e muito possivelmente o guarda não vai permitir a entrada.

São as regras que permitem a minha capaz reinserção e ressocialização!

Amanhã (que já é hoje) não estarei com a “ninhada” porque vou reunir durante o dia, várias vezes com varias pessoas: estou de facto a tratar do meu futuro e da minha reinserção. Para breve notícias fresquinhas!

Muito em breve porque o “tempo voa” e 72 horas nada são para o usufruto de tamanha riqueza que eu de facto possuo! E não estou a falar de ouro, evidentemente!

Estou exausto, um cansaço bom que me preenche e vai ajudar a suportar o que ainda falta cumprir…. esperem! Oiço passos pequeninos….

Por favor, que não seja o Jr. porque não aguento ler mais uma vez a história da Patrulha Pata para ele adormecer!