“Karma ou Simplesmente Humano?”

Prisão Preventiva: 2 anos, 3 meses e 26 dias!!!

Leitura da sentença, faltam: 57 dias!

Dia 18 de Julho de 2016, segunda-feira, celebrou-se o “Dia Nelson Mandela”!

Nelson Mandela pediu a todos nós que fizéssemos “pontes”. Pontes entre amigos, conhecidos, familiares, adversários e, mais valoroso ainda, entre inimigos.

Esta semana, atendendo à data, ao que se celebrava, propus-me fazê-lo: compreender-me melhor por forma a entender o “Outro”, colocar-me na “pele” do meu interlocutor, na pele de quem não simpatiza, não gosta, daquele que antagoniza, critica duramente. Tentei perceber o que motiva o rancor, o ódio e cheguei à conclusão, após dura introspecção, que tudo é o resultado de um pouco dos outros e muito de mim (nem podia ser outra a conclusão alcançada por um reconhecido egótico).

Este autêntico castigo – 2 anos, 3 meses e 26 dias de prisão preventiva – tornou-me mais humilde (ainda que nutra uma megalómana expectativa de ser condecorado pelo Exmo. Sr. Presidente da República, uma vez que este está a agraciar todos os Campeões Europeus das várias modalidades e eu, assim como os meus quatro co-arguidos presos, somos “Campeões Europeus” de permanência em prisão preventiva!)

Conquanto tenha alcançado a difícil tarefa de ser mais humilde, não expectem que a capacidade de rir de mim mesmo se tenha volatilizado, até porque Winston Churchill deixou-nos: “Uma piada é uma coisa muito séria”. O tema de hoje é de tal melindre e gravidade, um atentado tamanho à minha masculinidade (pelo menos nas bocas daqueles que me criticam) que somente sorrindo consigo expor.

Nadine Dorries (MP “Tory”) uma das aliadas de David Cameron, disse ao “Daily Mail” da semana passada, sobre a vitória do “Brexit”: “Karma can be such a b…!”

Pois é, Caro(a) Leitor(a), o “Karma”, ou Carma, se quiserem, é o “encadeamento de causa e efeito, tanto no plano físico como no moral”, convicção presente nas religiões da Índia, e de facto pode ser algo tramado, se for essa a nossa crença: fizeste mal, a roda girou e o mal tocou-te à porta! Só tens o que semeaste!

Mas do que falo eu? Vou explicar, sem nunca deixar de “sacudir os guizos para que não me oiçam os gemidos”, como nos ensinou Camilo Castelo Branco.

Digam lá, se não é o “Karma” ou simplesmente o lado humano da questão.

Há uns anos atrás, estava no Tribunal de Almada a apresentar um homicida ao Juiz de instrução para a realização de primeiro interrogatório após a sua detenção.

O Juiz, Dr. Vitor Teixeira de Sousa, foi o juiz que, anos depois, decretou a minha prisão preventiva!

O colega da P.J. que comigo estava, titular do inquérito, no qual eu tinha colaborado – vou acrescentar, ironicamente, o que disse em Tribunal a Sra. Maria Alice – “pontualmente”, era alguém que tinha tanta vocação para investigar homicídios, quanta desenvoltura aritmética o Eng. António Guterres tem para fazer cálculos numéricos de percentagens do P.I.B. nacional!

E eu, soberbamente, propalava o facto, criticava o colega que em abono da verdade era apenas uma vítima da deficiente gestão de recursos humanos da instituição, mais concretamente na Coordenação do D.I.C. de Setúbal.

Relato isto para se compreender a gravidade do meu acto, a sobranceria do meu comportamento, a extrema falta de humildade, diria mesmo de empatia (pronto, agora vão afirmar que sou de facto um sociopata criminoso! Não faz mal, este é um exercício doloroso de contrição, fruto de árdua introspecção).

Sem falar um com o outro – só o indispensável “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” – cada qual ocupava seu tempo no espaço do Tribunal de Almada (o mesmo que é a sede do meu inquérito no âmbito do qual estou preso) aguardando a chamada do detido para se iniciar o seu interrogatório.

A certa altura, o colega dirige-se para a casa de banho. Passados cerca de 10 minutos, dirigiu-se a mim, após sair do W.C.:

– Olha lá … chega aqui comigo – sem me olhar.

– O quê?! – eu, depois de levantar os olhos da minha leitura.

– Vem comigo! – já se encaminhando para o local dos sanitários.

Sem perceber o que se passava, percebendo no entanto que algo, possivelmente grave, se tinha passado na casa de banho, segui o perturbado colega.

Ele, no interior da casa de banho, eu antes de franquear a porta:

– O que é que se passa? – eu já a sorrir.

– Deixa-te de m…! – ele junto da sanita, levantando o tampo da mesma – Vê lá!

– Vejo o quê? – sem controlar o riso, olhando a figura daquele indivíduo a quem custava esforço sobrehumano dar-me os “bons-dias”, quanto mais sujeitar-se àquela situação.

Esforçando-me para não rir, consegui articular:

– Queres que eu veja o que estiveste a fazer?

– Deixa-te de palhaçadas e vê lá, diz-me o que achas? – sem qualquer frescor nas faces, mais porque se viu na necessidade de recorrer a mim do que devido à falta de frescura que facilmente se sentia no exíguo espaço, atendendo ao cheiro que preenchia a divisão.

– Ok. Tens sangue nas fezes. – sentenciei sem conter o riso.

– Tá bem, ó Doutor. Isso sei eu. É mau? – sempre mirando a sua obra.

– Está prolapsada? – questionei.

– Porra! Julgas que estás a tentar impressionar as procuradoras. Em português! – irado.

– Tens que enfiar manualmente a hemorróida para dentro? – quase a rebentar a gargalhada.

– Sei lá, nem lhe toquei – indignado.

– Nem eu lhe vou tocar – e explodi à gargalhada – Não te preocupes, deve ser da alimentação que fazes!

– Vou ter que comer “saladas-maricas” como tu? – recuperando a confiança.

– Maricas!? Mas tu é que tens problemas no “hemorroidal”? – deixando-o a descarregar a água que levou a sua “natureza morta” em tons de carmim.

Claro que relatei a história na P.J.: “Vejam lá, o tipo nem me fala, não gosta de trabalhar comigo, sou o “Doutor”, o “vaidoso”, mas nos apertos quer uma opinião!”

Agora digam lá que não é o “Karma”, castigo divino ou simplesmente a condição humana!

Montesquieu, dizia algo como: “Até o mais poderoso dos reis está sentado sobre a mesma parte do corpo que o mais miserável dos homens.”

Segunda-feira, 27 de Junho de 2016. Sentado no banco dos arguidos começo a sentir um ligeiro incómodo na região com a qual os reis se sentam nos seus tronos.

Da parte da tarde, já fazia equilibrismo: nádega esquerda, nádega direita, ao centro é que não!

Acabou a sessão. Fechado no E.P. da P.J. em Lisboa.

Começa o “bullying” junto à porta da cela: “Ó porco pan…! Queres é um pau de vassoura por esse … adentro!”

Começo a despir-me: sangue nas calças do fato Hugo Boss!

E agora? Dentro da prisão uma crise no “hemorroidal”?! Vai ser bonito vai!

Calma! Vamos esperar que os outros presos sejam fechados porque os tipos abrem a portinhola e depois deparam-se com o “careca-com-cara-de-diabo-da-judite” a fazer tracção manual nas nádegas. Era um fartote: “Olha o “mariconero”, “gay”, seu p…!”

Está na hora. Já foram fechados, vamos lá ver a “coisa”!

Apalpação: ui! Algo que devia estar lá dentro está abusivamente cá fora!

Tenho que ver… mas não tenho espelho! Agarrado às nádegas procuro, no interior da cela, superfícies reflectoras! Mas o quê? Onde?

Ao lado da sanita! A tampa do esgoto, polida : “espelho meu, espelho meu, o que me sai de dentro, o que é que aqui me apareceu?”

Agachado, ao lado da sanita, agarrado aos glúteos, qual bailarina dançando a “dança da garrafinha”, o “Inspector Hugo Boss”, membro da Academia Americana de Ciências Forenses, “Masterblaster” da investigação criminal, contempla horrorizado o represamento do sangue da mais exuberante vascularização anal!

Ainda “aberto ao mundo” relembrei-me da expressão dorida do colega no Tribunal de Almada, e… desmanchei-me a rir: de mim, da vida, da situação, parando de imediato pois cada vez que gargalhava o quadro dantesco parecia ganhar vida!

E agora? Preso. Numa prisão hostil. E com esta região do corpo, tão melindrosa em ambiente prisional, horrivelmente mal tratada!

Como comunicar a minha condição no departamento médico, sem que assim que eu saia do gabinete, toda a população prisional – guardas e reclusos – não o saibam e comentem?

E o sangramento, amanhã, em Tribunal?

Fomos à mala dos cosméticos e havia compressas: dia seguinte, João de Sousa, com compressa entre nádegas, qual penso higiénico. Se isto se sabe: pior a emenda que o soneto!

Mas o exercício de humildade, o “Karma”, não fica por aqui.

Estabelecimento Prisional do Montijo. Hora do almoço.

– Sr. Guarda, preciso de ir à casa de banho! – solicito sempre após o almoço por forma a conseguir passar o fio dentário nos dentes. A casa de banho onde me levam só tem urinol, não interessa, é só para realizar a higiene oral – hoje tem que ser outra casa de banho, hoje é sólido! – na realidade, eu queria era mudar o penso, perdão a compressa!

– Vamos à zona da cela disciplinar – o solicito guarda.

Chegado lá, encontrava-se um recluso de castigo. Tudo bem, fui à sanita da segunda cela disciplinar. O guarda e o recluso a falarem no exterior da cela, o João de Sousa atrapalhado a mudar compressas. Se eles vissem isto …

Compressa usada na sanita, lavar, um fabuloso exercício de contorcionismo, a área “ofendida” – (atenção que na prisão não existe “bidé”) – e puxo o autoclismo!

“Ó Diabo! Que cheiro é este?” – pensei, quando a descarga de água levou a compressa escarlate.

Mas eu não defequei! Aproximo-me da sanita … espreito … e … rebento a rir ainda com o cinto nas mãos: um pássaro morto na sanita!!!

Com a minha vascularização anal num estado lastimável, saio ao encontro do Guarda e do recluso e digo com o meu tom de voz mais másculo:

– Para evitar comentários jocosos, quero deixar aqui aos dois que o pessoal da “Judite” não anda a “cagar” pássaros! – perdoem-me a boçalidade mas em “Roma sê romano”.

O guarda foi espreitar o pássaro morto e sorriu da piada, desconhecendo ele o estado em que eu tinha o meu orifício externo do recto! Se eles soubessem, imaginem as piadas!

Mas o tormento, o “Karma”, o exercício de humildade não acaba aqui (isto é que vai ser um deleite, uma “mina de ouro” para aqueles que “simpatizam menos” com a minha pessoa).

Já em “Ébola”. Enfermaria:

– Então diga lá, o que tem? – tinha que ser esta enfermeira! Ela “simpatiza” muito comigo!

Não havia outra maneira de colocar a situação: “É o hemorroidal!” – com ar triste, o recluso João de Sousa.

– Tome lá esta pomada e faça banhos de água quente!

O quê?! Água quente?

Primeiro, onde vou eu arranjar água quente na cela? Segundo, água quente no “hemorroidal”?!

Eu bem disse: tinha que ser esta enfermeira.

Dia seguinte, uma médica nova e a jovem e profissional enfermeira. Se com a outra foi fácil, com estas duas, jovens e bonitas, dizer qual o problema…: “O hemorroidal!” – bati no fundo!

Ambas sorrindo. Solução: a pomada e gelo! O.k., e onde vou eu arranjar gelo?

A profissional enfermeira “saca” uma luva de latex e começa a encher a mesma com água!

Sorrindo: agora congela e depois faz o gelo!

– Como? – adivinhando eu o que aí vinha.

– Introduz os dedos!

– E era preciso encher tanto de água o dedo mínimo – tentando salvar a integridade do meu orifício, rogando aos deuses que a médica não indicasse como posologia a introdução do dedo médio, gordíssimo porque o latex expande muito com a água.

– É só introduzir! – última indicação que ouvi, em choque, antes de abandonar a enfermaria cabisbaixo.

E onde se congelam as luvas? No frigorífico do refeitório! No final das refeições, toda a população prisional, via o “gajo da Judite” tirar do congelador “luvas congeladas”.

Foi segredo, até ao dia em que um recluso caiu no banho e necessitou de colocar gelo na cabeça:

– Quem é que tirou daqui a minha luva? – eu.

– Sr. João, o Sr. “X” precisou de gelo, fui eu que tirei! – o guarda.

– E agora? – estando nesta altura o “recluso que caiu” com a luva na cabeça ao pé de mim e do guarda.

– Sr. João, eu necessitei… – o recluso.

– Pois, mas isso são as luvas do meu “hemorroidal”! – já está.

Afastando a luva: “Do seu cú?! – com uma expressão semelhante à do colega da P.J. que tanto gozei.

– Sim, mas só os dedos e essa ainda não tinha utilizado!

Eu devo merecer tudo isto! E assim fiquei? Não, ainda há mais!

Com toda a gente a saber que o João de Sousa enfiava dedos congelados no pior sítio para introduzir algo quando se está preso, ainda que ninguém nada comentasse à minha frente (à semelhança dos “anónimos da net”) claro que se estavam a divertir quando, às 01h00 do dia 6 de Julho de 2016, tive que bater na porta da cela e fui levado para o hospital, de urgência, onde, na nádega direita, inocularam-me uma “dose para cavalos” de analgésicos!

Por causa do hemorroidal? Nada disso! Osteíte púbica, pubeíte, mais conhecida por pubalgia!

Foi o que o médico diagnosticou? Não, o médico quando viu o “tipo careca” com dois guardas prisionais ao lado, sentado na cadeira de rodas porque não se conseguia mexer, agarrou na seringa: toma lá e vai-te embora para a prisão!

O diagnóstico é meu! Se calhar é cancro! Se calhar já estou a apodrecer aqui, como é desejo de alguma “boa gente”.

E explicar à população prisional que usava muletas não por causa do esfíncter anal, mas sim devido à condição dolorosa da sínfise púbica consequência do excesso de treino!?

– Sim, sim, qual excesso de treino! Excesso de prisão lá em Lisboa, onde te fizeram aquilo que se vê nos “Condenados de Shawshank”! – talvez fosse esse o pensamento deles que eu lia no seu olhar.

Não era suficiente colocar “remendos em odres rotos” (as compressas) a seguir vieram as mãos geladas, depois não mexer as pernas: deve ser “Karma”!

Estou a pagar por todo o mal que fiz! A corrupção? Não, o quanto gozei com os colegas! Reconheço agora, estou mais humilde, desejo fazer “pontes” como Mandela!

Nada como um problema no “hemorroidal”, no interior da prisão, para vermos a luz ao fundo do túnel (e não é nenhum trocadilho com uma qualquer galeria ou passagem subterrânea e o meu orifício que até há pouco tempo somente expelia!)

Sou outro homem depois de ter alcançado a humildade (e sim, concedo, também por causa dos dedos gelados das luvas, nunca mais serei o mesmo). Reconheço agora o quanto sofreu o colega naquele dia no Tribunal de Almada. Este texto é um exercício de partilha, de dádiva para com os meus “ferozes críticos” (e estou a utilizar um eufemismo).

A causa do episódio das hemorróidas? O que disse a médica?

Aqui, a medicina não chega, a única coisa que me chegou foram as luvas!

Constipação intestinal: não tinha, logo esforço para evacuar, não o fiz (tive que fazer esforço para introduzir, isso sim!)

Obesidade: não se verifica.

Diarreia crónica: ausente.

Prender as fezes com frequência, evitando defecar sempre que há vontade: pelo contrário, aqui faço-o depressa porque não existe privacidade uma vez que o guarda pode abrir a porta a qualquer momento!

Cirrose ou hipertensão portal: não se verifica.

Ficar longos períodos sentado no vaso sanitário: negativo, lembrem-se da falta de privacidade.

Sexo anal: não! (Pelo menos até ao episódio das luvas!)

Como vou agora desmistificar isto, como não vão os meus “críticos menos simpáticos” escarnecer, ridicularizar?

Não devia ter partilhado isto? Como não? Foi “Dia Nelson Mandela”, temos que fazer “pontes”, perdoar quem nos quer mal, oferecer a outra face (ou nádega! Antecipei a piada fácil.)

Sabem como é que eu consigo?

Rindo! Rindo de mim. Compreendo a beleza de tudo isto, mesmo no pior dos momentos, gargalhando quando, ao partilhar o vivido com a minha mulher e com a “ninhada”, nos desfizemos em lágrimas a rir e o Jr. rindo sem saber do quê (que belo sorriso ele tem!)

– O pai tem dores no rabo! – a Helena.

– É por isso que estás de lado, pai? – a Leonor.

– Pedro, és doido?! Vais lá agora colocar isso no blogue! Que parvoíce! – a minha mulher – eles ainda vão ganhar mais rancor a ti! – presciente.

Pois aqui vos deixo, com uma gargalhada. Ah! Para quem se preocupa genuinamente: estou a recuperar da pubalgia (já dispensei as muletas) e já estou bom das hemorróidas (conquanto nada fique como dantes! Malditas luvas!)

Sorriam sempre (isto é: se tiverem capacidade para tal) porque afinal, todos somos simplesmente humanos e se o “Karma” existe… não tocará só a mim!

“Emoções”

Prisão Preventiva: 2 anos, 3 meses e 19 dias!!!

Leitura da sentença, faltam: 64 dias!

“Quando eu estou aqui, eu vivo este momento lindo / Olhando para você e as mesmas emoções sentindo […]”

O verso é de Erasmo Carlos e de Roberto Carlos. A canção: “Emoções”!

O ano é de 1982. Tenho 9 anos, estou em Cabanas de Tavira (Algarve) de férias com a Família.

A Itália vence uma fabulosa selecção do Brasil, a selecção que tinha o nosso apoio. Portugal estava muito distante das finais. Diego Armando Maradona (na modesta opinião deste esquerdino preso, sem talento para o desporto-rei) o melhor jogador de todos os tempos, estava a 4 anos de se tornar imortal no México!

Nessa altura, nesse tempo, há 34 anos atrás, tudo era azul brilhante, sol, felicidade!

Mesmo com a derrota do Brasil e a ausência da selecção das quinas.

O ano é 2004. A minha casa, o tal castelo fruto da corrupção, estava cheia, com a Família.

A minha “Princesa Piu-piu”, a Leonor, tinha 15 meses!

Foi uma tragédia grega. Chorámos ao ver os portugueses a apoiarem a Selecção, antes do jogo, chorei ao ver o miúdo Ronaldo a prantear!

O meu afilhado ao ver o Padrinho chorar, com 6 anos, questionou-me:

– Porque choras padrinho? – tocando-me na mão, antecipando, em cerca de 12 anos, a imagem de um menino que consolou um adepto francês!

“[…] São tantas já vividas, são momentos que eu não me esqueci / Detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui […]”

As minhas filhas aprenderam o hino nacional – “A Portuguesa” – a verem as celebrações do 25 de Abril, do dia de Portugal e os jogos da selecção!

Pára tudo em casa! Todos em linha em frente ao televisor. Mão no peito. A Helena sempre colocou a mão esquerda sobre o lado direito! Desde pequenina. Aprendeu a colocar a direita sobre o peito, aprendendo também que o coração não fica à esquerda, está ligeiramente à esquerda. E a mão direita porque a “canhota” (conquanto o pai seja “canhoto”) atendendo à tradição judaico-cristã, não é muito “bem vista”!

Sempre que oiço o hino nacional, emociono-me. Sempre que o oiço, desde o nascimento das minhas filhas, emociono-me mais porque olhando-as ao meu lado, sinto orgulho nelas e em ser português. Durante o campeonato da Europa de 2016, emocionei-me a ouvir o hino distante, um som abafado porque mudava de canal. As minhas filhas não estavam ao meu lado. Eu estou sozinho numa cela!

O meu “filho-homem” tem dois anos e eu nunca o vi ao lado da mãe, das irmãs, com a pequena mão direita, no pequeno peito, a olhar para elas a ouvir o hino e no final a erguer a pequena mão e gritar: “Gall!!!” (entenda-se “Portugalll !!!”)

Na quinta-feira, 7 de Julho de 2016, vesti a camisola da selecção que a minha “ninhada” me ofereceu, em 2014, repito, em 2014, para vestir e acompanhar o Mundial, para cantar o hino antes de cada jogo, enquanto eles cantavam lá em casa!

Em 2014, estava em prisão preventiva, em 2016, ainda estou em prisão preventiva.

Na camisola mandaram estampar o número “10”, à frente e nas costas, sendo que nas costas colocaram também o nome: “De Sousa”! “10”: o número do Maradona!

– É para estarmos juntos, pai! – isto em 2014!

Na quinta-feira, antes do jogo, vesti a camisola. Queria que a Família ficasse feliz.

O pai também estava feliz com a selecção! Foi dia de visita.

O dia do jogo, a final, foi um dos dias mais tristes que passei aqui. O dia das emoções estranhas, incómodas.

Mais triste, só o dia em que o Jr. nasceu (estranho, não é?) e os dois 25 de Dezembro: o de 2014 e o de 2015!

“Onde estavas, quando a D. Amália faleceu?”; “Onde estavas, quando o Carlos Lopes ganhou a maratona?”; “Onde estavas, no 25 de Abril?”; “Onde estavas, quando Portugal foi campeão da Europa pela primeira vez?”

Estava sentado, sozinho, no beliche, na cela 9 (olha! O número do Éder! Eu não ligo à numerologia, só aos números da minha medida de coacção!) preso preventivamente há mais de 2 anos e 3 meses! Desde o Mundial de 2014!

Estava a chorar, sozinho!

De alegria? Não, a chorar de tristeza, a mais profunda e excruciante tristeza!

“[…] Amigos eu ganhei, saudades eu senti partindo / E às vezes eu deixei, você me ver chorar sorrindo […]”

Uma tristeza horrível, estranha, incómoda! Sabem como assisti ao golo?

Aqui em “Ébola” temos notícias sempre com atraso: os jornais não entram, só entram pelas visitas, estamos sempre com um dia ou dois (ou mais) de atraso.

Com o golo foi a mesma coisa, só que ao contrário!

O Cabo Costa (“serial killer” de Santa Comba Dão) no outro extremo da prisão, onde fica a sua cela, tira o som à televisão e ouve o relato da rádio.

Assim sabe mais depressa, antes dos outros, quando o seu Benfica marca! Com a selecção é a mesma coisa! Ele está sempre atento, alerta, vigilante (sim, mais uma vez, eu, o “soberbo”, é que tenho o perfil, eu é que o observo há mais de 2 anos, mais uma vez, “arrogantemente”, vou colocar em causa os comentadores, os falsos estudiosos; o que depois vou escrever tem o cunho da experiência e do saber real! Eu estive lá! Em carne e osso, a observar atentamente!).

Então, vi assim o golo: ainda flectia o Éder para o centro, tinha suportado o encosto do chauvinista central francês, ainda não tinha rematado, e já gritava o famoso Cabo Costa: “Golo de Portugal! Golo!” – enquanto histérico batia nas grades.

Portanto, antes de ser já era! É bom, não foi?

Não tive reacção imediata: apenas senti tristeza!

Entretanto Portugal tornou-se Campeão da Europa de Futebol!

Olhei em volta e não vi as minhas filhas, o meu menino, a Família! Olhei em volta e estava só!

Ouvi gritos, impropérios, festejos de raiva: batiam nas grades porque Portugal era Campeão ou batiam nas grades porque estavam atrás das grades? Um barulho infernal!

Vi um sujeito na televisão a dizer: “Tenho esta para contar aos meus filhos e aos meus netos” – chorando.

Não aguentei e, chorando, apaguei a televisão. Só no dia seguinte vi o Ronaldo a erguer a taça!

O meu Sporting quase que era campeão este ano! Foi um sentimento agridoce: tinha prometido às “princesas” que íamos ao estádio e depois para o Marquês festejar quando os Leões fossem Campeões. Estava preso, faltaria ao prometido. Os “outros” ganharam o campeonato mas eu não faltei ao prometido! Com a selecção, eu não estava lá!

Há 2 anos e 3 meses que não estou lá, sem estar condenado.

A semana passada a minha filha Helena, na piscina, saltou da prancha dos 3 metros! Eu não estava lá! O meu filho já deu umas braçadas! Eu não estava lá!

“[…] Sei tudo o que o amor é capaz de me dar / Eu sei já sofri mas não deixo de amar / Se chorei ou se sorri / O importante é que emoções eu vivi […]”

Orlando Figueira, magistrado, quando aqui preso preventivamente, em certa ocasião disse-me que ninguém o repararia pelo facto de o terem afastado do filho durante 4 meses, que não poderia estar com ele na despedida no aeroporto! Compreendi a sua angústia na altura, entendi tão bem que nem relevei o facto de ele estar a falar com alguém que há mais de 2 anos e 3 meses não está com os seus filhos, menores. Não foi falta de consideração, ou falta de empatia, ou mesmo egoísmo: são as emoções a falar, o amor incondicional aos nossos, ao nosso sangue!

Quanto à conquista do título de Campeão Europeu, o que vamos fazer com ele?

Como pode ajudar o país?

Eu, vou emular vários exemplos da selecção!

Diz-nos o Erasmo e o Roberto Carlos:

“[…] Em paz com a vida e o que ela me traz / Na fé que me faz optimista demais […]” 

À semelhança do Eng. Fernando Santos, permitam-me que vos diga, ainda que tudo possa indicar o contrário:

Já avisei a minha mulher e a “ninhada” que volto para Casa a 20 de Setembro de 2016 e vou ser recebido em festa! (comuniquei-lhes esta quinta-feira, 14 de Julho de 2016)

É uma questão de fé? Não, não fui ainda receptor desse dom da Graça, sou agnóstico!

É o optimismo de Erasmo e do Roberto Carlos? Não, conquanto tente sempre ver o “copo meio-cheio”: é fruto de um elementar exercício de racionalidade!

Mas, racionalmente, não podemos esquecer a sentença canónica:  Quia in Inferno nulla est redemptio  (“Para quem está no Inferno não há redenção”). Ou seja: foi mantida a medida de coacção – prisão preventiva – a três meses da leitura da sentença, estás no “Inferno” e aí ficarás! Não! Dia 20 de Setembro de 2016 volto para Casa e vou ser recebido em festa!

Só não vou a 20 de Setembro se a Meritíssima for mazinha e ler o acórdão muito devagar, adiando assim o final da leitura para 26 de Setembro de 2016, como previsto!

A Meritíssima não é mazinha, ela está somente a aplicar a Justiça; assim sendo, dia 20 de Setembro de 2016 volto para Casa e vou ser recebido em festa!

Mais, à semelhança do Eduardo Madeira, mas com uma parede abdominal mais sexy (porque ando a trabalhar para isso!) está prometido que farei nu integral (só com um pequeno objecto – um pequeno cravo vermelho – porque não é necessário algo maior a cobrir o que a descoberto ficará) no dia em que regressar a Casa:

20 de Setembro de 2016!

E se assim não for? E se a minha análise estiver errada?

Voltemos ao exemplo da Selecção Nacional, ao capitão Ronaldo:

“Vai João! Anda, João! Tu bates bem… tu bates bem… anda marcar! É uma lotaria, que seja o que Deus quiser. Se perdermos que se f …!”

“Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!”

“O Estado da Nação? Viva Portugal!”

Prisão Preventiva: 2 anos, 3 meses e 12 dias!!!

Leitura da sentença, faltam: 71 dias.

“VII. Folhas 16847/reexame de pressupostos de prisão preventiva:

O arguido João Pedro Sebastião de Sousa requereu a substituição da prisão preventiva por medida de coação menos gravosa, com fundamento na atenuação das exigências cautelares e insubsistência das circunstâncias que justificaram a sua aplicação, concretamente o perigo de fuga, perigo de continuação da atividade criminosa ou da perturbação da ordem e tranquilidade pública e perigo para a aquisição, conservação ou veracidade da prova.

No essencial, em concreto, invoca o arguido o decurso de dois anos e três meses de prisão preventiva, o bom comportamento em audiência, a confissão parcial dos factos, a suspensão do exercício da atividade profissional e a inacessibilidade de meios para a continuação da prática de factos da natureza dos que lhe são imputados, a conclusão da produção da prova em audiência de julgamento e a insuficiência da mesma.

A duração da prisão preventiva, o decurso do tempo e a fase processual não constituem, por si só factualidade superveniente suscetível de determinar a atenuação das exigências cautelares.

E, não obstante a conclusão da produção de prova, não pode o tribunal nesta sede realizar valoração ou antecipar qualquer convicção sobre a mesma,

Reitera-se que o perigo de continuação da atividade criminosa, considerando a globalidade dos factos imputados, não é, in casu, aferido exclusivamente do exercício da sua atividade profissional, pelo que não é de excluir, mesmo tendo em conta a suspensão do exercício das funções.

Reitera-se igualmente que, neste tipo de ilícitos, o perigo de perturbação da ordem e da tranquilidade públicas e da veracidade e conservação da prova resulta incontornavelmente de uma aparente falta de resposta imediata e adequada por parte da autoridade judiciária e do sentimento de “impunidade” associado na comunidade, sendo certo que a presente audiência de julgamento tem sido alvo de curiosidade e acompanhamento efetivo por parte dos órgãos de comunicação social, sendo certo que o próprio arguido descreve como “notória” a sua “destreza comunicacional e capacidades de contactos”, não sendo imprevisível a produção de declarações opiniosas sobre o caracter e a credibilidade de testemunhas deste processo e sobre o conjunto da prova e da investigação, que outra medida, nomeadamente a obrigação de permanência na habitação não poderia evitar.

Não se mostra esgotado o prazo máximo da medida de coação estabelecido no artigo 215º do Código de Processo Penal.

Não alega o arguido factualidade superveniente suscetível de infirmar a presente conclusão, apresentando sobretudo meras conclusões fáctico-jurídicas/desabafos/opiniões. Concretamente, desconhece e não tem este tribunal que ponderar a situação de “alguns ilustres arguidos bem conhecidos da comunidade”.

Conclui-se, assim, pela subsistência dos pressupostos estabelecidos nos artigos 204º e 202º do Código de Processo Penal.

A medida de coação máxima é, pois, ainda a única adequada e suficiente às exigências cautelares do caso em apreço.

Ponderando o disposto nos artigos 202º, nº1, a), 204º, proémio e alíneas b) e c), 212º, nº3, “a contrario” e 213º do Código de Processo Penal, sem perder de vista a doutrina do Acórdão do tribunal da Relação de Lisboa de 08/07/2004, pesquisado em www.dgsi.pt e o acórdão do tribunal Constitucional nº147/2000, de 21/03, não tendo o arguido alegado, no articulado junto a folhas 16847 e seguintes, factualidade superveniente suscetível de abalar tal conclusão, conclui-se, em conformidade com o parecer da Magistrada do Ministério Público, pela subsistência dos pressupostos que determinaram a aplicação da medida de coação máxima, não estando verificada qualquer atenuação das exigências cautelares, que resultam, pelo contrário, reforçadas, atento a fase da audiência de julgamento, pelo que determino que João Pedro Sebastião de Sousa continue a aguardar a tramitação superveniente do processo sujeito a prisão preventiva.”

Caro(a) Leitor(a), este texto era para ter como título “No comment”, deixaria aqui o despacho que antecede as minhas palavras, colocaria o outro despacho que utilizarei para a realização de um exercício de “justiça relativa” e o meu “desocupado(a) Leitor(a) retirava para si o que, no seu equidistante juízo, considerasse por bom e justo retirar.

Mas não, não o farei assim, não vá a Juiz-presidente, redactora do despacho que vos deixo, pensar que o arguido João de Sousa, por estar sob a “espada de Dâmocles”, sustentada pela Meritíssima, calar a sua opinião, a sua convicção, a sua voz!

Poeta (ou arguido) castrado, não!!!

J.J. Rosseau, na sua obra “Discurso sobre a origem da desigualdade” diz-nos: “A natureza manda em todo o animal, e a besta obedece. O homem experimenta a mesma impressão, mas se reconhece livre de aquiescer ou de resistir”. 

Vou resistir, com a devida vénia.

Na quinta-feira, 8 de Julho de 2016, realizou-se na Assembleia da República o debate do estado da Nação. Até no debate foi invocada a seleção nacional e o facto de estar na final:

– A única alegria que o povo português sente é dada pela seleção e não por V. Exa! – Assunção Cristas ao Primeiro-Ministro António Costa.

O estado da Nação? Não interessa, estamos na final: Viva Portugal!

Eu digo-vos qual o estado da Nação e perdoem-me o anti-climax!

“Quanto ao perigo de fuga, os desembargadores acreditam que a “sua formação cultural” e o facto de ter sido “Magistrado do Ministério Público” faz com que Orlando Figueira seja “um cidadão com responsabilidades e deveres acrescidos”. Por isso mesmo, a Relação de Lisboa tem a convicção de que o magistrado ficará em Portugal para “afirmar e comprovar a sua invocada inocência, com o consequente refazer da sua imagem e credibilidade social”.

É este o estado da Nação, apesar de estarmos na final do Europeu: Portugal é um país de castas!!! Viva Portugal, mas coloquem a bandeira a meia-haste!

Para a mesmíssima Relação recorri e um dos argumentos foi precisamente o facto de ser Inspector da P.J., desejar esclarecer os factos e demonstrar em Tribunal a minha inocência! Mas não, para um Inspector da P.J. “afirmar e invocar a sua inocência” não é permitido!

O mesmo despacho (in “Observador”): “O tribunal acredita que os indícios recolhidos pelo Ministério Público para os crimes de corrupção e de branqueamento imputados a Orlando Figueira “são robustos” e “é muito forte a probabilidade de ao recorrente vir a ser imposta uma condenação, fixada em pena de prisão”!

Mas … mas Orlando Figueira é Magistrado e tem uma formação cultural … excelente?!

Deuses! Eu já invoquei Cervantes: “Desocupado Leitor” (primeiras duas palavras do prólogo do “Don Quixote de la Mancha”); citei Rosseau, e antes de acabar, ainda vou citar Hobbes e “O Paraíso Perdido” de John Milton!!!

Eu transpiro cultura, formação cultural!

Eu considero-me inocente, à excepção do crime de violação de segredo de funcionário!!!

Será que é por ser da P.J.? Mas outros P.J.´s estão em casa?!

Porque será? Voltemos ao meu despacho!

Assumidamente vaidoso, egótico, com uma auto-estima que faz inveja ao Mourinho ou ao nosso Cristiano Ronaldo (“Viva Portugal”!) eu, um raio de Sol na figura de um homem, orgulho de sua mãe, só assim sou porque os outros assim me fazem! Aí vem mais “formação cultural”: “Porque mesmo que um homem (como muitos fazem) atribua a si mesmo o mais alto valor possível, apesar disso o seu verdadeiro valor não será superior no que lhe for atribuído pelos outros.” (in “Leviatã”, Thomas Hobbes).

Ora, se as minhas “declarações opiniosas” colocam tudo em causa, fazem perigar a aplicação da (in) Justiça, então quem sou eu?

Sujo corrupto? Louco autor de palanfrório? Ridículo “cavaleiro da lança inútil”? (Nova dejecção cultural: José Gomes Ferreira, “Poesia I”).

Terá mais peso a minha palavra do que a do Eng. Sócrates? Do que a palavra do Magistrado, Dr. Orlando Figueira (para quem, daqui, envio um abraço!)

Orlando Figueira tinha uma expressão muito sábia e encantadora: “João vou oferecer uma sugestão, não um conselho. Conselhos dou ao meu filho!”

A sugestão que me ofertou antes de ir embora foi: “João, não leia essas declarações (o texto da semana passada) retire os nomes, não nomeie o Juiz! Quando tudo passar depois fale!

Eu sei como é, eles não gostam e têm a faca e o queijo na mão!”

Sugestão avisada, afinal ele sabia do que falava!

Mas eu, tão egótico, não tinha a percepção do peso das minhas palavras. Mais, eu (lá vem a minha brutal “formação cultural”) conheço a Constituição da República Portuguesa, nomeadamente o artigo 37º (Liberdade de expressão e informação), assim como o muito importante artigo 13º (princípio da igualdade): não declarou tanta coisa o Eng. José Sócrates?

Uma última “declaração opiniosa”:

No seu despacho, a Juiz-presidente afirma que a medida de coação de obrigação de permanência na habitação não poderia evitar a “produção de declarações opiniosas” da minha parte !!!

Mas eu estou há 2 anos, 3 meses e 12 dias (119 semanas; 836 dias) e ainda não parei de opinar, de dar entrevistas; como o art. 37º da C.R.P. permite a qualquer cidadão português fazer, até ao vaidoso do João de Sousa!

Será o teor das palavras, será a verdade dos factos, o conhecimento que tenho dos dois lados das grades?

Finalizando, esperando que quando o(a) Leitor(a) estiver a ler este humilde opúsculo (com alguma evidência de relativa “formação cultural”), Portugal seja Campeão da Europa, deixo aqui um último pensamento, com o máximo respeito, direcionado à Meritíssima Juiz-presidente do meu Julgamento (que não deve ler nada disto, mas fica para a posterioridade) que só vem dar razão à mesma quando afirma que não é “imprevisível a produção de declarações opiniosas”.

De John Milton, “O Paraíso Perdido” (quanta cultura, senhores!):

“Falta-me ainda cantar metade do meu canto mas, agora, nos limites estreitos da visível esfera diurna. Preso à Terra, e não arrebatado para além do polo, cantarei mais seguramente com a minha voz mortal, pois ela permanece ainda intacta, sem que houvesse tornado rouca ou muda, apesar de eu ter entrado em negros dias, vivendo entre más línguas, entre as trevas e a solidão, e de perigos rodeado; todavia, mesmo assim, não estou só, quando Tu, à noite, visitas o meu sono ou quando a manhã vem cobrir de púrpura o Oriente.”

P.S. – uma pequena exegese, não vá a Meritíssima ou a Maria Alice pensar que sonho com elas:

Milton quando diz ser visitado à noite, refere-se a Urânia, musa da Astronomia, capaz de proporcionar àqueles em cujo espírito se insinuasse, elevados e celestes pensamentos! (Quanta “formação cultural”!)

Viva Portugal! (mas sempre com a Bandeira a meia-haste!)

“Últimas Palavras”

Prisão Preventiva: 2 anos, 3 meses e 2 dias !!!

Nota prévia: No dia 29 de Julho, terça-feira, a Juiz-presidente manteve a minha prisão preventiva. Para a semana colocarei neste espaço, o despacho, na íntegra e comentarei.

Leiam, porque é muito grave o que está a suceder.

Nota prévia: A Leitura da sentença foi marcada para dia 20 de Setembro de 2016 (dois dias depois, faço anos); e, se o dia todo não chegar, encontra-se já marcado o dia 26 de Setembro de 2016 para terminar a leitura do acordão!

Aquando da leitura “terei” 2 anos, 5 meses e 22 dias de prisão preventiva!

Ficará, a 20 de Setembro, a faltar 9 dias para o esgotamento no prazo legal para a prisão preventiva, e apenas 3 dias para o esgotar no prazo, se a leitura acontecer a 26 de Setembro de 2016. Impensável, no mínimo!

Esta semana, deixo-vos o texto que manuscrevi no isolamento da cela do Estabelecimento Prisional junto da P.J., em Lisboa, e que perante o colectivo de Juízes, no Seixal, em sede de Julgamento, cumprindo-se assim o disposto no art.º 361º do C.P.P. (últimas declarações do arguido e encerramento da discussão) realizei a sua leitura.

É a versão humanizada, moderna, das últimas palavras antes da morte do criminoso!

Fiz uma aposta com os Senhores Guardas Prisionais em como a Meritíssima iria interromper a leitura no final do segundo parágrafo. Perdi: interrompeu no final do sexto!

Depois, com um silêncio sepulcral na sala, li tudo até ao fim!

Não vou dizer alea jacta est, nada disto tem a intervenção da sorte, também não direi consummatum est, longe disso, apenas invoco a inscrição do meu anel, o tal, o que a certa altura era sinónimo de corrupção e depois deixou de o ser: Compus sui semper.

As declarações finais:

 

“ Meritíssima,

Queria dirigir uma palavra de reconhecimento ao colectivo de Juízes a que V. Exa. preside, uma vez que a disciplina da audiência e a direcção dos trabalhos foram asseguradas com elevado senso de equidade, assim como de respeito pelos vários arguidos iguais perante a lei e diferentes nas suas personalidades.

A palavra de reconhecimento impõe-se com maior propriedade atendendo ao lamentável exercício de prepotência e apologia pessoal que foi a intervenção neste processo por parte do Juíz Dr. Carlos Alexandre.

O contraste gritante entre o que foi o lamentável desempenho deste último e a Liberdade para a defesa dos arguidos presentes neste Julgamento, assegurada por V. Exa., obriga à expressão do meu reconhecimento.

 

Com a permissão de V. Exa., gostaria de dirigir também uma respeitosa palavra à Exma. Sra. Procuradora, Dra. Sandra Anselmo, que, na minha opinião, logo a seguir aos cinco arguidos presos preventivamente há mais de 2 anos e 3 meses e aos restantes co-arguidos, foi quem maior angústia e incómodo experimentou durante este Julgamento, consequência da notória incúria presente na investigação realizada.

Quero expressar a minha profunda admiração, ousando acrescentar, a minha sincera solidariedade (porque também eu experimentei esse desconforto amiúde devido à inépcia dos meus pares; alguns deles vieram aqui prestar declarações) porque a Exma. Sra. Procuradora viu-se obrigada a ser o rosto visível de uma obra menor, resultado da, mais do que constactada nas várias sessões realizadas, falta de competência técnica.

É de referenciar a serenidade, distanciamento, diligência, diria mesmo um nobre exemplo de ataraxia que V. Exa. evidenciou quando, por mais de uma centena de vezes, sem a sua prosódia transparecer cansaço ou irritação, ainda que de forma monocórdica, repetiu a questão: “O Sr.(a) alguma vez vendeu objectos em ouro?”, sendo o mérito maior porquanto tratando-se de uma Magistrada experiente, conhecedora, tem a perfeita noção de que a Investigação e o M.P. da fase de inquérito mais uma vez foram relapsos ao não diligenciarem pela realização do exame de perícia de escrita manual.

Ainda assim, a diligência de V. Exa. foi extrema, o que muito a dignifica, apenas maculada, com o devido respeito, pela falta de coragem no assumir do erro, que em abono da verdade não se pode imputar a si, situa-se a montante, conformando-se com a falha, solicitando condenações sustentando-se na inacreditável falta de rigor e cientificidade da investigação.

 

Com a permissão de V. Exa.,

Uma palavra de apreço por todos os ilustres causídicos presentes que contribuíram para um maior e melhor conhecimento, da minha parte, do Direito.

 

Quero também expressar a minha profunda gratidão à minha ilustre defensora nomeada, Dra. Sónia Santos Lima, que, apesar de ter que esperar, muito provavelmente, durante um período temporal quase idêntico ao meu tempo de prisão preventiva para receber os seus honorários, sempre demonstrou disponibilidade, diligência e profissionalismo na realização da minha defesa, o que reconheço não foi tarefa fácil atendendo às idiossincrasias do seu constituinte.

A disponibilidade, diligência e profissionalismo evidenciado, são seguros predictores de uma vida profissional e pessoal futura recheada de sucessos. GRATO!

 

Meritíssima,

Completar-se-ão 17 anos no dia 22/9/2016, desde o dia em que na Escola de Polícia da P.J. recebi o meu diploma, o livre-trânsito e a arma de serviço.

Nesse mesmo dia 22/9/2016, completarei 43 anos de vida.

Durante os 15 anos em que servi a Polícia Judiciária não averbei na minha folha pessoal qualquer registo que pudesse macular a minha imagem enquanto Inspector ou macular a imagem da instituição.

Os problemas, e muitos experimentei dentro da instituição, foram consequência da minha personalidade.

Terminado o estágio de um ano, todos os agentes foram avaliados. Obtive a classificação de Muito Bom (9,15 valores). Aquando da ratificação e consequente aceitação da avaliação, contestei a mesma porque no campo “Urbanidade e aprumo” não tinha a nota máxima, sendo que no campo “Conhecimentos profissionais”, com um ano de estágio, assim se verificava.

Foi-me comunicado que assim era porque era essa a norma, o hábito, a “ginástica numérica” para obter o valor que desde sempre se praticava. Contestei.

Foi o primeiro momento de crítica, de comportamento não usual para quem ainda nem tinha vínculo efectivo com a “casa”: era agente-estagiário!

Mais tarde, já Inspector, averbei na minha folha um louvor colectivo.

No dia da cerimónia de recebimento da honraria, colocado na D.I.C. de Setúbal, recebi um telefonema de um colega, também agraciado, perguntando onde eu estava: o meu nome era anunciado!

Recusei-me a receber o louvor por razões que internamente apresentei; não compareci na cerimónia.

É verdade, como aqui declarado: sempre fui, e sou, extremamente crítico em relação à P.J., mas sempre critiquei com o objectivo de contribuir para a dignificação e melhoramento da Instituição que, durante 15 anos, até ser preso, orgulhosamente servi.

 

Meritíssima,

Sou associado da Associação Sindical de Funcionários de Investigação Criminal da P.J., não tendo as cotas em dia porque o valor das mesmas é retirado automaticamente do ordenado e eu estou sem ordenado há 2 anos e 3 meses.

Sou membro da Academia Americana de Ciências Forenses.

Sou confrade na Confraria da casta Arinto de Bucelas.

Sou sportinguista, desde que não era mais que uma célula haplóide no organismo do meu progenitor, mas nunca fui sócio.

Sou membro co-fundador de uma sociedade secreta, com elos de ligação inquebrantáveis, na qual tenho o estatuto de Grande Mestre da Ordem dos Magos e dos Feitiçeiros, fazendo parte da mesma, a minha mulher, as minhas duas filhas e um quinto elemento que se juntou à sociedade há 2 anos e um mês, o João de Sousa, Jr. que tem o estatuto de aprendiz.

Estas são, V. Exa., as associações, os grupos ou bandos dos quais faço parte.

Nunca promovi, fundei, fiz parte ou apoiei qualquer grupo, organização ou associação cuja finalidade ou actividade fosse dirigida à prática de qualquer tipo de crime.

 

Meritíssima,

Desejo, aqui e agora, assumir a minha Corrupção!

Confesso a corrupção dos meus valores que sacrifiquei em nome da Vaidade e do Orgulho. Deveria ter saído do D.I.C. de Setúbal, deveria ter sido mais diligente na denúncia da mediocridade que observava uma vez que tinha a disponibilidade de meios e o olhar educado para o fazer, não deveria ter participado em conjuras para tomadas de poder, substituições de Coordenadores, não deveria ter cedido à jactância por ser considerado, como aqui foi declarado por um dos conjurados: “ Um Inspector ímpar na sua área!”

Deveria ter realizado um exercício de verdadeira humildade (muito raro em mim, reconheço) e alcançado a simples e saudável constactação de que “em terra de cego, quem tem olho é rei”; aforismo que se confirmou neste Julgamento aquando das declarações da Coordenadora e Inspectores responsáveis pela Investigação.

 

Meritíssima,

O único João que tinha como objectivo a promessa de vantagem patrimonial futura foi o segundo de Portugal, que, prescientemente, de forma ardilosa, impôs que a linha de divisão do Mundo fosse colocada 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, isto em 1494, ludibriando deste modo os reis católicos de Espanha, em Tordesilhas.

D. João II, V. Exa., sabia lá estar o Brasil!

O arguido João de Sousa não pesquisou, não auxiliou, não se corrompeu por ver na possibilidade da concretização de um projecto futuro, o seu “achamento do Brasil”!

O arguido João de Sousa é ambicioso, deseja conhecer, descobrir, inovar, desbravar caminhos, fazer mais e melhor, e, possivelmente, isso sim, é incompaginável com a sua condição de funcionário público atendendo à cultura dominante no sector.

 

Meritíssima,

Vários colegas meus, pares e superiores hierárquicos, disponibilizaram-se para comparecerem neste Tribunal como testemunhas abonatórias.

Agradeci e recusei porque tenho a perfeita noção que prejudicariam a sua imagem, uma vez que, devido a mais um dos devaneios de quem investigou, existe um inquérito para apurar se alguém me avisou da investigação que nos traz aqui.

Os colegas compareceriam para demonstrar que as pesquisas são uma prática comum.

A gestão da informação com colaboradores ou mesmo amizades é comum, ainda que o normativo interno e a Lei penalizem e condenem o acto.

O Inspector que negar pesquisas e troca de informação no desempenho das suas funções está a contrariar a realidade, é incompetente ou está a ocultar algo!

Nunca, numa investigação realizada por mim, o mandado de busca continha a morada errada porque eu pesquisei no “Google Earth”, sentado à frente do computador, o local alvo da busca.

Nunca alguém apontou-me o dedo afirmando que não conhecia o pavimento da estrada de Algés ou a cor da porta de uma loja de um alvo de uma investigação da minha responsabilidade.

A avaliação de V. Exa. atenderá ao exemplo de um homem médio, segundo as regras da experiência comum, nas circunstâncias concretas, mas, sem qualquer intenção de ingerência, um Inspector da P.J. não age como o homem médio, tem a obrigação profissional de não o fazer, foi treinado para não o fazer, e, os exemplos aqui ofertados por quem coordenou e investigou estão muito abaixo da mediania, não representam minimamente a Polícia Judiciária que tem nos seus quadros (e pode parecer inverossímel afirmá-lo quando chegados aqui vemos o resultado desta denominada mega-investigação especialmente complexa) excelentes profissionais que pautam o seu desempenho pela idoneidade, honestidade intelectual, cientificidade e, conscientes que as suas acções, os seus depoimentos, podem subtrair a Liberdade a outro indivíduo, impõem a si próprios a recolha de indícios, a confirmação dos mesmos como prova e sequente consignação nos autos, sem qualquer tipo de interpretação subjectiva subtraída à objectividade dos factos e da ciência forense.

 

Meritíssima.

Terminando.

Não vou concluir recorrendo à habitual expressão utilizada solicitando a “customada Justiça”, uma vez que aquela que há 2 anos e 3 meses tem sido costumeira eu, respeitosamente, tenho que repudiar. Apenas espero de V. Exa., Justiça, até porque, e vou respeitosamente ousar contrariar indicação sua relativamente ao uso de locuções latinas, nunca a expressão fez tanto sentido para mim e se revelou tão verdadeira como neste momento: In manus tuas Domina!

 

Disse!”