“2015, Um Breve Balanço”

640 dias! No dia da publicação deste texto: 640 dias! No dia seguinte, 29 de Dezembro de 2015: um ano e nove meses!

Aqui já há quem me chame “Doutor Sénior” ou “P.J. antigo”. Sou o recluso que há mais tempo por cá se mantém em prisão preventiva.

Consultando o segundo Moleskine, verifico que por esta altura, no ano passado, tenho um apontamento de uma passagem de “Hamlet”, de William Shakespeare: “O que é um homem, quando o seu principal bem e a principal ocupação são dormir e comer? Um animal e nada mais. Certamente aquele que nos formou com esta razão, capaz de abarcar o passado e o futuro, não nos deu esta capacidade, esta faculdade divina para que fiquem inactivas em nós. Se será esquecimento bestial ou escrúpulo medroso de pensar demasiado no acto a praticar, pensamento no qual entram um quarto de prudência e três quartos de cobardia, não o sei! Porém, continuo a dizer que isto deve ser feito, se tendo a causa, a vontade, a força e os meios para o fazer.”

Quando transcrevi esta passagem, a minha maior preocupação era a inacção, a passividade, a incapacidade de agir, falar. Mas confiante na razão que me assiste, consciente da capacidade para abarcar o passado e o futuro, tendo sempre presente que a “acção agora” justifica e é causa determinante do “resultado depois”, inverti a proporção “Shakespeariana” prudência/cobardia, acrescentando uma variável: necessidade!

Tudo o que fiz, tudo o que tenho feito, o que agora escrevo, é também fruto da necessidade.

Da necessidade de manter a minha Casa, sustentar a minha Família. Necessidade de manter-me mentalmente são. Necessidade de teorizar e compreender tudo a que me sujeitam.

Tudo o que fiz durante este ano, tudo que tenho feito, por acção ou mesmo omissão, a forma como me agarro ao leme da minha frágil embarcação, não é só pela minha vontade. Como o homem do leme do “Mostrengo” de Pessoa: “Aqui ao leme sou mais do que eu: sou um povo que quer o mar que é teu; E mais que o Mostrengo, que a minha alma teme. E roda nas trevas do fim do mundo, manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!”

O Mostrengo é para mim a prisão, a sujeição a um castigo antecipado, uma medida de coacção absolutamente desproporcionada e injusta.

A embarcação é a minha Casa, a minha Família, a minha Honra e bom nome.

O mar que é dele (o Mostrengo): a minha Liberdade!

A Vontade não é de um Rei, conquanto reine sempre nas minhas acções. A Vontade, que surpreendentemente se mantém, alimenta-se do Amor que felizmente, durante um ano, de diversas formas fizeram chegar até aqui, ao Inferno gelado. “Como as coisas simples são as mais belas …”

O balanço de 2015 é manifestamente negativo!

Há mais de um ano, há 19 meses, que não recebo ordenado ou a parte que legalmente assiste a um funcionário que se encontra na minha situação, conquanto outros (ex-Director do SEF, Manuel Palos ou a ex-Secretária-Geral da Justiça, Manuela Antónia Anes) estejam a receber, até ao julgamento do “Caso Vistos Gold”. Mais grave, a medida cautelar que interpus há mais de um ano não obteve qualquer resposta.

Como o meu Caro(a) Leitor(a) vai ter oportunidade de ler no texto da próxima semana, esta questão do ordenado foi escandalosamente determinante na tomada de decisão que eu protagonizei no dia 18 de Dezembro de 2015! Explicarei para a semana.

O processo de violação do segredo de Justiça no meu inquérito-crime, no âmbito do qual encontro-me preso preventivamente, não apresentou até esta data qualquer conclusão!

Eu, ainda estou por aqui e por aqui vou ficar, iniciando um julgamento cujas sessões realizar-se-ão com uma periodicidade diária, acarretando um desgaste físico e psicológico brutal, uma vez que diariamente sairei daqui, de “Ébola”, algemado, mal alimentado, voltando outra vez ao “buraco”, não podendo descansar ou organizar a defesa de forma profícua.

Estou a 18 dias do início do julgamento e ainda não tive acesso às declarações dos meus co-arguidos, ainda não tive acesso ao meu “IPhone” e “IPad”, onde se encontra informação fundamental para a minha defesa.

A responsabilidade é do Tribunal ou da acusação? Não! Eu para a semana explico.

O balanço é dolorosamente negativo porque a minha Família está há cerca de dois anos à espera.

Tudo suspenso: o presente e o futuro. Tudo distante e incerto.

Os nossos projectos futuros resumem-se à preparação de compras dos poucos alimentos que podem entrar na prisão, as viagens são sempre para Évora. No balanço do activo e passivo da felicidade, existe um claro “deficit” de alegria, a dor ultrapassa em muito os quase ausentes momentos prazerosos!

O balanço é manifestamente negativo, mas eu ainda cá estou de pé, e não me limitei a dormir e comer.

Critiquei, alertei, denunciei, ri e chorei, continuo a amar (ainda que à distância) e tornei-me um fanático!

O meu “fanatismo” é o da Florbela Espanca: “Minha alma, de sonhar-te, anda perdida. / Meus olhos andam cegos de te ver. / Não és sequer razão do meu viver. / Pois que tu és já toda a minha vida!”

Espanca fala do ser amado, eu refiro-me à Liberdade! Nunca foi razão do meu viver pois nunca a tinha perdido, e agora, sem ela, sonho-a e tornou-se razão da minha vida.

Correm aqui diariamente as cortinas gradeadas que não me deixam ver o céu e o sol, tudo aqui sufoca, não posso gritar, mas a ideia da “minha Liberdade” dá-me força. Desejo-a como a um corpo de mulher, a vontade é tanta que receio voltar a “Ébola” pela prática de crime de violação!!!

Passou “mais” um ano. 365 dias intensos. Muitos deles provocaram um frio na barriga, um nó na garganta. Muito não conto, não digo, mas senti tudo! Continuo a sentir.

Por vezes a dor é tão forte que penso não conseguir suportar. Depois, penso nela e na alegria de a ter. Todas as noites penso nela. Antes de dormir velo por ela. É ela que agora me mantém e dá força. Porque ela, a Liberdade, é sinónimo da minha Casa, da minha Família, dos meus amigos, do Júnior, da Leonor, da Helena e da minha corajosa mulher.

A “minha Liberdade” é tudo isto e também o encerrar deste segundo annus horribilis, do começo de um novo ano, do início do meu Julgamento, do princípio do fim desta travessia do Inferno.

A todos, especialmente aqueles que velam por mim, e a si Caro(a) Leitor(a), boas saídas, melhores entradas e um 2016 em Liberdade!

P.S. – O texto é breve: é a minha prenda, humilde, para ti minha querida mulher que durante um ano abnegadamente copiaste e publicaste 64 opúsculos de qualidade duvidosa!

“Vou Sonhar o Meu Natal”

Está frio. Tenho as orelhas geladas. Estou só com o nariz de fora, deitado, enrolado nos lençóis, na cama de cima do beliche; em baixo não está ninguém. Estou sozinho no pequeno espaço onde me encontro.

Oiço vozes lá fora!

A temperar as vozes, a presença de um odor, uma fragância, um aroma que consigo mastigar. Desperto com o cheiro do Natal na casa dos meus pais: cheira a fritos castanhos com cristais brancos, despertei com as “fatias paridas”, as “filhoses” e os “coscorões”, que na cozinha a minha mãe e a minha avó paterna preparam.

Sempre associei o Natal a estas duas vozes e a este maravilhoso cheiro.

É dia 24 de Dezembro. Tenho 9 ou 10 anos. O beliche em baixo está vazio porque o meu irmão deve ter ido correr, treinar. O meu pai está no talho a vender os últimos cabritos e rolos de carne recheada, perus e outras iguarias. O meu avô está a passear pela serra, para ver os pássaros: os “bico-de-lacre”, os pintassilgos, os pintarroxos, para saber onde vai “armar aos pássaros”.

Eu deixo-me estar um pouco mais na “ronha”, a cheirá-las, escutá-las, feliz, seguro, com o “mundo” a fazer todo o sentido para mim:

– Leonor, ponho mais aguardente? – a mesma pergunta todos os anos.

– Julieta, quantos quilos de abóbora? – questiona a minha avó.

– Quatro!

– Põe, mal não faz!

É uma das memórias doces que guardo dos meus Natais.

Todos os anos o meu irmão ia à serra cortar um pinheiro, sempre com a mesma machadinha. Um dos rituais de passagem foi ter ido pela primeira vez com o meu irmão cortar o pinheiro. Estava a caminhar orgulhosamente para a idade adulta.

Depois “fazer a Árvore e o Presépio”. Os adornos, que agora estão na minha Árvore, na minha casa, eram por mim entregues ao meu irmão – porque era nove anos mais velho – e colocados por este.

No final, colocava-se a estrela, por ele feita na escola quando tinha 10 anos, estrela que está na minha casa, emoldurada, e que é o ponto final da Árvore de Natal, estrela que tem agora 41 anos!

Depois o Presépio. A imagem que acompanha este texto ilustra as peças, há 5 anos recuperadas por mim: pintadas novamente.

Nova deslocação à serra para recolher o musgo, tapete húmido que recebe as figuras que têm hoje cerca de 90 anos!

Há uns anos tentei comprar mais figuras destas mas não encontrei quem as vendesse.

Outra Tradição Familiar é a colocação das calças do “Homem da casa”, com a braguilha virada para a massa das “filhoses”, a cobrir a mesma, ficando a massa a levedar durante um dia.

Se as “filhoses” crescerem e forem gostosas, não se trata de acertar nas quantidades dos ingredientes, na dose da aguardente. Nada disso, é a braguilha!

Devo informar, modéstia à parte, que todos os anos em que a minha braguilha operou a Tradicional magia, as “filhoses” apresentaram uma qualidade superior!

Vários pinheiros, Presépios e braguilhas depois, casei e fiz a minha Casa.

O desenho da casa que recuperei foi por mim idealizado com uma preocupação: uma sala grande para receber a Família, no dia da Família; o dia de Natal.

A consciência ecológica surgiu, e o pinheiro agora e artificial, só o musgo é verdadeiro. A estrela é a mesma, as imagens do Presépio também, as avós são agora outras mas as receitas e as dúvidas quanto à quantidade de aguardente a adicionar, mantêm-se. Não sou eu que agora faço “ronha”, agora tenho de fazer a Árvore e o Presépio enquanto as minhas filhas passam as decorações que ainda são as mesmas: um cartão de boas festas que é pendurado, feito por mim quando estava na primária, e que tem uma data inscrita, 1979 (tinha eu 6 anos), entre outros artefactos.

Algumas bolas têm mais de 50 anos, mas também há cartões novos, feitos pela Leonor e pela Helena. A Tradição mantém-se e renova-se!

Outras Tradições foram iniciadas na minha casa: a Árvore e o Presépio “fazem-se”, sempre, a 1 de Dezembro (seja feriado ou não!); todos colocam o seu barrete de Natal, e, ininterruptamente, até tudo estar terminado (o que demora um dia inteiro) ouvem-se músicas de Natal, principalmente o “Blue Christmas” interpretado pelo Elvis!

Depois, lareira acesa, casa iluminada, casa cheia, muita comida, mesa decorada para 13 pessoas – agora menos porque algumas já partiram, conquanto estejam presentes na “Parede da Família”, olhando-nos do alto dos seus retratos.

Entretanto: “Cent`anni”! Um brinde, em italiano, que as pequeninas, agora maiores, aprenderam muito cedo a dizer. Significa: Cem anos! A Família junta e feliz mais cem anos.

Após jantar: “Loto”. Com cartões que no verso têm inscrito o nome de avós, tios que já não estão entre nós, mas presentes na “Parede da Família”. Joga-se ao “Loto” que ainda é marcado com feijões. É outro ritual de passagem: a Leonor há dois anos já jogou, “já está feita uma mulherzinha”!

As prendas só se abrem dia 25 de manhã. Na noite de 24, com toda a casa a dormir, a minha mulher esgotada a descansar, o meu momento! Só com as luzes da Árvore e a luz do fogo da minha lareira, que alimento com mais um cepo, sento-me no sofá e fico a olhar a minha Árvore, a “Árvore da Família”, e, em cada enfeite, em cada uma das peças do Presépio, renovo a Tradição e invoco todos os Natais passados que se revivem naquele Natal presente.

Nessa altura recordo sempre o momento em que despertava no beliche do meu quarto, partilhado com o meu irmão, e ouvia, cheirava, a minha mãe e a minha avó a prepararem o Natal.

Está frio. Estou todo gelado. Tenho uma boina na cabeça e nas mãos colocadas umas meias. Estou deitado na cama de cima do beliche; em baixo não está ninguém. Estou sozinho no pequeno rectângulo de 9 metros quadrados, as paredes escorrem água, a janela gradeada escorre água.

Oiço gritos lá fora. Portas a bater, chaves a rodagem em portas iguais à minha que fecham rectângulos iguais ao meu.

Acordo sempre sobressaltado, o cheiro é a mofo, a bafio, à gelada humidade que não permite que eu aqueça.

Cheira a ódio, a mágoa, a revolta. Estou dentro de uma cela, é dia 24 de Dezembro de 2014, a véspera do dia mais esperado: o dia de Natal, o dia da Família!

Não vou ver as minhas filhas, nem o meu pequeno “filho-homem”. Vi-os dias antes. As princesas choraram, eu aguentei-me. A minha mulher quase que aguentou.

A Árvore de Natal foi “feita”, assim como o Presépio, mas não colocaram a estrela no topo.

No jantar de 24 a minha casa estava na penumbra, as luzes da Árvore estiveram apagadas, não houve brindes ou “Loto”. A minha mulher levou a “ninhada” para a casa dos pais, porque não suportava ver a cadeira vazia.

Este ano, daqui a três dias, vai-se repetir a dor, a penumbra, a minha casa vazia.

A Árvore já foi “feita”, o Presépio também, a estrela não foi colocada.

Vou despertar na manhã de 24, experimento tudo mais uma vez, e, ao contrário do que sentia quando despertava e ficava na “ronha”, na casa dos meus pais, o “mundo” não fará sentido, não estarei feliz, não me sentirei seguro.

“Dois anos disto!?” Não faz sentido, como é que é possível!?

Há dois Natais que não vejo os olhos das minhas filhas, sorrindo, ansiosas, a abrirem as prendas. Apenas recordo os olhares de Natais passados. Do júnior, o meu “filho-homem”, a próxima “braguilha das filhoses”, nem uma recordação tenho do seu olhar, nunca o vi a abrir prendas junto à lareira, na minha Casa!

O equilíbrio é instável, o frio está sempre presente, dentro e fora de mim.  Há dias, a ver televisão, observo um anúncio de uma operadora móvel, no qual um casal de filhos grava a mãe em várias ocasiões e faz um vídeo que envia ao pai ausente na ceia de Natal, pedindo a mãe (mensagem orquestrada pela “ninhada”) para o pai comparecer na refeição do dia da Família porque sente saudades. Vê-se uma Família à mesa. A campainha toca. Olhares de surpresa. Entreolhar cúmplice da “ninhada”. A mãe abre a porta, olham-se nos olhos. Mãe e Pai abraçam-se!

O Inspector da P.J., João de Sousa, debulha-se em pranto aflitivo! Com um anúncio!

A porta da cela está aberta: “João, posso entrar?”

– Espera um pouco – abro a torneira e começo a molhar a cara.

O outro recluso vê-me. Fica a olhar.

– Entrou-me sabão para os olhos; estava a lavar a cara! – foi o melhor que consegui com  a voz embargada.

– Eu volto mais tarde, deixa estar! – saindo.

Fiquei sozinho de novo, e novamente “entrou-me sabão nos olhos”, durante cerca de 5 minutos. O outro recluso não voltou, muito possivelmente ele também já tinha visto o mesmo anúncio e soube de imediato o que se estava a passar.

Estou a escrever este texto com a porta do húmido “jazigo” fechada. Está a demorar muito a escrita: tenho os olhos cheios de sabão!

Nada disto faz sentido!

Aqui também fizeram uma Árvore de Natal, com luzes e tudo, e até um Presépio!

Ofende-me o gesto! O contraste entre a acção de colocar fitas de Natal, um pai Natal pendurado nos gradões existentes, e a infiltração que por cima de mim vejo, infiltração da sanita da cela do piso superior, é atentatório à minha dignidade.

O horrível frio e fome que experimento por aqui é insultuoso, agravado pelo facto de decorarem as grades com enfeites de Natal!

No vaso que contém a Árvore de Natal de “Ébola” não vejo anjos ou musgo, vêem-se pontas de cigarros!

Há dias, o menino Jesus tinha sobre as fraldas uma mão de loiça, quebrada, possivelmente de um dos reis magos! A piada? Era uma provocação aos condenados por pedofilia!

Nada aqui é santo, prazeroso, quente, reconfortante. Possivelmente nem deveria ser assim.

Aqui não há Natal, somente o dia 24, 25, 26, 27, 28, 29 de Dezembro. Um dia como os outros.

A minha questão é outra: como é que se justifica eu ter estado aqui todos esses dias, agora pela segunda vez?

Nada aqui é santo ou sagrado. É tudo bazófia e dor. E por assim ser, à semelhança do ano passado, não vou ver a minha mulher e a “ninhada” a 24 e 25 de Dezembro. Não quero aqui quem amo, não quero que vejam este Natal, o Natal a que me sujeitam, incompreensivelmente, há dois anos.

O meu 24 e 25 vai ser igual ao do Natal passado. Castigarei o corpo de manhã, e quando for fechado, às 19h00, vejo as notícias, e, ansioso, esperançado, apago as luzes no “jazigo” pedindo uma prenda ao “Pai Natal”: que o sono chegue depressa e possa sonhar com o meu Natal!

Um Santo Natal para o Estimado(a) Leitor(a) na companhia calorosa daqueles que ama!

“Entrevistas, Estratégias … e a Verdade!”

Esta semana, na segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015, gravou-se aqui em “Ébola” a entrevista ao Inspector João de Sousa.

A CMTV fez deslocar dois elementos – um operador de câmara e um jornalista. O Director do Estabelecimento Prisional colocou um guarda a ver e ouvir a entrevista (a sua presença era notória pelo “canto do olho” de entrevistado e entrevistador). Também foi colocado um pano ou uma toalha, não consigo precisar, a cobrir a porta vidrada existente na sala de visitas, local onde decorreu o evento. Objectivo? Não se filmar o espaço para lá da porta! O que existe do outro lado da porta? Um guarda sentado numa cadeira e um pórtico detector de metais! Então porque o fizeram? Podiam dar indicações para não “apontar a câmara” para o local! Eu sei lá, mas arrancou-me uma boa gargalhada quando vi o medievo e boçal aparato.

Nervoso, muito nervoso, quando fui conduzido à presença dos profissionais da CMTV, cometi uma gafe comprometedora:

– Bom dia! – saudaram ambos em uníssono.

– Bom dia! Inspector João de Sousa, corrupção! – Ups! Que tropeção! O que eu queria dizer era: “Bom dia! Como estão!” Que “borrada”!

Sempre que me apresento, profissionalmente, invariavelmente digo: “Bom dia/tarde/noite (conforme a hora do dia) Inspector João de Sousa, homicídios!” Desta vez saiu-me “corrupção”!!!

De imediato pedi desculpa, justificando-me com os nervos que experimentava, acrescentando que o aforismo popular “fugiu-lhe a boca para a verdade”, nem sempre se aplica!

Tanta preocupação com tudo – a imagem, o que iriam perguntar, como iria responder, como sentar-me, o que levar nas mãos – e um engano constrangedor logo aquando da saudação!

Um dos aspectos que mais me preocupou na entrevista, Caro(a) Leitor(a), foi a imagem, ou seja, como deveria apresentar-me ao “mundo” 1 ano e 9 meses depois?

Com a roupa que visto aqui diariamente – fato de treino e ténis – qual jovem delinquente em reclusão? Barba por desfazer, o que apela para a terrível privação que estou a experimentar? O “coitadinho” que sofre, o humilde “Zé Maria” do “Big Brother”, vítima do sistema? E o fato de treino, deveria mandar lavar ou vestir um sujo?

Ténis, os de treino, sujos, ou os “de andar”, ou mesmo chinelos?

“Reforço vicariante”. Sabe o meu Leitor(a) o que é?

Dizem os teóricos da aprendizagem social que se trata de uma forma de reforço que se verifica quando alguém observa um modelo que é recompensado ou punido.

Quem é que aqui não tomava banho, cheirava mal, só tinha um fato de treino, umas calças de ganga e umas botas rotas que não permitia que as tirassem, e que agora está livre como uma “ave do paraíso”?

Pois é, o José Sócrates! Logo, se com ele, que foi considerado um dos mais elegantes líderes políticos europeus, resultou a vitimização, a falta de higiene, o “coitadinho” que quando chega à Abade Faria, 33, está todo roto com uma t-shirt com odor intenso, deslavada; então a solução é a imagem do Conde de Monte Cristo antes da fuga e posterior riqueza.

Fato “desenhado à medida”, lenço na lapela, gravata italiana, postura digna, vaidade visível, discurso orgulhoso, “senhor de si mesmo”, nada disso; isso seria um erro: “vejam o “tipo do ouro” da P.J.”, “olha o aspecto, aquilo é mesmo cama, televisão e roupa lavada!”; “olha o anel de ouro! Então, não é o gajo corrupto?”; “olha a pinta do bicho! Está com bom aspecto agora, faz-lhe bem a “choldra”!”

Nada disto, deixemos a dignidade para depois, agora o que importa é impressionar: quem é que com tanto dinheiro necessita de vestir t-shirts rotas ou botas usadas? O Homem é inocente!

Foi a pensar nisto tudo que expus (atendendo ao “reforço vicariante”) que optei por apresentar-me como me apresentei. O meu Leitor(a) avaliará!

E as questões? O tão receado “contraditório”?

Quando fui abordado pela CMTV pediram a acusação e despachos da Relação.

O que fiz? Neguei estrategicamente a informação? Protegi-me?

Era isso que eu devia ter feito, Caro(a) Leitor(a)?

Vejo que cometi novo erro: facultei tudo o que me solicitaram! Eu sei, eu sei, ou melhor, eu senti na pele as consequências do meu acto!

Fui bombardeado com questões delicadas para a minha imagem, ainda que pertinentes porque servem a Verdade!

As questões foram formuladas sustentando-se na convicção da acusação, o que implica partir-se do pressuposto que eu pratiquei todos os crimes de que estou acusado.

Nesse momento compreendi os ataques de raiva do José Sócrates, o facto de este não responder a nada do que lhe perguntam, nesse momento desejei interpor medida cautelar contra o grupo Cofina.

Mas depois pensei: isto é a “Verdade”, aquilo que a Acusação crê ser a “Verdade”, e, por mais incómoda que seja, tem de ser conhecida, discutida, analisada.

Mais, esta é a “Verdade” do sistema, a forma como é entendido o instituto da prisão preventiva, a forma errada. Eu, enquanto profissional da P.J., com 15 anos de Serviço, tenho a obrigação Ética e Moral de denunciar e discutir a temática, não só abordando de forma auto-centrada o meu caso, mas extrapolando para os exemplos que conheço e censuro.

“Humildade não é pensar menos de si, é pensar menos em si”, e isto faz toda a diferença entre epitetarmos a “Verdade” do Outro de “canalhice”, ou, com garra, rigor, honestidade intelectual, com coragem, rebater o argumentário contrário.

Dia 14 de Dezembro de 2015, José Sócrates vai dar a sua primeira grande entrevista na TVI!

Não espero nada de novo e divertir-me-ei dentro do meu “jazigo”, pois o José vai seguir o “guião” do assessor de imagem. Saberá quando franzir o sobrolho porque antecipadamente sabe que a 14ª questão será sobre o Juiz Carlos Alexandre, a 25ª questão sobre o João Perna, a 30ª sobre o Santos Silva.

É uma entrevista estrategicamente desenhada com aquela que é a sua “Verdade”.

Quanto ao sistema, à Justiça, aos outros que ainda por cá estão e aos outros que podem vir a estar, Sócrates é omisso. Por desinteresse, por ignorância, por um terrível sentimento de culpa, uma vez que é um dos responsáveis pelo “estado da arte” da Justiça em Portugal, o José será omisso!

Sócrates terá palavras-chave, momentos e mensagens estrategicamente preparadas, nada daquilo é espontâneo, verosímil.

Ricci Bitti e Bruna Zani, na sua obra, “A comunicação como Processo Social”, dizem-nos que “a convicção do Tribunal é formada dialecticamente para além dos dados objectivos fornecidos pelos documentos e outras provas constituídas, também pela análise conjugada das declarações e depoimentos, em função das razões de ciência, das certezas e ainda das lacunas, contradições, hesitações, inflexões de voz, (im)parcialidade, serenidade, “olhares de suplica” para alguns dos presentes, “linguagem silenciosa e do comportamento”! Ora, isto tudo é verdade se existir contraditório, liberdade jornalística e pessoal.

Nem José Sócrates, nem João de Sousa, estão a ser avaliados pelo Tribunal que há-de julgar ambos (pelo menos no meu caso, no dele ainda não há acusação) quando são entrevistados, mas existe outro Tribunal: o da opinião pública!

E ambos, com a devida proporção, têm responsabilidades na área da Justiça, ambos, por imperativo Moral e Ético, devem contribuir para o esclarecimento do sistema de Justiça português. É minha profunda convicção, baseado no que vivi aqui com o “recluso 44” que este só vai baralhar mais, tornar a água mais turva, porque lucra à sua causa esse efeito.

É só o Sócrates? Claro que não! Vejam as entrevistas dos candidatos à Presidência da República!

Na psicologia estuda-se o “efeito de primazia” e o “efeito de recência”. O que são?

O “efeito de primazia”, na formação de impressões sobre outra pessoa, é a tendência para dar mais importância aos atributos notados no início do que aos notados mais tarde.

O “efeito de recência” é o contrário do anterior, estando ambos relacionados com a recordação livre.

Marcelo Rebelo de Sousa responde às questões sobre a relação com Ricardo Salgado no final da entrevista, apostando no “efeito de recência”; Maria de Belém abre a entrevista com uma declaração afirmando que considera censurável Marcelo Rebelo de Sousa utilizar a universidade, um espaço público, como local de entrevista, apostando no “efeito de primazia”!

Perguntam-me em que “efeito” apostei eu?

Eu levei uma tareia, eu limitei-me a sobreviver à entrevista!

Mas, e eu não controlo a versão final da hora e meia de entrevista realizada, logo não sei o que vai “para o ar”, espontaneamente falei sobre:

– O instituto da prisão preventiva e os meus inacreditáveis 21 meses de prisão, comparado com outros casos;

– O José Sócrates e a sua falência ético-moral;

– O Ricardo Salgado, o António Figueiredo (vistos Gold) e outros notáveis presumíveis inocentes;

– Os pedófilos e a ausência de reinserção e ressocialização social;

– O Juiz Carlos Alexandre e a sua notória infalibilidade;

– A forma como nós (P.J.), Ministério Público e Juízes tratamos os factos que condicionam a decisão de prender ou não prender;

– As condições do Estabelecimento Prisional de Évora que serve comida confeccionada num contentor onde há pouco tempo foram retirar uma ratazana morta da água das azeitonas, apelando à ASAE para fiscalizar isto por aqui;

– O meu castigo de 6 dias, 22 horas por dia fechado, por delito de opinião;

– Este blogue e a petição civil que corre na “net” em meu nome;

– A minha Família.

Como referi, não possuo o Poder (nem o desejava exercer se o possuísse porque condeno a acção) de exigir a versão final da entrevista controlada. Os “cortes” e montagem final são da responsabilidade da CMTV. Confesso que tenho receio de ser somente olhado mas não visto, é uma incerteza que aceito porque é mais importante viver numa sociedade livre na qual a minha mensagem pode ser ouvida hoje, amanhã ou mesmo depois, ainda que não entendida da forma que desejo.

A CMTV garantiu-me que a entrevista fará parte de um programa onde o painel de comentadores vai analisar o conteúdo das minhas palavras.

Garantiram também, caso desejasse, a presença do meu advogado.

É justo e será útil à minha causa, consiga eu contactar o meu defensor que não atende o telefone, nem aparece por aqui, por forma a desenhar a estratégia da minha defesa. Eu compreendo, não disponho da capacidade económica para garantir a exclusividade de um defensor, e isto também é o “sistema”. Não existe igualdade na defesa para todos os portugueses, e, o meu defensor, conquanto eu consiga “sacar” estas entrevistas, apesar de ter conseguido não cair na “rua do esquecimento”, possivelmente é averso à exposição pública!

E não creia o meu Estimado(a) Leitor(a) que o parágrafo anterior é uma mensagem para o meu defensor, porque, acredite ou não, cerca de 190 000 pessoas já passaram por este blogue, não se contando o meu advogado entre as mesmas, ele que sempre me disse que um dia leria o que aqui se escreve!

“Acusado de violação do segredo de Estado, acesso ilegítimo a dados pessoais, abuso de poder e corrupção, Jorge Silva Carvalho (Ex-Director-geral do SIED) abriu o livro quando foi confrontado pela Juíza”; “Nota medíocre para doze magistrados”; “Ex-Director do SEF acusado de favorecer ex-sócio de Miguel Macedo”; “Caso Sócrates: entregas de dinheiro acompanhadas em directo”; “Rangel devolve bens a Sobrinho”; “Ricardo Salgado em liberdade”; “4 menores abusados por dia”.

Tudo títulos nos jornais, tudo falado directa ou indirectamente durante a minha entrevista. Abordado de forma espontânea, crua, frontal, corajosa, sem tácticas ou subterfúgios; mas nunca esquecendo, porque sinto na pele, que todos estes são notáveis presumíveis inocentes que em liberdade exercem o seu inegável direito à defesa do seu bom nome e inocência, seja recorrendo a artimanhas ou condicionamento da imprensa, seja através do silêncio e ocultação das suas acções; e eu, o Inspector João de Sousa da Polícia Judiciária, possivelmente não a melhor cerveja do mundo, mas o mais ardiloso criminoso desde Alves dos Reis, o mais execrável desde Barrabás, o mais perigoso desde Hannibal Lecter, preso preventivamente, sem julgamento, há 1 ano e 9 meses (há dois Natais, há um nascimento de um “filho-homem”, há dois aniversários das “filhas-princesas”, há 62 textos neste blogue …).

Fico à espera do comentário do meu Leitor(a) à entrevista. Informarei neste espaço a data e hora da transmissão na CMTV. Disseram-me que será num sábado deste mês.

Diga-me qualquer coisa, Estimado(a) Leitor(a), preciso de uma opinião sincera, porque a da minha mãe e de quem me conhece bem, eu sei perfeitamente qual será!

“Futurologia? Não, Obrigado!”

– Viu o horóscopo, Sr. João? Isto está mau para os “virgens”! – taxativo.

Aqui em “Ébola” medra o “pensamento mágico”. De manhã, muita gente por cá vê com muita atenção a Sra. Maria Helena a aconselhar com recurso às cartas e às disposições da venal Lua e do majestoso Sol.

O mito surge na mente humana alimentado pela ignorância dos fenómenos que rodeiam o indivíduo, a crendice e a superstição são ignaras, e a indolência, a negligência intelectual, torna o sujeito ignavo.

A simplicidade com que os fenómenos são entendidos, simplicidade consequência das necessidades presentes que obrigam à submissão do ignorante a todo aquele que aparenta encerrar na sua pessoa, através do seu discurso, a solução salvífica, alimentam o status quo e reforçam a dependência intelectual.

O desconhecido alimenta o medo, a subserviência.

Esta semana os meus progenitores visitaram o filho recluído. Estão preocupados.

– E se te condenam injustamente, Pedro? – pergunta a minha ansiosa mãe.

Recordei de imediato o famoso diálogo de Sócrates (o filósofo) com a sua mulher, após esta ter conhecimento da sentença do Tribunal: pena de morte.

– Aqueles malditos juízes condenaram-te à morte injustamente! – a indignada esposa.

– Preferias tu que me tivessem condenado justamente? – questionou, replicando, o sábio filósofo.

Direccionando o seu olhar para a opaca janela do Futuro, os meus pais hesitam, colocam hipóteses, preocupam-se. A falha, a lacuna com que necessariamente têm de conviver, impacienta-os, desgasta-os, envelhece-os!

Alberto Manguel, na sua obra, “Uma história da curiosidade”, conta-nos que os “leitores da Idade Média usavam a “Eneida” de Virgílio como ferramenta de adivinhação, fazendo uma pergunta e abrindo o livro em busca de uma revelação. Robison Crusoe faz basicamente a mesma coisa com a Bíblia, para encontrar orientação nos seus longos momentos de desespero”.

Vou agora fazer o mesmo, Caro(a) Leitor(a). Tenho aqui comigo a Bíblia Sagrada, edição pastoral (Paulus Editora). Vou abrir ao acaso e ver o que me diz o livro da verdade. Vejamos: “[…] E Deus continuou a dizer a Abraão: «Quanto a ti, observa a aliança que faço contigo e com os teus futuros descendentes. E a aliança que faço contigo e com os teus futuros descendentes, e que deveis observar, é a seguinte: circuncidai todos os homens. Circuncidai a carne do prepúcio. Este será o sinal da aliança entre Mim e vós […]” (GN. 17, 9-11)

Alto! Alto! Chega! Até me arrepiei e não é por causa do frio que aqui se faz sentir!

Como é que isto responde às minhas incertezas? Como pode isto ajudar-me em Julgamento?

Que culpa tem o meu “filho-homem” que o pai não consiga ver o futuro e confie o prepúcio de ambos à aleatoriedade de um texto?

A curiosidade dos meus pais é válida, também eu estou curioso quanto ao meu futuro.

Adoro Fado. Adoro a D. Amália: “Fado é sorte / E do berço até à morte / Ninguém foge por mais forte / Ao destino que Deus dá!”

Adoro o saudoso Tony de Matos: “O destino marca a hora / Pela vida fora / Que havemos de fazer / O que rege a sorte agora / Foi escrito outrora / Logo ao nascer / O relógio marca o tempo de viver / Todos nós somos iguais / Se o destino nos condena / Não vale a pena / Lutarmos mais!”

Respeito quem crê. Respeito quem acredita no alinhamento dos astros, mas não posso partilhar o credo. Se assim fosse, como admirar as palavras de Einstein: “Todos acham que algo é impossível de realizar, até que alguém aparece que não sabe e o inventa!”

Se por acaso aceitasse tudo isto a que me sujeitam, não tinha conseguido, até ao momento, suportar as despesas da família.

Um blogue? Onde é que isso já se viu?!

Cronista de um jornal? Impensável!!!

Voltando a Alberto Manguel e à sua “História da Curiosidade”: “[…] As nossas ambições são definidas tanto pelo que não alcançamos como pelo o que alcançamos, e a Torre de Babel continua inacabada, mais como um monumento à nossa exultante audácia do que como um memorial aos nossos falhanços”. Aqui está um fabuloso exemplo do “copo meio-cheio”!

Valeu a pena o castigo de 6 dias por “delito de opinião”? Como pode o castigo ser entendido como uma vitória?

– Pedro, não achas que a entrevista à televisão pode comprometer tudo? – o meu preocupado pai.

– Tudo o quê, pai? – sorrindo, porque é importante eles verem-me bem.

– Não serás castigado outra vez?

Diz-se que quando perguntaram a S. Tomás de Aquino por que estava mais grato a Deus, respondeu: “Por me dar o dom de entender cada página que leio.”

Meu querido pai, não interessa agora o castigo, isso é futurologia. Eu sei o que leio, compreendo o que leio neles: no Director, na Juíza do T.E.P., no Sub-director, no Tribunal que me mantém aqui preso. O que importa é dizer, pronunciar as palavras que nos sufocam, falar a injustiça, agora, no presente.

“[…] Assim era o meu Mestre. Não só sabia ler no grande livro da natureza mas também do modo como os monges liam os livros da Escritura e pensavam através deles […]” (in, “O nome da Rosa”, Umberto Eco. Guilherme de Baskerville nas palavras de Adso de Melk).

É mesmo assim, sem falsas modéstias!

A interminável derrota que é a manutenção da minha prisão preventiva, permitiu-me apurar o meu entendimento do sistema, da máquina da Justiça.

Estou a preparar o meu Julgamento, lendo as peças processuais definitivas, sem condições, sem a tão propalada “igualdade de armas”. Quem disser que consegue fazê-lo proficuamente num espaço frio com 9 metros quadrados, com a humidade a escorrer das paredes e a sanita da cela de cima a verter para o tecto do meu “jazigo”, escurecendo ainda mais a já escura “caixa de solidão”, sem acesso livre a livros, manuais, com restrição de contacto com o advogado, então quem o disser, e conseguir, é o meu herói.

Estou a ler a minha acusação, a “antecipação da decisão final”, o “projecto de sentença”. E o que vejo? Observo aquilo que S. Tomás de Aquino assinala que Santo Agostinho observou, ou seja, “mais coisas são procuradas do que encontradas, e das coisas que são encontradas, menos ainda confirmadas”!

– Então, filho, exactamente por causa do que dizes, já não devias estar em casa? Eu tenho muito medo do que o Futuro te possa reservar! – a dor da minha mãe.

– Minha querida, é assim que eles lêem o livro da natureza, é assim que está desenhado o sistema, temos que o denunciar!

– Tu, filho? Mas tu és muito pequenino comparado com “eles”! – possivelmente desejando que eu de facto ainda fosse pequenino para no final da visita me levar ao colo, protegido, nos seus braços.

– Pedro, muitas portas estão fechadas, e eles é que têm as chaves. – alertou-me o meu pai.

Para os sossegar, para aliviar o fardo de verem o filho preso:

– Sabem quem é a pessoa que mais portas permitiu que se abrissem na história da humanidade?

– Alguém com poder, influência, coisa que tu não tens, ainda que possas ter razão! – acrescentou sensatamente o meu pai.

– Não! Um homem simples: o inventor da dobradiça!

Eles, os meus pais, não conseguem compreender como, ao fim de 20 meses (1 ano e 8 meses) ainda mantenho o sentido de humor.

É simples. Manguel, mais uma vez: […] A imaginação, enquanto actividade criativa essencial, desenvolve-se com a prática, não por meio de êxitos, que são conclusões e, portanto, becos sem saída, mas por meio de fracassos, por meio de tentativas que se mostram erradas e exigem novas tentativas que, também elas, se os astros forem bondosos, conduzirão a novos fracassos. A história da arte e da literatura, como a da filosofia e da ciência, é a história desses fracassos iluminados. “Falhar. Tentar outra vez. Falhar melhor”, foi o resumo de Beckett […]”

Eu tenho que retirar de tudo isto Conhecimento, Sapiência. Churchill afirmou que “a vida dá lições que só se dão uma vez”.

E conhecendo, sabendo, o que fazer com esse património?

Fazer como o outro que daqui saiu e não permite o contraditório? Ocultar os erros e incongruências daqueles que me sujeitam ao castigo (sim, porque isto já é um castigo) por receio de os contrariar e assim prolongar o jugo?

Ao contrário da investigação de que fui alvo, e que presentemente se materializou numa acusação, eu não tenho certezas, e assaltam-me muitas dúvidas. Francis Bacon, muito mais sábio que a Dra. Maria Alice e o Dr. João Davin, afirmava que, “Se um homem começar com certezas, terminará com dúvidas; mas se se dispuser a começar com dúvidas, terminará com certezas”.

A investigação nunca sentiu dúvidas, mesmo quando as suas premissas iniciais não obtiveram confirmação. O ponto de que partiram para construir o seu raciocínio revelou-se incerto, ao não confirmarem o seu “pré-conceito” justificaram as suas insuficiências com supostos ardis meus. A força das suas convicções, a intensidade dos seus sentimentos, mesmo o cúmulo de ambos, não podem servir para refutar a evidência ou ausência de um fenómeno.

Karl Popper sabia-o! “O que é a verdade? – a célebre pergunta de Pilatos a Jesus. Pode-se responder à questão de um modo simples, a saber: uma asserção, proposição, declaração ou crença é verdadeira se, e apenas se, corresponder a factos!”

– Virás para casa quando começar o Julgamento? – questionaram-me os meus pais.

Respondi que não possuo informação suficiente para, em razão de ciência, conseguir responder à questão; infelizmente, porque o que queria mesmo era animar ambos.

Entenda o meu Caro(a) Leitor(a), que não se trata de má vontade para com os meus pais. Nada disso!

Trata-se de honestidade intelectual, trata-se de não fazer exactamente aquilo que critico na investigação, e que detecto naqueles que partilham o Inferno aqui comigo: teimar no preconceito, expectar crentes em algo insubstancial, alimentar o “pensamento mágico”.

Futurologia? Não, obrigado!

O Futuro é agora, e, é esse mesmo “Futuro que proporciona o critério que dá sentido à complexidade do (meu, aqui em “Ébola”) dia-a-dia. Especial é o que vais fazer”.

Este texto vai ser publicado dia 7 de Dezembro de 2015, de manhã. À tarde, aqui em “Ébola”, contrariando todos aqueles que consideravam impossível, uma estação de televisão comparecerá no estabelecimento prisional de Évora para realizar entrevista ao Inspector da P.J., João de Sousa, preso preventivamente há 618 dias, 88 semanas, 20 meses, 1 ano e 8 meses; acusado, entre outros, da prática do crime de corrupção. Verificar-se-á a existência de contraditório, abertamente se falará de Justiça e sem qualquer tipo de condicionalismos intelectuais.

As consequências deste evento? Desconheço! Os frutos que vou colher? Desconheço, não sou formado em pomologia.

Só tenho uma certeza (algo que como se sabe não é muito saudável para a Sabedoria) como nos legou Saint-Exupéry através da raposa no seu “Principezinho”: “Tu tornas-te sempre responsável pelo que cativas.”