“Hoje é dia de festa…”

Liberdade daqui a: 367 dias !!!

 E aqui estou eu de novo, deste “lado das grades”, do bom lado das grades, do lado das pessoas saudáveis.

Ali vou eu a sair com a mala cheia de saudades. Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018. 19H00.

A minha terceira saída do Estabelecimento Prisional de Évora, com 4 anos e (quase) 6 meses de pena de prisão.

O foco: reunir em ambiente normal e saudável com a “ninhada”, festejar o meu aniversário com a Família!

Aquele caminhar algo apressado e decidido, era alimentado pelo conforto da certeza de estarem a “preparar-me” um festim digno de um hedonista eclético há muito afastado da companhia do Prazer.

Desta forma, a reclusão e o cumprimento da pena tornam-se mais suportáveis. Deve ser por isto que é tão importante o “suporte familiar no exterior”.

Feitas as contas, com seriedade, o saldo é muito positivo: mesmo recluído, afastado e repudiado, o núcleo duro mantém-se incólume, forte, fonte de Força, Carinho e Amor.

Perante tudo aquilo que me proporcionaram neste fim de semana, sinto-me como Próspero, a fabulosa personagem da “Tempestade”, de William Shakespeare. Para ser exacto, revejo-me nas palavras da sua filha Miranda: “Ó maravilha! Que adoráveis criaturas aqui estão! Como é belo o género humano! Ó admirável Mundo Novo, que possui gente assim!” (William Shakespeare, “A Tempestade”, Acto V)

Que bela gente esta que comigo partilhou o dia do meu aniversário, que colmatou a falta da “mãe Ju”, que proporcionou conforto, alegria e carinho à minha ”ninhada”.

Faltou apenas a Maria João.

Já alguma vez Vos fizeram sentir os privilégios que gozava (muitas vezes despudoradamente) um Príncipe Renascentista?

Alguma vez sentiram o carinho sem qualquer tipo de exigência, qualquer forma de compromisso, apenas porque sim, porque se sentem bem se tu te sentires bem?

Quando alguém dá tanto a outrem (sendo que esse “outrem” neste caso sou eu) que nada pode dar em troca, um sujeito que carrega consigo a mácula do crime, um pária, então, é nestas ocasiões que se vê a dimensão de quem está a dar desinteressadamente!

Escrevo estas linhas hoje, dia 23 de Setembro de 2018, quando faltam menos de 24 horas para regressar ao Inferno, e, despudoradamente, repleto de tudo, farto de Amor e Companheirismo, confesso-Vos: ainda não recuperei da “Festa”, daquilo a que o meu filho-homem de 4 anos, o João De Sousa, Jr., descreve como “a altura em que o Pai vem a casa e somos felizes!”

Comeu-se, bebeu-se, caiu-se. Cantou-se, dançou-se, riu-se e chorou-se!

“E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada. Que seja a minha noite uma alvorada. Que me saiba perder, para me encontrar!” (Florbela Espanca)

Durante muito tempo, ontem, mais tempo do que o meu corpo debilitado pela reclusão permite, o meu organismo que de tanto penar com a comida que me obrigam a deglutir demora a “arrancar” para apanhar o António, esqueci completamente que era recluso, condenado pela prática de um crime de Corrupção!

Não esqueci porque ébrio fiquei: olvidei a condição a que me sujeitaram porque “aquelas adoráveis criaturas” que ali estiveram comigo generosamente, permitiram que assim fosse.

Reparem naquilo que a “ninhada” ensinou ao pai. Sabiam Vocês que isto é um “efeito boomerang”?

Sim, reconheço: a felicidade plena faz de nos uns autênticos dementes sem tratamento conhecido! A felicidade verdadeira inebria, enlouquece, entontece!

Não acreditam?! Acham que exagero!? É normal após um oceano inteiro de ausência?!?

Então vejam esta do Ex-Inspector João De Sousa, “MasterBlaster” dos Homicídios, um Farol de Conhecimento, autêntico Colosso de Proficuidade!

Pois é! Sabem o que é pior? O pior é que nesta altura ainda não se tinha bebido nada!!!

Ai, a “minha bela Ninhada”!

Não percebem que o Pai está um ano mais velho. Não repararam, porque o Pai rapa a cabeça e assim não se vê (ou talvez rape porque não permite que se veja), que o “andamento” é outro e já não aguenta mais, pesando-lhe a vasta multitude de cabelos brancos.

Não entende a “ninhada” que no dia de hoje, menos de 24 horas depois do evento já conhecido como “A Festa”, eu não estava em condições de fazer a famosa iguaria “Tudo ao molho e fé em Deus”?!?

– Mas Pai, o mano nunca comeu! Nunca te viu a fazer o “Tudo molho e Fé em Deus”! – a Leonor.

– Vá lá, Pai! – a Helena.

– O que é isso?!?! Magia!?!? – o Junior.

Como é que eu, “O Grande Mestre da Ordem dos Magos e Feiticeiros” podia negar o “Tudo ao Molho e Fé em Deus” a estas adoráveis criaturas? Não podia!

Aqui está o “show-cooking” do “Tudo ao Molho e Fé em Deus”!!!

A “ninhada” já está a dormir. Reina o silêncio, somente incomodado pelo “martelar” das teclas do teclado do computador.

Estou estoirado! O texto está a demorar mais porque desde que o comecei já fui três vezes à casa de banho!

Não sei se foi pelo que comi. Terá sido pelo que bebi? Ou será que apanhei uma intoxicação de Amor? Olhem que pode acontecer!

Vou terminar porque amanhã tenho que regressar a “Ébola”! É isso, claro que é!

O intestino ficou irritado com os nervos! Vou regressar, e lá dentro é mesmo tudo ao “Molho e Fé em Deus”, mas sem “chantilly”, o gelado de natas, a “ninhada” e o Amor generoso das “adoráveis criaturas” que comigo partilharam  o dia do meu aniversário!

Obrigado a todos!

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“Ena pá! Tanta gente que eu conheço!”

Liberdade daqui a: 367 dias!!!!

Setembro! Um mês especial para mim: nasci em Setembro! Nasci em Setembro e este ano, após 3 anos sem festejar a data junto dos meus, no quarto ano de reclusão, vou comemorar com aqueles que amo (depois eu conto-Vos como foi, eu “mostro-Vos” neste espaço!)

Setembro, mês especial para mim, mas este Setembro de 2018 ainda mais! Sentado, fechado no meu “jazigo” de “Ébola”, a ler, a televisão capta a minha atenção: “rentrée” do ano judicial!

Com um grafismo muito engraçado e de fácil assimilação, a RTP informa-nos das datas dos vários processos-crime que vão iniciar, continuar e, quiçá, terminar.

O apontamento jornalístico chega ao fim após 5 minutos e de imediato este texto surge na minha cabeça! O título foi fácil, apenas tomei nota da interjeição que deixei escapar à medida que ia vendo as fotos dos envolvidos: “Ena pá! Tanta gente que eu conheço!”

Tanta gente, tantos figurinos que eu realmente conheço porque trabalhei com eles ou adquiri conhecimento através daqueles que os investigaram, ou, muito melhor, conheci-os em ambiente prisional, sem o verniz habitual, sem máscara, crus, despidos no meio da miséria comum.

Os colegas da P.J., Sócrates, Manuel Palos, Orlando Figueira, Paulo Pereira Cristovão e co-arguidos (elementos da P.S.P.), todos estes por aqui passaram e penaram.

Duarte Lima, Armando Vara, João Rendeiro, Oliveira e Costa, Paulo Lalanda e Castro, Secretários de Estado, o Sport Lisboa e Benfica, o meu Sporting Clube de Portugal, e outros que também referiram, como por exemplo o “super-espião” Jorge Silva Carvalho ou Carvalhão Gil (só espião, sem o “super”): tanta gente que eu conheço!

Esta gente foi investigada, constituída arguida ou até julgada na mesma altura que eu: 2013, 2014, 2015! A alguns a Justiça “alcançou” mais cedo (v.g. Dias Loureiro, 8 anos de investigação e arquivado; João Rendeiro (BPP) investigação desde 2008; Oliveira e Costa (BPN) investigação desde 2008). Talvez afirmar que a Justiça “alcançou” estas figuras seja um exagero da minha parte, admito-o!

Entretanto, após tomar nota de algumas ideias para este opúsculo que agora Vos deixo, instalou-se em mim, paulatinamente, um desconforto pesado. Uma sensação incómoda que se materializou quando li estas palavras de Eduardo Dâmaso, no seu espaço de opinião na revista Sábado (edição nº 748): “[…] Num país em que aplicar uma pena de prisão efectiva demora 4 ou 5 anos e é atrasada por recursos que só os ricos podem pagar, construir um M.P. controlado politicamente é um crime de lesa-pátria.” (título do editorial: “A guerra contra Joana Marques Vidal”).

Com a sensação desconfortável materializada sobre os meus ombros, percebi o que me incomodava: Eduardo Dâmaso tem toda a razão, excepção feita no meu caso!

A 30 de Janeiro de 2015, neste espaço, escrevi: “Desde o primeiro momento que disse à minha Família e amigos que iria penar o tempo todo de todos os prazos! Sempre afirmei e reitero agora, que a minha acusação “sairá” na vigésima quarta hora do último dia. Até apostei um almoço!”

(texto: “Inspector João de Sousa da P.J., também conhecido por Grande Mestre da Ordem dos Magos e dos Feiticeiros”)

Ao contrário de todos aqueles que Vocês também conhecem, eu, João de Sousa, ex-Inspector da P.J., condenado a prisão efectiva pela prática dos crimes de Corrupção e Violação de segredo de Funcionário, esgotei o prazo total de prisão preventiva!

Eu, João de Sousa, último rosto condenado pelo crime de Corrupção em Portugal nos últimos quatro anos e meio (corrupção na forma de uma promessa patrimonial futura) ao contrário destes que todos Vós conhecem, apresentava real perigo de fuga, continuação da actividade criminosa e perigo real de perturbação da ordem e tranquilidade públicas!

Eu, João de Sousa, em razão da natureza e circunstâncias dos crimes que pratiquei, assim como em razão das características da minha personalidade, nunca poderia (nem pude) aguardar o meu julgamento sem estar sujeito à medida de coacção mais gravosa: prisão preventiva!

Todos os outros que agora protagonizam a “rentrée” do ano judicial possuem menos influência e protagonismo no espaço público, político ou institucional que o João de Sousa!

Os crimes da mesma natureza que o João de Sousa praticou e pelos quais foi condenado, são menos graves no caso de todos os outros que aparecem de novo na agenda dos média!

A capacidade de fuga, manipulação de provas/testemunhos ou a influência nos média de um José Sócrates, não é nada comparada com o “ex-Inspector Hugo-Boss” da P.J.!

Os valores em euros no caso de Ricardo Salgado, são “peanuts” quando comparados com a “promessa de vantagem patrimonial futura” do, definitivamente, corrupto João de Sousa!

Vejo toda esta gente lá fora, livre, a enfrentar o seu Julgamento em liberdade! Eu, perigoso criminoso, ia algemado (ainda que bastante elegante!) com escolta: “Posso ir urinar Sr. Guarda?”

Recursos e recursos! Vírus nas escutas! Armando Vara está, desde o trânsito do seu recurso no Tribunal da Relação, a pedir esclarecimentos, nem sequer é um recurso!

31 e Julho de 2017, texto “(In) Justiça ad hominem: “Lembram-se (quem acompanha este blogue semanalmente) de eu afirmar que os meus prazos para a liberdade nunca se esgotariam e os prazos de privação da mesma seriam “religiosamente” observados? Desta forma o “tipo vai penar mais”!”

O Armando Vara, desde esta data – Julho de 2017 – anda a pedir esclarecimentos!

Neste mesmo texto – “(In) Justiça ad hominem – relato a conversa que mantive com a minha defensora-oficiosa (“Recursos que só os ricos podem pagar”, Eduardo Dâmaso dixit) na qual esta garantia-me que o prazo da prisão preventiva ia ser ultrapassado e eu iria para casa aguardar o resultado dos recursos, como é habitual, em liberdade.

– Olhe que não, Dra.! Eles vão resolver isto rapidamente! – afirmei sereno.

“[…] Dia 14 de Julho de 2017, sexta-feira, a reclamação é enviada às 21h30; na segunda-feira, 17 de Julho de 2017, é manuscrito o despacho de 12 linhas”

O Armando Vara, desde esta data, em liberdade, ainda aguarda os esclarecimentos solicitados pelo seu advogado. Atenção! Esclarecimentos, nem sequer é um recurso! Mais de um ano para esclarecer; o corrupto João de Sousa: 72 horas, num fim-de-semana e com greve dos funcionários judiciais! É obra!

Já “oiço” os comentadores “Anónimos” a dizerem: “Miserável, não te compares com esta gente, quem és tu, tu és corrupto!”

Muito bem! Então o que dizer do meu co-arguido, condenado a 5 anos e 6 meses como eu, e que se encontra em liberdade, após ter visto ser revogada a medida de coacção (que também era a mais grave: prisão preventiva) desde 15 de Março de 2017 (liberdade plena) e que ainda não tem resposta ao recurso interposto, encontrando-me eu a cerca de um ano do final da pena?!?

Mas o que terá este ex-Inspector da P.J. corrupto (eu, João de Sousa) que toda esta gente conhecida (e até desconhecida, como o meu co-arguido) não tem?

Ou será que ele, o ex-Inspector corrupto, não tem e os outros têm?!?

Recordam-se do que denunciei aqui sobre os “sorteios aleatórios” da 9ª Secção do Tribunal da Relação de Lisboa?

Lembram-se de eu afirmar que o Juiz Carlos Alexandre era sempre sorteado para os casos que “davam jeito” à P.J.?

Não se esqueceram do que Vos relatei sobre a “Instrução” no meu caso, presidida pelo “super-juiz” Carlos Alexandre, pois não?

Na altura, um daqueles que eu conheço e que por aqui esteve uns tempos, encontrando-se agora em liberdade a aguardar julgamento, foi presente ao juiz Carlos Alexandre. Na ocasião falaram deste blogue, tendo o “super-juiz” dito que iria diligenciar junto da Direcção dos Serviços Prisionais no sentido de apurar se José Sócrates realmente gozava de tratamento privilegiado aqui em “Ébola”. Mais (inusitadamente) disse o Dr. Carlos Alexandre: informou o então arguido detido preventivamente que era ele o responsável pela instrução do meu caso e estava a aguardar o Dr. João Davin (Magistrado do Ministério Público responsável pela fase de inquérito e pela acusação) para discutirem o processo!!! Onde está o sorteio?!? Isto passou-se semanas antes de eu ser notificado! Onde está a equidistância do juiz dos Direitos, Liberdades e Garantias?!?

Vem agora o Vara, o Carlos Santos Silva e o José Sócrates falar de “sorteios aleatórios”?

Vou aguardar pacientemente (não posso fazer mais nada, por agora!) para ver o que isto vai dar! Será que com eles vai ser diferente?!?

Escrevo este texto a 8 de Setembro de 2018. Como já Vos disse, assim tem de ser por causa dos “CTT” e afins. Estou preso, ainda, sou anacrónico, estou recluído, sou pária, estou de fora. Vou aguardar para ver o desfecho de tudo isto, atentamente!

Ena pá, Tanta gente que eu conheço!

Deixo-Vos o enorme António Aleixo:

“Sei que pareço um ladrão…

Mas há muitos que eu conheço

Que, não parecendo o que são,

São aquilo que eu pareço”

Presumivelmente, no caso “deles”, claro!

“O dizer e o “saber-fazer””

Liberdade daqui a: 374 dias!!!!

 

 “Polícia Judiciária de Portugal

Departamento de Investigação Criminal de Setúbal

Inspector João de Sousa

 

Um caso de homicídio: vantagens de uma abordagem holística nas ciências forenses.

O caso em apreço ilustra a necessidade de se ter uma perspectiva holística das ciências forenses, importando ressalvar que somente com o contributo de todas as áreas do saber ao dispor da investigação criminal é possível alcançar-se patamares de excelência no trabalho policial.

Habitualmente, numa investigação de homicídio, as áreas das ciências forenses mais solicitadas são a tanatologia, biologia e dactiloscopia. O caso que se apresenta é o paradigma do recurso a um grande número de disciplinas forenses, algumas das quais contribuem habitualmente para investigações desta natureza, e que no seu todo, de forma multidisciplinar, contribuíram para a resolução do homicídio analisado.

Aos 10 dias do mês de Julho de 2006, na região de Setúbal, Portugal, a cerca de 20Km da capital, Lisboa, numa zona de arvoredo, local onde costumadamente se efectuam despejos de lixo, após o rescaldo de um incêndio é detectada a presença de um cadáver de um indivíduo do sexo masculino, carbonizado, não identificado, sem quaisquer sinais manufacturados (tatuagens) ou quaisquer artefactos que permitissem uma identificação positiva. O cadáver encontrava-se amordaçado, manietado, apresentando (após o exame preliminar realizado) sinais de espancamento.

Perante a escassez de elementos identificativos/interpretação do local, num primeiro momento solicitou-se a presença de um especialista da Área da Química (Laboratório de Polícia Científica da P.J.) a fim de interpretar o cenário no sentido de se apurar o foco inicial do incêndio e o material acelerante utilizado.

Num segundo momento recorreu-se à Tanatologia, Antropologia Forense (Instituto Nacional de Medicina Legal – Delegação de Lisboa) e Lofoscopia (Polícia Judiciária) objectivando-se a identificação do cadáver. Cerca de dois meses depois, ainda sem a identificação do cadáver, na Directoria de Lisboa da P.J. surge um veículo automóvel com manchas hemáticas. Socorrendo-se a investigação da área de Biologia Forense do L.P.C., solicitadas as amostras de sangue recolhidas no cadáver ao I.N.M.L. (Delegação de Lisboa) é obtido um “match” nos perfis de D.N.A.

É identificado o cadáver: Sr. “X”, sexo masculino, idade “Y”.

Como o veículo automóvel foi alvo de uma venda ilícita, com recurso a falsificação de assinatura (contrato de venda) é solicitado ao L.P.C., Área da Escrita Manual, avaliação pericial do documento.

A investigação, neste momento, é detentora da identificação da vítima e, após estudo de perfil do(s) autor(es) do crime [com realização de “autópsia psicológica”] logra alcançar a identidade dos homicidas.

Solicitada a colaboração das Equipas de Cena de Crime da P.J. portuguesa, é realizada busca domiciliária à residência do principal suspeito, local onde praticou o homicídio com o auxílio de outro indivíduo, tendo-se obtido a informação do local exacto onde foi torturada a vítima, onde esta foi morta, o local exacto onde o corpo permaneceu por dois dias, os artefactos utilizados na agressão e os artefactos utilizados para a remoção, encobrimento, transporte e destruição (através do fogo) do cadáver.

Indivíduos condenados a 18 e 25 anos de prisão efectiva. Pena máxima em Portugal pelo crime de homicídio: 25 anos”

O que é isto que Vos trago hoje? O que acabaram de ler é o resumo da publicação científica que submeti à apreciação da Academia Americana de Ciências Forenses (A.A.F.S.), corria o ano de 2011, aceite e apresentado na 64ª reunião anual da A.A.F.S. em Atlanta, U.S.A. (2012).

Recuperei o resumo e segue junto a este opúsculo o “poster” apresentado, porque durante esta semana que passou – de 27 a 31 de Agosto de 2018 – muito se comentou e mais se disse sobre o presumível homicídio do triatleta Luís Grilo.

Conquanto existam semelhanças com o caso de Luís Grilo (v.g. o envolver do corpo em mantas/tapetes, a violência notória a que foram sujeitas ambas as vítimas, o desaparecimento, etc.) a referência a este homicídio de 2005 que investiguei, não tem por objectivo a comparação no que aos procedimentos realizados ou a realizar diz respeito, ou até aos resultados finais obtidos.

Cada caso é um caso, com as dificuldades e oportunidades de investigação que encerra, estando eu convicto de que os investigadores da P.J. vão fazer o seu melhor de acordo com a formação que receberam, observando a normalidade do fazer habitual suportado pela experiência acumulada.

Para que não restem duvidas, não se trata de demonstrar que o ex-Inspector João de Sousa era o “Masterblaster” dos Homicídios, um farol de Sabedoria, e os actuais inspectores nada sabem fazer! Nada disso! Tenho presentes as palavras de Séneca (Sempre estiveram presentes): “Qualquer objecto que sobressaia entre os objectos vizinhos só é grande no local onde sobressai. A grandeza não tem medida certa, é a comparação que a torna maior ou menor. Um barco que parece enorme no rio é minúsculo em pleno mar; um leme pode ser grande para uma embarcação e pequeno para outra”. Passados estes anos de reclusão, em autoscopia, meditando, vejo agora que possivelmente eu nem era assim tão proficiente, os “objectos vizinhos” é que…

Vamos ao que interessa! Esta semana vi e ouvi comentarem o “caso Luís Grilo”. Vi e ouvi com muita atenção todos, mas com especial cuidado atencioso somente alguns: os que merecem esse empenho.

Primeiro devo declarar que a defesa da instituição Polícia Judiciária é uma atitude nobre e louvável mas, muito importante, não podemos tornar geral o que de mau ou menos bom existe, nem devemos acreditar que os nossos procedimentos, quando correctos e profícuos, são prática generalizada. Existem, infelizmente, várias P.J.`s na P.J., se quiserem, várias velocidades dentro da Polícia Judiciária, várias formas de fazer e até de “não-fazer”!

Assim sendo (e sei que vai entender) como canta o grande Carlos do Carmo: “Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera”! Acrescento eu: “e nem uma andorinha somente, faz a dita primavera!”

A crítica construtiva deve pautar as intervenções de todos aqueles que conhecem a P.J.: elementos no activo e reformados (até ex-funcionários condenados e demitidos!). É uma obrigação moral e ética! Na passada semana vi e ouvi, atentamente, afirmarem que a P.J. realizará “autópsia psicológica” no “caso de Luís Grilo”, como aliás o faz sempre!

Falso! E mesmo que com a elegância e capacidade de comunicação que possa o “interlocutor conhecedor” apresentar no momento, não desmentir a afirmação prejudica ainda mais a P.J., do que ocultar a falha: desta forma a instituição não evolui!

Quem falou na “autópsia psicológica”  apenas leu sobre a prática, somente leu excertos da tese de doutoramento do Prof. Dr. Jorge Costa Santos, especialista do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (antigo Director do I.N.M.L.  delegação de Lisboa).

Sim, garanto-Vos porque estava na aula onde facultaram as fotocópias dos excertos e discuti a questão. Tinha lido a tese na sua totalidade e até tinha reunido com o Prof. Costa Santos, a fim de o convidar para apresentar o tema numa Pós-Graduação de Enfermagem Forense que eu coordenava.

Estas afirmações típicas de “debutantes”, este “dizer-sem-conhecer”, só prejudica a P.J. e todos aqueles que a instituição serve.

A “autópsia psicológica” é uma prática que encerra um método, que obedece a procedimentos estruturados e protocolados. Até o Prof. Jorge Costa Santos nunca realizou qualquer “autópsia psicológica”!

Imaginem um suicídio. A leitura do cenário da ocorrência (habitação, disposição do mobiliário, livros existentes, quadros, a arrumação da cama, o posicionamento do cadáver, até os odores, os perfumes que o indivíduo usava) é indispensável para a realização da “autópsia psicológica”.

Ora, se o perito médico-legal não está presente no local – apenas o Inspector da P.J. e o delegado de saúde – como pode o responsável pela “autópsia psicológica” realizar a mesma? Mas o Inspector vai à autópsia no I.N.M.L.C.F. e comunica ao perito o que viu!!! Falso e falacioso! Para além de ser a “visão”, o “olhar” de terceiro, por interposta pessoa, saberá o Inspector da P.J. o que deve “ver”? Não, não sabe porque não tem formação; mas nem precisamos ir tão longe: raramente se vê um Inspector da P.J. nas autópsias. O procedimento habitual é telefonar para o I.N.M.L.C.F. e perguntar o resultado preliminar do exame autóptico!

Justiça seja feita: a delegação do Porto do I.N.M.L.C.F. desloca-se aos locais/cenários de crime!

Reitero o que já deixei neste blogue anteriormente: a P.J. não tem procedimentos padronizados, estudados, ensaiados, confirmados experiêncialmente (através de análise científica) como correctos, a realizar em cenários de morte!

Esta falha tão básica, conhecida por muitos, reconhecida publicamente por ninguém, oferece à afirmação de que a P.J. vai realizar “autópsia psicológica” no “caso de Luís Grilo”, à semelhança do que usualmente faz, um cunho carnavalesco, grotesco!

Pior que o ridículo é estar a “alimentar” a opinião pública com falsidades.

No ano de 2005, no caso apresentado nos E.U.A. (cujo “poster” podem consultar junto a este texto, digitalizado) observei uma abordagem holística da cena de crime. Apresentei o caso, ou melhor, a minha teorização do caso (no qual utilizei o protocolo da “autópsia psicológica”) num congresso de Medicina Legal em Elvas. Expus o caso (a sua teorização) a colegas.

Falar de Descartes, invocar Mauss, referir o “mecanicismo cartesiano” como falível, tudo isto num caso de homicídio, era, como muitos afirmaram: “americanices do doutor!”

Pois bem, fomos à América, aos E.U.A.: e não é que eles deram-me razão! Não é que eles ficaram a pensar que nós, portugueses, estamos “muito à frente” na investigação de homicídios!

Lá, nas “américas”, gostaram muito do “layout” do poster: a escolha geométrica da apresentação, as setas sinusoidais bidireccionais que representavam a procura da verdade material de forma holística, socorrendo-se de todas as áreas das ciências forenses (vejam a digitalização!)

Isto foi há 7 anos! Sete anos e ainda se dizem disparates, fazem-se disparates e ofertam-se disparates em horário nobre. Cuidado com a negligência! Stefan Zweig alertou-nos: “Na História, tal como na vida humana, o arrependimento não consegue reaver o minuto que passa: mil anos não resgatam uma hora de negligência.” Não esqueçam! Não medrar no “saber-fazer” é negligência. É negligente quem afirma algo desconhecendo a prática real!

Escrevo este opúsculo a 1 de Setembro de 2018, sábado. Assim tem de ser por causa dos “CTT” que demoram 16 dias a entregar “correio azul”: negligência da pior!

O texto será publicado dia 10 de Setembro de 2018, segunda-feira. Daqui a 9 dias. Até lá, espero sinceramente (estou a “torcer” pela equipa da P.J. que investiga o caso) que o presumível homicídio de Luís Grilo seja resolvido, com o(s) autor(es) apresentados a um(a) Juiz para que se faça Justiça, elevando-se o prestígio da Polícia Judiciária portuguesa. Garanto-Vos, porque servi a instituição durante 15 anos e conheço as pessoas, que os elementos da P.J. tudo vão fazer para resolver o caso com a máxima dedicação e esforço pessoal, apenas condicionados pela sua formação e “experiência não pensada”.

Não se esqueçam, Srs. Inspectores da P.J.: “O verdadeiro conhecimento, o real “saber-fazer”, é como uma frágil chama de uma pequena vela, constantemente ameaçada pelos fortes ventos da ignorância e da negligência”.

Bom trabalho!

Poster

“Sonhos e sopa de letras”

Liberdade daqui a: 381 dias!!!!

De acordo com Aristóteles, os sonhos são “Reevocações de imagens e de dons que surgiram durante a vigília do indivíduo que sonha”.

Quando experiências emocionais intensas recentes (ou emocionalmente marcantes num passado distante) são vividas, reaparecem nos sonhos como na realidade ocorreram ou transfiguradas com camadas de sentido para decifrar.

Freud, em 1900, com a publicação da sua obra “A interpretação dos sonhos”, explica-nos a razão pela qual a maior parte dos nossos sonhos é estranha e sem sentido; esta estranheza e incongruência são superficiais, “uma máscara habilidosa que nos permite ser indulgentes com o desejo inaceitável, sem nos darmos conta do que é inaceitável”.

Desde os meus 15 anos que mantenho “diários de sonhos”. Desde essa idade que registo o que sonho, quando sonho e consigo recuperar o sonhado. No meu “iPad”, apreendido pelos meus colegas da P.J. que me investigaram, não constavam as quantias monetárias, os locais das “offshores” ou moradas de casas adquiridas com o resultado da minha corrupção, constava sim vários relatos de experiências oníricas.

Aqui em “´Ébola” também registo todos os meus sonhos (excepto aqueles que sonho acordado a olhar para as paredes do “jazigo”), estão registados no Moleskine como: “Sonhos no cárcere”.

Ao fim de 4 anos e 5 meses nunca experimentei um pesadelo, um sonho aflitivo. Curioso, não?

Pelo contrário: sonho com a minha falecida “Mãe Ju” e estamos sempre a rir e, invariavelmente, a comer! Sonho com a “ninhada” e estamos sempre a brincar e, invariavelmente, a comer!

E até, permitam-me a extrema intimidade onírica, já tive sonhos eróticos e, invariavelmente, estou a comer durante o acto! Acreditem!

A mente humana é fabulosa. Esta semana que passou sonhei com… sopa de letras!

Novamente comida, mas, com várias camadas de sentido subjacente às imagens que brotaram profusamente no sonho em apreço.

Sabem o que é um “Palíndromo”? Palíndromo é uma palavra ou um grupo de palavras, ou mesmo um verso, em que o sentido é o mesmo quer seja lido da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Por exemplo: RADAR.

Nas visitas com a “ninhada”, de 15 em 15 dias, como não se pode ter jogos, canetas e papéis (até comida para o “Jr.” que com 4 anos tem de aguentar 3 horas!) o “Pai criminoso” inventa “jogos de magia com palavras e letras”.

Às escondidas dos Srs. Guardas, escrevo (ainda na cela) nos dedos das mãos, assim como nas palmas e até nos antebraços, palavras mágicas. A semana passada ensinei-lhes a “escrita especular” do Grande Mestre Leonardo da Vinci! Muito admirados, aprenderam que o Mestre escrevia os seus apontamentos com “escrita especular” apenas decifrável através da colocação de um espelho – escrevia como vemos escrito nas ambulâncias a palavra AMBULÂNCIA!!!!

Com tudo isso na cabeça, sonhei com a “sopa de letras” da “Mãe Ju” que eu demorava um pouco mais a comer porque nunca encontrava o “P” para completar o meu nome na borda do prato da sopa: “Pedro”.

Como estou preso, fechado numa cela, isolado, formei na “Terra do Nunca” (até o “Peter (Pedro) Pan” “convidei” para o sonho) o seguinte palíndromo: A torre da derrota.

Se lerem da direita para a esquerda,“voilá”: a mesma frase. Fascinante o mundo dos sonhos, não é? Derrotado, fechado como numa torre, forma-se o palíndromo. E o que dizer deste: seco de raiva coloco no colo caviar e doces. Leiam ao contrário! Incrível não é? As filhas e o filhote, durante as 3 horas da visita, disputam a minha atenção e o meu colo, e eu, porque observado pelos guardas, porque se os agarro num gesto mais carinhoso desfaço-me em lágrimas e depois não os quero largar, então, seco de raiva coloco no meu colo caviar e doces: novamente o meu desejo de amar os meus transformado em comida, algo que por aqui não abunda!

No sonho, a “sopa de letras” da “Mãe Ju” não sabia muito bem, tinha um sabor amargo. Talvez porque muitas vezes a sopa é uma imposição quando somos mais pequenos.

Mas depois de comer a “sopa do sonho” o resto da refeição foi muito prazerosa; quiçá identifiquei a sopa com a prisão e o “pós-prisão (sopa)” com a liberdade! E, logo de imediato, nasceu outro palíndromo: após a sopa (façam o mesmo exercício, leiam da direita para a esquerda, por favor!)

Por esta altura (no sonho) encontrava-me numa sala enorme, onde à minha frente estava um colectivo de juízes presidido pela Sra. Maria Alice que me repreendeu duramente quando eu dirigi-me à mesma e muito entusiasmado afirmei: “Tenho outro palíndromo: a droga da gorda.

Sem perceber se a senhora ficou arreliada por ter dito “gorda” ou “droga”, apesar da visível irritação descontrolada desta, eu insistia: “Leia da direita para a esquerda, por favor!” Curiosíssima a mente humana!

Mas o que fazia eu naquele julgamento afinal? (isto no sonho, claro). Percebi tudo quando a Maria Alice foi substituída por uma coruja (símbolo de Sabedoria). A Coruja, de toga, informou-me: “Este Tribunal quer encontrar o palíndromo perfeito!”

De imediato respondi: Ana!

Como num passo de mágica – só possivel num sonho – vejo um velho com um acordeão, sentado num banco de madeira junto ao Coliseu de Roma, a tocar “Speak softly love”, enquanto leio numa ementa (novamente a comida): Roma é Amor (outro palíndromo)

Ainda a ouvir a musica da canção do Andy Williams (banda sonora da trilogia do “Padrinho” de Coppola) uma luz azul (outro palíndromo) cega-me e estou de novo perante a Coruja a defender a minha resposta: Ana.

“Porquê Ana?” – insiste a Coruja

“Porque Ana significa “graciosa” ou “plena de graça”! – claramente aquilo que faço com a “ninhada” quando lhes explico o significado dos seus nomes.

Como nos sonhos a geografia, o tempo e a lógica regem-se por outras leis, no lugar da Coruja está agora o Gianni Morandi que canta: “Anna, io sono un treno / Ho passato una vita a viaggare anche senza freno…” (Ana eu sou um comboio / Passei a minha vida toda a viajar sem freio (travão)). Fui sonhar isto porquê? Talvez por causa da crise na C.P., será?

Talvez não porque o Gianni Morandi continuou: “Questa notte è una notte di luna / E tu mi porterai fortuna e penso a te…” (“Esta noite é uma noite de lua / E tu trazes-me Fortuna (sorte) e eu penso em ti”).

Apareceu então o Dr. Carlos Alexandre que me diz: “Dr. Sousa. explique melhor isso, explique-me porque eu não entendo a razão pela qual Ana é o palíndromo perfeito!” – irado.

A minha resposta: “Eu vou apelar ao meu advogado para explicar a V. Exa. – aponto então para o meu lado direito e vejo, surpreso, o Roberto Carlos levantar-se, pegar no microfone… e começar a cantar o “Concavo e o Convexo”: “Nosso amor é demais e quando o amor se faz / Tudo é bem mais bonito / Nele a gente se dá muito mais do que está / E o que não está escrito”

A “ninhada”, atrás de mim e do inesperado “advogado” Roberto Carlos, começa a aplaudir.

Um Carlos Alexandre a espumar grita: “Calem o advogado e as crianças!”

Mas o “Rei Roberto” continua: “Nosso amor é assim, para você e para mim / Como manda a receita / Nossas curvas se acham, nossas formas se encaixam / Na medida perfeita…”

Grita então alguém que não consigo identificar: “Cala-te ó Juíz, porque as coisas simples da vida são as mais belas!”

Silêncio absoluto, está escuro, apenas vejo a cara iluminada do Juíz Carlos Alexandre que me diz: “Dr. Sousa, o senhor é um lobo e vai ficar preso! Levem-no!”

Eu, entusiasmado digo apressadamente: “Antes de ir permita-me dizer, com a devida vénia: “O lobo ama o bolo”! Viu Dr. Carlos Alexandre! Leia da direita para a esquerda, por favor! Não posso ser preso, fiz mais um palíndromo, ganhei! – enquanto oiço a voz da minha Helena: “Uau! O Pai é mesmo mágico!”

Agora estou fechado dentro da carrinha celular. Sei que vou a caminho do E.P. de Évora.

Sozinho, convicto de que o palíndromo perfeito é Ana, começo a ouvir na rádio a música “Bo tem mel”. Sorrio, relembrando…

Chegando ao E.P. de Évora, sou recebido por um burro com um fato vestido que me pergunta: “Anotaram a data da libertação, a data do final da pena?”

Respondo eu sorrindo, orgulhoso: “Anotaram a data da maratona?”

– Como?!? – pergunta admirado o burro, erguendo as orelhas.

– Leia, por favor, da direita para a esquerda! É mais um palíndromo, venci outra vez!

– Um quê?!? Levem-no para a cela e sirvam o jantar – ordena

Enquanto vou escoltado por dois guardas oiço o burro dizer: “Este tem a mania que é mais esperto que os outros mas foi preso!” – gargalhando.

Não ligando à última do burro, feliz por mais um palíndromo, pergunto aos guardas:

– O que é o jantar?

– Sopa de letras … mas faltam letras!

– Faltam?!? Tem dois “A” e um “N”? – pergunto ansioso

– Sim, tem, a sua mãe colocou. – respondeu o guarda

– Perfeito! – desejoso, com muita saudade.

E acordei. É mesmo maravilhosa a mente humana, não é?