“Onde estão os psicólogos na prisão?”

Estimado(as) Leitores(as), este é o texto que enviei para o meu incansável “Secretariado” na quarta-feira, 1 de Agosto de 2018, via “correio-azul”.

A carta chegou após 16 dias !!!! Como devemos “dar a César o que é de César”, o Estabelecimento Prisional de Évora e os seus serviços não foram responsáveis pelo atraso; assim sendo, reddite Caesari quod est Caesaris, et Deo quod est Dei: os “CTT” são uma desgraça e o E.P. de “Ébola” foi célere e diligente nesta situação.

Mais uma informação que entretanto reuni: a Psicóloga só dispõe de 2 horas semanais para desempenhar o seu importante trabalho no E.P. de Évora. Talvez antes do final da minha pena, ou melhor, do meu “tratamento prisional” (antes de Setembro de 2019) eu consiga estar perante a Psicóloga, até lá: só uma cadeira vazia!

 

Liberdade daqui a: 409 dias!!!!

Foi há uma ou duas semanas que vi na televisão um apontamento jornalístico sobre Psicólogos nas prisões e a miséria da remuneração que auferem: 5€/hora!

Na passada semana reuni com o Técnico do Serviço de Educação do Estabelecimento Prisional de Évora, tendo obtido a informação, durante a reunião, que, desde a semana de 16 de Julho de 2018, existia no E.P. uma psicóloga.

Ao fim de 4 anos, 4 meses e 1 dia, eu, João de Sousa, recluído, fechado num espaço de 9 metros quadrados durante 13 horas diárias dos 1577 dias que já cumpri, que durante os últimos 1577 dias apenas copulei 7 vezes com a pessoa amada (aquando das saídas precárias concedidas) que regredi, obrigado, até à fase da adolescência e às práticas manuais típicas desse conturbado período da minha vida, distante dos filhos, ausente aquando do falecimento da minha progenitora, assim como do nascimento do “filho-homem” desejado, diariamente cerceado na expressão saudável da minha personalidade, cristalizado no tempo, partilhando tempo e espaço com alguns dos “animais” mais execráveis da nossa sociedade, finalmente vou ter o auxílio de um profissional formado, com conhecimentos reais que lhe permitem auxiliar seres humanos sujeitos à reclusão!

Ou não!

O recluído, eu, sistema bio-psico-sociológico complexo, em confronto diário, real, com o “outro sistema” – a prisão – cuja realidade física e social é nociva para um desenvolvimento psicológico (e até físico) saudável, que dia após dia tenho de realizar a correcta e sábia gestão entre a minha individualidade e as imposições institucionais, que tenho de “representar” os papeis que se enquadram no expectável/exigido pelo contexto, pelo “sistema”, sendo obrigado a apresentar “esquemas comportamentais” que em “sociedade livre” seriam incontestavelmente, de imediato, reprovados, eu que a tudo isto estou submetido, podendo-se facilmente afirmar que cada vez mais vejo-me afastado do que se considera ser “uma pessoa saudável”, finalmente vou ter a auxiliar-me um profissional capaz, com conhecimentos reais que lhe permitem observar, diagnosticar e tratar a minha doente pessoa.

Ou não!

Em 1993, Rui Abrunhosa Gonçalves escreve, “A adaptação à prisão – um processo vivido e observado”, obra que, como o próprio descreve, “constitui no seu essencial, a dissertação de Mestrado em Psicologia, especialidade de Psicologia do Comportamento Desviante, concluída em Dezembro de 1990”.

Há cerca de 25 anos, o Dr. Rui Abrunhosa Gonçalves concluía: “[…] que a tarefa dos psicólogos a trabalhar em meio prisional deve ser, sobretudo, a de promover uma adaptação – processo que permita a indivíduo sobreviver intra-muros, tão autonomamente quanto possível, em termos de preservação da sua identidade e personalidades próprias, facultando os meios possíveis para a aprendizagem das formas mais adequadas de estar na prisão sem ter que assumir modelações simbióticas com ela que, aquando da libertação, dificultarão seguramente o seu devir como cidadão livre […]”.

A Sra. Dra. Psicóloga colocada aqui em “Ébola”, vai alcançar tudo isto a 5€/hora, dispondo de 2 horas diárias para lograr fazê-lo? Melhor (ou pior): acho que são 2 horas semanais!

Olhe que não Dra.! Olhe que não!

Mas há mais! Aqui, em Ébola, somos “apenas” 40 exemplares nocivos; como será nas prisões sobrelotadas com 500, 600, 700 delinquentes?

E aqui, como vai ser aferida a necessidade de cada recluso? Sim, porque 2 horas diárias (ou semanais, estão ainda a decidir como vai ser!) não chegam para todos os 40 que não estão a evoluir, estão sim “cristalizados” ou a regredir!

A solução seria uma análise capaz “dos 40”,com entrevista, sujeição a psicometria e posterior análise dos dados recolhidos. Mas não, aqui é feito a “olhómetro”!

Atenção, temos que ser honestos intelectualmente e justos: como é que a Direcção do E.P. de Évora poderia fazer diferente? Como fazer correctamente quando só existe um profissional da saúde mental disponível durante 2 horas diárias (ou semanais!!!) a auferir 5€/hora?

Um dos elementos/factor de aferição/rastreio são os Serviços Clínicos, i.e., a médica que está colocada aqui em “Ébola” considerar que o recluso necessita de ser “atendido” pela Psicóloga. É uma boa forma de solucionar a questão. Não, não é! A “Sra. Dótora” é a mesma que me comunicou restarem-me 3 meses de vida (leiam, se não o fizeram ainda, o texto deste blogue, “A Medicina do Refugo”!

Outra solução é a observação diária dos reclusos por parte do corpo dos guardas prisionais!

Com todo o respeito que merecem, será que na sua formação profissional base, ou mesmo em formações posteriores, os “srs. guardas” foram dotados das ferramentas necessárias para observar, identificar e comunicar patologias de adaptação, critérios de normalidade, contextos comportamentais, manifestações de stress, comportamentos de assimilação, acomodação ou “modelações simbióticas”?

Com a devida vénia, a não ser que o recluso João de Sousa amanhã defeque no refeitório e com as fezes tente reproduzir a “Guernica” na parede, o corpo dos guardas prisionais conclui: está tudo bem com o mesmo!

Sabem a falta que fazem os Psicólogos na prisão? Quem é que aplica, quando aplicam, os tratamentos (acompanhamento/terapia/observação/avaliação) aos abusadores sexuais (pedófilos, violadores) ou quem é que executa/realiza os programas de treino de competências pessoais e sociais (v.g. aos homicidas e autores de violência doméstica)?

Deveriam ser psicólogos! É essa a falta que fazem!

Aqui em “Ébola” existem Planos Individuais de Readaptação (PIR) onde está prevista a participação em Programas de Treino de Competências para autores de violência doméstica (homicidas): não são aplicados! Num dos casos, o indivíduo assinou o seu PIR, elaborado somente ao fim de 5 anos (numa pena de 16 anos) e ainda não frequentou qualquer programa de treino de competências!

Não foi avaliado por um psicólogo! Não foi aplicado qualquer tipo de psicometria! Foi, mais uma vez, a “olhómetro”!

O Técnico dos Serviços de Educação do E.P. de Évora, desde que chegou, faz o que pode, sendo que por vezes aquilo que o recluso precisa é de alguém que faça um pouco de “escuta activa”, que o oiça de facto, mas isso até um “barman” faz com elevada mestria. Agora, ouvir, identificar o problema e “desenhar” um plano de actividades que permitam a reinserção e ressocialização capaz, isso somente um técnico da área, um psicólogo.

Mas não a 5€/hora e com 2 horas diárias (ou semanais, estão ainda a decidir). Crer que algo se está na realidade a fazer, só se for para a promoção política de algum governante ou Director que tutela a área responsável pela questão, de outra forma, é atirar areia para o “olhómetro” do pessoal!

 

 

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“As montanhas da Vida”

Liberdade daqui a: 395 dias!!!!

Adoro e vibro com o ciclismo porque considero este desporto uma metáfora da Vida.

Ver um pelotão de ciclistas a rolar como uma serpente primeva, ancestral, sábia nos seus movimentos, insidiosa, traiçoeira na sua aparente calmaria, é um constante deleite.

Assistir à insolência do “homem só” que desafia o monstro policromo e destaca-se, é a expressão metafórica da rebeldia, da iniciativa, do desejo de ser mais e melhor que o colectivo.

As etapas diárias que encerram possibilidades várias, durante o seu acidentado percurso, para todo o tipo de homem – o “sprinter”, o “escalador de montanhas”, o “combativo das fugas” – assim como para os grupos de homens que em equipa trabalham, são o reflexo, o paralelismo evidente que se pode fazer com as nossas jornadas quotidianas.

Até no “enganar a Verdade” existem semelhanças evidentes: o “doping” (injecção ilícita estimulante do ciclista) e os atalhos ilícitos que todos nós, numa dimensão maior ou menor, uns apanhados outros não, optamos por “tomar”.

No ciclismo, para além da orografia e das condições do clima (entre outros factores) o Tempo é uma entidade de capital importância: por milésimos de segundo se perde ou se alcança a Glória.

A gestão do Tempo é fundamental: quando ingerir alimentos/água, quando atacar, quando aguardar.

Como na Vida, existe o “Tempo Longo”, onde tem de imperar a calma e a paciência. Nestas ocasiões temos de adoptar uma postura defensiva, aguardar a oportunidade, não agir por impulso.

O “Tempo Forçado”, ocasião na qual temos de “perturbar o senso de oportunidade dos outros”, “entregar-lhes” a decisão de atacar ou esperar, perturbar a gestão do tempo do Outro.

Finalmente, o “Tempo Final”. Após pacientemente esperar, observar e forçar o Outro: agir, atacar. Atacar a montanha, deixar o adversário para trás e correndo atrás do Tempo, ganhar tempo ao segundo (o primeiro dos últimos!).

Tudo isto o ciclismo nos oferta, tudo isto a Vida nos dá, ensina. O “Tempo Longo, Forçado e Final”, são termos criados por Robert Greene, especialista em “Estudos Clássicos”.

Não sei se gosta de ciclismo, nem se algum dos ciclistas consagrados alguma vez o leu, mas está lá tudo: no ciclismo, no Greene e nas nossas vidas!

Todos os anos, final de Julho, princípio de Agosto: le Tour de France!

Todos os anos, princípio de Agosto: Volta a Portugal em bicicleta!

As últimas quatro edições de ambos os eventos assisti às mesmas encerrado numa cela, a fazer a gestão do meu “Tempo Longo”. Há quatro anos que oiço o João Pedro Mendonça e o Marco Chagas na RTP1, à semelhança do que fazia em liberdade.

No dia 15 de Agosto deste ano, completar-se-ão 20 anos desde o dia em que decidi ir com a minha namorada e o seu irmão menor (a “mãe da ninhada” e o meu cunhado) no carro do pai deles (o meu sogro) até à Torre (Serra da Estrela) local onde terminava a 6ª etapa (Portalegre-Torre) da 60ª Edição da “Volta a Portugal em bicicleta”. Se a memória não me falha, julgo que o vencedor da etapa foi o Belli, na altura a correr na formação da extinta Festina.

Fui lá porque no dia anterior, em casa dos meus pais, ao ver o “Prémio da Voltinha” (uma iniciativa da organização da “Volta a Portugal” que colocava cidadãos comuns a competir por uma bicicleta (1º prémio) numa competição de contra-relógio e velocidade explosiva (“sprint”) durante um minuto em bicicletas estáticas) afirmei, com toda a auto-estima/arrogância/vaidade que me caracteriza: “Vou ganhar a bicicleta para ti” – referia-me à minha namorada. Os presentes riram-se.

Fui, cheguei, respondi às três questões prévias para ser seleccionado, montei, pedalei e… venci!

Tenho em casa, gravado, o segmento da “Volta” que foi transmitido na RTP, onde se pode ver o agora recluído João de Sousa, com 25 anos, a receber das mãos do Marco Chagas a bicicleta (para a namorada) após o mesmo Marco Chagas ter-me ajudado a vestir uma camisola amarela!!!!

Três anos depois – Agosto de 2001 – com a bicicleta que eu “ganhei”, a namorada (a “mãe da ninhada”) o grande Luís e o imenso David (que já não vejo há 4 anos e 4 meses) desde casa a Santiago de Compostela, sem carros de apoio, com dois alforges colocados na roda traseira das bicicletas (com o material: cerca de 15 Kg) completámos em cinco etapas os 616 Km da aventura. No quadro que fiz com os registos e fotografias, assim como com os “passaportes dos peregrinos de Compostela”, lê-se a frase do Padre António Vieira: “Nós somos o que fizemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos apenas duramos”.

Em 2003, ano do nascimento da Leonor, ano em que ela foi operada pelo Dr. Gentil Martins, (um dos “grandes ciclistas” na sua área) meses após a operação, como que para realizar a catarse de tudo aquilo que tinha “pedalado” angustiado, porque ao meu primeiro diamante ainda faltava facetar e polir uma das faces, na companhia do meu querido David (abraço com saudade!) realizámos a ligação entre Madrid e Lisboa (as duas capitais peninsulares) vencendo os 693,5 Km em cinco dias. Passámos, e penámos, pela Sierra de Gredos, em ano de fogos e temperaturas acima dos 40ºC! Pedalámos com o Tejo espanhol a fazer-nos companhia, desidratámos e superámo-nos. A última etapa, Elvas-Lisboa, foi a mais longa que alguma vez realizei: 208,7 Km, 20.1 de média, mais de 10 horas em cima das “pasteleiras” que podem ver na foto que acompanha este texto!

À chegada, na última subida para a minha casa, a “mãe Ju” correu os metros finais ao nosso lado (existe um pequeno “vídeo familiar”). À minha espera a Família, uma mesa farta e o meu pequeno diamante (está ao meu colo, é do tamanho da garrafa). Vencida a adversidade, o repouso do guerreiro, a alegria.

No ano seguinte, 2004, já equipados com boas máquinas (ainda não era corrupto!) a namorada, agora já minha mulher e mãe da “Nô-nô”, o sempre presente David e o incomparável Faísca (não é um cão, é um querido amigo que guardo num local especial do meu coração) à semelhança das duas aventuras anteriores, i.e., sem carros de apoio e com os alforges montados, vamos de comboio até França (Hendaye) para fazermos 77,4 Km até S. Jean Pied de Port, localidade onde iniciámos o “Real Caminho Francês de Santiago de Compostela”, percurso que fizemos em 10 dias, com mais uma etapa até Valença do Minho, onde completámos os 1034,44 Km de uma espantosa viagem!

No quadro que se encontra na minha casa – com fotomontagem e os “passaportes dos peregrinos de Compostela” – lê-se: “Os altos cumes que nos cercam só estão ali para desafiar o Homem. E o Homem só existe para aceitar a Honra desse desafio”. Que outra frase colocar após ter atravessado os Pirenéus a pedalar, a imprimir movimento a uma máquina recorrendo somente à nossa disponibilidade física, à nossa vontade, à nossa sede de vencer!

Em 2001, de Viana do Castelo a Pontevedra (Espanha) tive dores horríveis após várias horas em cima da bicicleta; o David esteve 3 dias sem defecar, o organismo, com o esforço, desregulou. Em 2003, desidratámos, no meio de nada, na Sierra de Gredos, bebemos água quente, a que restava. No ano de 2004, nos Pirenéus, depois de uma subida de vários quilómetros (onde passámos de sol à chuva, do quente ao frio) após descermos a mesma quilometragem, experimentei um episódio de hipotermia, tendo de tomar um “banho de lavatório” num café espanhol, todo nú no W.C., bebendo de seguida o melhor “Cola Cao” dos últimos cem anos!

Tudo isto no mês de Agosto – 1998, 2001, 2003, 2004 – tudo isto sempre com um objectivo: superar-me! Mais rápido, mais alto, mais forte. Tudo para conquistar montanhas, para ultrapassar obstáculos.

Lembrei-me do que Vos relatei hoje porque, fechado na minha cela, tenho acompanhado o “Tour de France” e a “Volta a Portugal em bicicleta”. Recordei estas aventuras porque estou agora fechado na minha cela e tenho uma toalha molhada, a pingar, colocada sobre as costas, a única forma de me refrescar, uma vez que estão mais de 30 graus aqui dentro do jazigo e são 22h15!!!!

Mudaram-me de cela, estou agora no 1º andar, pertinho do céu, estou na “grelha”! Em pleno séc. XXI, indivíduos são fechados em celas, 13 horas por dia, com temperaturas (constantes) acima dos 30 graus, com “restrições de aparelhos eléctricos”: não podes ter ventoinha se já tens televisão e DVD!!!!

Continuo a pedalar, tenho esta montanha para ultrapassar. Faltam 14 meses. O “Tempo Longo” está a acabar. A água do garrafão está quente: não interessa, bebe, tens de hidratar como fizeste com o David!

Tenho metade de uma banana para comer amanhã com a aveia ao pequeno-almoço, porque agora já não se pode comprar bananas e a outra metade comi hoje de manhã: não interessa, pedala, na etapa dos Pirenéus também acabaram as barras energéticas e conseguiste!

Quando chegar o Inverno, aqui em “Ébola”, as temperaturas estarão perto “dos -1” no interior da cela: não releves isso, pedala, lembra-te que ultrapassaste uma hipotermia em França!

E depois, quando sair, como vai ser? Estás com dúvidas, Pedro?!? Lembra-te daquele dia em que decidiste ganhar uma bicicleta! Emula o feito!

A Vida é como uma prova de ciclismo: oferta-nos montanhas, obstáculos que nos permitem vencer, ou não, consoante o material de que somos feitos. E, como nós dizíamos enquanto subíamos durante as nossas aventuras aqui relatadas: “Vamos pessoal, não pensem na subida! Pensem antes que a seguir, com toda a certeza, vamos ter que descer! Força!”

“O blogue, os comentários e a minha demissão”

Liberdade daqui a: 402 dias!!!!

Lamentavelmente, na semana que passou, não foi publicado texto algum!

Como faço de 15 em 15 dias (porque a disponibilidade económica para ter visitas semanais não existe) o texto a publicar é manuscrito à terça-feira e entregue aos serviços do estabelecimento prisional, na manhã do dia seguinte – quarta-feira – para ser expedido.

Na passada semana assim foi feito: o texto foi entregue ao guarda de serviço na quarta-feira, dia 1 de Agosto de 2018, às 8h05. Até hoje de manhã, pelas 8h00, hora em que usufruo de 5 minutos diários de contacto telefónico com a Família, o texto não tinha chegado ao seu destino!

Terça-feira, dia 7 de Agosto de 2018, começou o epopéico exercício de apuramento da “sorte” da carta enviada pelo recluso João de Sousa que, decorridos 6 dias, não tinha chegado a casa. Foi enviado o texto através de “correio azul”.

Um conjunto de variáveis funestamente se reuniu: a Directora esteve ausente do E.P.; o Técnico dos Serviços de Educação também ausente até ao final da semana e o adjunto da Direcção a assumir as rédeas da gestão diária da instituição.

Outra variável nada facilitadora: o graduado de serviço a quem me dirigi para informar o adjunto da Direcção da necessidade que tinha de falar com o mesmo – pedido feito às 9h20 do dia 8 de Agosto de 2018 (quarta-feira) – esqueceu-se de informar o adjunto nessa manhã. Fê-lo somente após a hora do almoço. O adjunto chamar-me-ia!

Até ontem, dia 10 de Agosto de 2018, 6ª feira, não tinha sido chamado!

Mas, optimista como sou, sabia que as variáveis mudariam: a Directora, ontem (sexta-feira) já estava no E.P.; outro guarda (a quem, apesar do nome, não lhe “davam brancas”) estava de serviço e, após ter manuscrito uma petição para ser recebido pela Directora, manuscrita de manhã, fui recebido ainda nessa mesma manhã de ontem… pelo adjunto da Direcção!

Cortês e prestavelmente, diligenciou o adjunto da Direcção no sentido de ser redigida uma declaração (cfr. podem ver digitalizada junto com o presente opúsculo)

Uma declaração para que fim?

Para junto dos “CTT” reclamar, tendo um documento oficial de uma instituição do Estado que neste momento zelando por mim, zela pelo bem-estar de todos Vós!

Imaginem eu a reclamar com os “CTT”: “Eu, João de Sousa, preso em Évora, condenado por corrupção, enviei uma carta no dia…”

“Enviou?” – questionam os “CTT”. “Um criminoso? A palavra deste sujeito é idónea?”

Imaginem que os privatizados “CTT” até confiavam na minha palavra mas alegavam em sua defesa algo deste género: “Não foram os serviços administrativos da “prisão” que falharam?”; “O que é que continha a carta? Um texto de um blogue a criticar a “prisão”? Não terá sido o guarda que levou o correio que extraviou a carta dolosamente?”

Para evitar este tipo de ilações, solicitei a referida declaração e a Sra. Directora, como tem sido até ao momento o seu apanágio, contribuiu para a possível resolução da questão, não protelando ou procrastinando, seja por lapso ou por infeliz esquecimento!

Lamento não ter sido publicado o texto da semana passada que tratava da questão dos psicólogos na prisão, dos 5€/hora que escandalosamente auferem e da realidade experimentada aqui em “Ébola”. Vou voltar ao tema outra vez, está garantido. Mas não foi só isso que inexplicavelmente se perdeu com a carta!

15 dias de “trabalho de cela”: 2 capítulos (45 páginas) de tradução da obra de Maslow perderam-se! Aqui não existem fotocopiadoras, computadores para “salvar o texto” ou até papel químico! Perdeu-se tudo!

Peço-Vos imensa desculpa, e devo fazê-lo, porque mesmo sem texto as visitas ao blogue mantêm-se!

Peço desculpa e agradeço a todos Vós, especialmente à D.Maria Helena que todos os dias informa o filho dela (aquando dos seus míseros 5 minutos diários) meu camarada de reclusão, de que o texto ainda não saiu, questionando-o inclusive sobre o meu estado de saúde!

Grato, D. Maria Helena!

Agradecido e reconhecido também a todos aqueles que aqui deixam comentários, a todos mesmo!

Gratidão para com o(a) Comentador(a) que deixou o seu comentário quando o Secretariado colocou a “Informação” do atraso da publicação do texto. O(a) Comentador(a) tem toda a razão! Já não sou Inspector da P.J., já fui demitido!

Por lapso, o Secretariado não alterou o texto que publicamos nestas ocasiões. Se o(a) Leitor(a) revisitar a “Informação”, verificará que já foi corrigida a imprecisão!

Esta questão da demissão leva-nos à parte final deste texto.

Quero partilhar com todos Vós algo muito curioso!

A 8 de Fevereiro de 2018 fui notificado da decisão proferida pela Sra. Ministra da Justiça: demissão!

Dispondo de 3 meses para interpor acção administrativa com vista à impugnação judicial do acto, não o realizei! Assim sendo, desde o dia 8 de Maio de 2018 que já não sou inspector da P.J. (lá se foi o “Inspector Hugo Boss”!)

Realizado processo disciplinar na P.J. (no âmbito do qual não quiseram “ouvir-me” em declarações, solicitaram a minha defesa por escrito!), concluído o processo, concluiu-se que violei os deveres de prossecução do interesse público e de boa conduta, de isenção e do segredo de justiça e profissional. Por inviabilizarem a manutenção da relação funcional com a P.J. a violação dos referidos deveres: pena de demissão!

A Unidade Disciplinar e de Inspecção propôs a demissão.

Proposta a demissão, uma vez que os actos por mim praticados (conforme decisão de um colectivo de Juízes e após vários recursos perdidos) foram/são atentatórios do prestígio e da dignidade da função (eu, logo eu, o “Masterblaster” dos Homicídios; provavelmente, se existisse tal publicação, o “Inspector-mais-vezes-capa-da-revista-elegância-na-investigação-criminal”), como dizia, antes do meu ego se intrometer na escrita, após a proposta de demissão, o Conselho Superior da Polícia Judiciária tinha agora que se reunir e votar o proposto.

Como podem verificar através das digitalizações da Acta do CSPJ nº1/2018 que estão juntas a este texto, a reunião realizou-se no dia 16/1/2018.

Vamos agora à curiosidade!

“Após leitura do parecer da SDL e finda a troca de impressões e larga discussão que se sucedeu, o CSPJ votou por escrutínio secreto e aprovou o parecer da SDL, com 22 votos a favor e 2 CONTRA.”

2 contra a demissão!? 2 contra a demissão do mais ardiloso, tentacular, perigoso (ainda que elegante) criminoso em Portugal! O rosto da corrupção em Portugal (pelo menos na forma de uma “promessa futura”) e 2 votos contra a demissão?!!?!?

Quem é que votou contra a demissão?

Olhando os nomes, alguns deles que até “beijo na cara” me davam quando nos víamos (um bocado mafioso, não? Mas não foi esse, porque esse ascendeu mais do que todos!), quem terá sido?

O ex-Director-Nacional não foi, de certeza! É um homem ponderado, cumpridor, feito no e para o “sistema”, apenas vacilando quando os raios provocam incêndios!

O actual Directos-Nacional? Respeitinho, João de Sousa, respeitinho! Não confundir a “estrada da Beira com a beira da estrada”!

Mas quem? O Dr. Paulo Rebelo? Claro que não! Pessoa que muito admiro intelectualmente, assim como profissionalmente, e que, com toda a certeza, criticar-me-ia pela violação do segredo profissional, assim como pela relação promíscua com os “média”!

Então quem? Os colegas de curso que ali estão? Não creio, acho que por existir uma peça de fruta podre no “34º”, não quer dizer que o resto esteja contaminado!

As pessoas do sindicato?!? Não, está fora de questão, esses querem mesmo é que eu sossegue, definhe, que me acometa uma condição de “mutismo selectivo”!

Será que a “fabulosa” investigação da agora reformada Coordenadora-superior, Maria Alice Fernandes, não expurgou totalmente a P.J.? É possível que eu ainda tenha cúmplices no activo, no interior do Conselho Superior da Polícia Judiciária?

É curioso, não é?

Depois de um colectivo de Juízes condenar o agora recluso João de Sousa, após o Tribunal da Relação e o Supremo Tribunal, assim como o Tribunal Constitucional, concordarem com a condenação, colegas de profissão, conhecedores profundos da realidade institucional, das idiossincrasias de quem investigou e de quem foi investigado, membros natos e outros eleitos, do mais alto órgão da P.J. – o seu Conselho Superior – tenham, passados cerca de 4 anos após a minha detenção, votado contra a proposta da minha demissão!

Que pena o voto ser secreto, ou não! Se não o fosse talvez teriam sido “24 a favor da demissão”!

Ou não! Existem pessoas corajosas, idóneas, capazes na P.J.!

Estimados(as), lamento não ter existido publicação na passada semana!

Se encontrarem a minha carta, devolvam-na, porque lá também seguiam os desenhos para o “Júnior”, e restantes manifestações escritas de Amor para a “ninhada”!

Quanto ao blogue, dois meses antes de completar 4 anos, já atingiu 451 000 visitas! Mais de 100 000 por ano! Nada mau para um preso votado à “Rua do esquecimento”, um perigoso corrupto!

Claro que 100 000/ano não é nada quando comparado com o meu “camarada” Cristiano Ronaldo! Porquê camarada?!? Não sabem?! O Cristiano Ronaldo é, como eu, um criminoso condenado! Sim, por crimes económicos, como eu: 2 anos com pena suspensa! Pois é, um cadastrado! Claro, claro: com dinheiro ele, eu “com promessa”; em liberdade ele, eu preso! E claro (reticente admito): mais bonito e elegante!

Este texto vai ser publicado 2ª feira, 13 de Agosto e o texto que era para ser publicado nessa mesma data, será ofertado a Vós na semana seguinte, no dia 20 de Agosto de 2018, 2ª feira.

Estes dois estão garantidos porque “vão sair” com o “secretariado” e a “ninhada” amanhã, aquando da visita.

O texto de dia 20 de Agosto “enfermará de ligeiro anacronismo”, mas, ainda assim, está contextualizado, até relacionado com este que Vos escrevo, pois trata o mesmo da capacidade de resistir, de nos ultrapassarmos, de demonstrarmos resiliência.

Acompanhem-me, por favor, todos, até os comentadores que me querem ver morto, porque se continuam a desejar-me tal condição é sinal que ainda por cá ando, e, mais importante, mesmo que muitos desejem a mim e aos meus tanto mal, haverá sempre alguém que votará contra!

Obrigada pela atenção dispensada.

João de Sousa (ex-Inspector da P.J., actualmente corrupto tentando comunicar por escrito, e a, denodadamente, cumprir o seu tratamento prisional)

Declaração E.P..jpg

Acta CSPJ pag 1Acta CSPJ

 

 

Informação

Caros Leitores,

Devido à morosidade no processamento de envio do correio, o Inspector lamenta não ser possível a publicação semanal do texto com a assiduidade habitual, sendo a responsabilidade dos Serviços Prisionais e dos CTT. Contudo, o mesmo será publicado logo que possível.

Infelizmente, estamos dependentes dos Serviços Prisionais e dos Serviços dos CTT.

Grato pela atenção,

João de Sousa