“Os danos colaterais da nossa Justiça”

Liberdade daqui a: 311 dias!!!!

“La Mort de Socrate”, é a imagem, ou melhor, o quadro de Jacques-Louis David que ilustra este opúsculo. Pintura realizada em 1787, retrata a história da execução de Sócrates, mais precisamente o momento imediatamente antes de beber a taça de cicuta. Falo-Vos deste quadro e deste tema porque, aquando da minha última saída de 96 horas para estar com pessoas saudáveis, estive a descodificá-lo com a minha filha mais velha, a Leonor de 15 anos, uma vez que na semana seguinte, finalmente (a professora esteve a faltar ou em falta!), ia ter a sua primeira aula de Filosofia!

– Estás a ver a lâmpada apagada, a fumegar…

– Sim, ali!

– … assume uma centralidade no quadro, como que interceptando o movimento do sujeito que entrega aquela taça a Sócrates… estás a ver?

– Sim, Pai! Significa alguma coisa? – antecipando algo.

– Representa a morte, o apagar da chama da vida. A taça que Sócrates recebe contém cicuta, um veneno extraído de uma planta…

– A sério?!? E o Sócrates vai bebê-lo?

– Vai! Como é que ele está? Assustado?

– Não, acho que não… está a mandar vir com os outros! – admirada.

– Meu “Amor-mais-belo”, “mandar vir com os outros” não é uma tirada muito filosófica, pois não? – com semblante severo.

– Tens razão, desculpa…

– E não é “o Sócrates”! Não andaste com ele na escola ou estiveste presa com ele! É “Sócrates” somente!

– O.k.! – sorrindo.

– Ele não “está a mandar vir”, está a dar uma lição final aos seus pupilos, encarando a morte com serenidade. O homem que está sentado, cabisbaixo, com os pergaminhos junto de si no chão, é Platão…

A seguir falámos sobre o significado da palavra “Filosofia”: o radical grego “filo”, “amigo”, e “sofia”, “sabedoria”.

Na semana seguinte, a Leonor contou-me que “brilhou” na primeira aula de Filosofia porque a professora – “vê lá a sorte, Pai!” – apresentou o mesmo quadro e ninguém sabia quem era o “homem sentado com a cabeça baixa”. “Então eu respondi: é Platão!” A professora elogiou a Leonor e esta contou ao Pai criminoso o sucesso da primeira aula.

Há 15 dias a minha visita acabou mais cedo. Acabei com a visita porque foi mau demais!

Resultado de um dano colateral da nossa Justiça, há 15 dias fiquei muito zangado com as minhas filhas.

A Leonor teve negativa a Geografia e o teste de Filosofia não correu bem! Corrigido o teste na aula, a Leonor antecipou mais uma negativa.

Bastante desiludido – mais comigo, criminoso que não posso apoiar – questionei-a sobre as respostas erradas:

– Foi nas questões de cruzes! – com um ar de profunda tristeza.

– Cruzes!! – estupefacto – Teste de Filosofia do 10º ano com cruzes!!!!

Mas mais estava para acontecer…

A Helena tinha recebido duas negativas e ocultara o facto à mãe, somente revelando o sucedido aquando da visita, após “duro interrogatório”.

– Tu mentiste à tua mãe, Maria Helena? – eu, mais medonho que o Adamastor.

Entre lágrimas sentidas e soluços sufocantes: “Eu peço desculpa mas não queria que ficasses preso triste e a sofrer por causa de mim!”

– Acabou a visita! Vão-se embora! – sem beijos e “abraço da Família”.

Isto, Estimados (as) são os danos colaterais da nossa Justiça, da Justiça que me ofertaram. Claro que o culpado sou eu! Não sou eu um criminoso condenado pelos doutos Tribunais do meu país? Antes de cometer o meu hediondo crime devia ter pensado no quanto ia faltar à “ninhada”.

A raiva sentida é contra mim: “todos” ainda em liberdade, a recorrer ou até absolvidos, e só tu, corrupto, condenado a faltar aos teus.

É o que juridicamente se designa por “dano emergente”, i.e., prejuízo efectivo, real, provado. O dano é tal, tão real, que a minha Helena mentiu aos pais!

Falhei, falhei na minha obrigação, no “Múnus paternal”. Único corrupto condenado em Portugal nos últimos 5 anos, não consigo auxiliar a “ninhada”: é um dano colateral da nossa Justiça. Mas é o meu, responsabilidade minha. Deixem-me agora falar-Vos de “dano infecto”, i.e., prejuízo possível, eventual, iminente!

Reflexo da “mentira piedosa” da Helena, inspirado na imagem de Platão, pedi para enviarem-me pelo correio a obra de Platão, “Hípias Menor”.

Quem é mais valoroso: “Ulisses dos mil artifícios” ou “Aquiles, o melhor guerreiro”? É melhor a Verdade ou a Mentira?

Eis a temática de “Hípias Menor”.

A obra que tenho na minha biblioteca foi traduzida por Maria Teresa Schiappa de Azevedo, responsável igualmente pela introdução e notas.

Da “Introdução”: “[…] Verdade e Justiça, mentira e injustiça misturam-se quase quotidianamente na estratégia das relações humanas, desde a arte e a política, ao médico capaz de enganar o doente quando está em causa o seu bem-estar. […] Essa, a distinção que cabe justamente aos governantes fazer: eles são à imagem do sábio ou do herói homérico, «os mestres da verdade e da mentira», os que sabem e dominam a totalidade dos factos, de modo a avaliar quando o engano e a mentira […] devem ser utilizados, tanto na educação como na administração da cidade […]”

Deixemos a mentira da Helena, o meu dano e passemos ao Vosso (nosso) dano colateral da Justiça Lusa: o dano infecto!

Comecemos pelos governantes:

José Silvano, deputado e secretário-geral do Partido Social-Democrata; Maria Emília e Sousa Cerqueira, deputada do PSD que integra o Conselho de Jurisdição Nacional do referido partido político. O caso das “presenças fantasma” no parlamento e a troca de “passwords”!

Outro “Sousa”, o João de Sousa, foi acusado de “trabalhar” para uma “Associação criminosa”, facultando informações à mesma com recurso ao sistema de informação informatizado da P.J. Este “Sousa”, entrou no sistema da P.J. com a sua “password” e “username”, ficando deste modo registadas as suas pesquisas (para sua salvaguarda) só que quem o coordenada afirmou que ninguém fazia o mesmo na P.J., mais disseram que “estas pesquisas conhecem-se mas pode ter existido outras com “passwords” de outros colegas”!!! No caso da deputada existem imagens da mesma a introduzir a “password” mas, era/é hábito partilharem algo pessoal e intransmissível!

Resultado: um, o “de Sousa”, corrupto! Outros, a “e Sousa” e o “Silvano”, hábitos entre camaradas de bancada! Onde está a Verdade e a Justiça? Eu, talvez porque estou fechado numa cela há 4 anos e 8 meses, só vejo dano infecto!

Nascido em Setembro, sinto-me de facto ofendido e sou Virgem!

Lembram-se de eu escrever neste espaço que somente “quando se zangam as comadres se sabem as verdades”? Muito bem, já se perguntaram se, por acaso, não existisse uma guerra interna pela liderança do PSD, toda esta… nem sei como qualificar ou classificar… será que esta “coisa” se saberia?

Não vamos bater mais na Política: os Tribunais! “Tribunal “esqueceu-se” de pena sobre crime de abuso de confiança”. O caso BPN, o arguido em liberdade, perdão, o condenado em liberdade Oliveira e Costa.

Os «mestres da verdade e da mentira», conseguem distingui-los? Eu só distingo “dano efectivo”! Talvez porque seja corrupto só veja dano! É uma hipótese!

Este Oliveira e Costa – indivíduo doente, coitado – para além dos 14 anos, já levou mais 12 e acho que hoje agravou… mas que importa isso quando estamos em casa (infelizmente doentes!). As melhoras, Sr. Dr.!

Quem fala de Tribunais, fala de Juízes: esta semana, Ricardo Oliveira foi absolvido no âmbito de um processo (mais um) no qual (mais uma vez) foi condenado o “Sr.-Dr.-que-está-em-liberdade-mas-doente”! Quem é Ricardo Oliveira?

É um cidadão ao qual o “Super-juiz”, Dr. Carlos Alexandre, aplicou uma caução recorde de 5 milhões de euros. Passados todos estes anos o homem foi absolvido!

Por falar em cauções, o “Super-juiz”, Dr. Carlos Alexandre, baixou o valor da caução do Dr. Ricardo Salgado, lembram-se? Olhem esta: “Alega Ministério Público, família suspeita de desviar 175 milhões à Venezuela. Grupo Espírito Santo (GES) terá desviado dinheiro de empresas da Venezuela para elementos do próprio GES, diz acórdão” (in C.M., 10 de Novembro de 2018).

Carlos Alexandre, “Super-juiz”?!? Jornal “Expresso”, 10/11/18: “Inspecção diz que Ivo Rosa é “muito bom””.

O “engano e a mentira devem ser utilizados, tanto na educação como na administração da cidade”?

Perdoem-me o pessimismo: só vejo “dano infecto” nisto tudo!

Para terminar (e muito mais existe) o Sr. Bruno de Carvalho!

5 dias detido e já é um homem novo?!? Eu, 4 anos e 8 meses, já preencho os critérios de diagnóstico para disforia de género: não sei se serei um “João novo” ou uma “Joana poderosa”!

O Sr. Nuno Mendes (“Mustafá” para os amigos) declarou na euforia da liberdade reconquistada (mais uma vez): “Não sou terrorista ou traficante de droga!”

É verdade, sim senhor! Eu sei! Terrorista ele não é…

Nem o “Mustafá” é terrorista nem os outros 23 presos, já agora! Escrevi sobre isto a 28/5/2018, neste espaço. Texto “Ethos, Pathos, Logos e Cidadania”.

Mas mais interessante (e louvável) é o facto do Juiz de Instrução, Dr. Carlos Delca, não ter decretado a prisão preventiva para os Srs. Bruno de Carvalho e Nuno Mendes, porque somente existia prova testemunhal: arguidos presos preventivamente (e outros) a acusar terceiros! Muito bem, já lá vão 44 anos desde o tempo em que os “chibos” falavam com a “Velha Senhora”! Seria este o resultado com o “Super-juiz”?

Culpados ou não os envolvidos (e nunca por actos de terrorismo) a essa conclusão só se pode chegar com provas e nunca com “conhecimento subjectivo, exemplificado como «sentimentos de convicção» sobre uma teoria”! (Karl Popper)

Caros(as) Leitores(as), cuidado, muito cuidado com os Ulisses e Aquiles de “trazer no bolso” da nossa praça!

Creio que as mentiras que nos ofertam não são tão piedosas como a mentira da minha bela Helena, essa perfeita Ulixes stolatus (“Ulisses de saias”) como apelidou o imperador Calígula à sua trisavó Lívia Drusila, mulher do Imperador Augusto.

Leiam o “Hípias Menor” de Platão; eu reli durante esta semana porque no domingo vou aproveitar o tempo da visita para falar da “mentira e da verdade” à Helena, introduzir o tema do “Mito” à Leonor, falando de Ulisses, Aquiles e dos deuses envolvidos, aproveitando assim o tempo escasso disponível para ajudar a “ninhada”, vítima inocente dos “danos colaterais” da nossa Justiça!

Claro, claro, eu sei: a culpa é minha!

Afinal, eu fui condenado! Condenado pelos mesmos tribunais que em relação ao outro Senhor… esqueceram-se da pena sobre alguns crimes. Coisa pouca, mas que pesado dano (grande prejuízo) causa na confiança que temos na nossa Justiça!

 

 

 

 

 

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“Habent sua fata libelli”

Liberdade daqui a: 318 dias!!!!

Habent sua fata libelli. Os livros têm o seu destino!

José Tolentino Mendonça, em entrevista ao jornal “Expresso” (30 de Junho de 2018), após assumir o cargo de arquivista e bibliotecário do Vaticano, invocou esta frase de um gramático latino do séc. III.

Na minha terceira saída, em Setembro do presente ano, anunciei solenemente:

– “Quando eu sair definitivamente, para o ano [2019, Setembro] vamos mandar gravar uma nova madeira [inscrição a laser] para colocarmos na porta da nossa biblioteca! Habent sua fata libelli!”

– Mais uma para aprender, Pai? – a Helena

– O que é que significa? – a Leonor

No meu primeiro ano na Universidade Católica – o Propedêutico do Curso de Licenciatura em Filosofia – “baldava-me” às aulas para passar horas deliciosas na biblioteca existente. Com 17 anos, “disciplina de estudo” era algo próprio de espíritos menores: se o programa de estudo exigia Pascal, eu, fedelho ignorante, abraçava Nietzsche; para a semana S. Tomás de Aquino e o “ousado estulto” arremessava Sartre!

Pior que tudo isto foi a “Grande Ocultação”! Somente na “idade adulta” eu confessei à “Mãe Ju” o que fazia: passava as noites a ler e, às 6h15, quinze minutos antes do despertador tocar e ela aparecer no meu quarto para eu ir “tomar a banhoca”, ardilosamente apagava a luz do meu candeeiro e fingia acordar nessa altura. Depois, após despedirmo-nos em Santa Apolónia, à saída do comboio no qual tínhamos viajado juntos, ela ia para a paragem do autocarro, segura de que eu ia fazer o mesmo. Nada disso: o filho ia apanhar o mesmo comboio em que viera, para voltar aos lençóis e descansar, faltando às aulas!

Um forte predictor do futuro criminoso do adolescente João de Sousa!

Nunca sentiram uma aceleração, um bem-estar doce, revigorante, quando durante o dia, a trabalhar, lembraram-se de repente, do nada, que após a jornada diária vão ver um filme, encontrar-se com a pessoa amada, entrar de férias? Estão a “ver” a sensação? Eu sentia isso com a perspectiva de leitura de um novo livro ou mesmo da continuação da leitura de uma obra que iniciara! Ainda hoje, aqui, experimento essa sensação!

Tudo começou com “Os cinco” da Enid Blyton. Colecção que herdei do meu irmão, presente, velhinha, na minha biblioteca.

Os livros sempre estiveram presentes, os livros sempre ajudaram a perceber, a viver, e, se agora estou nesta miserável situação, a culpa não é deles, é minha: não soube ler correctamente aquilo que me ofertaram!

O tal S. Tomás de Aquino que eu desprezava com 17 anos, quando lhe perguntaram por que estava mais grato a Deus, respondeu: “Por me dar a entender cada página que leio.”(in “Uma história da curiosidade”, Alberto Manguel)

Ontem estive a organizar “os meus papéis” aqui no “Jazigo”.

Dos meus registos: o primeiro livro que solicitei da minha biblioteca, estando detido a aguardar no “E.P. junto da P.J.”, para ser presente a juiz (Março de 2014) foi a “Arte da Guerra”, edição ilustrada, Sun Tzu. Durante três dias li e reli.

Já preso preventivamente, em “Ébola”, da biblioteca da prisão: “A metamorfose”, de Kafka.

Até à presente data li 117 livros, resultando desse exercício 324 fichas de leitura.

O professor Marcelo bate-me aos pontos, ele nem dorme!

Os meus livros salvaram-me. Deram-me força. Ajudaram-me a compreender e a entender os outros!

Que projecto pode ter alguém que vai estar encarcerado 5 anos e 6 meses?

Pergunto-me, agora, muitas vezes: “Com o que é que sonha o leão enjaulado?”

Sonhará com caçadas, com perseguições a presas velozes?

Como suportar isto? Como assimilar?

“Só após travessia da floresta, onde bem durou <<a noite que passei de pena inquieta>>, é que Dante pode iniciar a viagem que o conduzirá à compreensão da sua própria humanidade”.

Ah! Então é isto! E assim, quando a dúvida fere, eu saro e continuo: após consultar os livros!

Em 2014 foram os regulamentos, os estudos das prisões. Os que estiveram presos: Mandela, Soljenitsine, Luther King e claro, o “outro lado”: “Mein Kampf”, Adolf Hitler.

Desculpem o esquecimento! Muito importante: “A confiança no Mundo”, José Sócrates.

Este foi o último livro que li em 2014. Desejei ver se a “bota batia com a perdigota”! Não batia!

O contacto com o “sistema prisional português”! O que é isto, como pode ser tão mau? Porquê? Primo Levi conta-nos que certo dia, em Auschwitz, encontrando-se fechado num barracão, com sede (“morto de sede”) ao ver um pedaço de gelo pendurado, parte o pingente para aplacar a sua necessidade. Um guarda nazi ao ver o gesto tira-lhe o bocado de gelo. Levi: Warum? (“porquê?”); Guarda: “Hier ist kein warum!” (“Aqui não há porquês!”).

Se conhecermos, se lermos, tudo se relativiza. Isto sim é um “porquê” horrível!

Só  posso ter no meu “jazigo” cinco livros. A “Bíblia” está sempre presente!

“Abolir inteiramente qualquer forma de ensino religioso nas escolas públicas seria formar novas gerações com uma cultura deficiente e privá-las de um conhecimento básico para entender a sua História, a sua Tradição e saborear a arte, a literatura e o pensamento do Ocidente” (in “A civilização do espectáculo”, Mário Vargas Llosa)

Por isto mesmo é que eu, um pai agnóstico, coloquei a “ninhada” nas aulas de “Religião e Moral”! Os livros educam-nos e confirmam/reforçam as nossas convicções/ideias.

2016: a celebração dos 400 anos da morte do Mestre Shakespeare! Também Cervantes.

Li, na íntegra, as aventuras do “cavaleiro da lança inútil”, como o descreveu Jorge de Sena, sentindo-me como uma “lança inútil” nas mãos de terceiros! Nem sequer “cavaleiro errante”!

Quanto a Shakespeare, o segundo livro que desde o início não é substituído semanalmente, à semelhança da “Bíblia”: “Essential Shakespeare Handbook”, da “DK”.

Muitas vezes digo à “ninhada”: “O Pai é “Próspero”, isolado numa ilha com o seu tesouro, os livros; separado das suas “Mirandas” e do seu “Ariel” (o Jr.)”

Como vencer este tormento, esta triste “epopeia da derrota”? A “Ilíada” que cantou a cólera de Aquiles, o “Pélida” (a minha cólera); a “Odisseia”, 1200 hexâmetros que falam “do homem astuto que tanto vagueou”; a “Eneida”, poema no qual Eneias me sossegou: “A tudo suportai, Vos conservai / para os dias felizes que virão”.

E se a estas Musas dediquei a minha atenção, como não deliciar-me com as Tágides do nosso maior “Príncipe dos poetas”: “Cessem do sábio grego e do troiano / As navegações grandes que fizeram / Cale-se de Alexandre e de Trajano / A fama das vitórias que tiveram […] Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta”

Na íntegra, “Os Lusíadas”, onde encontrei aquilo que arduamente procuro alcançar aqui: “Nem me falta na vida honesto estudo, / Com longa experiência misturado” (canto X, est. 154)

Saber mais e melhor! Sopetear aquilo que a Vida nos oferece, seja doce ou amargo.

Compreender, assimilar, estudar o fenómeno, a condição, não só teoricamente mas também experimentando, mesmo que a experiência seja horrível.

Horrível 2017: a “Mãe Ju” faleceu! “Por favor, traz-me este fim-de-semana o meu Séneca: “As cartas a Lucílio”! Não esqueças!”

Séneca: “Mas, ó loucura humana, que planos grandiosos nós fazemos para esta nulidade que é a existência”. Planos para um “cozido à portuguesa” pela “Mãe Ju” cozinhado no dia em que eu saísse daqui?!? Esqueceste o teu Séneca, João de Sousa?

Como aguentar esta perda, esta ausência, como suportar o resto da pena aqui dentro sem a “Mãe Ju” lá fora? Séneca responde: “Na vida é como no Teatro: não interessa a duração da peça, mas a qualidade da representação!”

A pena vai terminar um dia, é certo, incerto é o nosso desempenho até lá chegar; assim sendo: dignidade, cabeça erguida mesmo na terrível adversidade que se abateu sobre mim, no dia 19 de Outubro de 2017!

Nestas alturas é fácil e reconfortante acusar a Fortuna. Não, nada disso, leiam a “História da minha vida”, de Giacomo Casanova (sim, esse mesmo): “Ai dos tolos que, atingidos pelo infortúnio, acusam a sorte quando deveriam acusar-se a si mesmos”. Escreve-o nas suas memórias, depois de estar preso em Veneza (numa cela que eu visitei)!

Está tudo nos livros, na minha biblioteca, no meu Universo: “Tendo em conta que Borges dizia que o universo era um livro e que imaginava o Paraíso <<sob a forma de uma biblioteca>>”(in “A biblioteca à noite”, Alberto Manguel)

Este fim-de-semana, amanhã, vai entrar, “Embalando a minha biblioteca”, do Manguel.

Prenda de anos da bela Rita, para a qual mando um beijo com saudade!

Beijos e abraços para todos aqueles – alguns, leitores deste espaço que não conhecia/conheço – que enviaram livros: todos li! Mas impõem-se um beijinho muito especial para a “Mattie” que ao longo destes 4 anos e 8 meses, ofereceu-me várias obras (presentemente menos, porque, felizmente, vai ter que comprar livros para a “leitorazinha” que está para “chegar”!). Obrigado a todos!

Os livros permitiram-me “descodificar” tudo isto a que me sujeitaram/sujeitam!

Observar este “mundo miserável” que é (desde 2014) o meu, à luz de La Fontaine, é um exercício delicioso! Tanta ratazana por aqui. Tanta galinha a querer comer raposas!

“Compreender tecnicamente” este fenómeno é gratificante: um “thanks” à Dra. Meghan M. Mitchell, do “Department of Criminal Justice and Criminology”, Sam Houston State University, E.U.A., pelo generoso gesto: o envio da sua tese de doutoramento sobre o “Código do Recluso”!

Voltando ao princípio para terminar: “Que projecto pode ter alguém encarcerado 5 anos e 6 meses?”; “Com o que é que sonha o leão enjaulado?”

Quando li na íntegra Homero, achei que era meu dever ler o que não li (estulto) quando estava no curso de Filosofia: a “Paideia”, de Werner Jaeger. Li da primeira à última página a “Formação do homem grego”.

Está lá a resposta! É o compos sui semper do anel. À transliteração: “enkrateia”!

“Enkrateia”: “Domínio de si próprio”, firmeza, moderação. Segundo Xenofonte: a “base de todas as Virtudes”. Muito difícil enquanto projecto pessoal, não acham?

Tenho falhado muitas vezes na prossecução de tão nobre empresa. Mas os livros auxiliam-me. A minha biblioteca é a minha âncora, o meu porto de abrigo, a minha conselheira, a luz nesta escuridão.

Quando fenece a minha resiliência penso no “prémio final para o corpo”, como dizia Camões: “O prémio lá no fim bem merecido / Com fama grande e nome alto e subido.”

Sim, porque é o “caminho da virtude alto e fragoso, mas no fim doce, alegre e delicioso.”

Imagino-me a sair daqui no dia 26 de Setembro de 2019, pelas 8h00, e, não um guarda, mas uma guarda-prisional que recentemente foi colocada aqui (com longos cabelos louros apanhados e olhar doce e sereno, num rosto desenhado qual ninfa da “Ilha dos Amores”) dizer-me como o disse Tethys dirigindo-se a Vasco da Gama: “Podei-vos embarcar, que tendes vento / E mar tranquilo, para a Pátria amada” (Canto X, est. 143)

Como podem ver está tudo nos livros… tudo menos o que tu e eu, a bordo da nossa “Caravela”, com a “ninhada” por tripulação (e quem mais no futuro se juntar) como dizia, tudo, menos o que no palimpsesto recém raspado e polido, vamos em conjunto, lado a lado, escrever!

 

 

 

 

 

“Paulatinamente a urdidura desfia-se!”

Liberdade daqui a: 325 dias!!!!

“Os dois guerreiros mais fortes são a Paciência e o Tempo.”    Lev Tolstoi

Nada é mais verdadeiro. Tolstoi foi Mestre!

Pacientemente, obedecendo ao Tempo que tudo e todos vence, aqui recluído, observo prazerosamente o partejar da Verdade.

Vejo, com gáudio – conquanto ainda não me permitam o alívio destes trabalhos a que me sujeitaram – dia após dia, semana após semana, mês ou ano após ano, confirmar-se muito do que neste espaço deixo escrito.

Os personagens (reais) que descrevo, a cujos actos relevo ofereço, surgem nos noticiários, nas “coisas da vida, detalhes do mundo”, com a verdadeira face exposta, oferecendo esclarecimento e comprovando tudo o que há 4 anos e 7 meses propalo, em directo, da “Rua do Esquecimento” para o Mundo (o microcosmo composto pelos meus Leitores!)

Poucos, mas bons – “Nós os poucos, os pouco afortunados, um grupo de irmãos”, “Henrique V” – se atentos ao fraco “engenho e arte” do meu português que em nada ajuda, podem concluir sem esforço que com Verdade venho escrevendo e que a razão assiste-me!

24 de Outubro de 2018, quarta-feira, 22h30. RTP3, programa “Grande Entrevista”. Jorge Silva Carvalho, o “super-espião”, entrevistado por Vitor Gonçalves. A entrevista teve como ponto de partida o lançamento do livro do Dr. Jorge Silva Carvalho, “Ao serviço de Portugal”.

20 de Outubro de 2018. Jornal “Sol”, edição nº 634: “Tancos. O “Sol” sabe que foi o à época director da Polícia Judiciária, Almeida Rodrigues, quem avisou o então director da P.J. Militar, Luís Vieira, de que estava sob investigação da P.J.”

No mesmo jornal (“Sol”): “Há quatro anos foi escolhido Carlos Alexandre para a fase de inquérito, este ano foi Ivo Rosa a ficar com a instrução da “Operação Marquês”. Juiz Carlos Alexandre pôs agora em causa a aleatoriedade do sorteio”

16 de Outubro de 2018. “Correio da Manhã”: “Rendeiro evita prisão se pagar 400 mil euros”

Comecemos pelo último. João Rendeiro, fundador e antigo presidente do Banco Privado Português, instituição que conduziu ao colapso, tendo em conta o douto Tribunal que este João em apreço não tem antecedentes criminais, reduziu a pena solicitada pelo Ministério Público (de 7 a 9 anos de prisão efectiva) para 5 anos de pena suspensa, após pagamento de 400 mil euros, uma vez que “o elevado padrão de vida e o facto de Rendeiro viver num condomínio de luxo em Cascais (Quinta do Patiño)”, permitirem dispensar essa quantia para pagar a liberdade!!!!

Conclusão: a Justiça (ou a liberdade, ou mesmo a “inocência”) compra-se, porque é bem vendável em Portugal! Um conselho de um criminoso condenado a pena efectiva, sem antecedentes criminais, mas, infelizmente, sem “fazenda” ou lucro resultante do crime praticado para comprar a “leveza” do braço forte da “Justiça Lusa”: se o fizerem, façam-no em grande!

Se viram e ouviram o Dr. Jorge Silva Carvalho, perceberam facilmente que o trabalho das secretas portuguesas não mantém uma relação de proximidade com a legalidade.

Infere-se também que muito do que se faz é com o aval e informado beneplácito da hierarquia, até ao momento em que tudo se “desfia” e a paternidade da “urdidura”, confortavelmente para alguns (costumadamente “os de cima”) revela-se incógnita.

Em sede de Julgamento, segundo o Dr. Jorge Silva Carvalho, o superior hierárquico negou conhecer os “procedimentos” de Silva Carvalho, faltando somente, credibilizando desta forma, religiosamente, o seu testemunho, pronunciar um sentido: “Vade retro, Silva Carvalho!”

Com facilidade poderia agora estabelecer um paralelismo com aquilo que sucedeu no meu Julgamento, mas não é válido: eu fui condenado a 5 anos e 6 meses de pena efectiva porque no futuro um laboratório forense ofertar-me-iam; o Dr. Silva Carvalho foi condenado a pena de 4 anos e 6 meses, suspensa na sua execução, ainda que com contrato assinado com a “Ongoing”, não “contrato-promessa”, mas trabalho efectivo!

O Dr. Silva Carvalho escreveu o seu livro socorrendo-se do “condicional”, a fim de evitar incómodos futuros com a Justiça, nomeadamente com a “violação de segredo de Estado”. É um artifício que devo observar e emular, ainda que no exercício das minhas funções nunca tenha “lidado” com segredos de Estado, somente fui testemunha do estado da “P.J.” que sempre foi segredo por todos bem guardado!

Quanto ao “super-juiz” Carlos Alexandre, que recusa o epíteto mas secretamente deleita-se com o adjectivo (é notório), confirma-se tudo o que Vos deixei neste espaço. Após o mesmo ser o responsável pela fase de Instrução do meu processo-crime, conheci de facto o personagem!

O seu desempenho (texto: “Asininos Desempenhos”), a sua personalidade (texto: “Alexandre, o Pequeno Beato”) e a sua auto-sugestão de equidade ética e incorruptabilidade (texto: “A perigosa comicidade do “super-juiz”, Dr. Carlos Alexandre”) podem ser agora lidos a outra luz, à luz do que Carlos Alexandre tem dito e feito!

Relativamente à “aleatoriedade do sorteio electrónico”! 3 anos e 8 meses a “sair-me”, após sorteio electrónico, a 9ª Secção do Tribunal da Relação de Lisboa, para apreciação dos meus recursos: acho que está tudo dito!

E assim chegámos, paulatinamente, à Polícia Judiciária…

Setembro de 2016. Leio, no Tribunal do Seixal, perante um colectivo de Juízes, as minhas últimas declarações em sede de Julgamento (publicado o teor das declarações no texto deste blogue, “Últimas Palavras”)

Dois parágrafos somente: “A gestão da informação com colaboradores ou mesmo amizades é comum, ainda que o normativo interno e a Lei penalizem e condenem o acto”.

“O Inspector que negar pesquisas e troca de informação no desempenho das suas funções, está a contrariar a realidade, é incompetente ou está a ocultar algo!”

A Coordenadora-Superior Maria Alice Fernandes e os meus colegas que realizaram a investigação do meu processo-crime, sob juramento, garantiram que nenhum Inspector consulta a base de dados da P.J. sem ser no âmbito de inquérito distribuído!

Sob juramento, declararam que somente o departamento de comunicação da P.J. contacta com a imprensa!

Sob juramento, asseguraram que ninguém na P.J. troca informações com elementos pertencentes ao “submundo do crime”!

Eu acrescentei que na realidade, comprovadamente, só dois elementos da P.J. violaram o segredo de funcionário/Justiça: eu, João de Sousa, e, como escreveu o primeiro-ministro, Dr. António Costa (confirmando presentemente o que declarei em 2016), o Dr. Fernando Negrão, Director da P.J., corria o ano da graça do Senhor de 1999.

– Ninguém, meritíssima, até prova em contrário, até estarem sob escuta… talvez… ninguém na P.J. viola o segredo de funcionário/Justiça como eu o fiz! – em sede de julgamento.

Está gravado. Declarei-o em Tribunal. É escrutinável!

“Almeida Rodrigues terá sido apanhado numa escuta no âmbito da investigação Húbris”; “O aviso dado pelo então director da P.J. aos arguidos […] aconteceu em Dezembro de 2017” (in jornal “Sol”, 20 de Outubro de 2018)

Como disse o príncipe dinamarquês: “Ó minha profética alma!”

Justifica-se deste modo a prática do meu crime (violação de segredo de funcionário)?

Claro que não! Não devia ter sido condenado porque o meu Director Nacional e/ou outros o fizeram/fazem? É óbvio que não!

Mas (e o adversativo impõem-se) importa perceber o porquê de a uns ser dada cobertura e a outros ser negada a justificação ou apontar-se o facto/acção (de todos conhecido e até superiormente incentivado) como prova de corrupção!!!!

Almeida Rodrigues vê-se agora no ponto mais baixo da revolução da Roda da Fortuna.

A roda rodou e o facto de terem ficado questões por colocar ao Eng. José Sócrates no âmbito do processo “Freeport”, acrescido do pornográfico período de tempo em que a Coordenadora-Superior Maria Alice Fernandes manteve o inquérito parado, assim como os relatórios perdidos ou alterados e as diligências travadas, tudo isto com o consentimento informado do Dr. Almeida Rodrigues, quiçá toda esta urdidura, no momento em que a deusa faz girar a inexorável roda, tem de ser duramente cobrada!

Jorge Silva Carvalho, no condicional, afirma que os métodos dos Serviços Secretos não obedecem à Lei; eu garanto-Vos, preto no branco, que foram muitas as vezes em que a Lei foi esquecida na P.J., para se cumprir a Justiça!

Esquecida por mim, atenção! Nunca pelos meus colegas ou superiores hierárquicos, à excepção da Coordenadora-Superior Maria Alice Fernandes e do agora também Coordenador-Superior, Pedro Fonseca, ambos quadros superiores da P.J. que coordenavam o meu trabalho/desempenho.

Ainda das minhas últimas declarações, em 2016: “A avaliação de V. Exa. atenderá ao exemplo de um homem médio, segundo as regras da experiência comum […] um Inspector da P.J. não age como o homem médio, tem a obrigação profissional de não o fazer, foi treinado para não o fazer […]”

Reconheço que isto é muito perigoso: tornamo-nos facilmente em investigadores, Juízes e Carrascos! Tudo o que fiz no desempenho das minhas funções não o fiz somente porque me mandavam os Coordenadores referidos. Muitas vezes os contrariei, quase sempre a iniciativa foi minha porque eles não sabiam o que fazer! Mas esta é a realidade: deram cobertura ao realizado!

Não existe qualquer tipo de controlo exterior, ninguém “guarda os guardiões”.

Somente quando se “zangam as comadres”, porque interessa calar ou porque a facção contrária subiu e agora é altura de pagar, só nestas ocasiões todos Vós conhecem um pouco do que vai dentro do convento.

Desde Agosto de 2015 que existe um processo disciplinar interno na P.J., no âmbito do qual fui inquirido como testemunha, porque denunciei uma investigação coordenada pela Sra. Maria Alice, na qual sujeitaram uma menor a novo abuso sexual com o objectivo de prender o abusador. Tudo com o conhecimento da P.J., tudo industriado pela P.J.!

Sabem qual foi o desfecho? Nem eu! “Tempo” e “Paciência”, os mais fortes guerreiros. Eu sou obrigado a esperar mas não esqueço, e recuperarei tudo sem recurso ao “condicional”.

Surpreendidos porque o Dr. Almeida Rodrigues avisou alguém, via telefone, violando o segredo de funcionário/Justiça? Já esqueceram a vergonha que foi a entrega do Pedro Dias, através da Sandra Felgueiras?

Esqueceram que de uma entrevista de 2 horas, realizada aqui em “Ébola” pelo “Sexta às 9”, só 2 minutos passaram, “associando-me” ao “Dia Internacional do Combate à Corrupção”, aparecendo o Dr. Almeida Rodrigues a refutar tudo o que eu disse mas que não foi transmitido?

Tempo e Paciência!

Faltam agora 11 meses para sair daqui. Depois será currente calamo (“ao correr da pena”) pois desnecessário se torna pensar muito, a Verdade, mais do que a Mentira, corre veloz se ouvidos (neste caso olhos) lhe oferecerem.

Depois é agir, sem condicional.

José Cardoso Pires escreveu: “Quando um país não dá para agir, contentamo-nos em pensar”. Aqui fechado muito tenho pensado; muito tenho visto e ouvido quem não pensa, quem fala sem saber, sem conhecer. Está na hora de agir e, realizando serviço público (como disse o Dr. Jorge Silva Carvalho) relatar-Vos-ei informando (objectivando melhorar a Instituição) o que eu fiz ao serviço da P.J. e de Portugal (recorrendo pouco ou nada ao “condicional”).

 

“Excogitar a Natureza do Ânimo Humano!”

Liberdade daqui a: 332 dias!!!!

“Princípios Metafísicos da Doutrina do Direito e da Virtude”. Dois livros que fazem parte da “Metafísica dos Costumes”, de Immanuel Kant. Foram a minha última leitura.

Todas as experiências da nossa Vida são úteis, inclusive o que agora experimento: a reclusão.

Verdadeiro laboratório do comportamento humano, a prisão e seus “habitantes” – reclusos, guardas prisionais, pessoal administrativo, Direcção e até as visitas semanais dos reclusos – proporcionam ao olhar atento e entendido, inestimável informação e conhecimento sobre o ser humano.

A releitura de Kant, a revisão dos “Princípios Metafísicos da Doutrina da Verdade” principalmente, faz parte do plano de “leituras/revisão da literatura” a que me propus, inserido no projecto que atempadamente (i.e. quando todo o processo burocrático estiver cumprido) Vos relatarei.

“Afortunado” por estar preso, podendo assim “viver e sentir” o que leio, retive a seguinte frase de Immanuel Kant: “Quais os fins que, ao mesmo tempo, são deveres? São perfeição própria e a felicidade alheia.”

Estranhos conceitos, diria mesmo paradoxais, paradigma da antinomia quando escritos por um condenado, quando associados a prisões, criminosos e crimes.

“Cultiva as tuas faculdades anímicas e corporais a fim de seres apto para todos os fins com que possas deparar, sem saber quais dentre eles poderiam ser os teus.”

Kant escreveu, mas poderia muito bem ser a base do edifício da reinserção e ressocialização do indivíduo recluído.

O “bem-estar físico” e o “bem-estar moral” dos outros, são um dever para nós próprios, fomentá-los é um fim e um dever: trata-se da felicidade alheia!

Kant enunciou estes deveres, mas poderiam, muito bem, estarem inscritos no código deontológico do corpo dos guardas prisionais! Será que o Corpo dos Guardas Prisionais tem um Código Deontológico?!?

O Estabelecimento Prisional de Évora, mais conhecido (pelos recluídos) por “Ébola”, tem capacidade para alojar, respeitando a dignidade humana, 35 reclusos.

A população reclusa actual é de 42 homens.

Os reclusos de “Ébola” são diferenciados, não porque menos criminosos ou merecedores de atenções especiais, mas sim porque são elementos das forças de segurança e dos serviços prisionais. Actualmente existem guardas prisionais, agentes da P.S.P., elementos da G.N.R. e inspectores da P.J. recluídos.

Desde violadores, pedófilos, burlões, homicidas e corruptos, todo o espectro criminal está representado.

Por serem ex-polícias, ex-guardas e ex-guardas prisionais, seria expectável que o funcionamento do E.P. de “Ébola” fosse exemplar, nomeadamente no que aos deveres e direitos de cada recluso diz respeito.

As instituições humanas são dinâmicas, em constante devir, até uma instituição totalitária como uma prisão. Influências bidireccionais verificam-se, retroalimentam-se.

Os guardas são o que os reclusos “oferecem”, os reclusos comportar-se-ão de acordo com aquilo que os guardas são!

No caso particular do E.P. de “Ébola”, os reclusos, porque supostamente diferenciados (porque conhecedores da Lei) proporcionariam através da respeitosa e urbana contestação ao eventual procedimento incorrecto por parte do Guarda, um melhoramento do funcionamento do E.P. e, consequentemente, a um aperfeiçoamento do desempenho das funções do guarda prisional.

Infelizmente, escandalosamente, o anterior exposto por aqui não se verifica. É assustadoramente visível a falta de conhecimento da Lei por parte dos OPC´s aqui recluídos e, mais grave ainda porque estavam até há pouco tempo a fechar reclusos nas suas celas, por parte dos guardas prisionais que se encontram agora presos, fechados nas celas que anteriormente encerravam outros.

Para a semana os guardas prisionais vão fazer greve! Este texto está a ser escrito no sábado, 20 de Outubro de 2018, porque o serviço de correio não vai existir. Serão 4 dias de greve que condicionarão as visitas aos reclusos (não existem); o bar dos reclusos, onde um recluso trabalha, vai estar fechado; o ginásio onde diariamente se treina vai ser encerrado e os reclusos vão estar fechados na cela cerca de 16 horas!

A greve só prejudica os reclusos. Os reclusos que a sociedade despreza e quer esquecer. Não será pelos direitos do “refugo da sociedade” que a atenção das decisões vai ser captada.

Em 4 anos e 7 meses de reclusão já “vivi” inúmeras greves do corpo dos guardas prisionais. Não obtiveram nada, ninguém os ouviu. No passado, durante a greve, nem podíamos ligar para casa! O que é que isto – contactar durante 5 minutos a Família – está relacionado com a luta dos guardas por melhores condições?

Creio, na minha modesta opinião, que os Srs. Guardas deveriam ler Kant no seu curso de formação! Estarem atentos à questão da “perfeição própria”; ao dever de “cultivarem as suas faculdades anímicas e corporais”! Melhores, podem reivindicar mais!

Mas deixemos o Corpo de Guardas Prisionais e a sua justa luta (reconheço) e centremos a nossa atenção nos “supostamente diferenciados reclusos de Ébola” que, amiúde, por desconhecerem a Lei ou por traços infelizes de personalidade, não ajudam no melhoramento do sistema prisional e são exemplos vivos desta afirmação de Immanuel Kant: “Mas quem se converte em verme não pode, depois, queixar-se de que o pisem”

Talvez por ser delegado da APAR ou por qualquer outra razão que (ironicamente) desconheço, um recluso, elemento de uma força de segurança (não interessa qual) veio queixar-se de que durante uma “rusga” à sua cela, quando foi desnudado, o guarda ordenou que virasse o rabo para si, fizesse tração das nádegas e expusesse o esfíncter anal!!!! Muito perturbado após o descrito, questionou-me: “O que é que o senhor João fazia?”

De imediato respondi: “Meu caro, o rabo não se abre para qualquer um!” – contendo o riso.

– Não é isso, Sr. João! O senhor apresentava queixa do guarda? – acabrunhado

– Não…

– Não?!? Então e a minha dignidade?!? – agora indignado

– Meu caro, deixe-me acabar! Eu não mostrava o rabo!

– Ah! Mas eu mostrei… e agora? – ansioso

– Sentiu-se ferido na sua Honra, na sua Dignidade?

– Claro!

– E não sabe que o regulamento não permite esse tipo de procedimento, assegurando o “respeito pela dignidade da pessoa humana e pelos demais princípios fundamentais consagrados na Constituição”

– É, não é? Eu sabia! Eu até estava a rezar quando eles entraram…

– Bom, mas rezar, a devoção… os princípios cristãos não proíbem a tracção das nádegas, não é?

– Não goze, Sr. João, isto é grave! – envergonhado

Este indivíduo, segundo me relatou depois, foi recebido pelo Chefe dos Guardas Prisionais que pediu desculpa pelo sucedido, não apresentou queixa, até porque ia ser avaliado para a concessão de uma “saída precária”. De referir que a “saída precária” não lhe foi concedida!!!! “Quem se converte em verme…” Na semana seguinte estava em amena cavaqueira com o guarda que o tinha obrigado a expor o buraco… isso mesmo! Vocês compreendem, não é?

Na minha última saída por 96 horas, o guarda que chefiava a equipa que se encontrava de serviço, ordenou ao guarda chefe-de-ala que ordenasse ao recluso João de Sousa para entregar a mala com que ia sair com os seus pertences, meia hora antes da saída, para que verificassem o conteúdo da mesma sem este (eu) estar presente!

O Chefe-de-ala, um jovem guarda, ponderado, profissional, sensato, apercebeu-se logo do que aí vinha: “Diga ao Sr. “x” (chefe de equipa) que a minha mala só vai ser verificada na minha presença. Não entrego mala nenhuma!” – com um sorriso, porque facilitava a coisa.

– Eu já sabia, Sr. João! – retribuindo cortesmente o sorriso.

Como é que a situação ficou? Ficou como devia ficar: o recluso João de Sousa junto da sua mala enquanto os Srs. Guardas faziam o seu trabalho.

O problema não é o chefe-de-equipa e as suas idiossincrasias e desconhecimento do normativo (este elemento é um “habitué”) o problema é que eu assisti a inúmeros reclusos a entregarem as suas malas aos guardas para fazerem este procedimento de forma incorrecta, pode-se mesmo dizer ilegal. Ex-membros de OPC´s (órgãos de Polícia Criminal) ex-guardas prisionais, não foram capazes de reconhecer o erro, ou, sabendo que estava errado, terem coragem de dizer: “Não!”

Claro que isto é uma chatice, é sempre o mesmo – eu – a chamar à atenção quem devia ter conhecimento do normativo que rege as suas acções.

Claro que perante os outros reclusos o “Dôtor” é tratado de forma diferente, mas já não era assim na P.J.? É mais do mesmo!

Todos nós somos co-legisladores, todos nós somos responsáveis pelo bom funcionamento dos nossos locais de trabalho, pela observação das regras (até na prisão).

Os pais fazem os filhos, os filhos fazem os pais. O patrão faz o funcionário e vice-versa. Aqui, em “Ébola”, apesar de não ficar muito bem na “regra da prisão”, devemos auxiliar o Sr. Guarda a fazer o seu serviço, até porque se ele o desempenhar de forma válida, mais capaz é o processo de reinserção e ressocialização: o objectivo major de todo este “Inferno”.

Reconheço, porém, que a natureza do ânimo humano muitas vezes (quase sempre) condiciona tudo o que se pretende: a perfeição própria e a felicidade alheias.

O instinto de sobrevivência, o interesse, as paixões, os vícios ou o desejo de sair daqui (de “Ébola”) o mais depressa possível, anima o que de pior o ser humano encerra; muitos “convertem-se em vermes”, outros, por encerrarem a ilusão do “poder sobre terceiros”, esquecem que são funcionários públicos e existem para servir (mesmo que para servir o “refugo da sociedade”)!

E é tudo! Agora vou comprar perecíveis porque para a semana não temos bar e cantina! Tenho de ir, vou agora sair da cela, sempre com pundonor e disposto a auxiliar a melhorar o desempenho do Corpo de Guardas Prisionais com o meu modesto contributo. Saio atento, não vá alguém por desconhecimento, não por maldade, solicitar algo que não deva!

“Um ano após a morte da “Mãe Ju””

Liberdade daqui a: 339 dias!!!!

14h53. Dia 19 de Outubro de 2018. Fiquei fechado na minha “cela/jazigo”. O céu vê-se azul, povoado por muitas nuvens. O pátio está molhado, choveu de manhã.

Comecei a escrever este texto às 14h53, exactamente a esta hora!

Há um ano, com um céu parecido, dentro da minha cela/jazigo no rés-do-chão (presentemente “subi na vida”, como aqui se diz: estou numa cela no primeiro piso) fechado no “jazigo”, dizia eu, na penumbra aguardava. Som de passos com as chaves na mão: o guarda. Parou à minha porta. Chave pesada na fechadura; olho o relógio: 14h53. Penso: aconteceu!

– Sr. João, é para ir ao Dr. Mendes. – cabisbaixo – já estava à espera, não era? – enquanto eu saía.

– Sim.

No meu Moleskine de “1 de Janeiro de 2017 às 00h11 de 1 de Janeiro de 2018”, tenho esta telegráfica entrada: “19 Out. 17. 14h53. Esteves. 11h00 faleceu (estava a treinar, mais preciso: estava sentado no banco após tomar banho). Igreja de Vialonga, 15h00, hoje. Funeral amanhã, 15h30. 16H00 cremada! Póvoa de Sta Iria, cemitério. 15h12 fechado outra vez, papel feito! 17h15. João Vaz pediu para reunir na biblioteca, Esteves informou. Perguntou se queria falar. Foi breve: 5 minutos; tentou o apoio psicológico, humanista!

De referenciar: “Você optou por esta estratégia…” (palavras do Dr. João Vaz)”

Tomei conhecimento da morte da minha Mãe, 3 horas e 53 minutos após o óbito. É assim na prisão, o tempo aqui passa de forma diferente, não merecemos o tempo presente na hora exacta!

O técnico do estabelecimento prisional preocupou-se em prestar o apoio possível, acrescentando na ocasião que eu passava por tudo isto, ou seja, não estava junto da minha Mãe aquando do seu passamento, porque a estratégia que eu adoptei não o permitiu!

Felizmente, para minha paz de espírito, a “Mãe Ju” aprovou e incentivou a estratégia escolhida!

Felizmente, ainda que para grande dor de todos nós – os “De Sousa! – a gravidade da condição da “Mãe Ju” era do nosso conhecimento. A 13 de Junho de 2016, no texto deste blogue, “Melancolia”, por ocasião do seu aniversário, eu tudo lamentava.

A 2 de Maio de 2017, no Moleskine antes referido, lê-se: “A minha Mãe já está em casa, soube hoje de manhã nos “5 minutos de contacto”. Abriram, fecharam, e, não extraíram nada! Parece que é o fim para a Julieta! Será que só a vou ver, lá fora, ainda algemado, e ela sossegada no féretro? Ah! Como vos perdoar isto? Estou triste, muito triste. Estou impossibilitado de estar com a minha Mãe no final da actuação dela. Como perdoar isto aos dois? Hoje treinar foi um martírio, um desafio. Estou muito triste!”

A última vez que a vi “bem” foi no dia 8 de Junho de 2017, quinta-feira, das 15h30 às 17h30. Visita no estabelecimento prisional de “Ébola”. Conquanto se risse de todas as palhaçadas que eu me forçava a fazer, ela sabia:

– Sabes, Pedro, acho que a mãe não vai estar contigo quando saíres. – resignada, ao  lado do meu Pai.

– Disparate, Julieta! Só tens de aguentar até 27 de Setembro de 2019! Dia 26 acaba o castigo; 27 de manhã estou contigo! – sem acreditar no que dizia, tentando parecer convicto.

– Não sei, filho. Não sei…

– Olha, deixa-me contar-te como esta semana fiz a depilação e um pedófilo ao entrar no balneário, estava eu todo nú cheio de creme depilatório, fugiu a sete pés…

E rimos os três com gosto… e pesar.

Faz hoje um ano que a “Mãe Ju” faleceu. Esta é a minha forma de fazer o luto que até agora adiei. Não o posso fazer porque estou em luta, em guerra, em terra de infiéis. Já fui a casa, já estive com o meu Pai mas ainda não fiz o meu luto, não posso dar-me a esse luxo agora.

O acontecimento esperado ainda não aconteceu, faltam ainda 11 meses, 339 dias!

Como há um ano atrás, espero notícias da mesma forma que a Família há 45 anos esperava notícias de Angola!

A primeira Leonor de Sousa – a segunda é a minha filha Leonor, bisneta da primeira – recebia em Lisboa, no dia 22 de Setembro de 1973, o telegrama que informava: “Acontecimento esperado decorreu normalmente. Mãe e filho continuam bem. Muitos abraços. Fernando.”

O Fernando é o meu Pai, o telegrama ilustra este opúsculo.

A fotografia é do “Pedrocas”, eu. A “Mãe Ju” andava com ela na carteira. Se repararem bem na expressão do infante, é possível afirmar que era expectável o futuro criminoso do mesmo. A camisola até faz lembrar as fardas dos perigosos “irmãos Metralha”! Tão pequenino e com cara de corrupto! Estava-se mesmo a ver!

Há 45 anos atrás a Mãe estava bem e o filho também. Hoje, a Mãe já não está cá e o filho ainda aguarda.

Ainda não consigo interiorizar a ideia de que ela faleceu. Às vezes passam-se coisas hilariantes por aqui (por incrível que possa parecer) e eu penso: “Tenho de contar esta à “Ju”, ela vai partir-se toda!” Segundos depois: lembro-me e conformo-me!

Quando fui a casa nas “precárias”, quando estava a colocar as fotografias dos netos dela neste espaço, o sorriso do Jr., as patetices da Leonor ou as tiradas filosóficas da Helena, de imediato pensava nela e no que ela me disse quando nos despedimos no hospital, quando eu a fui ver, algemado, escoltado por dois guardas: “Não tenho medo de morrer, filho, tenho pena de não estar no meio de vocês. Ainda tínhamos tanto para rir!” (texto, “Na quinta-feira despedi-me da minha Mãe”, 16/10/2017)

Não posso afirmar que ela está a olhar por nós. Não consigo dizer que ela ficará feliz, finalmente, quando eu sair daqui em Setembro de 2019. Não acredito. Não tenho provas.

Creio que foi o nosso Fernando Pessoa que o escreveu: “Morrer é uma curva na estrada. Morrer é não ser visto”. Isto subscrevo, e como o faço posso afirmar que a “Mãe Ju” não morreu: ela está sempre aqui comigo, no meu pensamento. E está bem, está sempre a rir; a troçar de tudo e de todos. Como a Helena, a mais “Ju” dos três netos que o “filho malandro e criminoso” lhe deu!

Foi há um ano e parece que foi hoje de manhã.

Como há um ano, estou à espera de ser ouvido por um Juiz do Tribunal de Execução de Penas, para saber se em Dezembro vou definitivamente para casa!

Como há um ano, não creio que isso aconteça!

Como é engraçada a Vida! Se por cá ficar em Dezembro, após ser ouvido pelo Juiz do T.E.P. de Évora, ficarão a faltar 9 meses para a Liberdade (final da pena a 26 de Setembro de 2019)!

Exactamente o tempo de gestação de um bebé humano!

Sabem o que eu gostava de fazer, se acreditasse? Gostava de enviar-lhe um telegrama “cá de baixo” a dizer-lhe: “Acontecimento ansiosamente por nós dois esperado ocorreu finalmente. Filho está agora bem. Muitos Abraços e Mais saudades. Pedrocas”

 

“Estereotipar”

Liberdade daqui a: 346 dias!!!!

Antes do tema desta semana, impõem-se uma palavra de gratidão para com todos aqueles que aqui vêm ler e comentar o meu fraco português. No dia 4 de Outubro não foi só a minha Maria Helena que celebrou o seu aniversário, também este espaço celebrou no mesmo dia 4 anos de existência (e não foi coincidência, o autor, eu, publicou o primeiro opúsculo intencionalmente, quando a Helena completou 8 anos)!

Cerca de 115 000 visitantes anuais! Não deve ser nada quando comparado com a Cristina Ferreira ou o “CR7”, mas, para um criminoso condenado à “Rua do Esquecimento” pela prática de um crime de corrupção na forma de uma promessa de vantagem futura, é tudo!

Grato a todos Vós pela atenção dispensada.

Os estereótipos são frequentemente depreciativos.

Os estereótipos são esquemas simplificados que as pessoas utilizam para explicar e/ou categorizar grupos complexos. No dicionário (KLS): “comportamento desprovido de originalidade e de adequação à situação presente, e caracterizado pela repetição automática de um modelo anterior, anónimo ou impessoal.”

Usualmente referimo-nos aos “estereótipos” como algo negativo mas no plano evolutivo da espécie humana é um mecanismo psicológico de defesa/sobrevivência: se a situação antes foi perigosa, desagradável, uma situação nova com elementos comuns é automaticamente classificada como perigosa/desagradável.

“Mais vale prevenir do que remediar”, se quiserem de uma forma mais popular.

Ontem (escrevo este texto na terça-feira, 9 de Outubro; tem de ser: vai ser enviado via “CTT”) regressei ao “contentor excrementício da nossa sociedade” após o gozo da Licença de saída Jurisdicional (vulgo precária). Com a “ninhada” em dia de escola, reservei a segunda-feira, 8 de Outubro (dia do regresso a “Ébola”) para tratar do “futuro pós-reclusão”, assim como para “burocracias várias” que exigiam a minha presença física.

Na segunda-feira, tive que deslocar-me a uma repartição pública. Nesta dependência de serviço público interagi com uma funcionária. Resumidamente: como só vou estar de “precária” novamente (se eu “comportar-me bem” aqui dentro, claro) em finais de Janeiro de 2019, necessitava de obter, ainda na segunda-feira, antes do regresso a “Ébola” (onde tinha de apresentar-me às 19H00) um documento.

Compareci na dependência de serviço público em apreço, cinco minutos antes da abertura. “Era o quarto a ser atendido!”. Esperei, observando a diligência e celeridade que a funcionária pública (sozinha num serviço que dispunha de quatro balcões!) imprimia ao seu desempenho.

Quando chegou a minha vez: “Não é esta a senha!” – um pouco irritada – “Agora aqueles senhores não vão ter a senha certa! É uma confusão!” – atrás de mim estavam cinco indivíduos aguardando.

– Lamento! – eu, de dentro do meu “Hugo Boss”, com o botão de punho com as minhas iniciais “à vista” e o “cachucho” de ouro no anelar da mão esquerda (como se viu na T.V.!)

– Preciso do documento hoje porque não terei disponibilidade de tempo e até física; assim sendo, diga-me se tenho de pagar alguma taxa para ser mais célere a emissão. É possível?

A senhora funcionária, por qualquer razão que a razão desconhece, não queria que eu gastasse mais numa “taxa de aceleração” de processo, tentando dissuadir-me de pagar, garantindo-me: “Amanhã está pronto, vai ver!” – ofertando o primeiro sorriso forçado do dia.

Mais dois minutos nisto… tornando a conversa mais pública do que já o era – a repartição era minúscula, quem esperava estava junto de quem era atendido – eu declaro com uma projecção de voz digna do Derek Jacobi, no início do “Henrique V”:

– Minha senhora, eu sou criminoso e estou preso em Évora, local onde tenho de estar hoje às 18h55!

Acto contínuo, imediato, instintivo, a senhora coloca a sua mão sobre a minha, inclina-se na minha direcção, reduz a sua área corporal corcovando-se e diz: “Ai, credo! Não diga isso alto!”

Eu não gritei, não me exaltei, apenas clareei a voz e de forma cordial revelei a minha condição de recluso.

– Minha senhora, eu não tenho vergonha de estar preso… deixe-me sossegá-la, eu sou dos criminosos bons, se não o fosse já tinha dado uns tiros aqui dentro – sorrindo.

É nesta altura que a senhora funcionária profere a mais incrível das frases:

“Eu sei, eu sei… há tantos aqui fora que deviam estar presos. Pronto, foi um azar que teve, mas não precisa de dizer assim, as pessoas ouvem-no!” – com toda a ternura, enquanto ofertava-me “tapinhas” nas costas da mão.

É incrível, não é? A senhora não sabia se eu tinha violado menores ou roubado. Não sabia se eu tinha matado alguém, não me conhecia de lado nenhum! E no entanto… tudo foi um azar que eu tive; só podia, um rapaz “tão bem posto”!

Como devem de imaginar não acompanhei muito as notícias nestes quatro dias: a “ninhada” monopolizou a minha atenção. Felizmente! Mas o tema foi/é incontornável em todo o lado, em todas as mesas onde matei a fome que levei daqui: o Cristiano Ronaldo sodomizou uma jovem e ela não desejou que assim fosse!

Descansem que não vou comparar a minha condição de criminoso, o meu caso, com o CR7! Eu sou mesmo criminoso, condenado a pena efectiva, corrupto!

Ele foi condenado a pena suspensa, pagou multa, é uma figura pública, um atleta de excepção e um excelente jogador de futebol.

O que pretendo é referenciar esta “mui” humana necessidade de estereotipar.

Coloquemos questões! Somente isso, questões que julgo pertinentes.

Uma mulher sensual, ousada, que trabalha num local onde utiliza a sua sensualidade e ousadia com o objectivo de atrair clientes para usufruírem do espaço, está predisposta a praticar sexo anal?

Referi “usufruírem do espaço”, utilizei a palavra “clientes”, muito bem! Vou a jogo: uma prostituta é um indivíduo que garante, sem qualquer tipo de entraves, a prática de coito anal? Não é, pois não?

Se nada existiu, qual a utilidade de um acordo de confidencialidade?

A senhora Kathryn Mayorga seduziu o “CR7” tendo como objectivo “apanhá-lo numa armadilha” para extorquir-lhe dinheiro. Sua megera! E depois? Ele não o fez, não tem nada que “entrar pela porta dos fundos” com 324 mil euros!

Hipótese: Kathryn Mayorga era conhecida pela “rainha do anal”. “CR7” gosta. CR7 vê e pergunta: “És a “raínha do anal”?”; “Sim, sou! Queres?”. CR7 rejubila e prepara-se para marcar golo. Ela assume a posição, ele posiciona-se. A glande estabelece contacto! Kathryn Mayorga vê os feios pés de CR7, deformados pelo uso das chuteiras e diz (julga ela, ainda a tempo): “Não! Não quero!”

Então é “não”! E mesmo que “CR7” já esteja em velocidade de cruzeiro, com a musculatura intumescida, tem de parar se não fica fora de jogo! Cartão vermelho directo!!!!

É a vida das grandes estrelas! São só “pxxxx” oportunistas a tentar sacar dinheiro!

Ele merece, quem é que julga ele que é? É um vaidoso e acha que toda a gente tem de lhe satisfazer os caprichos!

Estereotipar! Estereotipar! Não só o funcionário público, a cabeleireira, o dono do café ou quem quer que comente a “coisa”, mas também “gente de responsabilidade”: “comentadores da treta”, apresentadores, psicólogos, enólogos, imprensa cor-de-rosa, bege e castanha (como a cor das fezes!). Tudo opina estereotipando!

Permitam-me também a mim, verdadeiro criminoso, opinar.

Depois de muito ler sobre o tema, após ver as imagens da interacção do nosso CR7 com a bela Mayorga, posso afirmar com elevado grau de certeza e convicção o seguinte:

Cristiano Ronaldo, conquanto seja um jogador de futebol fabuloso, não sabe dançar; é profundamente inapto na arte da sedução e convencimento de beldades, nomeadamente quando se trata da permanência em locais abscônditos, cuja permissão para entrar e lá permanecer depende da vontade alheia.

“Festejar a Família: o aniversário da Helena”

Liberdade daqui a: 353 dias !!!!

De novo em Liberdade! Somente durante 96 horas, com um “papelinho” a “dizer” que estou preso mas posso estar no meio de Vós durante 4 dias!

Nada disso importa, o que realmente importou (porque amanhã vou voltar de novo ao “Inferno”: 96 horas passam a correr!) foi ter festejado a “Família”, foi ter celebrado o aniversário da “Infanta” Maria Helena de Sousa!

Henry David Thoureau : “Fui para os bosques para viver deliberadamente, para viver profundamente e para sugar o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida. E não, quando eu morrer, descobrir que não vivi!”

Assim foram os meus quatro dias. A sugar o Amor da “ninhada”, a tentar esticar as horas ao máximo.

– O que é que queres para os teus anos?

– A ti, Pai!

Ternurento, não é? Claro que  não ouviram depois o resto da conversa durante a última visita:

– E já agora, se puderes…um telemóvel novo… (um isto, um aquilo, um aqueloutro)

Mas, como a bela Helena é bastante ponderada e responsável e em tudo imita a irmã:

– Como estamos em dificuldades podes dar só a tua companhia durante o fim-de-semana! Faz-nos uma aventura sobre “História de Portugal”!!! – a “Infanta” Helena.

Devemos sempre, até quando não podemos, dar tudo às nossas “ninhadas”. Assim o fiz! A prenda era “pequenina” mas o embrulho foi enorme!!!

Quando apresentei o “embrulho”, ouvi-a a dizer baixinho à irmã:

– Afinal vai ser uma coisa grande!

É muito feio enganar as crianças mas…. A “meio da abertura da coisa” já o Jr. desconfiava de algo e a Helena percebia que tinha sido enganada…

Querem uma aventura? Uma aventura em 96 horas? História de Portugal?

Algo com significado? Que tal aprender e emular os feitos dos grandes de Portugal, sair do estilo românico da minha “cela-jazigo” e deslocarmo-nos ao local onde se celebra uma grande vitória de um outro “João”?

(e este Vosso João, o De Sousa, precisa tanto de uma vitória porque tem estado a perder há quatro anos e meio!)

– Está tudo pronto? Não esqueceram nada?

– Mas onde é que vamos, Pai? – as manas.

– Vamos aos “irossauros” – o Jr., recordando a primeira vez que viu o Pai fora da prisão.

Como 96 horas é tão pouco e não Vos quero maçar relatando as canções que entoamos durante a viagem:

O Mosteiro de Santa Maria da Vitória!!!!

– Uauuu! Tantos tectos!!!! – o Jr.

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– Uma porta para anões! – a Helena.

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– Quem está ali, Pai?

– D. João I, o Mestre de Avis!

– Ele é João como eu? – o Jr.

– Sim filho…

– Que grande! Está a dormir? – o meu Príncipe Perfeito, o segundo João da Família De Sousa

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Muito foi visto. Quilómetros percorridos. Longas batalhas realizadas e vencidas nos claustros góticos do mosteiro!

Fátima! Óbidos! Espadas e vestidos medievais! Lendas e relatos de heróis! Tudo em 96 horas, sempre a sugar o tutano à vida!

Depois, o meu bando de pequenas águias, à noite, não ao colo do Pai mas em cima dele, deixaram a revolta, e aí, nesse momento, “é a ternura que volta”…

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No preciso momento em que ia “falar do homem novo” para os meus putos “aprenderem a ser homens”, a Helena e a Leonor começaram a “parvar” e ninguém descansou!

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No dia seguinte, a Helena, a “Rainha dos meus quatro dias”, a aniversariante, desejou ver o detective da Idade Média – “O nome da Rosa” – para aprender a desvendar crimes como o Pai fazia!

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Como é que se fazem mensagens secretas como no filme? Com limão!?!?!?!

O Grande Mestre da Ordem dos Magos e dos Feiticeiros explicou:

– E letras medievais? – a Leonor.

Não se nega nada às nossas “ninhadas”!

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Estou exausto! Cheio, repleto de Amor e memórias doces que me alimentarão durante os 353 dias que faltam. Sorrisos, abraços, aventuras e Conhecimento! Não é uma forma má de passar 96 horas fora da prisão!

Quando estiver sozinho, a caminhar nas alas ou no interior da minha românica “cela-jazigo”, o que estarei a fazer de facto, naquele momento de reclusão, será observar os luminosos vitrais que celebram a Vitória daquele João, o Primeiro; eu, João, que agora sigo em último! Estarei a recordar, porque como dizia o outro: “pois recordar é viver”… só eu e a “ninhada”!

Já passaram as 96 horas, mas os sorrisos da “ninhada” não me deixam ficar só…é impossível sentirmo-nos sós quando a minha filha mais velha, a Leonor (nome de Rainha) consegue uma expressão facial como esta:15Percebi nesta “saída” que não sou eu que encerro em mim Coragem, Resiliência e Força para lutar. São eles (a “ninhada”), qual ínclita geração, que me sustentam e obrigam, após derrotado, a erguer-me para de novo vencer! São eles, o meu inspirador “Mosteiro de Santa Maria da Vitória”!