“25 dias de liberdade e o Programa da Cristina”

Amanhã, dia da publicação deste texto (14/1/2019) terão passado 25 dias desde a minha libertação.

Em 2014, mais precisamente a 24-12-2014, estava na minha cela/jazigo a ler o livro de Jean-Christophe Rufin, “O grande Jaques Coeur”.

Na ficha de leitura que fiz encontro este comentário: “a Liberdade após a reclusão!” 

O comentário por mim manuscrito referia-se à seguinte frase de Jean –Christophe Rufin: “Sentia o indiscritível sentimento de nascer uma nova vez, mas não como um lactente, ignorante e vulnerável, antes como um desses deuses gregos que surgem no mundo na força da idade adulta, enriquecidos por uma longa experiência e felizes por partilharem os prazeres dos humanos, sobre os quais sabem tudo.”

Na ocasião, recluído, fechado em 9 metros quadrados, sonhava acordado com a minha Liberdade, expectando experimentar o sentimento descrito anteriormente quando alcançasse a minha libertação.

O personagem da obra, Jaques Coeur, foi um mercador francês nascido em finais do séc. XIV que viveu a primeira metade do séc. XV, tendo sido mencionado na obra “O Mistério das Catedrais” de Fulcanelli, referenciado como “Mestre Alquimista”.

Dono de uma vasta fortuna, Jaques Coeur cai em desgraça e é preso, torturado, alcançando de novo a liberdade e a fortuna.

Jean-Christophe Rufin coloca na boca de Coeur a anterior citação.

Esta semana que passou dei por mim a reviver esta leitura, muito particularmente esta passagem do “indiscritível sentimento de nascer uma nova vez”. 

Mas será que este meu renascer foi semelhante, na Sabedoria, ao “desses deuses gregos”?

Esta semana que passou realizei várias actividades quotidianas, algumas das quais eu nem gostava de fazer – como ir a uma grande superfície abastecer a despensa – e retirei um prazer infantil da coisa.

As cores, os barulhos, as pessoas, as pequenas questiúnculas a que todos nós damos uma importância capital, a mim, feliz por ali estar, deram-me prazer. 

Talvez quem me tenha observado terá dito: “Este tipo está com uma cara de parva satisfação só porque comprou pão!!!”

Tudo é para mim como uma primeira vez MAS com o Saber sereno de quem sabe o que expectar daquilo que o momento oferta.

Um dia após ter sido colocado em Liberdade, nem 24 horas tinham decorrido desde o feliz acontecimento, recebi o convite, via telemóvel (ainda nem tinha número e aparelho, foi por interposta pessoa) para dar uma entrevista para o “Programa da Cristina” que estrearia, como estreou, no dia 7 de Janeiro de 2019.

Do outro lado do telemóvel estava o Dr. Hernani Carvalho.

Comprometi-me a dar a entrevista, com o maior gosto, colocando nas mãos do profissional a escolha do espaço, duração da entrevista, questões a colocar e o que mais fosse necessário para a realização da mesma.

Nunca exigi falar de um tema em particular ou evitar questões relativamente a algum assunto sempre que falei com a imprensa. Nunca o fiz quando estava preso, não o fiz para esta entrevista nem o farei alguma vez no futuro.

Como tenho uma mensagem que quero transmitir, porque julgo que o testemunho daquilo por que passei, assim como a experiência (pensada, racionalizada, testada cientificamente) que acumulei ao longo da minha carreira profissional enquanto Inspector da Polícia Judiciária pode auxiliar terceiros, nomeadamente na aplicação capaz da Justiça, é sempre com alegria e extrema satisfação que recebo estes convites e aceito o repto lançado.  

 Claro que não possuo qualquer tipo de influência ou Poder real que permita “agendar e controlar” o trabalho dos jornalistas.

Dia 8 de Janeiro de 2019, terça-feira, compareci nos estúdios da SIC, “apanhando” a abandonar o local os  meus ex-colegas da P.J., presentemente reformados, após terem comentado a actualidade criminal.

Mais uma entrevista, mais uma hipótese de esclarecer, informar. Não! Não tenho nada a esclarecer sobre a minha condenação: fui detido, preso preventivamente, condenado, recorri superiormente, esgotei os recursos todos que a Lei garante (à excepção do Tribunal Europeu) cumpri a pena (ainda estou a cumprir, faltam 9 meses): assunto arrumado.

Mais uma oportunidade de esclarecer mas desta vez foi diferente! Desta vez eu não precisava de mostrar-me como vim ao Mundo e colocar uma nota de 500€ a cobrir o meu “Elvis” para me lerem; desta vez eu não precisava de falar das pulgas do José Sócrates para aparecer; desta vez (e nunca o fiz antes) eu não precisava de fazer de coitadinho, vestir uma ganga e uma t-shirt acrescentando que estou carenciado economicamente.

Ou precisava?!?

Desde o convite até ao dia da realização da gravação da entrevista aconselhei-me com algumas pessoas do meio, solicitei orientação a pessoas que admiro profissional e intelectualmente e ouvi com muita atenção e paciência as advertências dos “meus”, que, preocupados com aquilo que sabem que eu sei, temiam e temem que falar agora prejudique ainda mais a minha pessoa e consequentemente a Família.

O Dr. Hernani Carvalho que todos nós vemos mas possivelmente poucos conhecem de facto, generosamente ofertou aconselhamento.

A minha corrupção, o Doutoramento, a prisão de Évora (ou “Ébola” como se chegou a dizer), a reinserção social (nomeadamente os pedófilos): foram estes os temas abordados.

Hoje, pelas 18H00, telefonei ao Dr. Hernani para saber se a entrevista vai passar ou não.

Vocês já viram o filme de 2014, “The Birdman” (Ou a Inesperada Virtude da Ignorância), do realizador Alejandro G. Iñarritu, com o Michael Keaton como protagonista?

Grande filme!  

Em 2015: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Roteiro Original, etc.

Esta frase é do filme: “A popularidade é a prima ordinária do prestígio!”

Aqui está o busílis da questão. 

Eu não chorei, eu não tenho cancro, as minhas arcadas dentárias permitem-me um sorriso agradável. Felizmente durante a reclusão não fui sodomizado, nenhum dos meus filhos morreu ou ficou sem bracinhos ou  sem pernas enquanto estive a pagar pela minha corrupção. A minha corrupção não é de milhões de euros, é uma simples promessa que vai ser cumprida num futuro qualquer!

Apresentei-me como sempre, aprumado, perfumado, penteado. Não tinha ar de vitima. Como Tom Ford afirmou: “Vestir bem é uma forma de ter boas maneiras!” Sou muito bem educado, logo, não deve ser bom para as audiências.

Concedo! Concedo: que interesse posso eu ter para Vocês? Que interesse pode ter aquilo que passei ou aquilo que sei? Concedo!

E concedo pacificamente porque à semelhança de Jacques Coeur sinto um “indiscritível sentimento de nascer uma nova vez, mas não como um lactente, ignorante e vulnerável, antes como um desses deuses gregos que surgem no mundo na força da idade adulta, enriquecidos por uma longa experiência”.

Concedo neste particular mas não posso conceder nisto: durante a mesma semana a mãe do Rui Pedro foi entrevistada pela excelente profissional deste tipo de programas, Cristina Ferreira.

Doloroso de se ver, ouviram-se descrições inacreditáveis, muito graves, sobre as diligências que a Polícia Judiciária realizou junto da progenitora: “Mostravam crianças a serem violadas e eles a terem prazer com o choro!”

Autênticos energúmenos, os elementos da P.J. sujeitaram aquela fragilizada mãe a momentos inauditos.

A seguir ouvi um ex-colega a comentar e a responder a questões colocadas pela Cristina Ferreira. 

O colega em questão conheço-o da televisão, nunca trabalhei com ele, nunca adquiri conhecimento através de terceiros (logo falível) sobre o seu desempenho (bom ou mau) merecendo toda a minha consideração e respeito, MAS, afirmar que a Polícia Judiciária aquando do desaparecimento do Rui Pedro ainda não estava capaz, por insuficiência de meios humanos ou técnicos e que presentemente está diferente (para melhor) é esquecer os factos:

Rui Pedro, 4 de Março de 1998;

Joana Cipriano, Setembro de 2004;

Madeline McCann, 3 de Maio de 2007.

Qual foi a evolução? Em que momento pensaram o erro anterior e melhoraram?

Justiça seja feita a quem, posteriormente, “pegou” no “Caso Rui Pedro”: profissional de muitos anos de casa, responsável, capaz, indivíduo com uma abordagem humanista na investigação. Os outros, por falta de tecnicidade ou mesmo da mais básica educação, somente agravaram a dor e a desconfiança da população em relação à capacidade real da Polícia Judiciária portuguesa!

Expuseram a mãe do Rui Pedro a imagens de pornografia com menores?!?!

Então e a situação que denunciei aqui e aquando das entrevistas que dei? 

Como é possível industriar-se uma mãe e sua filha menor para que a segunda seja novamente violada/abusada a fim de se conseguir reunir prova?!?

Evoluiu a P.J. desde o Caso Rui Pedro?

Falar de touros ou estar na arena é algo completamente diferente!!!

O “Programa da Cristina” está a bater recordes de audiência. O “Programa da Cristina” é visto por muita gente e influencia a opinião pública! O “Programa da Cristina” quer continuar à frente do programa do Manuel Luís! 

Muito bem, é a realidade, é o que dizia o Jaques Coeur, enriquecidos por uma longa experiência e felizes por partilharem os prazeres dos humanos, sobre os quais sabem tudo, estes programas fornecem o prazer e a despreocupada aceitação do que se por lá se diz, independentemente da gravidade do que é dito.

Quanto a mim? 

Bom, socorro-me do grande Bertold Brecht: “Um luta um dia, outro luta outro dia. Os imprescindíveis são os que lutam todos os dias até ao fim da sua vida”.

Eu? Eu vou continuar a lutar. Sempre!

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“Eu não dizia (escrevia)?!?!”

Dia 22 de Novembro de 2014, 07H05.

Ligo a televisão na minha cela, espaço frio, húmido e exíguo que agora partilho com o Director do S.E.F., o bonachão Dr. Manuel Jarmela Palos.

O Manuel está a dormir profundamente, ressona. Obrigado pelos químicos que generosamente o “desligaram”, o Manuel agora, aparentemente, descansa.

RTP 2, “Euronews”: “O ex-primeiro-ministro José Sócrates foi detido na noite desta sexta-feira à chegada ao aeroporto de Lisboa” 

– Manuel! Manuel! – eu, na cama de cima do beliche.

– Hã!?

– Manuel, olhe para a televisão!

– Hã? O que foi!?! – estremunhado.

O Sócrates foi detido ontem no aeroporto! – contendo o riso porque o coitado do Manuel parecia que tinha levado com um balde de água gelada.

– O Sócrates….o quê?!? Isto é onde? – incrédulo olhando o televisor.

– Foi ontem no aeroporto em Lisboa.

– Está tudo f…..! – esfregando os olhos.

– É verdade, quando isto chega a um ex-primeiro-ministro é porque está tudo perdido.

– Não é isso, João. Está tudo f….. porque agora o Carlos Alexandre vai ouvir o gajo durante uns dois ou três dias e eu nunca mais vejo o despacho da pulseira electrónica sair e vou ficando por aqui! – agora já sentado na cama.

O Dr. Manuel Palos esteve preso preventivamente em “Ébola” porque um chinês o corrompeu com duas garrafas de “Pêra Manca”!

O “Pêra Manca” (2005) tinto, por exemplo, são 460€ e o perturbadíssimo Manuel, depois de me colocar nas mãos o despacho do “super-juiz”, dizia-me, nessa ocasião como o fez amiúde antes dos químicos operarem a sua magia e levarem-no para as terras do esquecimento, que não conseguia compreender como alguém poderia sequer colocar a hipótese de ele ter arruinado a sua carreira profissional por causa de duas garrafas de vinho que nunca tinha bebido ou sequer solicitado a terceiros.

O Manuel por ali foi ficando em “Ébola”, não tanto como outros mas o suficiente para perder uns quilinhos e jurar para nunca mais.

Esta semana, para grande satisfação deste vosso ex-recluso em processo de reinserção, todos nós ficamos a saber que o Dr. Manuel Jarmela Palos, meu companheiro de cela, de privação e provação, saiu ilibado de todo o processo judicial conhecido por “Vistos Gold”!

Segundo noticiado, o Juiz disse o seguinte relativamente ao Dr. Jarmela Palos: “Neste caso nem dúvidas o Tribunal tem. Não foi sequer “pro in dubio”.Ou seja, nem dúvidas ficaram: o Dr. Palos é inocente!

Esperem que há mais! O Dr. Miguel Macedo também “saiu” ilibado!

Os cidadãos chineses foram ambos condenados a pena de multa!!!

E o Dr. António Figueiredo, acusado pela prática de mais de uma dezena de crimes – com corrupções várias à mistura – assim como a Dra. Maria Antónia Anes, foram de facto condenados mas com as penas suspensas: 4 anos e 7 meses o primeiro, 4 anos e 4 meses a segunda.

A questão é pertinente: Como é que isto é/foi possível?!?

Como foi possível um homem ser preso preventivamente durante vários meses, o seu nome arrastado na lama, a sua esposa – senhora muito elegante e simpática – ver-se no meio da prisão numa sala cheia de criminosos (o Dr. Palos tinha visitas no mesmo horário que eu, corrupto condenado) dar por si suspenso de funções, sem remuneração e agora, passado tudo isto e muito mais, a mesma Justiça considera-lo inocente?

Como é possível termos lido tanto e ouvido muito mais e depois de observar o que de facto no autos se encontra, o Dr. António Figueiredo ser condenado somente a pena suspensa?

Atenção: felicidades para o Dr. Figueiredo e para a Dra. Anes e os dois chineses com o Dr. Macedo à mistura, mas qual é a credibilidade da Justiça portuguesa?

Na imprensa lê-se (“Correio da Manhã”, edição de 5 de Janeiro de 2019):”A justiça cinge-se a condenar os actos e não a aferir as intenções”. Foi um dos argumentos usados pelo Juiz quando absolveu a arguido Miguel Macedo”

Perdoem-me o português: “Bardamerda para isto!!!”

Bardamerda porque eu fui condenado por causa de uma promessa de vantagem patrimonial futura! Porra, prometer é o cúmulo da intenção!!!

E se uns tiveram “vistos Gold”, outros umas garrafinhas, outros ainda umas entradas de dinheiro nas contas pessoais, aqui o criminoso condenado agora em processo de reinserção foi somente a promessa, a vontade , o desejo, a intenção…

Esqueçam, eu já cumpri e estou a reinserir.

Esqueçam vocês, eu não posso esquecer porque escrevi aqui. Escrevi que estaria muito atento, de preferência já em liberdade, a verificar qual o resultado destas “mega-tuga-blaster-investigações” e, ousado recluso na altura, escrevi que muito possivelmente eu seria o único corrupto condenado a pena efectiva em Portugal: até agora acertei.

Carlos Alexandre, o juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), devia ter pedido escusa do processo “vistos Gold” quando Orlando Figueira, o ex-Procurador do DCIAP e advogado, se tornou defensor de um dos arguidos do caso(…)” (D.N., edição de 3 de Janeiro de 2019)

Depois lemos noticias destas. Encomendadas por quem? Jornalismo de investigação? Realidade? 

Outra vez o “super-juiz”? Vocês já repararam que todos os arguidos, arguidos presos, arguidos com caução ou arguidos sem caução que passam pelas “mãos” do juiz Dr. Carlos Alexandre, nunca são condenados a penas efectivas ou sequer condenados, mas durante a fase de Instrução são uns perigosos criminosos que nem deviam ter duas horas de luz do sol por dia?

Já repararam que os arguidos que a P.J. e o Ministério Público levam ao juiz Dr. Carlos Alexandre, após a “aleatoriedade” do sorteio, não são condenados a pena efectiva ou sequer condenados, em gritante contraste com aquilo que invariavelmente sai nos órgão de comunicação social?

Pensem nisto. Façam um exercício de reflexão! 

Quem está mal? 

A investigação da P.J. a montante, porque alguns desejam protagonismo e progressão na carreira, cedendo, ofertando serviços? Não se esqueçam que o S.L.B. nem sequer vai a julgamento!

O Ministério Público que quer manter o seu estatuto ou porque faz o que a P.J. quer?

Ou será que quem está mal são os colectivos de juízes que cedem à pressão dos “grandes e poderosos”?

Eu consigo explicar isto. Deixem-me colocar com mais humildade: eu tenho uma proposta de explicação para isto mas não aqui, o espaço é curto e uma imagem vale mil palavras. Até lá (e está para breve) permitam-me afirmar, atendendo a tudo o que a Justiça Lusa nos oferta: “Eu não dizia (escrevia)?!?

A reinserir totalmente (até esteticamente!)

Deixem-me começar por dizer-Vos onde estou!

Não estou no “Salão de Beleza” a tratar do cabelo ou das unhas como se pode ver na imagem que ilustra o texto, isso foi no próprio dia da Libertação: o primeiro passo no caminho da reinserção total! 

(um agradecimento especial ao “Tó” que encaixou o “ex-corrupto criminoso” na sua preenchida agenda)

Estou sentado na minha Biblioteca e olho para a janela, sem grades, onde vejo a minha imagem reflectida no vidro duplo envolta nas luzes dos candeeiros da rua. 

Lá fora está frio mas eu não sinto. Aqui, deste lado da janela, está quentinho, cheira à essência das velas temáticas – Natal – que ardem junto à estante dedicada à “Arte em Portugal”.

Atrás de mim na escuridão, porque tenho a iluminar-me somente o meu pequeno candeeiro, os títulos de vários livros assim como as caras de gente bonita que povoam os meus quadros parecem ganhar vida, bruxuleando como as frágeis chamas das velas.

Enquanto escrevo este texto bebo um “smoothie” de banana, couve kale, manga e citronela; um preparado “Pingo Doce”!!!

Uma banalidade, não é? Esta descrição é de uma normalidade reconfortante, nada de extraordinário. Em milhares de casas com cheirinho a essência de vela bebem-se “smoothies”, quiçá de frutos silvestres, possivelmente adicionaram açúcar, eu não, não gosto.

O que tem isto de extraordinário? 

Sabem que horas são? São 19H15. 

Foram agora comprar pão alentejano fatiado para as torradas do pequeno-almoço de amanhã. Vão trazer mais laranjas e bananas para os sumos e batidos…e tortilhas para o Pai fazer com frango, leite de coco e caril!!!!!

Estou sozinho em Casa, sereno, a ouvir o silêncio da minha Casa. Apenas o sapateado dos meus dedos no teclado, dos meus dedos quentes, sentado no cadeirão do Pai. 

Tocou o telefone…

Querem saber o que foi? Estão preocupados comigo porque não havia pão alentejano e queriam saber se eu não me importava que trouxessem pão de Rio Maior!

Estou a sorrir, um pouco emocionado, talvez com uma expressão patética…sim, patética mas feliz, vejo agora olhando para a minha janela.

São19H25.

Nada disto era possível em “Ébola” há uma semana atrás! Neste momento os reclusos de “Ébola” já estão fechados nas celas. Presentemente, por causa da greve dos Srs. Guardas, permanecem fechados 18 horas por dia!

Por volta das 17H45 soube que não permitiram aos filhos de um recluso a entrada de doze castanhas assadas!

Nada disto é normal.

Há uma semana saí da prisão: ex-Inspector da P.J., desempregado, 4 anos, 8 meses e 24 dias de privação e provação.

No dia seguinte apresentei-me nos serviços da equipa de reinserção social da minha área de residência. Dispunha de 8 dias para o fazer: apresentei-me no dia seguinte.

Chegado ao local foi cortesmente recebido, agradecendo-me o funcionário o facto de eu ter levado comigo o conteúdo da decisão proferida nos autos do meu processo de liberdade condicional, uma vez que o expediente ainda não tinha chegado.

Fiquei com a sensação de que não é muito usual os “ex-criminosos” ressocializados e em processo de reinserção apresentarem-se de forma tão pronta. 

Uma conversa rápida, pontuada por algum espanto relativamente a alguns pormenores do meu caso, uns desabafos sobre a Justiça e já está. Afinal reinserir é fácil:

– Daqui a um mês alguém o vai contactar, não sei se serei eu…talvez seja, somos poucas pessoas… – com um suspiro conformado.

E assim estou eu, ex-criminoso, dos mais perigosos que nem podia ir com pulseira para casa, que perturbava gravemente a ordem e a tranquilidade públicas (nomeadamente no meio judicial) assim estou, como dizia, a reinserir diligentemente.

Enquanto estive a reinserir (e continuo ) muito boa gente contactou o “Secretariado” logrando dessa forma “chegar à fala” comigo. Para todos os outros que não o fizeram, para todos aqueles que eu desejo que o façam, e como não foi possível manter o número de telemóvel que dispunha até ser preso, disponibilizo-Vos o meu e-mail – jpssphr@sapo.pt– para estabelecermos contacto e facultar-Vos o novo número. 

Devo referir que eu estabeleci contacto com muitos de Vós tendo facultado o novo número mas, por uma questão de decoro e sensibilidade, não vou impor a minha maculada pessoa a quem impoluto se quer manter.

Uma questão que muita gente colocou aqui neste espaço e também nos contactos que fui estabelecendo: O blogue vai continuar?

Claro que sim! Actualmente deste lado das grades, mais confortável, mas vai continuar.

Será interessante perceber como é  que um sujeito ex-criminoso corrupto, ex- Inspector da P.J., ex-Inspector “Hugo Boss”, verdadeiro raio de luz na forma de um homem (afinal a reclusão não me afectou o ego!), cujo primeiro e único emprego que teve foi na P.J. (até entrar na P.J. nunca trabalhou, dava uns pontapés na bola, e mal!), que somente sabe interpretar cenas de crime, extrair confissões impossíveis a pedófilos e homicidas, manipular interrogatórios e inquirições, solucionar casos de homicídio e ensinar a fazê-lo, será de facto interessante ver o que é que este “gajo do ouro” vai fazer na vida!

Tenho pensado muito no que vou fazer e, atendendo ao meu currículo, creio que posso muito bem aspirar a ir trabalhar para… a “Pastelaria Suíça” a servir às mesas! Ops! Claro que não é possível: a “Suíça” já fechou!!!

Bom, com este currículo…..

…se por acaso virem um tipo numa qualquer rua da cidade das sete colinas, sentado no chão, vestindo um fato “Hugo Boss” muito roçado, parem e deem qualquer coisinha!

Vou agora terminar este que é o último texto de 2018 porque tenho de organizar todos os papéis que se encontram aqui na biblioteca, papéis que se foram acumulando durante os 17 anos de serviço na P.J., papéis que muito contam e mais provam, papelada que eu até tinha esquecido mas que agora proporciona excelente informação e conhecimento que desejo ofertar a todos Vocês.

Caros e Caras Leitores(as), desejo-Vos um excelente 2019, cheio de sucessos e alegrias, e já sabem: se virem um tipo de fato a falar de facto muito em breve, atentem! Se por acaso o tipo estiver de fato roçado sentado no chão a cantar, “que triste sina ver-me assim / que sorte vil degradante…”, já sabem: parem e deem-lhe qualquer coisinha!

Felicidades para todos! Até já!

“Boas Festas Para Todos Vós”

LIBERDADE DAQUI A: JÁ ESTÁ!!!!!!!

Caros e Caras Leitores(as), após a Libertação, já em Casa com a “Ninhada”, depois de desenterrar algum dinheiro e três barras de ouro, ao fim de 4 anos, 8 meses e 23 dias, finalmente construimos o nosso Presépio!

Brevemente, o relato pormenorizado da Libertação e a disponibilização de formas de contacto.

Lamento, mas não tenho disponibilidade temporal para mais, a “Ninhada” não deixa!

Para todos Vós: um Santo Natal!

“Palavra de ordem: Contenção (ou Contensão?)”

Liberdade daqui a: 283 dias!!!!

Olá a todos!

Primeiro uma correcção. Na edição de terça-feira, 27 de Novembro de 2018, o “Correio da Manhã” noticiou o meu doutoramento. Em caixa, com o título “pormenores”, podia-se ler: “João de Sousa é ouvido esta semana pela Direcção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais devido a um pedido de liberdade condicional. Se for aceite poderá saír da cadeia em Dezembro.”

Correcção: eu não apresentei qualquer pedido de liberdade condicional, não é esta a forma que está prevista no normativo vigente.

O que de facto se está a passar é o seguinte: a Juiz do T.E.P. de Évora, em Dezembro de 2017, “ouviu-me” e considerou que eu precisava de estar mais um ano preso para o sistema recuperar-me e devolver-me, ressocializado, à sociedade.

Conforme podem verificar nas digitalizações dos despachos da Meritíssima que Vos deixei neste espaço (texto: “A (In) Justiça do Calimero (a.k.a. João de Sousa)”, 2017) a douta Juiz escreveu: “Tendo em conta a data em que o termo da pena será alcançado (26/9/2019) e o disposto no artº 180º, nº 1, os pressupostos da liberdade condicional serão reapreciados dentro de 12 meses, ou seja, por referência a 14/12/2018.

Atendendo ao exposto, trata-se de uma reapreciação dos pressupostos e não um pedido meu; algo normal, usual, contemplado no Código de Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade.

E agora começa o exercício de Contenção (ou será de Contensão?)!

O processo de reapreciação implica a realização de relatórios por parte do técnico do E.P. de “Ébola” e da técnica da D.G.R.S.P., com um mês de antecedência. Após este passo, o Tribunal de Execução de Penas de Évora notifica o recluso para, querendo, no prazo de 10 dias, requerer o que tiver por conveniente: fui notificado a 12 de Outubro de 2018. Não requeri nada!

O técnico do E.P. de “Ébola” “ouviu-me” a 9 de Novembro de 2018 e enviou o seu relatório para o T.E.P. de Évora.

A técnica da D.G.R.S.P. “ouviu-me” a 29 de Novembro de 2018e enviou o seu relatório para o T.E.P. de Évora a 10 de Dezembro de 2018!!!!

Os guardas estão em greve, cumprem-se hoje 15 dias, não tenho acesso ao Técnico do E.P. e não sabia quando se realizaria o Conselho Técnico e sequente presença perante o Juiz do T.E.P.!

Tendo como referência 14 de Dezembro de 2018, atrasado o relatório da D.G.R.S.P., a incómoda questão começava a insinuar-se na minha mente enquanto estava (estou ainda) fechado 18 horas por diapor causa da greve dos guardas: “Será que não vou ser “ouvido” pelo Juiz este ano?”

Respira João! Contenção, calma, relaxa (que encaixa!)!

Na quarta-feira, 5 de Dezembro de 2018, outro recluso aqui de “Ébola”  foi notificado pelo T.E.P. de Évora (porque atingiu o meio da pena) para ser “ouvido” pelo Juiz!

Foi notificado para dia 17 de Dezembro de 2018, às 14h15.

E eu?!? Calma, João! Não resistas, não te mexas, já vai passar… contenção!

29 de Novembro de 2018, revista “Sábado”, artigo (genial) do subdirector Carlos Rodrigues Lima, “O Natal dos Armandos Vara”: “Talvez Armando Vara mereça passar o Natal em casa. […]”

“Relax! Take it easy…” Respira… inspira, João! Contenção, serenidade, ataraxia… (Nota: sobre o Armando Vara depois falaremos! O sistema prisional está outra vez, mais uma vez, a cometer os mesmos erros (vergonhosos) que cometeu com José Sócrates! Isto aqui está uma vergonha!)

– Sr. João, o senhor “está de bola”. Agora é que é, vai embora! – um guarda.

Como, se eu ainda não fui notificado? Contenção… ÓMMMMM!!

– O gajo da judiciária é fino! Ele já foi notificado mas não diz nada a ninguém! O porco vai embora agora em Dezembro! – outro recluso.

Os dias foram passando (sem ginásio e fechado 18 horas por dia, com metade do tempo para as visitas da “ninhada”) sempre exercitando a ataraxia, a quietude absoluta da alma, do espírito, da mente, “quietude que é, segundo o epicurismo, o apanágio dos deuses e o ideal do sábio!” … contenção!

Dia 12 de Dezembro de 2018, 08h00, durante 5 minutos diários de contacto com a Família:

– João, já tenho os relatórios e as conclusões… – a voz denotava alegria e alívio.

– Sim…

– Ambos são favoráveis, os pareceres são favoráveis para vires para casa… – exultante.

– Calma, minha querida. Contenção, isso não quer dizer nada, faltam ainda 9 meses…

Três dias antes, no domingo (9 de Dezembro de 2018), o meu “filho-homem” de 4 anos ensaiou um esboço de birra no final da visita agarrado a mim:

– Anda, anda connosco para casa! Não quero que fiques aqui! – começando a chorar, com a Helena aflita porque sabe que não deve estar sempre a perguntar se é desta que o Pai Criminoso vai para casa.

Um olhar duro, sem palavras, desta vez bastou para o Jr. acabar com aquilo: Contenção, por favor!

Dia 13 de Dezembro de 2018, quinta-feira, 17h55, fui notificado: “O T.E.P. de Évora, notificou nesta data o recluso João Pedro Sebastião de Sousa de que foi designado o próximo dia 17 de Dezembro de 2018, pelas 14:00 horas, para a reunião do Conselho Técnico, seguindo-se audição do mesmo”

E assim vai ser Caro(a) Leitor(a): esta segunda-feira, 17 de Dezembro, o Juiz vai “ouvir-me”, na presença do Ministério Público, “munido” dos pareceres favoráveis referidos, e depois, talvez durante a semana de 17 a 21 de Dezembro, eu vou saber se fico por aqui em “Ébola”, mais 9 meses até ao final da pena (Setembro de 2019).

Ontem, 14 de Dezembro, sexta-feira, durante os 5 minutos de contacto telefónico tive que refrear os ânimos, pedir Contenção!

– Mas os pareceres são favoráveis, porque não?

– Calma, minha querida. Como disse o meu querido amigo e agora ex-colega, o meu “Zé”: “No caso do João nada é racional!”. Tem calma e não digas à “ninhada” que agora é que pode ser! Contenção, por favor!

Há cerca de um mês um recluso interpelou-me:

– Sr. João, queria pedir-lhe uma coisa, se for possível. – timidamente. 

– Diga! 

– Quando se for embora em Dezembro, não se importa de me deixar o seu rádio?

Isto foi há um mês! Contenção, por favor! Há um ano atrás, Dezembro de 2017, foi a  mesma coisa: eu ia passar o Natal em casa e já não voltava; “estava de bola”, a “ninhada” esperava-me… 

Contenção, foco: ÓMMMM!

Se eu quero ir-me embora? Desde Março de 2014 que eu quero ir para casa!

Todas as noites, no escurinho da cela, imagino-me em Casa, junto da minha árvore, a alertar o Jr. para não brincar com as figuras do presépio; agarradinho à Helena e à Leonor, como diz o meu “filho-homem”: “A brincar e a sermos felizes!”

Todas as noites, com o garrafão de plástico com água quente na cama (aqui faz um frio que obriga ao engelhar dos meus apêndices) sonho acordado que estou em Lisboa a ver as iluminações, cumprindo-se um ritual que ainda não consegui realizar com o Jr.!

A palavra de ordem é Contenção porque quero impedir o sofrimento daqueles que me amam se mais 9 meses ficar por aqui. O que para trás ficou, e que está marcado no meu peito (nada nas costas, como os cobardes) obriga-me a ser contido nas minhas expectativas.

Amanhã, 16 de Dezembro, Domingo, a “ninhada” vem ver o Pai Criminoso pela última vez antes do Natal: não os quero cá dia 23, assim foi durante estes 4 anos, não os quero cá no Natal, isto é terra de infiéis. 

Amanhã, Domingo, sei que vai surgir a questão – “Vais para casa Pai, passar connosco o Natal?” – e eu já sei o que responder: “Vejam o copo meio-cheio: para o Ano estou lá de certeza absoluta!”. Eles vão fazer um sorriso triste e eu farei uma palhaçada mudando de assunto. 

Contenção, por favor!

Contenção porque se colocarmos um “s” em vez do “c cedilhado”, como são palavras homófonas, sentirei “forte tensão dos músculos, dos nervos ou do espírito, uma tensão forte”que em nada vai auxiliar quando estiver perante o Juiz na segunda-feira, ou quando, infelizmente, tiver que ficar mais 9 meses por aqui a tentar denodadamente conter-me!

Para todos Vós que já preparam “coisas doces”, para a minha bela “ninhada” e para Ti, um conselho amigo: Contenção, por favor! (Acreditem: depois, a dor da desilusão é menor!)

“Um tipo prejudicial de Guarda Prisional: o Incompetente Inseguro!”

Liberdade daqui a: 290 dias!!!!

Os Guardas Prisionais estão em greve! Nunca comentei neste espaço as greves do Corpo dos Guardas Prisionais, não o fiz porque estaria a ofertar publicidade “à coisa”.

Conquanto a posição assumida – “não colaboração” – compreendo as reivindicações e defendo o direito à greve, sempre (até aos Juízes!).

Por falar em reivindicações, concluo pelo que vi e ouvi, os Srs. Guardas reclamam um aumento na remuneração, promoções internas descongeladas e equiparação do seu estatuto com a P.S.P.

Posso errar por defeito ou excesso no elencar das revindicações mas, surpreendentemente ou não, quando questionados os elementos do Corpo dos Guardas Prisionais aqui colocados em “Ébola”, estes não sabem bem o que se está a passar!

Do que extraí, daquilo que vi e ouvi, não encontrei o reclamar de mais e melhor preparação técnica para a realização profícua do seu trabalho que, mais do que rodar a chave para a esquerda e depois para a direita, deveria ser um labor de capital importância no que diz respeito à ressocialização e reinserção de indivíduos que praticaram crimes.

Estas mulheres e homens do Corpo dos Guardas Prisionais diariamente contactam com os reclusos, observam-nos, ou melhor, “olham para eles”, porque o observar implica saber ver de forma capaz e conhecedora o fenómeno para o qual direccionamos o nosso olhar. Fico por aqui quanto à questão relacionada com a discrição dos actos, comportamentos e desempenhos profissionais de todas as Sras. e Srs. Guardas com os quais me cruzei (ou ainda cruzo) no Estabelecimento Prisional de Évora, Montijo, Setúbal, E.P. junto da P.J. (Lisboa) e Campus da Justiça (Lisboa) enquanto recluso, ou mesmo enquanto Inspector da P.J. quando estava no outro lado das grades.

Conhecendo as dificuldades e graves lacunas ao nível da preparação para a função que devem desempenhar (por ser recluso) presentemente estudo-as no âmbito da minha tese de doutoramento.

Este conhecimento adquirido por vivê-lo, experimentá-lo, não causa estorvo ou qualquer embaraço quando afirmo que o “saldo” é positivo no que diz respeito à minha relação pessoal com o Corpo dos Guardas Prisionais. Relação sempre pautada pelo respeito mútuo e urbanidade, encontrei na maioria uma postura humanista, mais humanista que conhecedora do normativo vigente, factor que permitiu, quase sempre, uma interacção saudável e pacífica.

O grande problema é quando à falta de competência se alia a ignorância, a falta de auto-estima, a má formação pessoal e uma dose cavalar de estultícia!

Ainda que possam pensar que exagero, o exemplo que Vos ofereço é real, incomodamente real, e está aqui colocado em “Ébola”!

Em “Ébola”, local onde se encontram somente 40 “gatos-pingados” das forças de segurança e afins, estabelecimento prisional onde o que de mais excitante e perigoso acontece é quando um qualquer pedófilo, dos mais velhos, se engasga durante uma refeição!

Aqui ninguém reclama, contesta, desafia (a bem ou a mal) tudo o que acontece.

Como sabem, o meu projecto de Doutoramento foi admitido na Universidad de Extremadura, Espanha. Como devem de imaginar é o meu “Secretariado” que trata de tudo: inscrição, contactos com os orientadores, pedidos de certificados, etc, etc.

Recluído, com penas 5 minutos diários para manter conversação telefónica com a Família, se não existisse este inestimável apoio exterior de “toda a gente”, o projecto de Doutoramento era irrealizável.

No passado dia 25 de Novembro de 2018, Domingo, tive uma visita de três (3) horas (ainda não havia greve!). Antes da visita, durante a semana, solicitei à Sra. Directora do E.P. de “Ébola”, autorização para a entrada e saída no mesmo dia (o dia da visita) de documentação relativa à inscrição no Doutoramento que tinha de ser ratificada e assinada por mim.

Autorização concedida!

No dia da visita, os documentos entraram e foram entregues ao Chefe de Equipa dos Guardas que estava de serviço. Passados 30 minutos desde a chegada do meu “Secretariado”, e porque a outro recluso entregaram documentos vários que este assinou (ficando depois os documentos em cima da mesa em que estava com os seus familiares), interpelei dois guardas que estavam a vigiar o espaço, comunicando-lhes que necessitava de assinar a documentação que a minha visita tinha entregue na portaria, necessitando igualmente de algum tempo para ler os documentos e ser esclarecido pelo meu “secretariado” sobre alguns items.

Os guardas interpelados, de imediato comunicaram a necessidade ao Chefe da Equipa, e, quando vieram informar-me da decisão deste, com um encolher de ombros e um sorriso tímido, disseram: “Sr. João, o Chefe diz que já o chama!” – expondo ambas as palmas das mãos.

De imediato apercebi-me de que algo se estava (ou iria) passar: nada de novo, porque quem estava a exercer as funções de chefe de equipa era o “tipo prejudicial de guarda prisional: o incompetente inseguro”!!!!

Antes do desfecho do episódio impõem-se a descrição do nefasto personagem: anatomicamente, o fácies é o cartão-de-visita do coeficiente de encefalização. Como o mais perfeito exemplar do nosso antepassado Neandertal, apresenta o arco zigomático robusto, arcada supraciliar exacerbada e a porção medial da face projectada para a frente, e para terminar e coroar algo que já se afigura muito difícil para o próprio e terceiros, a característica testa baixa (praticamente ausente) cuja notoriedade só é superada por duas generosas (eufemismo) “orelhas de abano” projectadas lateralmente!

Se acham este quadro deprimente, não se pronunciem ainda porque falta acrescentar que o infeliz sujeito quando fala prolonga o som das consoantes, assim como das vogais, apresenta bloqueios audíveis ou silenciosos (i.e. pausas preenchidas ou vazias no discurso), produzindo palavras com excesso de tensão física, manifestando notória ansiedade em falar. Ou seja, o tipo ainda por cima é gago!

Este sujeito que desde que aqui entrei por cá tem estado, há muito tempo assumiu funções de chefia conquanto seja apenas Guarda. Os mais velhos, e sabidos, não aceitando o “posto” porque implica mais decisão e responsabilidade (e porque lutam pelo descongelamento das progressões) permitiram desta forma a ascensão da alimária.

Ainda “Guarda-dos-que-só-fecham-e-abrem-as-celas”, sentado nos vários postos de observação (outra função dos guardas: estarem sentados a observar) lia livros com títulos tão sugestivos como: “Como liderar?”; “Como obter Poder sobre os outros”; “Caminhos para Vencer”; perfeito predictor do futuro tiranete incompetente inseguro!

Enquanto “Guarda-que-abre-e-fecha”, ainda que tenha protagonizado muitos e hilariantes episódios, ainda que procurasse exercer autoridade que notoriamente lhe falta – “Sr. João, p-o-o-r fa-favor, chegue a-a-aqui!” – o incómodo era diminuto, como aquele que sinto após defecar e incomodado constato que a cela não possui bidé.

É exactamente isso que eu sentia quando tinha que interagir com o personagem em apreço: aquela irritação que fica (e que não devemos coçar) porque não existe bidé na cela!

Mas agora é diferente: à incompetência insegura foi oferecido Poder!

Quando este amblígono está a “chefiar” a sua equipa no refeitório e é dada ordem para repetir a miserável refeição que é servida, quando os miseráveis que por aqui estão correm, praticamente atropelando-se, o “Neandertal” esboça sorriso altivo, algo que mais se assemelha a um esgar simiesco consequência das características protuberâncias ósseas nos lados da abertura nasal (Homo neanderthalensis).

Seria inútil, esforço vão, tentar explicar a este espécime que só se deve olhar de cima para baixo um homem caído, quando lhe lançamos a mão para ajudar a erguer-se; para ele, Gabriel Garcia Marques deve ter sido um central do “Benfica B”!

Investido de Poder, a 27 de Setembro de 2017, pelas 10h40, estando eu a treinar, exemplo coxo de proficiência, entrou na minha cela sem eu estar presente e remexeu os meus pertences. Fê-lo a mim e a outros, até que eu apercebi-me do que se estava a passar e a coisa parou!

Estava a fazer o inventário da roupa da cama a pedido da Directora! 

Pois é, mas a Directora não lhe deu indicações para fazê-lo sem os reclusos estarem presentes, conforme está legalmente previsto.

Na minha última saída para estar com os meus (relatei-Vos aqui neste espaço) o Chefe de Equipa de serviço nessa data queria ver a minha mala sem eu estar presente, recordam-se? É o mesmo!

Reuni com a Directora após estes incidentes e na ocasião foi-me garantido que situações desta natureza não ocorreriam de novo. Na altura eu afirmei que não se tratava de qualquer questão pessoal persecutória, era apenas desconhecimento do normativo e algum contributo da própria personalidade do sujeito!

Voltemos aos documentos e à necessidade de os ler e assinar.

Durante as três (3) horas da visita, o Chefe Tartamudo não facultou os documentos, situação que muito inquietou a “minha gente” que não conseguia compreender o inédito do que estávamos a ser sujeitos.

No final da visita levaram-me ao “Chefe Tatibitate” que após tartamudear mais do que o usual, porque confrontado com a exiguidade mental que sempre evidenciou e estava exuberantemente a evidenciar, decidiu:

“Dê-dê-dê dois mi-mi-nu-tos-tos à vi-vi-sita do Sr. João, na-na sala de vi-vi-vi-sitas para assi-ssi-ssi-nar os pa-pa-péis!”– ao outro guarda que connosco estava.

A primeira é para os pardais, a segunda é de desconfiar, à terceira…

No dia 26 de Novembro de 2018, um dia após o descrito, solicitei reunião com a Sra. Directora do E.P.: tenho de expor o sucedido e agir em conformidade. Como disse Pedro Santos Guerreiro: “Sem receio de responsabilização não há dissuasão de comportamentos negligentes”. Esta alimária gaga não pode continuar, através do exercício ignorante e estouvado da autoridade que possui, a compensar a sua notória falta de auto-estima e insegurança prejudicando (mais do que os reclusos) as visitas dos mesmos, ofertando comportamentos desadequados e em claro desrespeito pelos outros.

Até hoje, dia 8 de Dezembro de 2018, a Sra. Directora não me recebeu. A greve vai continuar e não serei recebido tão cedo. O “inseguro incompetente” pode estar amanhã, dia da visita da “ninhada”, de serviço: tudo pode acontecer!

Faltam-me ainda 9 meses para o término da pena: são muitas visitas com a possibilidade do “pobre-diabo-de-farda” estar presente!

Voltando à greve, e atentos a este triste exemplar de Guarda Prisional, creio que é pertinente colocarem-se algumas questões:

    I) Existirão mais imbecis como este no Corpo dos Guardas Prisionais?

   II) Não será extremamente prejudicial para a luta dos guardas,   alimárias destas existirem nas suas fileiras?

  III) Será que a sociedade portuguesa liga aos reclusos e seus carcereiros?

  IV) Porque razão o Corpo dos Guardas Prisionais não faz greve aos Tribunais, inviabilizando diligências, como fazem os Srs. Drs. Juízes e, só no Natal/Ano Novo, é que se lembram de realizar greves?  Fracos com os fortes e fortes com os fracos, é isso?

Desejo o maior sucesso para a luta dos Srs. Guardas: eu e a minha Família também lucraremos com isso. Quanto ao Neanderthal… bom, serão mais 9 meses com a tal comichão porque na cela não disponho de bidé!

Até lá, espero que o Corpo dos Guardas Prisionais faça um “upgrade”, uma actualização, um melhoramento na sua classe profissional, por forma a que a imagem que a opinião pública tem dos mesmos não seja semelhante àquela que ilustra o presente texto!

“Um pária criminoso condenado”

Liberdade daqui a: 297 dias!!!!

“Na fronteira do crime” é um artigo escrito por Hugo Franco, Micael Pereira e Rui Gustavo, ilustrado por Gonçalo Viana, publicado na revista “E” do jornal “Expresso”, edição de 10 de Novembro de 2018. Trata-se, conforme os seus autores, da revelação do submundo das relações entre informadores e polícias que descrevem como “uma zona cinzenta da lei”.

O advogado que inicialmente “defendia a minha Causa”, contrariamente ao que eu queria, apresentou ao Tribunal do Seixal contestação à Acusação, referindo na mesma que o meu co-arguido era de facto meu “informador”, justificando-se desta forma a “relação promíscua” que mantinha com este, razão pela qual eu realizava pesquisas ou, eventualmente, favorecia o indivíduo (e a sua “associação criminosa”!)

No dia 27 de Janeiro de 2018, aquando da minha primeira intervenção no Julgamento –primeiras declarações – “contestei a contestação apresentada”, declarando que o meu co-arguido não era meu informador e que as minhas acções não se podiam enquadrar num cenário de uma relação de “informador credenciado/Inspector da P.J.”.

Mais do que declarar o que anteriormente expus, prescindi dos “serviços esforçados” do até ao momento meu advogado e optei (até porque não tinha disponibilidade económica) por um defensor oficioso, nomeado pelo Tribunal.

No artigo da revista “E”, pode-se ler o contributo do Dr. Teófilo Santiago, crachá de ouro da P.J., actualmente reformado: “Havia polícias que gozavam e riam-se à gargalhada quando eu dizia que os nomes dos informadores têm de ser registados. A situação está melhor, mas ainda não se trabalha da melhor forma”.

Teófilo Santiago, no âmbito do seu Curso de Coordenadores, realizou um trabalho escrito cujo título é: “Informadores de Polícia – entre a hipocrisia e a necessidade”.

Ora, o João de Sousa pode ser corrupto mas nunca falso hipócrita, logo, em Tribunal, nunca poderia compactuar com a “esperteza saloia” do seu advogado que desconhecendo como trabalha a P.J., e como funciona o cérebro retorcido e medíocre da reformada Sra. Maria Alice, desejava apresentar uma defesa que somente revelaria um João de Sousa pusilânime. E isso os meus progenitores não me perdoariam!

“O melhor investigador é o que tem as melhores fontes de informação. E a melhor fonte de informação são os informadores. Não há volta a dar.” […] Os informadores não são santinhos […]”.

Novamente o Dr. Teófilo Santiago.

“Ourives era ouro para inspectores”. “[o meu co-arguido] não era um informador [oficial], mas era ouro para um Inspector da P.J. porque tinha muita informação, conhecia muita gente.”

A primeira frase é o título da notícia do Jornal “Correio da Manhã” (Edição de 28 de Janeiro de 2016). A segunda citação, são palavras minhas dirigidas à Juiz Presidente do Colectivo que me condenou a 5 anos e 6 meses pela prática dos crimes de Corrupção passiva e violação de segredo de funcionário!

Reconheço que num julgamento por ligações a uma “rede de ouro”, afirmar perante a Juiz que o meu corruptor “era ouro” é, claramente, uma provocação, mas o que me restava sabendo eu que “aquela palhaçada” tinha por objectivo (óbvio) condenar-me?

A diferença entre o que o Dr. Teófilo Santiago afirma e aquilo que eu fiz (para além de ele ser “crachá de ouro” e eu, segundo os tribunais portugueses, do crachá só desejar o metal precioso que o banha) é que a minha superior hierárquica negou conhecer a “relação” que eu mantinha com o meu co-arguido, acrescentando que a “relação era criminosa”!

Quando eu era o “Masterblaster da Investigação da P.J.”, nas palavras da Coordenadora-superior Maria Alice Fernandes, esta solicitou os meus “altos serviços” para um encontro com um “informador” (informal, atenção!) e um elemento de outro “O.P.C.” (Orgão de Polícia Criminal). Os três juntos no interior de uma viatura particular, no meio de uns prédios da zona Sul, discretamente parqueado o veículo, conversávamos, ouvindo eu mais do que dizia. O “Informador”, experiente condenado por diversos “crimes pesados”, “dava à morte” vários colegas do “OPC” que estava presente.

A certa altura, vejo duas viaturas passarem por nós o mesmo número de vezes!!!

À terceira, identifiquei um colega da antiga D.C.C.B. (Direcção Central de Combate ao Banditismo)! Pensei: “O que é isto?!?”

De imediato disse ao “colega OPC” para levar-me ao meu carro que deixara parqueado noutro local.

Chegado ao D.I.C. de Setúbal, mantive acesa discussão (mais uma) com a Sra. Maria Alice. Afinal, a Sra. Coordenadora estava a “fazer um jeito” à investigação da D.C.C.B., na altura dirigida pelo actual Director-Nacional, e o João de Sousa, Inspector “Hugo Boss”, era como o ignorante “isco da mentira” que apanharia a “carpa da verdade”!

Foi mantida conversa a três, com o telefonema em “alta voz”: eu, a Sra. Alice e o actual Director-Nacional, esclarecendo-se a minha “contribuição e envolvimento”.

Novamente Teófilo Santiago: “[…] Há muitos Inspectores que resistem a isto e querem guardar os informadores só para eles. É uma maneira pouco clara de trabalhar e a melhor maneira de ser comido pelo informador.[…]”

Quem me comeu não foi o “Informador”, foi mesmo quem coordenava o meu trabalho. “Comeu-me” nesta ocasião e também no meu Julgamento!

“Fiz isto a várias pessoas. Era a minha forma de trabalhar e era do conhecimento de quem me coordenava que eu operava assim” (declarações do Inspector João de Sousa em sede de Julgamento, publicadas no “Correio da Manhã”, edição de 2 de Fevereiro de 2016).

Como se viu, e ouviu, aquando das suas declarações, Maria Alice Fernandes negou ter conhecimento do que eu “fazia” com o meu co-arguido. Perante este testemunho, é lógico que o que eu fazia era dar informações e protecção em troca de uma “promessa de vantagem patrimonial” no futuro; ou como declarou Maria Alice Fernandes no dia 11 de Fevereiro de 2016, em Tribunal: “Se calhar encontrei razões. Não tenho que fundamentar, não tenho de dar satisfações a ninguém! Não foi confirmado que fazia segurança. Eu tenho a suspeição, a convicção. Não posso afirmar que pagaram!” (Está gravado, é escrutinável!)

Esta “palhaçada”! Valeu-me 5 anos e 6 meses de pena efectiva!

No primeiro caderno do Jornal “Expresso” (a mesma edição de 10 de Novembro de 2018), a Dra. Maria José Morgado, no seu espaço “Justiça de perdição”, assina um artigo ao qual deu o seguinte título: “O estonteante mundo dos informadores”.

Do referido artigo: “[…] Sempre houve polémica sobre o controlo superior dos informadores de cada polícia […] O polícia com o informador ou consegue separar rigorosamente o mundo do crime do mundo da lei, ter a informação sem promiscuidades, embora não venha de uma realidade imaculada, ou pode tramar-se. […]”

Quem é que podia garantir a “realidade imaculada” no meu caso? Ora, a Maria Alice!

Quem poderia atestar que eu separava “rigorosamente o mundo do crime do mundo da lei” ? Ora, a Maria Alice!

Percebem agora porque declarei que a investigação do meu caso tinha que ser realizada por outro Departamento e coordenada por outra pessoa?

A Sra. Maria Alice autorizava as diligências, facultava-me viatura, permitia a gestão do meu tempo, delegava em mim decisões e depois, astuciosamente, declarou que eu fazia o que queria, sem conhecimento superior e de forma criminosa!

Malandrice, Maria Alice!!!!

“Paciência e Tempo”. Como disse Tolstoi, “os mais fortes guerreiros”.

Paulatinamente, como já Vos deixei aqui, a “coisa” vai revelando so seus reais contornos, paulatinamente!

Como podem ver muito falta dizer, mais existe para explicar, mas, infelizmente, como sou um pária criminoso condenado, ainda tenho que penar um pouco mais.

Até já!