“(…) António Araújo (…) historiador, crítico literário (…) responsável pela escolha dos autores da colecção Retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos (…) consultor da Presidência da República (…) afirma: “Em Portugal mantém-se uma atitude muito paroquial e provinciana”(…).”
A 15 de Agosto de 2017, no “Diário de Notícias”, podíamos ler na entrevista a António Araújo a afirmação referenciada:
“Em Portugal mantém-se uma atitude muito paroquial e provinciana.”
Repeti a afirmação porque é importante reforçar e interiorizar.
Esta semana que passou experienciei “na pele” este “mal superior português”, como o designava Fernando Pessoa.
Fernando Pessoa publicou um texto – “O provincianismo português” – que define muito bem a maleita: “O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.”
Mas o que de tão grave aconteceu para eu estar tão descontente e amargo? Eu explico.
Presentemente a realizar a minha tese de doutoramento em Psicologia, como todos aqueles que por aqui passam sabem, encontrando-me na fase de pesquisa/revisão da literatura existente sobre o objecto de estudo – o Código de Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade (CEPMPL) – fiz o que qualquer académico investigador a realizar uma tese de doutoramento faz: junto de quem investigou, estudou, comentou, opinou, realizou ciência tendo como objecto o referido CEPMPL, solicitei a partilha de conhecimentos.
E a quem o fiz?
A edição da Almedina (Abril de 2018) do CEPMPL é anotada, logo, diligenciei junto de uma das responsáveis pela anotação no sentido de indicar-me bibliografia que pudesse eventualmente existir e que fosse do seu conhecimento, à qual eu pudesse recorrer e estudar.
Algo que todo e qualquer estudante de doutoramento faz!
É tão usual que até Pablo Picasso solicitou a Alberto Giacometti colaboração artística para a realização de uma escultura!!! Até o Picasso, vejam lá Vocês!
Enviei um “mail” e obtive a seguinte resposta: “Sr. Dr., o que me pede deve ser feito pelo doutorando, a quem cabe investigar um tema, e não por terceiro.”
Fiquei estarrecido com a resposta!
Atónito, recordei de imediato o texto de Fernando Pessoa e a entrevista de António Araújo.
Dissipado o espanto pensei em Karl Popper. Afirmava o “filósofo da ciência”, o autor da obra de 1934, “A lógica da Pesquisa Científica”, que podem existir contributos teóricos interessantes mas que é condição sine qua non para que sejam realmente válidos e valiosos o cumprimento de um requisito essencial: a possibilidade de serem alvo de crítica! (racionalismo crítico)
A minha interlocutora via “mail” negou, com a sua resposta, a possibilidade de comprovar e reforçar o valor e cientificidade do seu trabalho porque somente partilhando o conhecimento, expondo-o à “falsificabilidade popperiana”, é possível fazer ciência.
É óbvio, pela resposta dada, que para esta pessoa os conceitos de “falsificabilidade”, “ciência” ou “método científico” são-lhe tão estranhos quanto a “Urbanística nómada das populações do Saara”.
De uma estreiteza de espírito, de uma aviltante tacanhez, o indivíduo ainda ousou recomendar método de trabalho, desconsiderando completamente os orientadores da minha tese – identificados no “mail” que enviei – revelando um infeliz provincianismo académico, uma falta de elegância atroz que somente se justifica se considerarmos a seguinte hipótese: é ignorante!
A minha resposta? Simples e lacónica: “Boa tarde Sra. Dra., agradeço encarecidamente a sua atenção e disponibilidade. Mais, vou alertar os meus orientadores da tese para a douta indicação de V. Exa. no que diz respeito ao método de investigação e pesquisa bibliográfica. Com os melhores cumprimentos.”
Ainda recluído em Évora, o meu “Secretariado” pesquisou e solicitou a vários investigadores nesta área – Psicologia / Sistema Prisional – bibliografia ou trabalhos existentes. Dos E.U.A. enviaram teses de mestrado e doutoramento completas (cfr. mencionado neste blogue) e um dos autores cujo trabalho somente era acessível através subscrição paga, enviou o seu artigo científico gratuitamente!
Conquanto a atitude do indivíduo, paroquial, provinciana e serôdia, segui o seu conselho e realizei uma pesquisa que julgo que pode ser útil a mim, a Vós e a ela.
Vejam o resultado e reflitam!
António Oliveira Salazar, 19/5/1935: “Se todos souberem ler e escrever, a instrução desvaloriza-se.”– identificar-se-à a interlocutora do meu “mail” com esta afirmação?
Entrevista do Ministro da Educação (do Governo de A. O. Salazar) ao “Diário de Notícias”: “A população escolar pode e deve dividir-se em cinco grupos, a saber: Ineducáveis (8%), Normais estúpidos (15%), Inteligência média (60%), Inteligência superior (15%) e os Notáveis (2%)” – em qual grupo estará a interlocutora do meu “mail”?
Sobre a “Ignorância”, vejam ao resultado da breve mas ilustrativa pesquisa!
“A ignorância é a maior enfermidade do género humano.” Cícero
“A ignorância é a mãe das tradições.” Montesquieu
“A ignorância gera mais frequentemente confiança do que conhecimento: são os que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, que afirmam de uma forma tão categórica que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência.” Charles Darwin
“Nada no Mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa.” Martin Luther King, Jr. (acho que esta assenta que nem uma luva!)
“A verdadeira ignorância não é a ausência de conhecimentos mas o facto de se recusar a adquiri-los.” Karl Popper (é a cara da interlocutora do meu “mail”!)
Como podem ver muito pesquisei e muito encontrei que se adapta ao tristemente ocorrido mas, julgo ser este o pormenor mais preocupante e alarmante, temos de saber de quem estamos a falar!
Temos de alertar para o facto de existir alguém que tem notório peso na sociedade portuguesa, enquanto académica e magistrada, e que tudo indica prefere ter homens e mulheres dentro de uma gruta a ver sombras que a própria ajuda a projectar do que concidadãos informados e formados que possam com conhecimento exercer capaz cidadania.
Vejam a gravidade da questão que parece somente uma falta de elegância e camaradagem académica: na ética socrática a ignorância é considerado um mal maior porque pode conduzir à prática de injustiças! Querem saber quem foi a minha interlocutora via “mail”?
A Exma. Sra. Dra. Maria João Antunes, licenciada em Direito, mestre em Ciências Jurídico-Criminais, doutorada na especialidade de Ciências Jurídico-Criminais (não indico a universidade porque uma árvore não faz a floresta e a faculdade em questão tem uma provada tradição de excelência académica na procura e partilha de Conhecimento) e, atentem na “ética socrática”, magistrada, ex-juiz do Tribunal Constitucional!!!
Também eu coloquei a questão que agora colocam: “Como é que é possível uma atitude de um nefasto provincianismo académico por parte de um indivíduo com esta formação?”