“Os Perigos da Ignorância e da Indiferença”

Impõem-se, desde já, porque atrasada uma semana, uma palavra de agradecimento aos Estimados(as) Leitores(as) que contribuíram para o ultrapassar dos 200 000 visitantes deste blogue!

Na manhã de hoje, dia em que escrevo este texto, ultrapassou-se os 205 000. Grato a todos, agradecido por todos os comentários e atenção dispensada!

Comparativamente, 200 000 visitantes não é nada quando confrontado o número com os leitores – milhões – da página do blogue da Cristina Ferreira.

É notório que o cidadão português releva mais as dicas de culinária, vestuário ou problemas do foro íntimo e pessoal, do que as provações que um concidadão experimenta quando se encontra enleado nas malhas da Justiça.

E é aqui, se me permitem, que reside o perigo, as células doentes que vão fazer com que o organismo enferme, o síndrome: a ignorância e a indiferença!

Chegando até mim fracos ecos da minha prestação aquando da entrevista à CMTV, porque recluído e sem acesso (em tempo) a imprensa escrita, condicionado o meu conhecimento do “Mundo extra-muros” pela insuficiência de “oferta” de canais televisivos, informou a minha mulher, o jornalista que realizou a entrevista, que a audiência ultrapassou os 100 000 espectadores diários.

É bom! Em termos de audiência, é bom! E o que ficou do que eu disse?

Todas as semanas, a meio da semana, o meu dedicado “Secretariado” envia-me, via correio, os comentários que o(a) Leitor(a) deixa neste blogue.

À semelhança do que tinham comunicado aqueles que me visitam, ou mesmo os profissionais de “Ébola” que reconheceram (outros não o fazem) ter visto a entrevista, um(a) Leitor(a) (isto do género na “internet” é sempre uma incógnita!) referiu que filmaram mais os botões de punho e o anel do que a minha cara!

Possivelmente foi uma opção estética (compreensível a todos, menos à minha mãe!) ou talvez o sensacionalismo, a indiferença pelo conteúdo e a preferência pelo gesto, pela teatralidade.

Ainda não vi a entrevista, mas quero acreditar que não cortaram o áudio quando focaram os acessórios, permitindo continuar a escutar o essencial.

E neste momento surge a ignorância.

No dia 13 de Janeiro de 2016, quarta-feira, no episódio 8, da terceira temporada das “Queridas Manhãs” (na SIC) Júlia Pinheiro, J.P. e Hernâni Carvalho, no espaço do programa dedicado à “actualidade criminal”, comentam o “caso do ouro” que envolve o Inspector João de Sousa, indivíduo com o qual Hernâni Carvalho “partilhou algumas refeições”, e que “não é bem amigo mas conhecido!”

A certa altura, Júlia Pinheiro indigna-se (quase como o personagem do Eduardo Madeira, “O indignado” dos “Donos disto tudo”, com saliva seca nos cantos da boca) porque o Inspector João de Sousa escreve num blogue estando preso, e até, veja-se lá (e o tom de voz é estridente!) tinha uma crónica no CM!!!

Um espaço televisivo onde se encontram “os nossos especialistas que merecem uma salva de palmas”, conforme solicita amiúde Júlia Pinheiro, deve obrigatoriamente esclarecer os espectadores. E agora aponto o dedo a ti, Hernâni Carvalho!

Então em vez de explicares à indignada Júlia Pinheiro que um preso preventivo, ou mesmo condenado, não está cerceado totalmente dos seus direitos (pasme a Dona Júlia, o preso até tem direitos) vens falar de tráfico de estupefacientes nas prisões, comparando o exercício da minha liberdade de expressão com um crime!!?

Não critico, compreendo até, o exercício de afastamento que o Hernâni Carvalho agora realiza em relação ao Inspector João de Sousa, uma vez que as acusações são graves e ele desconhece o teor das escutas telefónicas existentes no meu processo, e qual o número de conversas telefónicas que mantivemos que a acusação considerou importantes para a investigação.

Permita-me o meu Leitor(a) sossegar o Hernâni Carvalho: Hernâni, as nossas conversas não reuniam peso criminal, apenas revelam traços da nossa personalidade, apenas revelam-nos sem verniz, sem a maquilhagem necessária para aparecer na TV!

O que critico ao Hernâni, mais do que à D. Júlia, é este visível alimentar da ignorância.

Não relevo o facto do quanto pode prejudicar, como o fez a alguns que por aqui ficaram em “Ébola” (como o “pai da pequena Alice”) o comentário fácil, subjectivo, suportado não em “fonte primeira” mas no noticiado no papel. O que referencio é a ausência de “educação das massas”, o que critico é o facto de, em “horário nobre”, com direito de antena, não se apostar mais na cientificidade, na moderação, no rigor técnico e, perdoem-me os visados, na honestidade intelectual.

Sócrates (o filósofo) legou-nos muito e nada escreveu, apenas dialogava. Sócrates afirmava que todos os homens são ignorantes e deve ser realizado o “parto para a Sabedoria, para o Conhecimento”. O filósofo procurou educar as elites porque estas governariam, não o fez com o povo. Sócrates (o filósofo) não gostava, muito possivelmente, da democracia, do governo da multidão.

Sócrates buscava a Verdade e combatia os sofistas, a “doxa” (opinião).

O problema da nossa sociedade é que todos opinam, muitos não sabem o que dizem, mas falam para muitos que ficam indiferentes ou alimentam o erro.

Cada vez mais estou convencido que a Justiça não é igual para todos!

– Andava distraído? – questiona o meu Leitor(a) com propriedade.

Defendo-me referindo que nos crimes contra as pessoas – homicídios, abusos sexuais – área da minha actividade profissional, não existem “promessas de vantagem patrimonial futura”, tem de imperar a cientificidade, o rigor na investigação, porque falamos de 25 anos de prisão, lidamos com o autor e a vítima, que pode nem ter capacidade de compreensão (crianças) ou a oportunidade de ver a Justiça a operar (vítimas mortais).

Mais, a honestidade intelectual e o rigor que eu me obrigava a colocar à frente de estados de alma, ou inimizades, não permitiam leviandades à minha pessoa ou a colegas e superiores hierárquicos, como se pode inferir do que tenho escrito e denunciado aqui ou em sede de processo disciplinar na P.J.

Digo isto agora porque a indiferença e a ignorância estão entre nós.

Esta semana li no “Expresso” que o “Procurador promete não prender Bataglia”.

Não ouvi, ou li, ninguém sobre isto!

Chegou-me, através de colegas, que quando no Algarve inquiriram a mãe da Maddie, foi proposto à mesma que confessasse o que tinha feito à criança, para deste modo, obter um acordo com a Justiça portuguesa.

O advogado dos McCann era português e deve ter sorrido porque percebeu que nós não tínhamos nada de concreto para prender, encontrando-se a P.J. a apostar no “bluff”.

A lei portuguesa, ao contrário dos filmes americanos, não prevê acordos!

E o advogado dos McCann sabia-o perfeitamente.

Mas agora parece que tudo mudou (à excepção da Lei) porque a Justiça não é igual para todos.

A defesa de Bataglia exige (é mesmo assim: exige!) salvo-conduto! Acho que é por 45 dias!

O Inspector João de Sousa pediu 20 dias para preparar a sua defesa, o Tribunal (depois de ouvido o Ministério Público) concedeu 10 dias. A diligente advogada oficiosa do Inspector apresentou requerimento para ter acesso a peças processuais e ao iPhone/iPad do seu cliente: até hoje, a 3 dias do recomeço do Julgamento, não permitiram o acesso requerido.

O filho da D. Julieta e do Sr. Fernando está preso preventivamente há 1 ano e 10 meses, 668 dias aquando da publicação deste texto, o Bataglia vai ter um salvo-conduto por 45 dias! É muito melhor que um “Visto Gold”!

Na mesma edição do “Expresso”, Maria José Morgado, pessoa que muito respeito, na sua coluna, “Justiça de perdição”, escreveu um texto cujo título é “O informador”, no qual defende que “as colaborações premiadas são a melhor forma de solucionar crimes financeiros e empresariais”, à semelhança do que se faz no Brasil.

Muito critiquei José Sócrates na sua dimensão ética e moral, nunca me pronunciei sobre a sua culpabilidade, isso é “doxa” (opinião) logo, juízo falível.

Não vou pronunciar-me sobre a sua culpa, apenas quero aqui deixar a minha manifestação de repúdio por esta forma de investigar que premeia a delação, mas mais do que isto, premeia e incentiva a denúncia que pode ser falsa, o gesto que pode isentar alguns e condenar outros que estão inocentes.

Ao fim de praticamente 2 anos, como se pode ver nas televisões, consegui conversar com os meus co-arguidos.

Falando com o meu co-arguido, tentando saber como tinha experimentado a sua provação, disse-me, a certa altura, que certo advogado tinha proposto a si uma nova “atitude” perante a investigação. A proposta era confirmar que o Inspector João de Sousa de facto realizava vigilâncias e era responsável pela sua segurança, confirmando, deste modo, a tese da acusação, “atitude colaborativa” que muito possivelmente seria recompensada com a alteração (desagravamento) da sua medida de coacção e da sua mulher.

Tentador, não?

Ainda estamos os dois presos preventivamente, assim como a companheira dele!

Claro que não se trata de estarmos desde o primeiro dia a prestar declarações obedecendo à verdade, trata-se sim, de uma “mui organizada” associação criminosa que obedece a códigos próprios como a “Omertà”!

A prisão preventiva é um instrumento de tortura, um “artefacto” para “fazer falar”.

Aqui, estiveram presos preventivamente indivíduos que “falaram”, logo estão em casa a aguardar Julgamento.

Não existem acordos na Justiça, na Lei portuguesa, pelo menos escritos, tácitos, na prática é como se vê!

A Dra. Maria José Morgado escreve ainda no texto referido: “[…] A prova consistente assim obtida evita o risco de condenação de inocentes […]”. Permita-me não estar de acordo.

O risco do resultado contrário – condenação de inocentes – está estampado nas páginas e nas imagens televisivas dos média: o Leandro, o casal de Santarém absolvido, o Armindo Castro e estes são aqueles que, por uma razão ou outra, conseguiram fazer-se ouvir.

O corporativismo é uma posição nobre até ao ponto em que prejudica inocentes.

O texto da Dra. Maria José Morgado termina da seguinte forma: “[…] Entre nós, se o importante for continuar a discutir atavicamente a violação do segredo de Justiça, nunca chegaremos a lugar nenhum.”

Eu compreendo: é uma mensagem direccionada, uma “farpa” como se costuma dizer.

Não compreendo é como a violação do segredo de Justiça no meu processo, cuja investigação decorre há 1 ano e 9 meses, com provas materiais apresentadas, no qual está envolvido o Procurador do Ministério Público que foi o responsável máximo pela investigação no âmbito da qual, e por sua promoção, sou mantido preso preventivamente, ainda não apresentou resultados.

Perdoe-me a Dra. Maria José Morgado por, atavicamente, continuar a indignar-me com isto!

E como de facto a Justiça não é igual para todos, reinando entre nós a ignorância e a indiferença, aconselho a leitura da peça jornalística da revista nº 1193, da “Visão”, “Sobreviver à desgraça”, onde se relata a vida actual de personagens como José Sócrates (que costuma correr no Parque das Nações); Isaltino Morais (que está a preparar a sua candidatura à Câmara de Oeiras nas autárquicas de 2017 e tem negócios em Angola e Moçambique); Jardim Gonçalves (ex-presidente do BCP, condenado a 2 anos de pena suspensa, eu já levo 2 de preventiva, produz vinho na sua quinta); Duarte Lima (vive com uma subvenção vitalícia do Parlamento de 2.200 euros, eu estou sem ordenado há dois anos e não estou condenado) ou Silva Carvalho (acusado no processo das secretas, ex-director do SIED, tem uma empresa de consultadoria).

Eu, que ainda estou na desgraça tentando sobreviver, vou agora arrumar a “trouxa” para ser transferido para outro estabelecimento prisional, onde ficarei sozinho, isolado, a aguardar que me transportem algemado para a sala de Tribunal, apinhada, com aparato policial exuberante, onde vou defender-me, tentando sempre não compactuar, nem contribuir para o medrar das terríveis pragas que são a ignorância e a indiferença!

“Por vezes, sinto que quero voltar para os braços da minha mãe!”

“A adaptação à prisão – um processo vivido e observado”, é uma obra do Prof. Rui Abrunhosa Gonçalves, e, como este diz-nos na “nota prévia”, é um trabalho que constitui, “no seu essencial, a dissertação de Mestrado em Psicologia, especialidade de Psicologia do Comportamento Desviante, concluída em Dezembro de 1990 na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto”.

Vamos começar, Caro(a) Leitor(a), por uma passagem da referida obra: “[…] a adaptação existe em função da personalidade do indivíduo, do seu trajecto histórico e da sua própria “plasticidade”, isto é, a forma como, num momento dado e em função de um determinado meio, ajusta o seu comportamento à situação tendo presente a flexibilidade das estruturas e esquemas comportamentais construídos ao longo dos anos e empregues em situações mais ou menos semelhantes (Sillany, 1980, p.21) […] e como refere Laffon (1973) a “adaptação é dinâmica e perpétua”[…]”.

Dê-me a oportunidade, Estimado(a) Leitor(a), de o conduzir pelo mundo em que vivo agora, deixe-me levá-lo a visitar a minha semana pretérita, a semana do início do meu Julgamento, a semana mais ansiada…

Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2016. Amanhã, às 9h15, começa o meu Julgamento. Ufa!

Praticamente dois anos de prisão preventiva, finalmente vai chegar.

Ontem, porque sou um Inspector da P.J. da nova geração, logo “metrossexual”, e porque finalmente chegou o creme depilatório há muito solicitado, fiz a depilação (o creme não era para peles sensíveis, como a cútis de bebé dos meus glúteos, variável que determinou o resultado desastroso como vamos ver mais adiante!)

Tenho o fato preparado, a gravata, o lenço no bolso da lapela, tudo pronto para amanhã. Agora, já equipado, saio da cela, são 8h00, para treinar, suar, castigar o corpo, ficar com a pele bonita. Amanhã tenho que estar bem, digno, confiante.

8H15. “Sr. João, vá à chefia!”

Possivelmente é por causa do pedido para as 4 horas de visita no fim-de-semana, uma vez que não vou ter oportunidade de ter visita na 5ª feira. Espero que autorizem.

– Bom dia, Sr. João! – olhos no tampo da secretária.

– Bom dia!

– É para lhe dizer que vai ser transferido… – olhos no tampo da secretária.

– Transferido? – pergunto sorrindo. Talvez nervos, talvez desprezo.

– Sim, vai para outro estabelecimento prisional… – olhos no tampo da secretária, mexendo em alguns papéis.

– Qual?

– Depois verá quando lá chegar – um olhar à “Princesa Diana”, cabeça inclinada, de baixo para cima. Conhecem esse olhar maroto? – arrume as suas coisas porque vai logo após o almoço!

– Sim, senhor. Mais alguma coisa?

Sabem qual foi a primeira imagem que se formou na minha mente quando recebi a notícia?

A minha Família durante a visita do dia anterior, Domingo: a minha mulher sentada a sorrir, com o Júnior ao lado, de pé, a dançar, eu, a Leonor e a Helena a dançarmos um tango!

Possivelmente foi por causa desta recordação recente que sorri.

A segunda coisa em que pensei… foi uma coisa simples, porque as coisas simples são as mais belas…

Transferido a menos de 24 horas do dia do meu Julgamento!

Resistir e adaptar!

Foi maldade? Foi propositado? É a paga pelo que disse e escrevi?

Não! É o sistema. A prisão de Évora não tem meios humanos, quem a gere não pode (ou sabe) fazer melhor com o pouco que tem e, assim sendo, quem se “lixa é o mexilhão” (perdoe-me o(a) Leitor(a) a boçalidade da expressão).

Sim meus Caros, nomeadamente os meus dois queridos amigos e colegas que disseram à minha mulher que era normal este tipo de procedimento, transferência que até me beneficiava porque não tinha de acordar tão cedo. Sim, meus Caros, quem sai prejudicado é o recluso, neste caso, o João, porque é uma nova adaptação, num ambiente hostil (se aqui já não simpatizam muito com o P.J., imaginem numa prisão de “população comum”) isolado, sem contactos durante a “estadia”.

Mas se este tipo de procedimento é normal, como verifiquei há um ano atrás com dois reclusos aqui de “Ébola” que foram transferidos para o Norte do país, região onde se realizaria o Julgamento, não é normal, ao contrário do que fizeram com estes dois indivíduos que os avisaram com uma semana de antecedência para arrumarem os seus pertences, avisar familiares, nada dizer ao recluso da transferência, quando o Julgamento já estava marcado há cerca de dois meses, comunicando de manhã, na véspera do Julgamento, uma transferência a realizar-se à tarde!

Mas nós lemos o nosso mestre bardo inglês, portanto, mãos à obra, fazer a trouxa: “[…] O quê? De novo com maus pensamentos? Os homens têm de aguentar tanto o sair desta vida como a ela chegar. Estar preparado é tudo. Vem. […]” (“Rei Lear”, William Shakespeare).

Voltei ao ponto inicial. Até a cela é a mesma. Estabelecimento Prisional junto da Policia Judiciária.

De novo os olhares. O passar por outros reclusos que tentam perceber quem é o tipo. Fechado! Sozinho!

Entrou a roupa. Estarão o fato e a camisa amarrotados por causa da revista ao espólio? Não, está tudo bem!

– Sr. João, venha à Sra. Directora.

Vinte minutos após ter chegado, fui conduzido ao gabinete da Directora do Estabelecimento Prisional.

Cordialidade, elegância, respeito, curiosidade, e um momento muito interessante. Afinal o defeito é mesmo do Director de “Ébola”, não é do normativo vigente:

– Atendendo à sua situação transitória, ainda que existam regras que devem ser observadas, temos também que atender à componente humana da reclusão…

Muito interessante mesmo. Como dizia um Mestre do meu curso de Filosofia:

– Temos que viajar, ir para fora, conhecer outros países por forma a conhecermos melhor o nosso país!

Sempre acompanhado por um guarda, caminho de novo até à minha cela, sentindo os olhares dos outros, perscrutando.

Fechado! Sozinho! Faltam agora menos de 14 horas para o início do Julgamento.

Levei o rádio para ter despertador. Não levei televisão, vou regressar a “Ébola” no fim-de-semana! Sim, vou andar de um lado para o outro.

19h46. Ligo o rádio e viro-me para a pequena mesa onde está a caneta e o “Diário de um Julgamento”. Vou começar a escrever mas paro e desfaço-me em gargalhadas. No rádio está a passar Rui Veloso que, naquele preciso momento, canta: “Ver-te assim abandonado, nesse timbre pardacento / nesse teu jeito fechado, de quem mói um sentimento…”

Estou bem (ou enlouqueci): o sentido de humor está cá.

No caminho – de “Ébola” para Lisboa – por incrível que possa parecer, adormeci.

Como foi a minha noite antes do Julgamento? Pacífica. Adormeci às 22h00!

Coragem? Serenidade? Nada disso: preocupação de acordar às 6h00, porque não sabia a que horas sairia para o Seixal, e tinha que estar bem no dia seguinte.

Como podem ver, os meus dois queridos amigos e colegas, facilidade é subir da Covilhã à Torre de bicicleta; isto tudo a que me sujeitam, desgasta tanto que até durmo bem!

Dia 12 de Janeiro de 2016. Terça-feira. O “dia J”!

Água quente e chuveiro na cela: um luxo. Cabeça rapada, barba desfeita.

– Vamos, Sr. João!

– Vamos!

Tribunal do Seixal. Forte aparato policial!

Já vai atrasar o Julgamento, pensei eu. Como pode o aparato policial atrasar o Julgamento, pergunta o Caro(a) Leitor(a)?

Eu explico. Quando cheguei e vi aquele cenário, pensei: isto é fantástico para a P.J.! Isto são boas notícias para o sindicato, para a Direcção da P.J.! Agora já podemos reivindicar mais meios, mais ordenado, podemos agora justificar a nossa existência, a nossa competência!

Não à unificação das polícias!

A Polícia Judiciária conseguiu deter o Salah Abdeslam na região do Seixal, o homem mais procurado do mundo, responsável, em fuga, pelos atentados de Paris!!! É bom para a instituição, para mim é mau porque o Tribunal vai estar a realizar o primeiro interrogatório de arguido detido e são necessárias medidas extraordinárias de segurança, logo não devem realizar Julgamentos!

Talvez condicionado na minha percepção pelo nervosismo que experimentava, não entendi de imediato o que se passava: afinal aquele aparato todo era por causa do meu Julgamento!

Da cela, onde aguardei a chamada – local no qual coloquei e fui buscar dezenas de indivíduos – até à sala de audiência são dois lanços de escada, com 10/15 degraus cada, sendo que, “degrau sim, degrau não”, estava um elemento da P.S.P., e eu, algemado, escoltado por elementos do corpo da guarda prisional.

Passei a porta, jornalistas apinhados: já sei o que sente o Brad Pitt na cerimónia dos Óscares, mas ao contrário!

Já sentado, olhei em volta. Pensei na Mafalda Ribeiro e no último parágrafo do texto que antecede este.

Adiado o Julgamento: 10 dias para preparação da defesa.

– Sr. João, vamos conduzi-lo a Évora, pois não existe necessidade de o senhor estar aqui nestas condições sem ser mesmo necessário – dito de forma lacónica mas profissional.

Antes da saída, reunião com um dos educadores. O estabelecimento prisional tinha tentado fazer um cartão, necessário para a aquisição de produtos e realização de telefonemas. O que possuo permite os telefonemas, sendo que é uma impossibilidade a aquisição de perecíveis.

A Directora já tinha resolvido a situação de outra forma, o educador confirmou.

É mesmo preciso navegar em outras águas para que possamos conhecer melhor o nosso mar!

De regresso a “Ébola”. Aqui é tudo muito mais frio, o tempo, o céu, o normativo.

Mas a “César o que é de César”: o sentido de humor dos alentejanos é muito característico, são pessoas afáveis e, como é um pequeno estabelecimento prisional, isto é quase uma família, um ambiente descontraído, uma alegria. Senão vejamos, e vamos voltar à cútis das minhas nádegas!

Somente há uma semana tivemos médico aqui em “Ébola”. Desde 31 de Dezembro de 2015 que não tínhamos médico, só enfermeiras. O anterior “profissional de medicina” terminou o seu contrato e nós, reclusos, fizemos o favor de não morrer ou constipar!

Com as nádegas que mais pareciam o blogue “A pipoca mais doce”, com mais borbulhas que nádega porque o creme depilatório da prisão é só para “homens de pele dura”, fui à enfermaria expor o traseiro à enfermeira. Encontrando-me nesta situação delicada, entra a nova médica:

– Bom dia! Então o que é que tens? – perguntou sorridente.

– Quem é a senhora? – questiono eu puxando as calças para cima.

– É a médica… – tenta salvar a situação, a enfermeira.

– Diz lá filho, o que é que tens? – insiste a médica.

– Filho?!

– Sim, o que é que tu tens?

– Tu?!

– Vá! Não me interessa o que vocês fizeram, estou aqui para ajudar! – convicta.

Neste momento, a enfermeira olha para mim de olhos muito abertos e pálida como o mármore. Entro no jogo:

– Depilei-me e estou com uma irritação na pele!

– Mostra lá! Aqui não te deves rapar… deixa crescer pêlo que é melhor…

A enfermeira está paralisada.

– Como é que a senhora doutora se chama? – neste momento, a simpática mas petrificada enfermeira percebe: ele vai escrever!

Não interessa o nome da médica que receitou-me uma pomada que até melhorou a estética dos meus glúteos, aqui em “Ébola” é mesmo assim. Isto é o sistema prisional no seu melhor.

Um dia perigoso criminoso, fato e gravata, no outro um gaiato de fato de treino na enfermaria.

O Bataglia só fala se não for preso. Eu, que nada tenho para dar em troca, nada tenho para assumir, estou preso e quero falar.

A mim não mudam a medida de coacção, mas mudam o estabelecimento prisional!

Dia 24 de Janeiro, vou voltar a Lisboa, ao estabelecimento prisional da P.J.

Desta vez, eles, os outros reclusos, já sabem quem é o “careca isolado”, e vão epitetar, sem a conhecer, a minha progenitora da pior maneira. Os olhares vão ser intensos agora que sabem que é o “Inspector do Ouro”, o tipo que dá entrevistas na prisão!

Aqui chamam-me “El Pibe de Oro”, como o Maradona, mas acho que não é por causa do meu pé esquerdo; em Lisboa, até porque não jogo lá à bola, estou fechado, isolado, não devem ser tão meigos! Mas é assim a Justiça Lusa: uns isolados, outros na Abade Faria ou na herdade da família.

A minha filha Leonor viu o pai no Tribunal e disse que, quando eu olhei em volta, careca, parecia o bebé careca da fotografia que ilustra este texto.

Sou eu com 6 meses. Pareço feliz.

Ainda que sorria agora, de vez em quando, tudo isto a que me sujeitam é duro.

Os braços de uma mãe são fortes quando uma criança está em perigo.

Naquele dia, de regresso à cela em Lisboa, ao ouvir Rui Veloso, ri, às gargalhadas, mas agora que estou a escrever e a recordar a minha fotografia de bebé, recordo outra canção, outro verso, desta vez do Pedro Abrunhosa.

É que por vezes, no meio disto tudo, Caro(a) Leitor(a), sinto que quero voltar para os braços da minha mãe!

“Obrigado, Corajosa Mafalda Ribeiro”

Este texto, Caro(a) Leitor(a), é o último antes do início do meu Julgamento (o “Dia J”!).

O sexagésimo sexto opúsculo, cuja publicação realizar-se-á um dia antes do “Dia J”, dia do início do Julgamento que se verificará ao sexcentésimo quinquagésimo quinto dia de prisão preventiva! É muito número, muitos dias, muitas emoções, muitas dúvidas, muita dor, lágrimas e sorrisos!

Pela sexagésima sexta vez estou a ouvir “Pavarotti, Greatest Hits”, encontro-me, novamente, junto da sanita, com as paredes a escorrerem água, um frio cortante e ao olhar pela janela com os seus cortinados gradeados, observo indivíduos que calcorreiam quilómetros, sem avançar, em elípticas de frustração, dor e revolta.

Vejo-os mas não os oiço! Não preciso de os ouvir para saber o que dizem:

– Faltam quantos anos para isto acabar?

– Dois! – vejo-o a encolher os ombros.

– Dois?! E sem precárias?

– Pois …

Olho para um trio, desta vez:

– A culpa é desses porcos da Polícia Judiciária …

– E os Juízes, deviam de estagiar aqui dois meses … comer como nós! – convicto.

– Isso é que era. Condenados, sendo inocentes como eu …

– Ah! Ah! Ah! Cala-te que estamos a falar a sério …

“[…] Ó suprema fugacidade, diz Coélet, ó suprema fugacidade! Tudo é fugaz! Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do Sol? Geração vai, geração vem, e a Terra permanece sempre a mesma. O Sol levanta-se, o Sol põe-se, voltando depressa para o lugar de onde novamente se levantará. […] O que aconteceu, de novo acontecerá; e o que se fez, de novo será feito: debaixo do Sol não há nenhuma novidade […]” (Ecl. 1, 4-5; 9)

A passagem anterior é do livro do Eclesiastes. São palavras de Coélet, filho de David, Rei de Jerusalém, “depois de uma vida longa, feita de observação atenta”. Perturbado com muito do que observou após investigar a vida, o autor concluiu que nada de novo há sob o Sol, tudo é fugaz e passageiro, nada faz sentido e a “vida é uma repetição monótona e enfadonha, sem motivação nenhuma”. Coélet, ou Salomão como a exegese explicou, era sábio.

Gerry Gilmore, professor de Filosofia Experimental em Cambridge, que esteve na Fundação Champalimaud, em Lisboa, onde deu uma palestra em Dezembro passado, durante a “Conferência sobre o futuro” (cfr. Entrevista publicada na “Visão”, nº 1192) afirmou que tudo isto – o nosso Mundo, a nossa vaidade, o Poder, a riqueza, as guerras e a frágil Paz – terminará “numa única partícula, a solidão extrema”.

Gilmore questiona o seu entrevistador: “É mau, não é, a morte por solidão?” Acrescentando: “Somos criaturas insignificantes condenadas a desaparecer …”

Não é uma leitura muito aconselhável a quem está a poucos dias de iniciar um Julgamento, sem advogado, recordista de prisão preventiva numa altura em que se batem recordes de absolvições, consequência de deficiências notórias da investigação, como no recente noticiado caso do casal absolvido pelo Tribunal de Santarém, casal que estava acusado de sequestrar e extorquir uma familiar, tendo sido sujeito a um ano de prisão preventiva!!!

A situação é mais escandalosa quando a RTP1 noticia a absolvição transmitindo as declarações, um ano antes, do Director do Departamento da Polícia Judiciária que investigou o caso, afirmando que era uma questão gravíssima, nunca antes vista: “Nada de novo sob o Sol!”

Não quero colar o meu caso a este, nem sequer quero “apanhar boleia” do bravo Luaty Beirão, mas é incontornável o facto de o Luaty estar a ser julgado num país – no qual nasci – que nós portugueses criticamos pelas deficiências na Justiça, sendo que até nesse país, o Luaty está em casa (mesmo sem existirem pulseiras electrónicas, pois devem estar todas em Portugal, só com alguns!) e aqui o Inspector mantém-se por “Ébola”!

A poucos dias do meu Julgamento (permita-me o meu Leitor(a) informá-lo(a) com exactidão: inicia-se a 12 de Janeiro de 2016, pelas 9h15, no Tribunal do Seixal, contrariamente ao que a imprensa noticiou) como estou? O que ganhei com dois anos de prisão preventiva? O que perdi?

Este é o segundo “Inverno do meu descontentamento”.

Passei, e passo, fome e frio. Fui castigado por opinar, tendo ficado 24 horas fechado numa cela (à excepção de duas horas de pátio a “céu aberto”, sozinho, isolado) durante 6 dias!

Chorei, sorri, mas como canta o Roberto Carlos: “o importante é que emoções eu vivi!”

Inicialmente, experimentei o pavor de tudo terminar “numa única partícula, a solidão extrema”. Receei perder tudo: a Família, os amigos, a dignidade.

Mas hoje, agora, compreendo que aprendi muito: sobre mim e sobre os outros!

Num ambiente notoriamente hostil aprendi, como nos diz Jean-Christophe Rufin através do seu personagem Jacques Coeur, que há poder e força, e as duas coisas nem sempre se confundem. “A força resulta do corpo, mas o poder, por seu lado, é obra do espírito” (in “O Grande Jacques Coeur”, de Jean-Christophe Rufin).

Ainda do mesmo autor, consigo agora compreender e experimentar isto: “[…] Nada poderia proporcionar-me mais felicidade do que este nascimento para uma vida desconhecida que prometia a beleza e ao mesmo tempo a morte, as privações hoje e amanhã certamente a riqueza. Ao arrepio da vida burguesa que me proporcionara segurança, a existência de aventuras que se abria à minha frente tornava possível o pior mas também o melhor, isto é, o inconcebível, o inesperado, o fabuloso. Adquirira enfim o sentimento de viver […]”.

Se, por acaso, não tivesse experimentado estes dois anos de reclusão, muito possivelmente, no conforto do meu saudoso lar, escreveria na ficha de leitura que se tratava de uma passagem belíssima, um exemplo de resiliência, optimismo e sensatez. Guardaria no arquivo da biblioteca a ficha de leitura e mais tarde, aquando de uma palestra, na preparação de uma aula ou até num interrogatório, a fim de conduzir o suspeito à confissão, utilizaria a belíssima passagem, manipulava-a, parafraseava …

Tenho a ficha de leitura que redigi aqui em “Ébola”. Está na minha mão. Está aqui a passagem transcrita. O comentário: “eu sei o que é isto! Eu entendo, eu sinto na pele as palavras!”

O que quero transmitir, meu Caro(a) Leitor(a), é que todo o meu saber enciclopédico, a “biblioteca com pernas” que sou, os ensinamentos dos mestres, tudo isso está gravado a fogo na pele e no espírito, agora, somente agora, depois de 2 anos de reclusão!

Tudo faz mais sentido.

A 4 de Janeiro de 2016, na RTP2, transmitiram um documentário: “Perú, País de extremos”.

A certa altura, falando sobre a rica diversidade vegetal e animal, o biólogo esclarece que o solo húmido e rico em nutrientes é um factor decisivo para a existência da explosão exuberante de vida, para a presença de uma multiplicidade de espécies e géneros animais e vegetais.

Caminhando por entre vegetação densa, depara-se com árvores gigantescas caídas. Colocam a questão sobre a razão para a queda dos colossos arbóreos. Resposta: a riqueza do solo! Como é?! A riqueza do solo? O solo é rico, logo medram melhor as árvores! Errado! Como o solo é riquíssimo em nutrientes, a árvore não desenvolve raízes fortes e profundas, estruturas que a sustentam e cai aquando das tempestades sazonais porque é precária a sua sustentação no solo!

Noutra altura, era uma informação para arquivar, uma curiosidade para o “Trivial Pursuit”, presentemente não! Actualmente, depois de me ver na necessidade de fortalecer as minhas raízes, de procurar profundamente alimento, substrato, no mais profundo espaço do meu ser, após penar pela ausência de conforto, carinho, paz de espírito, a árvore que eu sou está preparada para a monção, não esquecendo que “Monção”, em sentido figurado, também significa oportunidade, ou seja, ocasião favorável!

Ser resiliente, lidar com a frustração, gerir e assimilar mais uma derrota, conviver com a saudade, partilhar a dor, afastar o desespero, não antecipar frustrações, reaprender a experimentar o conceito abstrato e extremamente subjectivo que é a dimensão do Tempo: as horas, os dias, os meses, os anos!

Não cair na auto-comiseração, reagir, lutar! É, neste momento, que temos que agradecer e falar da brilhante Mafalda Ribeiro (cuja imagem ilustra este texto, imagem que eu, ousadamente, utilizei e que é uma singela homenagem a alguém verdadeiramente inspirador).

Estando eu para aqui preocupado com o meu advogado, triste e só porque a minha Coordenadora, Dra. Maria Alice Fernandes, beijava-me mas não era com amor, melancólico, sonhando com “rissotos”, babando por um “Chocolate Peanut Butter” ou porque vou perder a “Claraboia” de José Saramago na “Barraca”, e esbarro com esta frase da luminosa Mafalda Ribeiro, autora e oradora motivacional (“Oradora motivacional”: Fabuloso!!!), presente na sua entrevista à “Visão”, Nº 1191: “[…]Parti ossos 90 vezes. A dor é algo que não controlas, mas o sofrimento é opcional. Agradeço até as dores. Não posso mudá-las, mas posso decidir o que fazer com elas. Não pergunto porquê à dor, pergunto para quê? […]”

Fabuloso!

Mafalda Ribeiro, como escreve a jornalista Mafalda Anjos, é uma “impressionante energia positiva e uma inteligência emocional acima da média, superconcentradas em 97cm de mulher que fazem dela uma raridade”. A luminosa Mafalda Ribeiro sofre de “osteogénese imperfeita” uma “condição genética a que vulgarmente se chama doença dos ossos de vidro”.

Ao ler aquela frase relativizei! Ao ler aquela frase, eu, que sempre afirmei que, por alguém estar pior do que eu, não era razão para me conformar com o que tinha, compreendi, aprendi, amadureci, e tudo porque eu também agradeço a dor que agora experimento, eu também estou nas mãos de terceiros e não consigo mudar a dor, portanto, vou decidir o que fazer com ela.

A enorme pessoa que é a Mafalda Ribeiro e que se descreve a si própria como uma “Def”, que a sua condição genética obriga a estar numa cadeira de rodas, tem afirmações como esta:

“Estar dependente de alguém não me aprisiona. As minhas limitações não determinam os meus limites.”

E quando a jornalista diz que as pessoas não desconfiam que está em permanente experiência de dor porque tem sempre um sorriso na cara, Mafalda Ribeiro responde: “Acredito piamente que a dor é algo que tu controlas, mas o sofrimento é opcional”.

Uau! Depois de ler a entrevista da Mafalda Ribeiro, durante as minhas elípticas no pátio, tenho sempre a preocupação de levantar a cabeça e sorrir, inclusive agradeço esta provação (garanto que não estou louco!) porque entendo melhor o João de Sousa e os outros.

Claro que não vamos mudar a personalidade do João de Sousa, é óbvio que agora sinto-me mais solar do que sentia antes: coisas simples são as mais belas, e eu aqui experimento as mesmas, ainda que condicionado!

Faltam poucos dias para o “Dia J” (um dia, 24 horas, quando este texto for publicado).

Não me sinto a “única partícula, a solidão extrema” do Prof. Gilmore, diariamente vejo algo novo debaixo do Sol, tenho as raízes fortes e profundas consequência do solo árido onde me encontro. Domingo vou ver a minha mulher e a minha “ninhada”, nutriente afectivo útil e eficaz para o medrar de árvores como eu, tenho coisas simples muito belas aqui, imagine-se, em “Ébola”, para degustar, chegaram cartas de incentivo e Força, o Caro(a) Leitor(a) comentou acrescentando palavras de conforto e esperança, até aqueles que não o fizeram dessa forma, ajudaram com o seu comentário, demonstrando que a árvore que sou ainda está de pé, o que necessariamente produz sombra para a restante vegetação.

Mas, mais que tudo isto, quero agradecer à corajosa e inspiradora Mafalda Ribeiro, porque transmitiu luz, força e esperança através do seu fabuloso exemplo de vida.

Quando a tempestade no Tribunal do Seixal estiver no seu ponto mais alto, olharei em volta e vou pensar na grande Mafalda, porque se ela estivesse no meu lugar ainda tinha que se preocupar com as rampas de acesso à casa da Justiça e nem nesse momento se lamentaria, porque, nas palavras da própria: “[…] Por isso é que eu costumo dizer que todas as pessoas deviam ter um amigo “Def” na vida! É só vantagens: estacionam nos sítios para deficientes, não estão nas filas, apanham uma série de descontos, e estão com a auto-estima um bocadinho mais elevada […]”.

Fabuloso, não é? É uma verdadeira inspiração!

Obrigado, corajosa Mafalda Ribeiro!

 

 

 

“Show me the Money!”

No dia 30 de Maio de 2014, 63 dias após ter entrado em “Ébola” na condição de preso preventivo, desloquei-me ao Tribunal de Almada, algemado, para realização de interrogatório complementar, diligência presidida pelo Sr. Procurador, Dr. João Davin, assistido pelos meus dois colegas Inspectores que me investigaram, um oficial de Justiça e o meu advogado.

A certa altura do interrogatório disse aos presentes que a “investigação” só se convenceria que eu nada tinha a ver com fraudes fiscais, branqueamentos de capital ou corrupção, quando a minha Casa, a minha Família, estivesse a passar dificuldades económicas, de rastos.

Na ocasião, um guarda prisional que acompanhou a diligência, estando no exterior da sala, quando o Procurador, Dr. João Davin, saiu, ouviu o mesmo dizer a quem o acompanhava:

– A este, ninguém o prende! – ironicamente.

Passados que estão 584 dias, praticamente dois anos, continuo preso e quanto à minha Família, às dificuldades económicas, vamos falar disso hoje.

Quem estuda o fenómeno afirma que uma Família rica encerra em si a capacidade para obter sucesso social porque possui os instrumentos para alcançar o êxito, sendo que pode cair na armadilha fatal da “indolência do aristocrata” e perecer.

A Família pobre, nos antípodas da anteriormente descrita, vê-se desprovida de instrumentos, mas, consoante o seu código genético, apresenta motivação para lutar e alcançar o pretendido, ou, muito comum, perecer consequência da “inércia do desespero”.

A Família da classe média (onde milita a minha Família, por enquanto) encontra-se razoavelmente segura, mas não tanto que um azar não possa significar a catástrofe, vivendo em constante estado de ansiedade!

A 27 de Outubro de 2014, o Ministério da Justiça, em resposta à minha providência cautelar de “suspensão da executoriedade de acto administrativo”, ou seja, a suspensão do pagamento da quantia devida do meu ordenado, respondeu, negando a minha pretensão, utilizando argumentário deste calibre:

“[…] 77.º – […] não fez prova sumária/indiciária do prejuízo pecuniário no contexto do seu agregado familiar, nem de que forma se materializa essa irreparabilidade ou dificuldade na reparação […].”

“[…] 78.º – por outro lado, cabe a cada um, perante situações imponderáveis, como as de desemprego ou outras que impliquem perda de remuneração, prevenir-se antecipadamente para as consequências nefastas que daí possa resultar […].”

Importa, Caro(a) Leitor(a), reconhecer que o ponto 78º é bastante sensato e um exemplo a seguir desde a fábula da cigarra e da formiga! Algo que a Sra. Ministra da Justiça da altura, Dra. Paula Teixeira da Cruz, não observou com o “Citius”, mas isso é uma outra fábula para outra ocasião! Continuando …

“[…] 81.º – por fim, o ora Requerente [o Insp. João de Sousa] tem que adaptar as suas despesas à nova realidade da sua vida […].”

Concluindo: “[…] 86.º – Ora, quando foi o próprio requerente que praticou os factos que determinaram a suspensão das suas funções […].” (Esta aqui, até se ouvem os gritos de dor da “presunção de inocência”!)

4 de Janeiro de 2016: ainda não tenho resposta à providência cautelar e estou a seguir o conselho da ex-Ministra da Justiça, estou a adaptar-me à minha nova realidade.

Mas vamos antes à imagem que ilustra este texto.

1996, Cameron Crowe realiza um filme inspirado no agente desportivo Leigh Steinberg, interpretado por Tom Cruise que nesse ano foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor, tendo Cuba Gooding, Jr. sido agraciado com o Óscar para Melhor Actor Secundário.

O filme chama-se “Jerry Maguire”, e a frase, “Show me the money” (mostra-me o dinheiro) tornou-se famosa.

“Show me the money” era a frase que o jogador de futebol americano Rod Tidwell (Cuba Gooding, Jr.) exigia que Jerry Maguire (Tom Cruise) agente desportivo, gritasse.

O filme retrata a transformação do futebol americano em negócio, uma forma de ascensão social económica. Jogar pelo dinheiro e só pelo dinheiro: “Show me the money!!!”

Antes de nos focarmos no busílis da questão, devo informar o Estimado(a) Leitor(a), que considero que as pessoas devem ser remuneradas pelos seus serviços, pelo seu talento.

Não me horroriza nem repugna o quanto ganha o nosso Cristiano Ronaldo. Tem talento, trabalha mais do que a maioria dos outros profissionais do seu ramo e, muito importante, consegue fazer algo que outros não fazem, disponibilizando-se milhões de indivíduos a pagarem para vê-lo fazer o que faz!

Consignado o que anteriormente se expôs, importa agora referir que ao meu advogado, até à presente data, paguei 7 mil euros.

No dia 18 de Dezembro de 2015, há duas semanas atrás, reuni com o meu defensor aqui em Évora, tendo o causídico, ao fim de 20 minutos de visita, no final, mantido esta conversa comigo:

– João, agora algo que sei que o incomoda …

– Força! Dispare!

– O Julgamento vai ser trabalhoso, muitos dias seguidos … precisamos de acordar os honorários …

– Dispare!

– Você vai cair para o lado … – sorrindo.

– Diga lá! Se for mau, logo se resolve … – retribuindo o sorriso.

– 10 mil euros para fazer o Julgamento!

Como um raio, a imagem de Tom Cruise fulminou-me a mente: “Show me the money!”

– Muito bem Santos de Oliveira, depois a minha mulher passa pelo seu escritório, mas não se esqueça que eu preciso das declarações dos meus co-arguidos, do meu IPhone e do IPad! Desde Setembro que estou à espera que você vá ao Tribunal buscar estas coisas.

É muito dinheiro, é pouco? Comparado com o que o recluso famoso que aqui esteve paga em taxas de Justiça, ou mesmo à equipa de advogados e assessor de imagem, é uma ninharia.

Mais, relembre-se o meu Leitor(a) que sou um acérrimo defensor da meritocracia e do devido pagamento a quem se distingue dos demais.

O meu problema é que não tenho ordenado porque presumem-me culpado e não inocente, contrariamente a outros que até foram readmitidos ao serviço (quadros da P.J.) e estão a aguardar Julgamento como eu (caso “Vistos Gold”).

O meu advogado, Dr. Santos de Oliveira, não tem culpa que o sistema não dê resposta à minha providência cautelar, nem é o responsável por eu estar preso preventivamente há praticamente 2 anos (faltam 2 meses) contrariamente ao que acontece com, por exemplo, o sucateiro que foi condenado a 17 anos e está a ser julgado por crimes semelhantes; o Armando Vara condenado a 5 anos e arguido no “caso Marquês”; o Ricardo Salgado que evaporou milhões ou o José Sócrates que muito provavelmente só iniciará o Julgamento em 2017, todos em Liberdade!

O meu advogado sempre me disse para resignar-me, porque o sistema é mesmo assim!

Esta é a postura, a estratégia do meu advogado.

No dia 21 de Dezembro de 2015, fui notificado aqui em “Ébola” para, no prazo de 5 dias, querendo, dizer o que tiver por conveniente quanto à medida de coacção de prisão preventiva a que me encontro sujeito, nos termos do disposto no nº3 do art. 213 do C.P. Penal.

Isto é, o Juiz, sempre que necessário ouve o Ministério Público e o arguido.

Nunca tinha sido notificado nestes termos, faltam (ou faltavam à data) 22 dias para o início do Julgamento, e pensa-se logo: será que é procedimento normal? Será que o Ministério Público promoveu uma medida de coacção diferente? O que se passa?

Telefonei ao meu advogado. Não atendeu.

Tentei no dia seguinte e consegui: “Veja lá o que pode ter acontecido, e por favor responda ao Juiz.” – solicitei, não relevando o facto de, mais uma vez, ter sido muito difícil contactá-lo.

No próprio dia, 22 de Dezembro de 2015, o meu advogado expôs e requereu, em resposta à notificação o que considerou pertinente para a minha causa, ou seja, a alteração da medida de coacção (por terem deixado de subsistir as circunstâncias que a motivaram) pelo menos, pela obrigação de permanência na habitação com controlo por meio de vigilância electrónica!

Óptimo? Não, nem por isso. A argumentação do meu defensor é a mesma – “copy-paste” – da argumentação do primeiro recurso apresentado em 2014! Mas isso nem seria negativo, não fosse a argumentação ser muito fraca e enfermar de superficialidade, convicção que transmiti ao meu advogado, solicitando uma maior sustentação em futuros requerimentos/recursos, anuindo, aparentemente, com a observação.

Desde Outubro de 2015 que não apresentámos mais recursos. O meu defensor considerou que devíamos aguardar o Julgamento, portanto, fiquei sem saber se a anuência foi aparente ou se era de facto aceite a crítica que fiz.

Tinha agora uma oportunidade para confirmar o grau de anuência, o momento é crítico: expor e requerer a solicitação do Juiz, dias antes da primeira sessão de Julgamento, a alteração da minha medida de coacção!

Primeiro: ainda hoje, enquanto estou a escrever este texto, desconheço o porquê da notificação; o meu advogado não consultou o processo, não procurou saber, nem soube explicar-me!

Segundo: foi redigida a exposição por um colega de escritório – tudo bem, é uma sociedade de advogados – mas foi realizado “copy-paste”.

Terceiro: a argumentação, e trata-se de um eufemismo, é muito fraca, sem rigor.

Senão vejamos: é dito que estou preso há cerca de 20 meses! Errado! Estava preso há cerca de 21 (na data da redação do requerimento). Actualmente, há 21 meses e 4 dias.

O meu defensor desconhece há quanto tempo estou preso!

Afirma que a minha mulher “está desempregada e anda activamente à procura de emprego, e dispondo de historial clínico elevado”.

A minha mulher está há três meses a trabalhar, possivelmente só terá vaga até Fevereiro de 2016, mas está a trabalhar. Várias vezes disse que não tinha perfil para fazer de vítima, para vitimizar-me. O meu advogado não ouviu, ou se ouviu, não escutou!

Dizer que por eu fazer parte de um Órgão de Polícia Criminal e ser primário, justifica a alteração de medida de coacção, não basta. Importa é referir que atendendo à hipótese da acusação – eu estar “infiltrado na P.J. ao serviço de uma associação criminosa” – não existe presentemente perigo de continuidade da actividade criminosa estando em casa com a pulseira electrónica!

E o perigo de fuga não está afastado porque já passaram 21 meses. Está afastado porque nunca esteve presente: estive a ser escutado e nunca referenciou a investigação qualquer indício de possibilidade de fuga. Os movimentos de conta, a disponibilidade económica, a disponibilidade de manter casa no estrangeiro ou a ausência de capacidade para tal, isso sim, são argumentos. Desde 2014 que estes e outros argumentos não foram apresentados, desde 2014 até à presente data que são “copy-paste”, os recursos!

Mas está tudo bem. Eu compreendo. Não possuo capacidade económica para manter um advogado presente, interessado, disponível.

Venceram! A minha colega que afirmava que eu devia estar rico quando, feliz, anunciei no departamento de Setúbal que ia ser pai, pela terceira vez, de um “filho-homem”, venceu!

Venceu a ex-Ministra da Justiça quando afirmou que eu devia agora adaptar-me à minha nova realidade!

É irónico, porque inicialmente era co-autor de uma fraude fiscal e branqueamento de capital no valor de 6.6 milhões de euros, tinha um carro de luxo cedido pela organização criminosa e vivia num autêntico castelo!

“Show me the Money!” O personagem de Cuba Gooding, Jr. exigia o dinheiro, gritando com Tom Cruise, porque tinha que alimentar e proteger a Família, a família dele.

Eu não vou mostrar o dinheiro! O meu saldo de conta actual é: 12.665,09€!

Apesar de saber que a vitória sai cara e que a derrota ainda mais cara no fim se revela, prefiro proteger a Família do que ficar com 2.665,09€, para pagar uma estratégia de defesa inexistente!

Não digo que o meu advogado é relapso, apenas afirmo que é um advogado normal para a realidade portuguesa. Nós, que não optamos pela eutanásia, mas que a Lusa Justiça mantém em horrível distanásia, colocamo-nos nas mãos de outrem, pagamos a outrem porque a dor e o desespero a isso obrigam. Sacrificamos o bem-estar dos nossos, comprometemos o futuro das nossas “ninhadas”! Eu vejo isso por aqui em “Ébola”. Recordo sempre as palavras de Maquiavel: “Os homens são tão simples e submetem-se a tal ponto às suas necessidades presentes, que aquele que engana encontrará sempre alguém que se deixe enganar!”

10 mil euros! Não posso dispensar essa quantia consequência daquilo a que a Justiça portuguesa está a sujeitar-me.

Mantive a minha Casa até hoje com a ajuda de pais, sogros, amigos e do que ganhava com as crónicas no CM cujo contrato terminou em Dezembro de 2015.

Possivelmente o meu advogado pensava que eu ganhava rios de dinheiro e era material jornalístico para um Pulitzer! Estava enganado!

Quando disse 10 mil euros, também recordei a “Canção de Lisboa”, nomeadamente a cena em que Vasco Santana, confundido com o médico veterinário do jardim zoológico, fica a saber que o seu sósia ganha 20 escudos por cada observação de animais:

– Caro amigo, ora 20 macacos a 20 macacos, é muito macaco!

E respondeu o guarda do zoológico: “O seu Dr. é que saiu-me cá um macacão!”

Cada deslocação/visita a “Ébola” da minha mulher e da “ninhada”, fica em cerca de 150€ (comida, gasóleo, dinheiro para eu comprar por aqui alimentos, etc). Há dois anos que a minha Família se desloca para aqui!

Estou sem ordenado. A minha mulher deve ficar de novo desempregada em Fevereiro, está a ocupar vaga temporária (Educadora de Infância).

Não fui aumentado como o Ricardo Salgado ou a caução diminuída porque o mesmo experimenta dificuldades económicas.

Não possuo património para vender.

O que vou fazer?

Como ouvi o Prof. Dr. José Fragata dizer: “Quando estamos fragilizados, recorremos à religião, à medicina ou à Justiça”.

Sou agnóstico, logo a religião não faz parte do plano. Estou saudável, logo a medicina é dispensável. Assim sendo, vou recorrer à Justiça! Como?

O meu advogado, Dr. Santos de Oliveira, bastante aliviado pelo que a minha mulher relatou, já não é meu advogado. Vou solicitar, na primeira sessão de Julgamento, a nomeação de um defensor oficioso.

Coitado ou coitada do(a) causídico(a) que vai “cair de para-quedas” no processo, desconhecendo a matéria em apreço.

Se serei prejudicado porque não tenho uma estratégia de defesa? Mas Caro(a) Leitor(a), eu, passados 21 meses e menos 7 mil euros, não possuo nenhuma! Ainda nem tenho acesso às declarações dos meus co-arguidos!

Como vai ser? Dois princípios são capitais em sede de Julgamento: imediação e oralidade!

Ou seja, estar na proximidade do colectivo de Juízes. Ser observado, escrutinado, “lido” na sua linguagem verbal e não verbal; e o depoimento, a oralidade do arguido, o esclarecer dos factos.

In manus tuas, Domine, nas tuas mãos, Senhor. Nas mãos da Justiça!

E o contra-interrogatório das testemunhas, as alegações finais?

A primeira questão vai ser de resolução difícil, a segunda basta o causídico(a) pedir a “sempre costumada” e por mim desejada Justiça!

Claro que preferia ter um advogado como o Proença de Carvalho, ou pelo caminho ter “esbarrado” na Relação com um Rui Rangel, mas cada um é como é e tem o Poder que consegue reunir.

Não vou sacrificar o bem-estar da Família, não vou ceder ao medo e à ansiedade, vou ser racional, vou apresentar-me, vou falar, explicar; e, se por acaso alguma cicatriz se juntar aquelas que agora ostento, serão visíveis todas elas no peito e na face, apresentando-se as costas, imaculadamente integras!

P.S. – A entrevista à CMTV está prevista para o próximo dia 9, sábado, contudo carece ainda de confirmação por parte deste órgão de comunicação. A qualquer momento, logo que a haja, informarei, neste espaço, relativamente ao dia e hora da mesma.