“É a Democracia, Idiota!”

A inspiração para o título deste texto, encontrei-a no título de um artigo do Ricardo Costa (“Expresso”) – “É a Economia, Estúpido” – no qual este faz um exame minucioso sobre a influência das estratégias económicas seguidas e consequente(s) resultado(s).

A respeitosa apropriação dos dizeres que encimaram a matéria do referido artigo, deve-se ao facto de ter experimentado, na semana de 6 a 12 de Agosto de 2015, um sentimento incómodo de revolta, após ler o trabalho jornalístico de Nuno Tiago Pinto e António José Vilela, presente na revista “Sábado”, com o sedutor título: “Um P.J. ao serviço do crime”.

O “Malandro P.J.” sou eu, Caro(a) Leitor(a)!

Fechado no jazigo (cela) aquando da leitura da peça jornalística, numa manifestação inconsciente de puro mimetismo, saiu-me, enquanto rangia os dentes: “Isto é uma canalhice!”

Apercebendo-me que estava a ter um “fanico socrático”, ainda que “quem não se sente não é filho de boa gente”, recuperei a calma, e olhando-me no rectângulo de película espelhada que tenho no jazigo e que serve de espelho (vidro espelhado não é permitido) sosseguei o meu deformado reflexo afirmando: “É a Democracia, Idiota!”.

Democracia que permite a liberdade de expressão, que protege a liberdade de imprensa nos termos da Constituição, democracia que garante o direito de um preso preventivo (acusado de associação criminosa e corrupção passiva) a ter “voz” num “blogue” ou mesmo a ter uma coluna de opinião num jornal diário!

Como é lógico, temos de encerrar em nós, a difícil capacidade de reconhecer o “princípio do respeito próprio” de outrem, admitindo o direito deste opinar de forma diversa, ou mesmo adversa da nossa. Mesmo “sentindo na pele” a crítica (construtiva ou simplesmente derrubante) obrigo-me a ouvir, a dar atenção à mesma, algo que se pode comprovar neste espaço, que é de todos (autor e leitores) não censurando o conteúdo dos comentários que gentilmente se dão ao trabalho de colocar.

Catão alertava-nos: “A amargura dos nossos inimigos, serve-nos bem mais que a doçura dos amigos: aqueles dizem quase sempre a verdade; estes, jamais”.

Atenção ao “quase sempre”!

A imprensa, e a sua liberdade, é um dos pilares da Democracia. A Democracia é o “menos defeituoso” dos sistemas, mas tem as suas limitações, uma delas, segundo Winston Churchill, era descrita da seguinte maneira: “O melhor argumento contra a democracia é falar cinco minutos com um eleitor médio!”

A professora universitária norte-americana, Bonnie Kent, falava assim da Democracia no seu país, farol brilhante da mesma: “Por um lado é maravilhoso que qualquer um possa chegar a Presidente, por outro lado também é assustador que assim seja.” Ainda sobre o mesmo tema diz-se que “estamos na caverna (platónica) e não se trata de um sítio escuro e húmido, é a nossa sala de estar, a nossa Religião, Leis, Civilização (a imprensa incluída!). Ensinamos na nossa escola, ou melhor, oferecemos respostas formatadas para questões fundamentais, tais como o que é a Vida, a Morte, a Justiça. Lecciona-se o Pragmatismo”.

A imprensa democrática apresenta os factos, atribuí o título, fundamenta-se na fonte de onde jorrou a informação.

Contra mim escrevo, contra este “blogue”. Umberto Eco afirmou que a “net”, referindo-se à informação que circula na mesma, é o mais ignorante dos espaços de recolha e partilha do Conhecimento, uma vez que não impera o rigor, o espírito crítico e a reflexão.

Voltando à “Democrática peça jornalística” da “Sábado”.

Considerando que o medianismo da população é incomparavelmente maior que as franjas que contém os “muito cultos” ou os “parcamente instruídos”, quem lê a “Sábado” (e o autor deste texto inclui-se no grupo da população mediana) vai pragmaticamente aceitar aquilo que foi escrito pelo Grande Repórter, António Vilela e pelo Subeditor, Nuno Tiago Pinto, para grande desgosto dos progenitores do Sr. Inspector João de Sousa, e maior dano na imagem deste!

Mas, é a Democracia, idiota! Sem censura!

No tempo da “Velha Senhora” existia o “lápis da censura”, nessa altura eu nunca daria entrevistas à “Sábado”, nunca escreveria o que estou a escrever. Era um tempo negro, opaco, mas muito mais criativo. Se querias criticar Salazar, tinhas de jogar com a palavra.

João Villaret cantava o “Passeio de Santo António”: “Quem me engana ou contradita / Aponto no meu caderno / Vai com cartão de visita / Para as profundas do Inferno / Dizem rivais meus opostos / Milagres são manigâncias / Meus milagres são impostos / Pela força das circunstâncias!”

Claro que apontei no meu Moleskine o facto de o artigo existir, mas não desejo o inferno aos seus autores, nem desejo impor nada. Vou apenas desafiar o António Vilela a conceder-me a oportunidade de contraditar a versão dos factos que lhe ofertaram!

É a Democracia, António!

Mais do que defender a minha imagem, considero fundamental afastar qualquer tipo de suspeição, absolutamente infundada, relativamente a colegas meus, idóneos, profissionais, com muitos anos de serviço na Polícia Judiciária, que partilharam um almoço comigo. Já prestaram declarações no âmbito do processo-crime, não são arguidos, e continuam a ser referenciados nos “média”. A única coisa que os meus colegas partilharam comigo foi uma refeição, ainda que possamos partilhar a mesma falta de deferência por parte da Coordenadora Maria Alice Fernandes.

Considerarem que posso estar, “criminosamente”, relacionado com terceiros porque escutaram conversas ou realizei pesquisas informáticas, pode-se aceitar, agora, num claro exercício persecutório, aventar que colegas meus estão relacionados, é liberdade de expressão a mais!

Afirmar que o Inspector João de Sousa “ter-se-á deslocado”, aqui ou ali, “nas horas de serviço”, é uma clara tentativa de denegrir a imagem profissional do mesmo, sabendo-se perfeitamente que o serviço é permanente.

Informar os leitores da “Sábado” que o Juiz Carlos Alexandre considerou isto ou aquilo, é esquecer, ou não relevar, que o despacho do Juiz foi um “copy-paste” do entendimento do Procurador, Dr. João Davin, e nem poderia ser de outra forma, porque somente duas semanas para realizar a Instrução e sequente debate Instrutório, nem um Super-Juiz!

Mais, se por acaso (e temos que acreditar que assim o foi) a informação resulta da consulta dos autos, e não de informação prestada pela “acusação”, infere-se pela análise do inquérito, e não somente do “blogue” ou da entrevista do Inspector João de Sousa, que não existe prova material que sustente os crimes pelos quais está acusado!

Vamos lá lançar o desafio, a ti, meu Caro António Vilela!

Não considere, o meu Estimado(a) Leitor(a), que por tratar o jornalista da “Sábado” por tu, desprezo o mesmo ou menosprezo o seu trabalho. Pelo contrário.

Conheço o António já há alguns anos, a minha primeira entrevista “com fotografia”, a mesma que aparece sempre nas várias publicações, foi realizada por ele.

Aquando da investigação do “Freeport”, o António solicitou-me um “perfil” da Dra. Maria Alice Fernandes, com o objectivo de compor um artigo sobre a referida investigação, algo que não se logrou fazer.

Muitas vezes almoçámos juntos, menos do que falávamos ao telefone; em inúmeras ocasiões o António solicitava algum tema, relacionado com a Justiça (casos resolvidos, por exemplo) pois não tinham ainda assunto para a secção reservada à temática na revista “Sábado”.

Recordo o lançamento do seu último livro sobre a Maçonaria, tema caro ao António, onde estive presente ao lado dos seus filhos menores, e tive oportunidade de ver e ouvir um profissional emocionado, agradecendo e dedicando mais um livro à sua bonita prole.

Por tudo isto posso tratar o caro António por tu, sem qualquer desdém nas minhas palavras.

Mas não é por tudo isto que lanço o repto ao jornalista, Grande Repórter da “Sábado”, António Vilela (designação que se pode ler na ficha técnica da revista) não é por ser o “pródigo Inspector”, como tu te referias nos telefonemas, nem por me sentir agora o “Inspector pródito”, a razão é democrática: exercício do contraditório!

Sei perfeitamente que as notícias têm de ter “peso mediático”, reconheço que não possuo essa importância (ainda que seja objecto da atenção do Grande Repórter) aprendi contigo, confirmei agora, que se trata de um Quid Pro Quo (dou-te algo, dás-me outro tanto!) mas se não for concretizável somente pela própria virtude do acto, eu concedo:

– Não falamos sobre a violação do segredo de Justiça no meu inquérito, que envolve a “Sábado”, e cujo processo-crime estagnado se encontra desde Abril de 2014!

– Ao contrário do que aprendi com o José, não exijo que as perguntas sejam amigáveis!

– Posso dar-te o exclusivo, e responder à pergunta de “um milhão de dólares”, até porque tu não tens o poder de conceder pulseiras electrónicas: alguém na P.J., avisou o Inspector João de Sousa? Antecipo-te que a resposta é surpreendente (tenho de cativar, não é?).

E posso ofertar muito mais, como por exemplo: posso mostrar-te a página 69 do meu Moleskine, onde vais poder ver “61 tracinhos”, que correspondem às 61 vezes que o Sr. Procurador João Davin proferiu a palavra “efectivamente”, quando foi a sua vez de falar, tendo discursando durante 15 minutos, sobre as provas existentes nos autos.

“Efectivamente pelo que ouvi das escutas, creio, na minha opinião, que efectivamente o Sr. Inspector, faz parte, efectivamente, de uma associação criminosa, ainda que efectivamente não tenhamos colocado elementos a comprovar no terreno, se efectivamente o que se ouvia nas escutas efectivamente se concretizava, pelo que efectivamente não temos elementos no terreno recolhidos; o que não impede de efectivamente afirmarmos que …”

A assistência, cerca de 40 pessoas, começou a rir, cada vez que eu anotava, pelo que fechei o livro quando atingi as 61 repetições.

Não sei se gostas dos G.N.R (Grupo Novo Rock) mas lembrei-me do Reininho: “Efectivamente, escuto as conversas / Importantes ou ambíguas / Aparentemente, sem moralizar!”

A única diferença reside no facto de o Dr. João Davin não considerar as conversas ambíguas, e moralizar desmesuradamente! E moralizar ou interpretar (e não me refiro à canção) não é prova de algum facto!

Se por acaso este ângulo da entrevista não for conveniente, talvez possas trazer um fotógrafo contigo e actualizas a minha fotografia, relevando o facto de 514 dias de reclusão (um ano e cinco meses, no dia 29 de Agosto de 2015) operar num indivíduo transformações físicas, manifestação visível da decrepitude física e psicológica do Inspector João de Sousa, como no poema de Yeats: “tinha agora, tal como eu, o rosto cavo”!

(in, “Entre crianças da escola”, Yeats)

Qualquer coisa como o “Antes e o depois do Inspector da P.J. ao serviço do crime!”

Lembras-te, António, de eu te pedir conselho sobre o doutoramento em Ciência Política, área na qual tens mestrado, aprendi no meu incompleto doutoramento, interrompido pela minha prisão, que na disputa humana o resultado é igual a um jogo de soma zero. Toda a entrevista concedida, onde se mata a reputação do outro, onde se conforma a opinião pública é menos uma oportunidade para a outra parte, por cada parcela de terreno que ocupamos, lançamos outro alguém para fora dela; mas trata-se do contraditório.

E tu, porquê? Porque tu, António, conheces muito bem a minha instituição, desde o topo até à base da pirâmide, porque tu sabes muito bem jogar este jogo, assim como conheces e reconheces as tácticas e idiossincrasias dos envolvidos.

Sai da tua “zona de conforto”, perdoa-me, realiza um pouco de trabalho de investigação sem ser junto dos tribunais ou da P.J. .

Eu estou agora a escrever sem conforto algum, ao lado da sanita existente na minha cela. Aparece, a sala de visitas é austera mas não é desconfortável.

O jornalismo também implica coragem, pensamento “fora da caixa”, e, temos de reconhecer, não vais fazer jornalismo em teatro de guerra, só vens até “Ébola”, proporcionar o contraditório!

Se foi, como diziam os antigos juristas romanos, damnum sine injuria, se as tuas duas peças jornalísticas sobre o Inspector João de Sousa causaram dano sem injúria, sem intenção: melhor! Se assim não foi, agora não interessa, eu compreendo as regras do jogo.

Aparece, porque aquilo que eu mais desejo é que tu, depois de tudo isto, possas realizar uma entrevista ao João de Sousa, ilustrando um caso de sucesso, após a mais abjecta sujeição. Não é preciso, mas estão guardas a vigiar a visita! (É uma piada!)

Como se pode dar o caso de não leres este “blogue”, a minha mulher vai enviar o “texto-repto” para o teu “e-mail”, e eu, aqui, junto à sanita, vou de imediato manuscrever uma petição ao Director do Estabelecimento Prisional, acrescentando o teu nome à minha lista de visitas.

Confessa! Não parece até que estou ainda em liberdade, no serviço, a fazer informações ao Dr. Almeida Rodrigues, com conhecimento à Dra. Maria Alice, a fim de obter autorização para ser entrevistado por ti?

Fico a aguardar. E como nos velhos tempos: “Aquele abraço! “O” Inspector!”

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