A minha carta (aberta) de despedida para a Exma. Sra. Coordenadora Superior de Investigação Criminal, Dra. Maria Alice Fernandes

Cara Dra. Maria Alice Fernandes, que eu vou tratar somente por “Senhora”, como sempre o fiz durante os cerca de 8 anos durante os quais trabalhámos juntos, até ao dia em que fui detido e sequentemente preso, no âmbito de processo-crime cuja investigação a Senhora coordenou.

Chegou ao meu conhecimento a notícia, através do “Correio da Manhã”, que se tinha reformado!

A imprensa que sempre criticou, os “abutres” como a Senhora os epitetava, colocaram fotografia e tudo: Está muito bem. Não se vê a cara!

Como não vou comparecer ao jantar de homenagem/despedida, por razões óbvias, e são duas:

1º – porque estou preso preventivamente;

2º – porque nunca foi minha intenção comparecer (como certamente inferiu através da cuidada audição dos registos das intercepções telefónicas de que fui alvo).

Despeço-me através deste meio que arranjei para conseguir falar, dizer, conversar.

Conversar! Lembra-se? Nós conversámos tanto ao longo destes 8 anos: sobre a actual Direcção da Casa (P.J.) que concordávamos que não fazia nada de jeito – “são uns imbecis João, uns cobardes sem visão estratégica!” – sobre os Inspectores-Chefe do Departamento de Setúbal que, como dizia, “todos juntos não faziam um”, sobre os Coordenadores que colocaram a trabalhar consigo (só alguns porque os outros podiam ser meus amigos!) que não sabiam fazer um despacho, sobre os meus colegas Inspectores que a Senhora desdenhava, afirmando que o único ser que cumpria com os seus deveres no D.I.C. de Setúbal era o gato – “Dakar” – porque era o único que apresentava resultados: Tinham desaparecido os ratos! Lembra-se? Bons tempos!

Mas devo confessar-lhe algo: estou muito sentido e triste com a sua atitude!

Atitude que contraria a notícia sobre a sua reforma. No pequeno panegírico lê-se: “[…] Maria Alice destacava-se no terreno e no acompanhamento de proximidade em todos os casos […]”

É falso. Por isso mesmo estou triste!

Então a Senhora fez-me a desfeita de nunca aparecer durante a minha detenção, o meu interrogatório, antes de me levarem para Évora?

Não me deu oportunidade de a olhar nos olhos, de poder questioná-la como naquele programa de televisão: “que dizem os teus olhos Maria Alice quando me vês como estou agora?”

Nem uma palavra na despedida.

Está bem, está bem, sei o que agora está a pensar: “eu sorri sempre para ele enquanto o investigava, dei-lhe dois beijos na face 30 horas antes de ordenar aos colegas dele para o deterem!”

É pouco, Senhora. Esperava mais! Onde ficou a nossa intimidade e cumplicidade? Ambas construídas durante infindáveis horas em que a ouvia enquanto fumava, impregnando os meus “Hugo Boss” de cheiro a tabaco (os meus “Hugo Boss” que depois foram considerados sinal de “viver muito acima da capacidade económica de um Inspector da P.J.”!) Recorda-se da Procuradora que lhe telefonava a dizer: ”esteve cá o Inspector “Boss”, ou, “se mandar alguém mande o Inspector “Boss”! “A Senhora colocava o telefone em “alta voz” e ria, ria, ria. Bons tempos!

Mas confesso a minha tristeza. Nem uma palavra. Não apareceu ao Inspector João De Sousa, o mesmo que a Senhora dizia que devia ensinar aos colegas como “trabalhar um homicídio”, o mesmo que foi falar com o marido da empregada da sua amiga, porque se alguém consegue através da palavra levar outrem a fazer algo é ele, o mesmo que a Senhora mandava ver as cenas de crime que os colegas tinham antes analisado para que se pudesse entender o que realmente se tinha passado (e eu tantas vezes lhe disse a si que eles não gostavam, e a Senhora dizia-me que o meu ego aguentava tudo isso!)

Aquele que era chamado porque era preciso que o sujeito confessasse!

Nem um cartão de despedida!

Estou a ser irónico? Claro que sim, Senhora!

Eu sei que também sou o mesmo que não lhe foi comprar o tabaco porque isso não está previsto na Lei Orgânica da P.J.!

O mesmo que se recusou a levá-la a casa porque passava as horas a procrastinar a realização do seu trabalho diário, jogando à paciência no computador, pedindo depois ao funcionário de piquete que a transportasse à sua residência, transformando este serviço num serviço de táxi!

O mesmo que não alterava as datas dos relatórios finais quando a Senhora solicitava, tudo porque deixava passar 1, 2 ou até 3 meses os inquéritos em cima da sua secretária, não despachando atempadamente!

O mesmo que se revoltava e sentia desprezo intelectual quando a Senhora afirmava que não se podia dar muita credibilidade a “estas garotas(os)” porque são “a fina flôr do entulho”, “a promiscuidade das casas carenciadas”, referindo-se a vítimas de crimes sexuais!

Aquele que tudo isto e muito mais comentava com colegas, procuradores, jornalistas e que a Senhora escutou!

O mesmo que afirmou diversas vezes que a Senhora não era corrupta, era somente incompetente, incapaz de liderar, inepta na gestão do Departamento. E a Senhora escutou!

Já agora, por falar em colegas: chegou-me que certos colegas, que mantinham conversações telefónicas comigo, com observações “mais duras” em relação à Senhora, viram a sua avaliação de desempenho cair!

Não deve de existir qualquer relação, pois não? A Senhora devia de ser contra a caça e não deveria de acreditar em bruxas!

Onde estávamos? Ah! O mesmo que se recusou, após sua indicação, a ir ao tal indivíduo que com uns pêndulos, umas bolas ou lá o que era, apuraria o paradeiro do empresário encontrado já cadáver na Serra da Arrábida. Lembra-se desta? A Senhora ficou ofendida. Eu sei, não devia ter gozado e propalado a sugestão da Senhora. A Senhora disse, muito ofendida: “eu já resolvi assim uma situação de sequestro e homicídio”. Até agora, aqui, cheio de frio fechado na cela, não consigo deixar de sorrir. Deve ter sido por isto que se concluiu que o caso “Meco” foi o destino!

O mesmo que a criticou rudemente por ter “desfeito” uma sala preparada para inquirir crianças vítimas de abusos sexuais por um simples capricho mesquinho!

Mas a “César o que é de César e à Maria Alice o que é da Maria Alice”!

Tinha razão em relação aos jornalistas. Após mais de 30 anos de carreira, os “abutres” só mencionaram dois casos famosos? Famosos não pelo brilhantismo da sua coordenação. Mas sim por evidenciarem tudo aquilo que o “seu João De Sousa” (deixe-se lá disso porque quando lhe convinha a Senhora tratava-me assim, carinhosamente) dizia ao telefone, isto é, a sua incompetência!

O “Freeport” e o “Meco”. É pura maldade jornalística ou como aprendi recentemente: “canalhice”!

Relativamente ao “Freeport” fiquemo-nos por aqui: horas e horas da Senhora a justificar-se a mim, aos colegas, às senhoras da limpeza do Departamento, para agora, ó suprema ironia, depois de eu ouvir tudo o que ouvi, de ver o que vi, de ser receptáculo involuntário de muita informação que não solicitei, dar por mim a caminhar no pátio da Prisão de Évora com o “muito elegante e vaidoso Sócrates” (como a Senhora um dia se referiu ao mesmo).

Lembra-se de me dizer – a mim e a meio mundo – que a Polícia Judiciária tinha de lhe agradecer o facto de ter sido serena e sensata na coordenação da investigação do “Freeport”?

Ironia das ironias! Se nós os dois conversássemos agora Senhora! Que deleite sentiria eu ao partilhar e confrontá-la com tudo o que escutei atentamente deste lado das grades!

Uma coisa posso dizer ao fim de 2 meses e 9 dias, retratando-me de algumas coisas que já escrevi: o tipo é corajoso! Ninguém o vai calar! O Rosário Teixeira e o Carlos Alexandre que se cuidem! Estou a aprender muito!

Quanto à imagem da P.J. …. temos de acrescentar o “Meco”.

O “Meco”. Nunca considerei a Senhora inteligente. Esperta, sim!

Os dois beijinhos antes de ordenar a minha detenção. Os sorrisos. “Como está a gravidez da sua mulher?”; “Como está a Leonor e a Helena?” Depois, zás! Preso. Malandra, esperta!

Mas não inteligente, porque se tivesse feito com o “caso Meco” o que sempre fez – perguntar ao João – aquilo que eu disse ao advogado das Famílias, Dr. Vitor Parente Ribeiro, no dia em que me visitou aqui no estabelecimento prisional de Évora, ter-lhe-ia dito a si: solicite o exame às Diatomáceas nas roupas do sobrevivo!

Sim, Senhora, fui eu (só à noitinha, não quando lhe chegar a saudade como no fado, mas sim a curiosidade, leia sozinha para ler mais à vontade, leia os textos que publiquei aqui sobre o “Meco”).

Traição! Violação de Segredo de Funcionário! Corrupção!

Nada disso, Senhora. Recorde-se que não distribuiu ao Inspector João De Sousa a investigação. Não se esqueça que eu não tive conhecimento directo do que fazia a investigação.

A Senhora ouviu na “escuta” ao Inspector João De Sousa quantas vezes os jornalistas ligaram para saber algo, ou mesmo para eu explicar os exames que iria a investigação realizar (claramente “fugas cirúrgicas” de informação no inquérito que a Senhora “blindou”).

Não foi nada do outro mundo: Apenas ouvi/li nos “média” o vergonhoso tratamento dado às roupas do sobrevivente e fiz aquilo que sempre disse que a “Madame Tsunami” (ouviu esta alcunha que eu lhe dei nas escutas, foi ou não foi?) nunca fez: raciocinei! Não recorri a cartomantes, não “senti cá dentro” que “A” ou “B” eram culpados, não cedi a pressões. Simplesmente raciocinei!

Já viu Senhora? Quanta dor tínhamos evitado aos pais, aos colegas, aos amigos, ao sobrevivente. Quanto teria ajudado a imagem da P.J. a agora reformada Exma. Sra. Coordenadora Superior de Investigação Criminal, Dra. Maria Alice Fernandes!

Um último reparo. Maria Alice Fernandes, um quadro histórico da Polícia Judiciária, reforma-se, e no último parágrafo da notícia de uma funcionária que deu 30 anos ou mais à instituição, lê-se: “[…] foi Maria Alice Fernandes que determinou no ano passado a prisão de João De Sousa – Inspector que trabalhava no seu Departamento e que é suspeito num caso de fraude com ouro […]”

Resume-se a isto Senhora?! Não saiu muito bem a notícia, pois não?

Optimismo! Sempre optimista! Vejamos: há 10 meses atrás não era só suspeito, não era só fraude.

Era fraude, branqueamento, corrupção, denegação de justiça e prevaricação, peculato, acho até que se não tivesse nascido 10 anos depois, em 1973, se tivesse nascido antes, se tivesse por acaso um amigo chamado Osvaldo, se falasse com ele ao telefone e estivesse em Dallas, era também suspeito de ter arquitectado o homicídio de JFK!

Como deve imaginar a Senhora, não vou desejar-lhe as maiores felicidades para esta nova etapa da sua vida, vou apenas desejar-lhe tudo aquilo que deseja para mim!

Terminando, espero vê-la em tribunal. Até lá!

(6 de Fevereiro de 2015)

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