“A Validação Científica”

Liberdade daqui a: 804 dias!

Acreditem! Peço-vos! Não era suposto voltar ao tema da “silly season” do Director Nacional da P.J., Dr. Almeida Rodrigues.

O objectivo não era continuar a “bater” na notória e vergonhosa falta de cientificidade das palavras do responsável máximo da Polícia Judiciária; mas eles continuam a reiterar no erro!

“P.J. contesta dados do IPMA. IPMA fala de 5% de hipóteses do raio ter causado fogo. P.J. diz ter provas do contrário e alerta para falta de “validação científica”” (in Jornal “Expresso”, primeiro caderno, edição de 8 de Julho de 2017).

Trata-se de uma “magra” coluna do referido jornal, inserida na mesma página que aborda a temática da “tragédia de Pedrogão”, a “paredes meias” (como dizia o outro) com o espaço irónico-satírico “Gente”, onde se ironiza, satirizando, a actualidade social e política.

Invoquemos os Mestres!

“O principal é termos consciência e sermos críticos do nosso ponto de vista, ou seja, evitar, na medida do possível, um viés inconsciente, e por conseguinte acrítico, na apresentação dos factos” (in “A sociedade aberta e os seus inimigos”, Karl Popper)

Como está a Polícia Judiciária a tentar limpar a “borrada” das declarações do seu Director Nacional?

Desacreditando o IPMA que, ao contrário da P.J., já tem um relatório de 120 páginas passível de ser alvo de “testabilidade” e “falsificabilidade”, princípios epistemológicos fundamentais para Karl Popper para lograrmos “cientificidade”. A P.J. tem declarações impertinentes, extemporâneas, ignorantes e inverificáveis, asserções sem sustentação fáctica!

“Não trabalhamos com probabilidades, trabalhamos com factos. Já temos factos e questionamos até as probabilidades apresentadas pelo IPMA. Disse ao “Expresso” fonte da P.J.”

Ah! Afinal estou errado! Afinal têm factos e até questionaram! Questionaram o quê? A tese que o Director apresentou? Não, a dos outros!

Este excerto da notícia é um exemplo da pobre gestão dos danos, da fraca gestão da crise da P.J.: “[…] Disse ao “Expresso” fonte da P.J. […]”

Qual fonte? O Director, baixinho, ao telefone? Alguém do laboratório? O funcionário administrativo? O elemento da segurança? O motorista do Dr. Almeida Rodrigues?

Como é que se pode verificar esta afirmação? Onde está a “testabilidade” e a “falsificabilidade”? Onde está a “validação científica”, indecorosamente invocada pela “fonte da P.J.”?

Aqui está a prova do “colocar do véu de trevas honestas sobre o erro que se cometeu numa qualquer investigação”, de que venho a “falar” (escrever) há três semanas!

Todos nós sabemos que estas “fontes” da P.J., do Governo, da Presidência da República, são informações “dolosamente” prestadas aos média para alcançar algo: branqueamento do erro, de acções/omissões ou tentativas de credibilizar o próprio e descredibilizar outros!

“[…] fontes da investigação garantem ao “Expresso” que as convicções <<não se alteraram um milímetro>> e que foram recolhidas provas forenses para as atestar […]”

Novamente as ocultas fontes inesgotáveis! Mais do que as fontes, convém reter a nossa atenção no caudal de ignorância; atentemos novamente ao Mestre Popper: “O conhecimento subjectivo, exemplificado como <<sentimentos de convicção>> sobre uma teoria ou eventual prova que a sustenta, seria apenas do interesse da ciência se pudesse ser formulado por meio de afirmações públicas, e, preferencialmente, testáveis. Nem a intensidade de tais sentimentos, nem o seu peso cumulativo podiam ser evocados na defesa ou refutação de qualquer afirmação científica” (in “Popper: Filosofia, Política e Método Científico”, Geoffrey Stokes)

Já tinha invocado antes esta passagem mas foi por causa da minha condenação, e, posso estar condicionado pela minha condição, pelo que altero mais do que um milímetro no meu caso, é a postura correcta. A tal “fonte”, numa atitude dogmática, pouco ou nada científica, nem coloca qualquer possibilidade de estar errada!

Afastada “mão criminosa” pelo Director Nacional da P.J., Dr. Almeida Rodrigues, horas após o início do incêndio, como arranjar presentemente alguns “milímetros” para acomodar laboratorialmente os artefactos encontrados no rescaldo dos vários locais do incêndio, artefactos que indiciam “mecanismos manufacturados de ignição de fogos” ?

A 13 de Julho de 2017, na SIC, noticia-se a descoberta de dispositivos no local dos incêndios! Os artefactos foram entregues à G.N.R. que, por sua vez, apresentou ao Ministério Público o recolhido!

O vergonhoso dogmatismo que as ocultas fontes da P.J. apresentam, representa a atitude “pseudocientífica” que procura apenas confirmar a teoria muito cedo apresentada.

Exclui-se tudo aquilo que não confirma ou reforça o “desbocamento” inexplicável do Dr. Almeida Rodrigues!

Voltemos à “magra coluna” do Expresso, depósito do “caudal ignorante” das “fontes ocultas”:

“[…] em causa está o sistema de detecção nacional das descargas eléctricas <<de apenas quatro sensores, e em que só três estavam operacionais, ficando aquém dos padrões internacionais mínimos exigidos para uma cobertura eficaz e, consequentemente, pondo em causa a validação científica>> […]”

A sério, meus Senhores? Querem ir por aí?

Vestígios de material resultante de disparo de arma de fogo!

O Laboratório de Polícia Científica da P.J. (L.P.C.) dispõe de uma perícia (recolha/exame) que permite apurar (cientificamente) a presença ou ausência de vestígios resultantes do disparo de arma de fogo.

Entre nós na P.J.: os “Stubs”!

A recolha é realizada nas mãos, roupa e até pode ser na face ou lesões das vítimas e/ou dos presumíveis autores dos disparos de arma de fogo.

O resultado do exame pode confirmar/infirmar as hipóteses da investigação. Ora, se o resultado da perícia pode confirmar ou infirmar teorias, hipóteses, teses da investigação, a recolha deve ser realizada por forma a “cobrir” todas as possibilidades de explicação do evento que se investiga!

Consequência da contenção de despesas, e, em abono da verdade tem que se dizer, da irresponsabilidade e falta de cientificidade de quem dirige o L.P.C., assim como de quem dirige a Polícia Judiciária, todos os departamentos e Direcções receberam uma ordem superiormente emanada, que alterava os procedimentos de recolha, impondo contenção na utilização dos “Stubs”, devendo os peritos e os Inspectores realizar “recolha direcionada”, ou seja: se achar, se tiver a convicção de que se trata de um suicídio faça só a recolha versão “A”, se considera ser homicídio faça a recolha “B”, se não considerar estas hipóteses: “poupe no material que a Direcção agradece!”

Meus caros, se o exame é para infirmar/confirmar a “convicção”, vamos condicionar a resposta final da perícia por aquilo que acreditamos falivelmente, ser, à priori, a explicação para … o homicídio… ou o incêndio?

Validação científica”?Padrões mínimos exigidos internacionalmente”?

“[…] Porque olhas para o argueiro no olho do teu irmão e não prestas atenção à trave que está no teu próprio olho […]”. E nem é preciso invocar o Crucificado, porque a todos Vós que estão a ler, quando referi a perícia dos “Stubs”, a primeira e célere associação mental que fizeram foi com o caso da minha colega Inspectora, Sra. Ana Saltão; não foi?

Como apelar à falta de “validação científica” de terceiros quando a “custódia da prova” é um assunto vago e distante na P.J.? Não é? Se não é, se observam a “custódia da prova”, como é que se justifica o tratamento dado às roupas do sobrevivente do “Caso Meco”?

Como explicar o facto de semanas após o exame à cena de crime do “Caso Ana Saltão”, encontrar-se mais uma cápsula de munição deflagrada?

Validação científica. Após as declarações do Director Nacional da P.J., Dr. Almeida Rodrigues, tudo se pode dizer, toda a dúvida é pertinente!

João Duque, no caderno de Economia do jornal “Expresso”, edição de 8 de Julho de 2017, na sua coluna de opinião “Confusion de Confusiones”, com o título “O plano inclinado”, homenageia a memória de Henrique Medina Carreira, o “pessimista esclarecido”. Lê-se: “Ao contrário de todas as investigações que se fizeram em Portugal que eram lentas, consumidoras de enormes recursos e sempre inconclusivas, no caso do terrível fogo de Pedrogão Grande um só Inspector da P.J. chegou, cheirou, mirou e em coisa de minutos declarou que a origem do incêndio foi um raio que fulminou a árvore. Abençoado P.J.! Este homem merecia uma medalha no 10 de Junho! […]”

Alvo de chacota a P.J.? Responsabilidade do seu insensato Director Nacional!

Certo! Reconheço! Estou condicionado pela minha reclusão, não estou a ser imparcial, “cientificamente equitativo”! Muito bem, os próprios falam por mim: revista “Sábado”, edição nº 688, de 6 a 12 de Julho de 2017, reportagem de Tiago Carrasco sobre o Laboratório de Polícia Científica da P.J., declarações de peritos e do Exmo. Sr. Director do L.P.C., Dr. Carlos Farinha.

“Quando os testes do L.P.C. são inconclusivos, o que acontece em 15% dos casos de NSP, as substâncias são enviadas para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa ou para a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, que têm técnicas mais potentes e caras, como a ressonância magnética nuclear […]

O IPMA fala em 5% de hipóteses do raio ter causado o incêndio. A P.J. refere 15% de “inconclusivos” consequência de incapacidade técnica, mas, o que verdadeiramente preocupa não são os 15%, é a validade científica dos restantes 85% !!!