“Ena pá! Tanta gente que eu conheço!”

Liberdade daqui a: 367 dias!!!!

Setembro! Um mês especial para mim: nasci em Setembro! Nasci em Setembro e este ano, após 3 anos sem festejar a data junto dos meus, no quarto ano de reclusão, vou comemorar com aqueles que amo (depois eu conto-Vos como foi, eu “mostro-Vos” neste espaço!)

Setembro, mês especial para mim, mas este Setembro de 2018 ainda mais! Sentado, fechado no meu “jazigo” de “Ébola”, a ler, a televisão capta a minha atenção: “rentrée” do ano judicial!

Com um grafismo muito engraçado e de fácil assimilação, a RTP informa-nos das datas dos vários processos-crime que vão iniciar, continuar e, quiçá, terminar.

O apontamento jornalístico chega ao fim após 5 minutos e de imediato este texto surge na minha cabeça! O título foi fácil, apenas tomei nota da interjeição que deixei escapar à medida que ia vendo as fotos dos envolvidos: “Ena pá! Tanta gente que eu conheço!”

Tanta gente, tantos figurinos que eu realmente conheço porque trabalhei com eles ou adquiri conhecimento através daqueles que os investigaram, ou, muito melhor, conheci-os em ambiente prisional, sem o verniz habitual, sem máscara, crus, despidos no meio da miséria comum.

Os colegas da P.J., Sócrates, Manuel Palos, Orlando Figueira, Paulo Pereira Cristovão e co-arguidos (elementos da P.S.P.), todos estes por aqui passaram e penaram.

Duarte Lima, Armando Vara, João Rendeiro, Oliveira e Costa, Paulo Lalanda e Castro, Secretários de Estado, o Sport Lisboa e Benfica, o meu Sporting Clube de Portugal, e outros que também referiram, como por exemplo o “super-espião” Jorge Silva Carvalho ou Carvalhão Gil (só espião, sem o “super”): tanta gente que eu conheço!

Esta gente foi investigada, constituída arguida ou até julgada na mesma altura que eu: 2013, 2014, 2015! A alguns a Justiça “alcançou” mais cedo (v.g. Dias Loureiro, 8 anos de investigação e arquivado; João Rendeiro (BPP) investigação desde 2008; Oliveira e Costa (BPN) investigação desde 2008). Talvez afirmar que a Justiça “alcançou” estas figuras seja um exagero da minha parte, admito-o!

Entretanto, após tomar nota de algumas ideias para este opúsculo que agora Vos deixo, instalou-se em mim, paulatinamente, um desconforto pesado. Uma sensação incómoda que se materializou quando li estas palavras de Eduardo Dâmaso, no seu espaço de opinião na revista Sábado (edição nº 748): “[…] Num país em que aplicar uma pena de prisão efectiva demora 4 ou 5 anos e é atrasada por recursos que só os ricos podem pagar, construir um M.P. controlado politicamente é um crime de lesa-pátria.” (título do editorial: “A guerra contra Joana Marques Vidal”).

Com a sensação desconfortável materializada sobre os meus ombros, percebi o que me incomodava: Eduardo Dâmaso tem toda a razão, excepção feita no meu caso!

A 30 de Janeiro de 2015, neste espaço, escrevi: “Desde o primeiro momento que disse à minha Família e amigos que iria penar o tempo todo de todos os prazos! Sempre afirmei e reitero agora, que a minha acusação “sairá” na vigésima quarta hora do último dia. Até apostei um almoço!”

(texto: “Inspector João de Sousa da P.J., também conhecido por Grande Mestre da Ordem dos Magos e dos Feiticeiros”)

Ao contrário de todos aqueles que Vocês também conhecem, eu, João de Sousa, ex-Inspector da P.J., condenado a prisão efectiva pela prática dos crimes de Corrupção e Violação de segredo de Funcionário, esgotei o prazo total de prisão preventiva!

Eu, João de Sousa, último rosto condenado pelo crime de Corrupção em Portugal nos últimos quatro anos e meio (corrupção na forma de uma promessa patrimonial futura) ao contrário destes que todos Vós conhecem, apresentava real perigo de fuga, continuação da actividade criminosa e perigo real de perturbação da ordem e tranquilidade públicas!

Eu, João de Sousa, em razão da natureza e circunstâncias dos crimes que pratiquei, assim como em razão das características da minha personalidade, nunca poderia (nem pude) aguardar o meu julgamento sem estar sujeito à medida de coacção mais gravosa: prisão preventiva!

Todos os outros que agora protagonizam a “rentrée” do ano judicial possuem menos influência e protagonismo no espaço público, político ou institucional que o João de Sousa!

Os crimes da mesma natureza que o João de Sousa praticou e pelos quais foi condenado, são menos graves no caso de todos os outros que aparecem de novo na agenda dos média!

A capacidade de fuga, manipulação de provas/testemunhos ou a influência nos média de um José Sócrates, não é nada comparada com o “ex-Inspector Hugo-Boss” da P.J.!

Os valores em euros no caso de Ricardo Salgado, são “peanuts” quando comparados com a “promessa de vantagem patrimonial futura” do, definitivamente, corrupto João de Sousa!

Vejo toda esta gente lá fora, livre, a enfrentar o seu Julgamento em liberdade! Eu, perigoso criminoso, ia algemado (ainda que bastante elegante!) com escolta: “Posso ir urinar Sr. Guarda?”

Recursos e recursos! Vírus nas escutas! Armando Vara está, desde o trânsito do seu recurso no Tribunal da Relação, a pedir esclarecimentos, nem sequer é um recurso!

31 e Julho de 2017, texto “(In) Justiça ad hominem: “Lembram-se (quem acompanha este blogue semanalmente) de eu afirmar que os meus prazos para a liberdade nunca se esgotariam e os prazos de privação da mesma seriam “religiosamente” observados? Desta forma o “tipo vai penar mais”!”

O Armando Vara, desde esta data – Julho de 2017 – anda a pedir esclarecimentos!

Neste mesmo texto – “(In) Justiça ad hominem – relato a conversa que mantive com a minha defensora-oficiosa (“Recursos que só os ricos podem pagar”, Eduardo Dâmaso dixit) na qual esta garantia-me que o prazo da prisão preventiva ia ser ultrapassado e eu iria para casa aguardar o resultado dos recursos, como é habitual, em liberdade.

– Olhe que não, Dra.! Eles vão resolver isto rapidamente! – afirmei sereno.

“[…] Dia 14 de Julho de 2017, sexta-feira, a reclamação é enviada às 21h30; na segunda-feira, 17 de Julho de 2017, é manuscrito o despacho de 12 linhas”

O Armando Vara, desde esta data, em liberdade, ainda aguarda os esclarecimentos solicitados pelo seu advogado. Atenção! Esclarecimentos, nem sequer é um recurso! Mais de um ano para esclarecer; o corrupto João de Sousa: 72 horas, num fim-de-semana e com greve dos funcionários judiciais! É obra!

Já “oiço” os comentadores “Anónimos” a dizerem: “Miserável, não te compares com esta gente, quem és tu, tu és corrupto!”

Muito bem! Então o que dizer do meu co-arguido, condenado a 5 anos e 6 meses como eu, e que se encontra em liberdade, após ter visto ser revogada a medida de coacção (que também era a mais grave: prisão preventiva) desde 15 de Março de 2017 (liberdade plena) e que ainda não tem resposta ao recurso interposto, encontrando-me eu a cerca de um ano do final da pena?!?

Mas o que terá este ex-Inspector da P.J. corrupto (eu, João de Sousa) que toda esta gente conhecida (e até desconhecida, como o meu co-arguido) não tem?

Ou será que ele, o ex-Inspector corrupto, não tem e os outros têm?!?

Recordam-se do que denunciei aqui sobre os “sorteios aleatórios” da 9ª Secção do Tribunal da Relação de Lisboa?

Lembram-se de eu afirmar que o Juiz Carlos Alexandre era sempre sorteado para os casos que “davam jeito” à P.J.?

Não se esqueceram do que Vos relatei sobre a “Instrução” no meu caso, presidida pelo “super-juiz” Carlos Alexandre, pois não?

Na altura, um daqueles que eu conheço e que por aqui esteve uns tempos, encontrando-se agora em liberdade a aguardar julgamento, foi presente ao juiz Carlos Alexandre. Na ocasião falaram deste blogue, tendo o “super-juiz” dito que iria diligenciar junto da Direcção dos Serviços Prisionais no sentido de apurar se José Sócrates realmente gozava de tratamento privilegiado aqui em “Ébola”. Mais (inusitadamente) disse o Dr. Carlos Alexandre: informou o então arguido detido preventivamente que era ele o responsável pela instrução do meu caso e estava a aguardar o Dr. João Davin (Magistrado do Ministério Público responsável pela fase de inquérito e pela acusação) para discutirem o processo!!! Onde está o sorteio?!? Isto passou-se semanas antes de eu ser notificado! Onde está a equidistância do juiz dos Direitos, Liberdades e Garantias?!?

Vem agora o Vara, o Carlos Santos Silva e o José Sócrates falar de “sorteios aleatórios”?

Vou aguardar pacientemente (não posso fazer mais nada, por agora!) para ver o que isto vai dar! Será que com eles vai ser diferente?!?

Escrevo este texto a 8 de Setembro de 2018. Como já Vos disse, assim tem de ser por causa dos “CTT” e afins. Estou preso, ainda, sou anacrónico, estou recluído, sou pária, estou de fora. Vou aguardar para ver o desfecho de tudo isto, atentamente!

Ena pá, Tanta gente que eu conheço!

Deixo-Vos o enorme António Aleixo:

“Sei que pareço um ladrão…

Mas há muitos que eu conheço

Que, não parecendo o que são,

São aquilo que eu pareço”

Presumivelmente, no caso “deles”, claro!

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4 thoughts on ““Ena pá! Tanta gente que eu conheço!”

  1. Excelente texto!
    Está tudo dito inspetor João, por dizer as verdades e as coisas como elas são é que está aí fechado! É esta a democracia que temos… vergonhoso!
    Enquanto o seu ex-colega de prisão Exmo Sr. Sócrates e outros vão passar férias para onde bem lhes apetece, o inspetor com a ninhada para criar (3 filhos) não recebe um único subsídio, nem qualquer tipo de ajuda, para os ajudar a educar.
    Mas tenha calma Caro João, porque está quase a acabar o seu martírio e pense no seguinte amigo: cá se fazem cá se pagam, porque Deus não dorme e vai encarregar-se de castigar quem o colocou nessa situação.
    Abraço

  2. Como é possível!?
    Fica a questão.
    Pode não saber fazer mais nada, ou até nem fazer nada bem feito, mas escreve bem!
    Parabéns pelo excelente texto.
    Força…

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