“A Medicina do refugo”

Liberdade daqui a: 423 dias!!!!

Foi coincidência! Eu não tenho “contactos”, eu estou preso, isolado, recluído! Não inventem!

Não venham agora dizer que eu sou, de facto, tentacular e perigoso!

Quando na semana passada Vos deixei que iria “falar” sobre os “Serviços Clínicos de “Ébola””, não sabia que a Ministra da Justiça e o Ministro da Saúde, numa perfeita sinergia, iam propalar orgulhosamente aos sete ventos que os médicos vão passar a ir às prisões para despistar e tratar enfermos com VIH e hepatites várias: o fabuloso “programa para eliminar a hepatite (e outras) nas prisões”.

Isto foi pomposamente noticiado no dia 16 de Julho de 2018, segunda-feira, mas seis dias antes, para reconfortante sossego da nossa nação que tão evoluída se acha que até se preocupa com o “refugo da sociedade” (os reclusos), a Ministra da Justiça – no dia 10 de Julho de 2018 – declarou que o problema de falta de pessoal médico nas prisões está resolvido. Garantia da Exma. Sra. Ministra da Justiça!

Claro que todos Vós ficaram orgulhosos do Vosso país: até com estes que nada merecem a governação se preocupa! Alguns até foram mais longe, concluindo: se com o refugo assim é, então com todos Nós melhor será!

Como é óbvio a realidade desmente esta farsa! “Urgências na mão de aprendizes. Médicos ainda em formação asseguram sozinhos serviços e cuidados SOS”; “Sem camas, remédios ou exames”; “3,5 milhões sem radiologistas”; “Até falta água oxigenada”! Títulos e artigos da imprensa portuguesa!

Vamos lá ser honestos intelectualmente: se Convosco, cidadãos cumpridores, pais de família, filhos, irmãos, mães e afins em liberdade a coisa está neste estado, imaginem como é aqui com o rebotalho, com a escória, com o resto que ficou depois de escolhido o melhor e aproveitável!

No dia 16 de Julho, a Ministra da Justiça, de forma sentida e convicta debita: “As pessoas perdem a liberdade mas não podem perder a dignidade!”

Relembro-Vos: 22 de Agosto de 2015, texto “(In) Dignidade humana”. A imagem que ilustra esse texto é a digitalização de uma autorização manuscrita por um recluso do E.P. de Évora.

Lê-se: “Eu, “x”, autorizo João de Sousa a publicar a minha situação prisional e clínica no seu blog ou outro meio de comunicação. Estou desesperado. Évora, 16 de Agosto de 2015”

Esta pessoa recluída por ter praticado crimes, andava algaliado (com o saco da urina pendurado) caminhando pelas alas deste estabelecimento prisional, arrastando-se, portador do vírus HIV, com mais uma dou duas hepatites, necessitando de ingerir cerca de 30 comprimidos por dia. A situação arrastou-se durante semanas!

Eu escrevi no “Correio da Manhã” sobre esta indignidade, o sujeito nunca foi hospitalizado.

Fruto da vergonhosa inépcia da anterior direcção deste estabelecimento prisional, por vezes epitetado de especial, alguém foi privado da liberdade e da dignidade!

A situação ficou como tinha de ficar acabando por se “resolver”, e a única acção, o único resultado palpável (dolorosamente palpável) foi o castigo de 6 dias que me aplicaram por ter denunciado a situação: 6 dias isolado com 2 horas de “céu aberto” diárias!

Consequência directa da falta de capacidade técnica do corpo dos guardas prisionais (capacidade que deveria ser assegurada pela Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais) faleceu neste E.P., no dia 30 de Junho de 2015, João Carlos Fonseca Furtado. “O preso nº 2” é o título da primeira crónica que escrevi no “Correio da Manhã”. Denunciei o sucedido. Aqui no blog podem ler o que sucedeu: “O preso nº 2 e o desafio de Sócrates”!

Sabem o que é que mudou, o que evoluiu desde a morte de um ser humano recluído em pleno século XXI? Eu digo-Vos! A capacidade técnica do corpo dos guardas prisionais é a mesma (a D.G.R.S.P. não os dotou de “saber-fazer” para resolver incidentes como o do recluso nº2); a actual Directora colocou os “botões de pânico”, existentes no interior das celas, a funcionar!

Já é algo, o pior é se eu necessitar de manobras de reanimação: vou morrer de certeza!

Estou armado em Medina Carreira? É tudo negativo? Agora vai ser diferente porque já existem médicos e programas especiais?

Estimadas e Estimados, o que agora o Governo veio anunciar já está previsto na lei desde 1999: Lei nº 170/99, de 18 de Setembro (Doenças Infecto-contagiosas em Meio Prisional)!!!!

Observem o artigo 8º da lei referida: “A presente lei entrará em vigor com a aprovação do Orçamento do Estado para o ano 2000”. Hilariante! É tudo uma farsa!

Agora é que vai ser, oiço-Vos dizer! Mais vale tarde que nunca!

Vamos lá então à praxis, à realidade sentida e vivida, dolorosamente sentida na pele!

Egótico como sou, sempre achei que o meu sangue seria diferente, talvez azul. Mas não, o meu sangue é diferente porque “tenho” microcitose! Não se preocupem as poucas donzelas que “conheci” na vida, não é contagioso ou mortal: os meus eritrócitos (vulgo glóbulos vermelhos) são mais pequenos que o comum dos mortais. Infelizmente, as questões de tamanho nunca foram o meu ponto forte!

Desde o ano passado que vou a consultas de hematologia no Hospital do Espírito Santo, em Évora, tudo porque a médica do estabelecimento prisional de “Ébola”, após observar o resultado das análises que periodicamente realizo, disse-me, taxativamente: “O senhor tem leucemia!”

A “Sra. Dótora” não é portuguesa, e não tem qualquer importância o facto, excepto no plano da comunicação. Por vezes não a entendo.

“Leucemia, eu!?!” A anamnese (conjunto de informações recolhidas pelo(a) médico(a)) responsabilidade da “Dótora”, realizei eu: expliquei-lhe a microcitose já há muitos anos detectada e conhecida, a herança genética do meu pai, etc, etc.

“Não!!! Leucemia! – peremptória – pouco ferro também no sangue, é oncológico!”

“Sra. Dra., eu estou a seguir a dieta “ovo-lácteo-vegetariana” há um ano, mas o ovo nunca aparece! Aqui o vegetariano é só massa…” – pacientemente explicava

“Porque come isso?! – agora zangada – Come carne, carne bom!”

A “Dótora” ficou com a dela, eu com a minha, mais as consultas de hematologia nas quais confirmou-se a microcitose, assim como (através da electroforese das hemoglobinas) uma “beta-talassemia minor”. Calma, também não é contagioso! É um defeito genético hereditário (Quem diria? Além de criminoso também com defeito genético!) responsável pela síntese de globinas, as cadeias proteicas constituintes da hemoglobina: os meus glóbulos vermelhos são frágeis!

Tudo é provocado por uma alteração no gene que regula a produção da “globina beta”, nomeadamente no “cromossoma 11”. Vá, não brinque, Caro(a) Leitor(a)! Não é o “gene responsável pela corrupção”, claro que não!

Muito bem, tudo resolvido: a “Dótora” com a dela, eu (e a especialista em hematologia) com a minha!

Calma, ainda há mais! Dia 9 de Julho de 2018, 2ª feira, 18h30 (faltam 30 minutos para ser fechado na cela até às 8h do dia seguinte) sou chamado pelo guarda para ir à médica.

A “Dótora” viu as análises que foram analisadas pela hematologista e com uma “cara de caso”, no seu português cirílico, sentencia-me: “Sr. tem de fazer endoscopia ou colonoscopia, tem de se marcar!”

– Como!?! – eu, contraindo os glúteos enquanto imaginava instrumentos com muito lubrificante a invadir-me.

– Tem doença que faz perder sangue, tem de saber porque depois tarde demais! – decidida

– Mas faltam-me somente 14 meses para sair em liberdade! Eu faço depois lá fora, aos 50 anos, quando tiver que ver como está a próstata! – ironizando.

– Não tem tempo! No máximo 3 meses… – resoluta

Caro(a) Leitor(a), isto é a “Medicina do refugo”! esta é a realidade e, se forem honestos, nem podia ser de outra maneira: se Vocês penam aí fora, não devemos nós penar mais aqui dentro?

Esta “Sra. Dótora” já diagnosticou a outros reclusos: “probabilidade de hepatite”; “Falência renal”. A um que tinha uma irritação na virilha, diagnosticou diabetes; a outro que estava constipado: possível enfisema pulmonar por causa do tabaco (o sujeito não fuma!!!!).

Tudo isto é uma farsa! Ansiolíticos, e cascatas de radicais químicos que estão na base dos hipnóticos e sedativos do sistema nervoso, são a solução para todos os problemas na prisão!

Uma pomada para as dores não existe! O mais básico falta! Mas, o pior de tudo é que em “Ébola” (uma prisão especial com somente 40 reclusos, imaginem as outras) a médica que nos recebe saudáveis, devolve-nos à cela moribundos!

O pessoal recluído já evita ir à “Sra. Dótora”! Ou quando vão, depois dirigem-se à cela do “Judite”: “Sr. João não goze; você percebe disto até porque fazia autópsias!”.

– Meus senhores, eu não “fazia”, assistia, e, muito importante, estavam mortos, não estavam vivos e presos!

Imaginem Vocês que o João de Sousa tinha uma “inclinação para a hipocondria”, como o nosso Presidente da República? Coloquem a seguinte hipótese: o João de Sousa, consequência do ambiente em que se encontra, agravou a sua normal neurose e, perante os escassos três meses que a “Sra. Dótora” prognosticou, acrescido da inevitabilidade dolorosa da colonoscopia, entrava em pânico na solidão da sua cela? Como é que era?

Bom, até era fácil: a “Sra. Dótora” prescrevia um exagero de ansiolíticos, hipnóticos e sedativos, e eu, feliz e contente, nem sentia a introdução do “artefacto” aquando da colonoscopia!

Por favor, acendam uma “velhinha” por mim porque faz-me muita falta!

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s