“Maddie e a P.J.”

Liberdade daqui a: 874 dias!

 

Breve anotação prévia: Um beijo muito grande, carregado de Força e Amor, para ti, mãe “Ju”, no dia da mãe e nos outros dias também. Força para mais uma batalha, desta vez com “armas químicas”! (Espero que as Nações Unidas não censurem e penalizem o recurso às “armas químicas”; é por uma boa causa!).

“Paradoxalmente, é mais fácil construir uma história coerente quando se sabe pouco, quando há menos peças para encaixar no puzzle. A nossa reconfortante convicção de que o Mundo faz sentido baseia-se num alicerce seguro: A nossa capacidade quase ilimitada de ignorar a nossa ignorância.”  (Daniel Kahneman, “Pensar depressa e devagar”).

– A Polícia Judiciária é uma das melhores polícias do mundo! – o professor.

– Claro! Eu admiro muito o vosso trabalho. – uma aluna.

– Uma das poucas, senão a única instituição portuguesa que funciona! – um aluno, com a restante turma a aquiescer com meneio sincrónico da cabeça.

– Não, não somos! – o professor, testemunhando a habitual expressão de assombro e incredulidade.

– Acompanhem-me! O “Estripador de Lisboa”; “O caso Joana”; “O caso Maddie”; “O Freeport”, “O caso Meco”… O que acham agora?

– Pois… de facto é verdade… – um ou uma aluno(a) mais ousado(a).

Aquando da realização da busca domiciliária de que fui alvo, os meus colegas apreenderam os suportes informáticos que encontraram, nomeadamente uma “pen” que continha, em formato digital, os inquéritos relativos ao “Caso Joana” e ao “Caso Maddie”. Foi um jornalista que me facultou. Como vocês devem saber, os jornalistas constituem-se assistentes nos processos mediáticos.

Em minha casa, também se encontrava (e pode-se encontrar porque não foi apreendido) em papel, o inquérito relativo ao chamado “Estripador de Lisboa”.

Estudei os três casos.

Há uns anos atrás, a Escola da P.J. abriu concurso para formadores. Concorri.

Fui entrevistado pela Directora e subdirectora à data.

Solicitado a apresentar propostas para formação, propus estudo e análise do erro em casos por resolver, o que na literatura especializada se designa por “Cold Cases”.

– Casos como a “Maddie”, “O Estripador”, “A Joana” ou mesmo o “Rei Ghob”. – avancei eu, confiante.

– João, isso é complicado, isso não é aconselhável porque vai melindrar os colegas!

Desta vez fui eu que apresentei a expressão de incredulidade e assombro.

Em Fevereiro de 2010, na cidade de Seattle (E.U.A.) participei numa “Workshop”, na 62º Reunião Anual da Academia Americana de Ciências Forenses. Tema da “Workshop”: “Introdução à Percepção, Efeitos do Observador, Viés e Expectativa na Ciência Forense” (“Introduction to Perception. Observer Effects, Bias and Expectation in Forensic Science”).

Após expor o que vinha fazendo ao nível da cena de crime e investigação de homicídios em Portugal, depois de informar/discutir a “Teorização da minha prática diária”, sou convidado para fazer parte da Academia Americana de Ciências Forenses.

Fevereiro de 2012. Atlanta (E.U.A.). Participei na “Workshop”: “ A anatomia do erro: análise de eventos adversos objectivando o fortalecimento das Ciências Forenses” (“The anatomy of error: Dissecting Adverse Events to Strengthen the Forensic Sciences”).

É nesse ano que publico, teorizando o experimentado na minha actividade enquanto Inspector de Homicídios da P.J., “One murder case: Advantages of a Holistic Approach in Forensic Science” (“Um caso de homicídio: vantagem de uma abordagem holística na Ciência Forense”).

Esta semana, no dia 3 de Maio de 2017, completaram-se 10 anos desde que Madeleine McCann desapareceu. Todos nós vimos o desfilar televisivo dos envolvidos directamente na investigação do caso, os responsáveis máximos da instituição que investigou, e, os comentadores que também, directa ou indirectamente, se envolveram na questão.

Relativamente aos comentadores, com a devida vénia, não vou relevar o que postularam porque logicamente são desconhecedores, ainda que alguns até tenham sido meus professores, nomeadamente o Professor Paulo Sargento, indivíduo ponderado, sensato, conhecedor, que não cede ao sensacionalismo ignaro e tem aflorado questões pertinentes.

O que de facto (a mim) interessa é a minha instituição P.J., o Ministério Público e os reais e dolorosos exemplos da infeliz “capacidade quase ilimitada de ignorar a nossa ignorância”!

Comecemos pelo topo da hierarquia: Dr. Pedro do Carmo, Director-adjunto da P.J.

Passados 10 anos, conforme Pedro do Carmo declarou na televisão, uma equipa da P.J. do Porto continua a investigar, mas o Director-adjunto não explicou que linha de investigação está a ser seguida. Uma coisa apenas é certa e adquirida: o casal McCann não tem responsabilidades no sucedido. Seja lá o que for que tenha sucedido!

Algo muito importante.

Após os “colegas do Sul” investigarem o desaparecimento da menor, a Direcção Nacional da P.J. decide criar uma equipa especial, de Lisboa, para ficar responsável pela investigação.

Objectivo: sanear (ou sanar?) o processo. Curioso que “sanar” também significa “tornar apto para a cultura”. Era desejo da Direcção tornar apto para qual “cultura”? A portuguesa? A inglesa?

Continuando. Todo e qualquer desejo de conhecer, todo e qualquer exercício de descoberta científica, obedece a regras, parâmetros. O conhecimento científico não obedece a crenças, nem medra em solo de “conhecimento subjectivo”.

Algo muito importante: a Polícia Judiciária não tem padronizado o procedimento a realizar em cenários de homicídio ou mesmo em casos de desaparecimento; verificando-se esta gritante lacuna numa polícia do Séc. XXI que se auto-designa científica! O que foram os colegas de Lisboa fazer ao Sul? Não existindo um procedimento, um guião que pudessem verificar se os “colegas do Sul” observaram, como podem inferir o que foi feito ou deixaram por fazer? Não existindo método, não se pode testar, conferir o mesmo! Quando o Director-adjunto, Dr. Pedro do Carmo, declara nas televisões que estão a investigar, que estão a contemplar todas as possibilidades (10 anos depois!) deve estar a “falar para inglês ver”!

Na imprensa escrita lemos: “[…] os resultados são pouco mais que zero […] muitas pistas ficaram por seguir, por falta de provas ou do “timing” certo […] uma nova equipa de investigadores vindos de Lisboa abriu mais linhas de investigação […]” (in revista “E”, Jornal Expresso”, edição nº 2322, de 29 de Abril de 2017).

Não poderia ser de outra maneira quando, “Ao contrário das regras dos filósofos da ciência, que aconselham a testar as hipóteses através da tentativa das refutar, as pessoas (e os cientistas muitas vezes) procuram dados que serão provavelmente compatíveis com as crenças que detêm no presente […]” (Daniel Kahneman, ibidém).

Quando o Director-adjunto afirma que o “Caso Maddie” foi único, nunca algo tinha ocorrido como nesta ocasião, revela uma ignorância inexplicável porque esquece o “caso do Rui Pedro”; a não ser que queira significar que o caso da Maddie é diferente porque foi mundialmente propalada a incapacidade da P.J.!

Mas vamos mais acima: “Foi fácil arquivar, apenas duas linhas. Se até hoje não descobriram nada é porque eu tinha razão!” (Dr. Pinto Monteiro, à data dos factos Procurador-Geral  da República, em entrevista à SIC, “Edição da Manhã”, 3 de Maio de 2017).

Mais uma vez tenho razão: o Ministério Público só faz o que a P.J., nos seus relatórios, nas suas conclusões, considera que deve ser feito.

Não existem mecanismos de controle de qualidade, não existe conhecimento, capacidade crítica para avaliar desempenho: se nasceu torto, torto ficará; pois é sabido ser impossível tornar direita a sombra de um pau torto!

“Após realizadas as diligências que na altura se mostraram necessárias e adequadas, procedeu-se a uma análise minuciosa da prova obtida e concluiu-se que não existiam elementos que apontassem, com um mínimo de probabilidade, para qualquer uma das pistas investigadas”. Novamente o ex-Procurador-Geral da República, Dr. Pinto Monteiro.

Que diligências, que análise, que provas? Porquê essas e não outras? Como podemos testar o que foi feito?

Rodrigo Guedes de Carvalho, profissional que muito admiro e respeito, numa entrevista sobre o “Caso Maddie”, “Jornal da Noite”, SIC, 4 de Abril de 2017:

– Ouvi os peritos, nomeadamente o Gonçalo Amaral…

Meu caro Rodrigo, nós, Inspectores da P.J., ou neste caso o Coordenador da P.J., não é perito, não são os Inspectores peritos em nada: que interessa os anos de prática se essa prática não é questionada, racionalizada, teorizada, testada?

Um perito é alguém que é hábil, experimentado em alguma coisa. Ora, todos estes casos, e este em particular, só revelam inabilidade.

Um perito é alguém que oficialmente realiza exames. Peritos são os excelentes profissionais do laboratório de Polícia Científica da P.J.

“Ouçamos” o Coordenador Gonçalo Amaral: “[…] Mas a recolha foi desvalorizada pelo laboratório inglês que a polícia portuguesa escolheu – para não nos acusarem de falsear os resultados”, diz Amaral ( in revista “Sábado”, de 27 de Abril de 2017).

Conforme já escrevi aqui: a P.J. viu-se obrigada a escolher um laboratório porque o laboratório de Polícia Científica da P.J. não está acreditado ou é reconhecido cientificamente!!!

Estão a ver como, mais uma vez, eu tenho razão: independentemente da dedicação, esforço e disponibilidade dos elementos da P.J., todas essas nobres e indispensáveis características a um bom investigador, a uma capaz Polícia, de nada servem se não existe cientificidade!

Tenha sempre uma reserva mental, Caro(a) Leitor(a), quando ouvir os responsáveis máximos pelas forças mínimas, ou os comentadores habituais a debitarem opinião falível, não testada ou testável!

Sabem o que verifiquei aquando do estudo comparativo dos casos “Estripador”, “Joana” e “Maddie”?

Um padrão de actuação retrógrado, sustentado por opiniões ou convicções pessoais, desprovidas de verificação científica. Estamos a falar de 25 anos decorridos entre o “Estripador” e a “Maddie”!

Atentem neste pormenor: Quando passados cerca de 25 anos surgiu um indivíduo a dizer que era o “Estripador”, a P.J., por forma a confirmar ou infirmar a sua afirmação, dispunha de um vestígio palmar (impressão digital) que permitia apurar, comparando com o sujeito, a verdade das suas palavras. Quando foi necessário recuperar o vestígio, ninguém sabia onde estava. Acho que estava com o técnico já reformado!

“Gonçalo Amaral explica como o corpo de Maddie pode ter desaparecido: cremado com uma cidadã britânica” (in revista “Sábado”, de 27 de Abril de 2017).

Com todo o respeito ao ex-Coordenador Gonçalo Amaral, ele até pode dizer que foi o “Alf” ou o “E.T.” que levou a menina, porque nesta fase do campeonato já vale tudo!

Deixemos o palco aos Mestres. Karl Popper: “O Conhecimento subjectivo, exemplificado como << sentimentos de convicção >> sobre uma teoria ou eventual prova que a sustenta, seria apenas do interesse da ciência se pudesse ser formulado por meio de afirmações públicas, e, preferencialmente, testáveis. Nem a intensidade de tais sentimentos, nem o seu peso cumulativo podiam ser evocados na defesa ou refutação de qualquer afirmação científica”.

A instituição Polícia Judiciária e os seus elementos, possuem algo, precioso, que todos os comentadores e/ou estudiosos da Ciência Forense só nos seus mais ousados e doces sonhos podem ambicionar: experiência no terreno, dados estatísticos, casos, informação.

Este inestimável património não vale nada. Não valeu há 25 anos atrás – “Estripador de Lisboa” – nada vale hoje – pós – Maddie! Como se lê em S. Mateus: “Margaritas ante porcos” (“Pérolas aos porcos”).

Ninguém estuda, teoriza ou trata cientificamente este património. A Polícia Judiciária, que muitos consideram uma polícia científica, uma das melhores do mundo, só transmite uma imagem de voluntariosos funcionários que executam bem se por acaso a coisa não for muito complicada, porque quando a dificuldade surge, entramos no falível domínio da opinião, da “convicção sustentada por anos de experiência”: “A sua procura de informação e argumentos é sobretudo limitada à informação que é consistente com as crenças existentes e não com a intenção de as examinar” (Daniel Kahneman, ibidém).

Claro que pode colocar uma questão, Caro(a) Leitor(a)!

O que aconteceu à Madeleine McCann?

Não sei! E opinar agora era só contribuir para o erro e a ignorância. Mas posso acrescentar o seguinte: consigo identificar, sustentado cientificamente, o porquê de passados 10 anos (infelizmente para a própria menor, os seus pais e a instituição P.J.), ainda medrarem muitos indivíduos que lucram com as suas opiniões escritas ou faladas, e, continuarmos sem saber (à semelhança de outros casos, como o Rui Pedro) o que realmente se passou!

Conseguir isto: não é de forma alguma um trabalho menor!

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4 thoughts on ““Maddie e a P.J.”

  1. Sr. Inspetor, nós seus alunos já conhecemos aquilo que ensina e publicou nos EUA mas o público não. Venha o livro. Tudo o que disse nas aulas aconteceu, as notícias provam isso.
    Coragem para o que falta. Abraço.

  2. Inspector Joao, o estudo de casos concretos tambem acontece através dos anos de experiências vividas que transmitem, como bem sabe, um método de trabalho e uma perspicácia apurada!!!
    O que pode questionar é se o método e a organizaçao disciplinada foram aplicados nos casos que referiu. Tenho duvidas!!
    A cientificidade é indispensavel mas nada vale sem o método e organizaçao dos investigadores e dos lideres das investigaçoes. Quanto aos casos por escalecer, com a mesma ou mais gravidade, eles constam ou nao, em grande, nas estatisticas criminais dos EUA e da Inglaterra, onde existem melhores LPCs, melhores Estudos e mais dinheiro? Abraço e Dignita!

    • Sr Carlos, concordo que talvez não tenham sido aplicados o método e a organização disciplinada que refere mas depois do que li e sei, questiono também se os mesmos seriam correctos ou a serem, se não poderiam ser melhores ainda! Não sabemos. Segundo percebo, não “estudamos” o “erro”. Temos de olhar para “nós” e independentemente do que os outros façam, o que interessa é que o nosso trabalho seja bem feito. Se nos vamos comparar com os EUA, somos tão poucos em relação aos mesmos que aí até a ciência tem explicação para esses “desvios” ! E pelo que li, subentendi, que o inspetor só levou lá fora algo que lá foi reconhecido como valoroso porque reconhecem o hábito e cá, não, nao lhe foi permitido expor sequer. Mas nunca referiu que nos EUA não cometem erros. Claro que cometem! mas estudam-nos e tentam corrigi-los, melhorar !
      A questão que se deve colocar é: será tão difícil “organizar”, criar um método, uma organização com “meia dúzia” de gente apenas por orientar?? Com muito menor número de casos por resolver? Num país minúsculo?? Avaliar o que está errado e tentar depois fazer melhor?
      E nesse sentido, olhemos então para Nós, para o pequeno Portugal e façamos o mesmo! E de uma vez por todas façamos “disto” um país sério e melhor!!!
      Parabéns por mais esta excelente publicação, esta análise.
      Obrigado

  3. Eu bem digo aos meus alunos para levarem o Popper bem mais a sério… É isso mesmo, mais Popper e menos Wittgenstein! Parabéns pelo artigo.

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