“A Besta-fera e o Tempo”

Liberdade daqui a: 958 dias… Tique-taque, tique-taque… 

Esta semana os meus pais visitaram-me. O meu pai de 75 anos e a minha mãe de 72 anos…  Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Hércules a lutar com a fera, com o indestrutível “Leão de Nemeia”.

Hércules travou combate duro contra a “besta-fera” e surpreendeu-se quando reparou que os olhos do bestial oponente reflectiam a sua própria imagem; Hércules estava como que no interior do Leão; Hércules era o Leão!

Lutou várias vezes, com armas diversas mas nenhuma conseguia lesar a dura pele do animal. Após reflexão decidiu lutar sem armas, com recurso aos seus punhos despidos, Hércules raciocinou, utilizou a Razão.

Nesta placa que eu trouxe de Creta, Grécia, está representada a luta constante que mantemos com a “besta-fera” que habita em Nós. Vencer o “Leão de Nemeia”, colocar a sua pele sobre as nossas costas após esfolarmos a besta representa o egocentrismo e a extrema dificuldade de lidar com a frustração, com a raiva contida.

A placa está desde 2008, colocada sobre a minha lareira, na minha casa, para que eu não me esqueça! Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

No final do ano de 2013 a minha mãe sofreu um acidente isquémico transitório (AIT).

Perdeu as memórias que tinha da sua vida semanas antes do evento e até do próprio evento.

Tique-taque, tique-taque, tique-taque… Na altura eu estava “sob-escuta”!

Pedi à “besta-fera-medíocre-verde-de-inveja” da Coordenadora Maria Alice Fernandes para sair do departamento, objectivando voltar a Lisboa por forma a estar mais disponível para os meus pais e para auxiliar a minha mulher na sua gravidez. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

No dia 11 de Fevereiro de 2016, com 60 anos, Maria Alice, no Tribunal do Seixal, afirma que eu queria ir para Lisboa para estar numa secção que permitisse maior acesso a informação, a fim de facultar a mesma à minha associação criminosa… isso da mãe… acha que havia qualquer coisa… Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

“Besta-fera-medíocre-verde-de-inveja-mentirosa”!

Todos nós encerramos uma “besta-fera” no nosso ser.

Há milénios, Platão descreveu (antecipando a perspectiva tripartida da psique de Freud) a célebre avriga platonis: a alma comparada com uma avriga puxada por dois cavalos, cada um puxando para seu lado. Um cavalo, o “Espírito” (“emoções nobres”) o outro, a “Concupiscência”, ambos conduzidos por um homem com um chicote, a Razão. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Todos nós encerramos uma “besta-fera” no nosso ser.

Pedi aos meus pais para me visitarem esta semana porque precisava tocar-lhes, vê-los, cheirá-los. Visitaram-me poucas vezes porque a minha mãe está a combater a sua “besta-fera”. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

A 21 de Junho de 2016, abriram a minha mãe para retirarem um bocado dela, o pedaço onde se agarrou a “besta-fera”. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Esta “besta-fera” é insidiosa, mais aleivosa e traiçoeira do que a “besta-fera-medíocre-verde-de-inveja-mentirosa” da Maria Alice. Esta alimenta-se do hospedeiro. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Como insidiosamente esteve acoitada esta “besta-fera” dentro da minha mãe, por estar encostada, deixou a sombra de si, suou, deixou parte do seu pelo em outro órgão. A minha Mãe, para além dos químicos, vai ser cortada outra vez, vai combater outra vez. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

– Quando sais, Pedro? – a minha lutadora.

– Em 2019. Setembro. 29 de Setembro de 2019! – sentindo, controlando a minha “besta-fera” que se revolve no meu interior.

– Ai filho… terei tempo? – Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

– Claro que sim. Aguenta-te! – como está agitada em mim a “besta-fera”!

Estou a perder o “Jogo”: a “besta-fera-medíocre-verde-de-inveja-mentirosa” e a “besta-fera-pusilânime-pálida” do Coordenador Pedro Fonseca estão a medrar, a respirar ar livre. Tudo bem, são as regras do “Jogo”. Tenho de cumprir a crueldade do Tempo. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Optei por falar, lutar, criticar, denunciar: aceito o jugo. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Adoptava  esta postura sempre, mil vezes: é assim a minha “besta-fera”!

Mas agora temos um problema: a “besta-fera” da minha mãe e a inexorável onomatopeia sempre presente… Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Acabou a visita! – o guarda. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Volto para dentro, para junto da população prisional! Para junto da “besta-fera” do pedófilo polícia que abusou da filha nas instalações da P.S.P.! Para junto daquele que matou e retalhou com bestialidade as jovens em Santa Comba Dão! Para junto das feras homicidas, das “melosas-feras” abusadoras de crianças, como as minhas crianças!

Agora começa o diário combate com a minha “besta-fera”, com o meu “caldeirão a ferver”, como descrevia Hobbes o Homem “bárbaro cujos impulsos naturais levariam ao crime, ao roubo, à pilhagem, se não fossem refriados”. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

O conflito entre as exigências instintivas e a sociedade. Recalcamento e ansiedade. Competem em mim pelo domínio um do outro, o instinto e a razão.

Diariamente controlo a minha “besta-fera” interior porque tenho de aceitar a ressocialização, a reinserção, tenho de revelar “resistência à frustração”, tenho de o fazer, faço-o há 1043 dias, só faltam 958 dias de contenção da besta… Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Freud legou-nos o “id”, a parte mais primitiva da personalidade, o instinto; o “ego”, deriva do anterior, está ao seu serviço, obedece ao “princípio da realidade”, “tenta satisfazer o “id” mas fá-lo de modo pragmático, de acordo com o mundo real e respectivas exigências reais”, queres ter prazer mas não pode ser; o “superego”, o nosso Juiz, as regras da sociedade, as admoestações, a Moral.

Só nos sonhos os homens são verdadeiramente livres. Esta semana sonhei. Poucos sonhos conscientes, tenho tido. Como fazia em liberdade, aqui, recluído, também mantenho um diário onírico.

Esta semana: um local escuro, húmido. Muitas portas fechadas mas que eu abria facilmente. Gemidos. Pedidos de socorro de vozes que eu conheço porque durante anos trabalhei com eles.

Pessoas, indistintas, a fugir das salas cujas portas eu abro. Numa das salas, escura, dois corpos dependurados com uma corda  a atar os punhos: um homem e uma mulher. Não consigo ver as feições, mas sei quem são. Estou feliz. O homem grita por socorro! A mulher diz-lhe para ter calma que ela resolve. Ele responde gritando que eu ocultarei as provas do que vou fazer, “ele sabe fazê-lo”, repete em pânico.

Lanço-me sobre a sua face e devoro-lhe a língua, tenho que retirar algo da boca, um objecto estranho que me feriu as gengivas: são os seus óculos. Está morto!

A mulher dependurada parece-me ao toque, porque não a vejo, um saco de gordura.

Devoro-lhe a língua mas tenho de cuspir porque sabe mal, sabe a tabaco! Morreu!

Acordo! São 04h30! Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Os sonhos são catárticos. Existe o “sonho latente” e o “sonho manifesto”. Sem a vigilância do “ego” e do “superego”, o nosso “id”, feliz, deixa os “cavalos à solta”!

O “desejo subjacente” manifesta-se, por vezes simbolicamente, por vezes de forma crua e exacta.

Todos nós encerramos uma “besta-fera” no nosso ser. Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

A minha está controlada, segura, acorrentada, só se liberta em sonhos! É simbólica!

A “besta-fera” da minha mãe é uma merda!

Eu quero ser um calmo analista do possível, mas o Tempo agora corre contra mim: Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

A minha “besta-fera” agitou-se esta semana por outra razão! Já foi realizado o sorteio no Tribunal da Relação de Lisboa para a atribuição à secção do mesmo do meu recurso da sentença! Resultado: 9ª Secção!

Não é sonho, não é anedota! Ao longo de 3 anos de prisão preventiva saiu sempre a 9ª Secção! A 9ª Secção que tem indeferido todos os meus recursos! Tique-taque, tique-taque, tique-taque!

Mais: o processo-crime que desde 2015 foi aberto pelo Procurador, Dr. João Davin, com certidões extraídas do processo no âmbito do qual encontro-me preso, passados 2 anos, vai ficar a aguardar durante 3 meses pela decisão da Relação porque ninguém pode ser julgado pelo mesmo crime duas vezes; assim, se a decisão da Relação for manter a pena, tudo bem, senão se verificar: solta-se novamente as “bestas-feras” ao João de Sousa! Tique-taque, tique-taque, tique-taque!

É uma bestialidade! Sim, claro: eu já fui julgado mas eles não controlam os cavalos, a “besta-fera” deles tudo faz, e não em sonhos, para colocar o açaimo que me impede de morder, comer, falar! Até 29 de Setembro de 2019! Tique-taque, tique-taque, tique-taque!

Todos nós encerramos uma “besta-fera” no nosso ser. A minha eu controlo, liberto-a em sonhos.

A da minha mãe é uma merda, quer roubar-lhe os sonhos, é dolorosamente real e eu não esqueço nem perdoo a quem me está a roubar o Tempo com ela! Tique-taque, tique-taque, tique-taque!

Anúncios

7 thoughts on ““A Besta-fera e o Tempo”

  1. Que corra tudo bem com a Senhora sua Mãe.Rápidas melhoras ! Quanto ao Inspector João de Sousa
    muita força para essa luta tão desigual e com tanta maldade que nunca lhe falte a saúde para continuar. Um grande Abraço.

  2. Quando nos confrontarmos com a dor existem dias cinzentos, outros de revolta outros ainda de tempestade. O sol teima em não vir e os nossos corações ficam apertados e com medo de chorar. A vida é uma luta constante, quer nas vitórias quer das derrotas. Mas a maior luta que alguém pode travar é contra a doença, essa sim uma verdadeira provação das nossas capacidades para vencer. Porque esta luta não é apenas dos que sofrem das dos seus cuidadores e dos familiares que amam verdadeiramente. Só uma família unida consegue aguentar a dor. Força para si e para a sua mãe.

  3. As melhoras para sua mãe. De resto, enquanto isto for a terra da denuncia verdadeira ou falsa, não importa, vale tudo, para TVI s e Correio do Crime, lançarem para o ar, Os donos disto tudo, comandam a seu belo prazer. Pense noutra profissão, que seja dignificante. BOA SORTE.

  4. Lamento pela sua mãe e desejo-lhe as sinceras melhoras. No seu caso, ao estar preso, está a colher o que semeou. Até as crianças fazem as asneiras porque sabe bem, ou são “espertas”. Quando vem o castigo ficam muito ofendidas, mas a culpa não é dos outros, é de que fez a asneira..

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s