“O Optimista pragmático ou o Legado do Dr. Mário Soares”

Liberdade daqui a : 986 dias!

Even the longest, the most glittering reign must come to an end someday”.

Francis Urquhart (actor Ian Richardson) na versão original inglesa da série “House of Cards”.

Já o deixei aqui várias vezes: conquanto tudo aquilo a que me sujeitam, apesar dos dias mais negros, frios, das perdas de vigor anímico, das sucessivas derrotas, vejo e verei sempre o copo meio-cheio, serei sempre um “optimista pragmático”!

Um indivíduo pragmático é aquele que fundamenta o seu comportamento, as suas opiniões ou ilações no estudo racional dos factos, “que toma o valor prático como critério da verdade”.

A doutrina do pragmatismo, aquela que tem por critério da verdade o valor prático, considera verdadeiro “tudo o que pode ser feito com êxito, e não há verdade absoluta”.

Constante optimista durante todo o processo da petição subscrita por leitores deste blogue e outros mais, ainda que com vários percalços pelo meio, chegou à Assembleia da República a mesma e hoje, sempre agradecido pela adesão simpática e voluntariosa, informo-vos que a deputada socialista, Dra. Isabel Moreira, foi a relatora do Relatório Final da Petição Nº 112/XIII/Iª, tendo a mesma, no campo III. Opinião da relatora, escrito: “A relatora abstém-se de emitir a sua opinião”; sendo que no campo Tramitação subsequente podemos retirar que deve ser dado conhecimento da petição e do seu relatório aos Grupos Parlamentares “para ponderação de eventual apresentação de iniciativa legislativa” assim como deve proceder-se ao arquivamento da petição.

Como?!? Como diz, Caro(a) Leitor(a)?

O optimismo encontro-o na análise pragmática do fenómeno: cidadãos congregaram-se, participaram numa iniciativa cívica e colocaram uma semente que pode germinar, difundir-se!

“Só é vencido quem desiste de lutar!”  Temos que continuar… Como ?!?

Sim, é uma frase do Dr. Mário Soares; ou talvez não: parece que foi o Dr. Francisco Salgado Zenha que a proferiu pela primeira vez!

E sim, os adjectivos “optimista pragmático” também os ouvi durante as cerimónias fúnebres do Dr. Mário Soares, qualificando o mesmo!

Antes de continuarmos, impõem-se um esclarecimento:

– desde os meus 15, 16 anos que saudáveis acaloradas discussões mantenho com o meu pai sobre a figura histórica do Dr. Mário Soares; eu defendo-o como o verdadeiro “animal político” único em Portugal, ele contrariando a minha opinião! Um dado importante para contextualizar: sou um cidadão português com 43 anos de idade, natural de Angola!

– optei por fazer o meu doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais (interrompido há cerca de 3 anos aquando da minha prisão) também por causa da figura histórica do Dr. Mário Soares!

Como o Dr. Soares foi descrito como um homem de cultura vastíssima, proprietário de uma vasta biblioteca com cerca de 60 mil volumes, gostando eu de ler, durante as cerimónias do seu passamento, várias obras a minha memória convocou.

“Mas um morto tem direito a essa espécie de inauguração no túmulo, a essas horas de pompa ruidosa antes dos séculos de glória e dos milénios de esquecimento” (in “Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar)

Ainda que milénios sejam maiores que séculos, os séculos compõem milénios e o Dr. Soares merece a glória ainda que tenha existido muito ruído e fausto organizado na sua “inauguração no túmulo”, creio que até cinismo e oportunismo político: uma autêntica fogueira das vaidades!

Tocante e belo momento aquele em que no claustro dos Jerónimos, se escutou a voz da Dra. Maria de Jesus Barroso declamando Álvaro Feijó!

Afastemos um pouco a emoção e sejamos pragmáticos: “[…] Não quero que chores para fora, amor / Que tu bem sabes que quem chora assim, mente […]”

E tantos mentiram! “Chorando para fora”, assistimos a “gajos” (como diria o Dr. Soares) a proferirem sentido encómio quando antes da “inauguração no túmulo”, desdenhosamente, diziam-no (ao Soares) já “mentalmente caquético”, com decisões/acções de quem já não está capaz política e socialmente: recordam-se das suas visitas aqui a “Ébola”!?

Eu sempre considerei que o Dr. Mário Soares estava bem mentalmente, lúcido, capaz, aquando das várias visitas ao Eng. Sócrates, mais, estava a ser coerente consigo e as suas decisões fruto do seu pensamento e amizades!

Continuando a nossa humilde homenagem ao homem de cultura, ao humanista, ao verdadeiro homem do Renascimento, Dr. Mário Soares , a propósito:

“[…] Além disso, para ter o Sacro Colégio à sua disposição, um Papa tinha de o povoar de gente sua. Não havia nada a dizer, e o melhor político do tempo, Lourenço de Médicis, exprimirá assim qual deve ser a conduta de um Papa verdadeiramente sábio: << Nenhum homem é imortal e um Papa não pode contar senão com aquilo em que ele quer contar. A dignidade do seu carácter não constitui uma herança; só as honrarias e as mercês com que recompensa os seus podem ser património seu […] >> ” (in “ Os Bórgias”, de J. Lucas-Dubreton)

Recordei este excerto quando pensei nas visitas ao E.P. de Évora, tornaram-se vivas as palavras quando emocionado até às lágrimas vi e ouvi os filhos – o Dr. João Soares e a Dra. Isabel Soares – a falarem do pai nos claustros, muito particularmente nesta parte do discurso da Dra. Isabel Soares: “[…] Quando o pai estava, tudo parecia seguro e tranquilo […] sempre presente, sempre com tempo para ouvir […]”.

Referia-se às visitas ao Dr. Soares na prisão quando era criança, durante as quais sorria não podendo chorar “à frente dos Pides”, apresentando-se o Dr. Soares, sempre, como um porto de abrigo. Sim, chorei! Por causa da família Soares? Não tanto assim, foi mais pela “Família De Sousa”, por causa daquilo que tenho passado, eu e os meus.

Por causa de não poder estar com os meus três filhos ao mesmo tempo daqui a 4 meses, não por imposição “dos Pides”, mas porque no Estado democrático, herança do agora celebrado “Pai da Democracia”, o regulamento dos Serviços Prisionais, não permitir que o meu filho quando fizer 3 anos, possa estar com as irmãs, ou estas com ele conjuntamente!

Quando eu morrer, o meu João de Sousa (Júnior) não pode partilhar com quem estará na minha “inauguração no túmulo” o que viveu com o pai porque um socialista que com o seu progenitor esteve preso, ratificou leis absolutamente “pidescas”, 43 anos após o 25 de Abril de 74!

Defendo e afirmo: Portugal é formalmente uma Democracia, substancialmente não o é!

Então como posso ser um “optimista pragmático”?

Graças ao Dr. Mário Soares posso sê-lo. Sou-o porque vi as cerimónias fúnebres e verifiquei que um dos pilares do nosso Direito Penal, da nossa Constituição está vivo: a presunção de inocência! Eu vi, eu assisti!

Um ex-recluso de Évora, com um processo-crime a decorrer, uma investigação complexa, com ligações tentaculares a pessoas importantes, decisores políticos, homens da alta finança nacional e internacional, ex-ministros, ex-presidentes de bancos nacionais e afins: em plena liberdade! Prestando a sua sentida homenagem, aproveitando a memória e património de imagem e credibilidade do “grande homem”, livremente: “Mário Soares era um amigo e também afirmava que o meu caso não é pessoal mas sim uma perseguição política ao P.S.”

Aqueles que não vi a prestarem homenagem, e deveriam tê-lo feito, também os tenho presentes como exemplo da “presunção de inocência”, como exemplos vivos do legado de Liberdade e Democracia do Dr. Soares: Ricardo Salgado, Armando Vara, Carlos Santos Silva, António Figueiredo, Duarte Lima, José Oliveira Costa, Dias Loureiro, só para nomear alguns.

Ao pensar em tudo isto recordei as palavras que algures li sobre o Dr. Almeida Santos: “Para os amigos, tudo. Para os inimigos, nada. Para os outros, a Lei!”

Mas eu reconheço: também eu sou devedor ao Dr. Soares!

O facto de aqui estar livremente a emitir a minha opinião. O facto de o poder fazer sem ser alvo de injustas represálias ou ser mantido preso por fazê-lo

(ou talvez não!)

Agradeço tudo, até o facto de ter visto a bela Lisboa durante a transmissão do cortejo fúnebre: chorei de saudades!

Vou fazê-lo: quando chegar a ansiada liberdade, deslocar-me-ei com a “ninhada” ao cemitério dos Prazeres, com rosas amarelas e cravos vermelhos que depositarei no jazigo 3820, sito na rua 8, e explicarei aos meus filhos quem foi aquele homem e a sua esposa!

Vou transmitir-lhes que a Democracia tem de ser defendida todos os dias e não é algo definitivo, adquirido, e que aquele homem defendeu-a, a sua Democracia, ainda que o gozo da mesma enferme por falta de número parecendo que alguns a gozam e outros não!

Sou um “optimista pragmático” porque usufruo do legado da Liberdade e Igualdade deixado pelo Dr. Mário Soares, e como existe um legado de Igualdade, consignado na nossa Constituição, para a qual o mesmo contribuiu, sabendo que Duarte Lima recorreu para o Tribunal da Relação e viu a sua pena efectiva de 10 anos de prisão reduzida para 6 anos, tendo eu também recorrido da minha sentença de 5 anos e 6 meses, atento ao princípio da igualdade de forma pragmática: estou optimista!

Obrigado, Dr. Mário Soares! Grato, aqui me encontro!

De novo a interpelar-me, Caro(a) Leitor(a) ?!? Como ?!? Estarei eu a ser cínico, irónico? Responderei invocando novamente as palavras de Francis Urquhart (Ian Richardson) ou se quiserem, as de Frank Underwood (Kevin Spacey) da actual adaptação da série “House of Cards”; palavras que também são um tributo, de certa forma, ao maior “animal político” de Portugal do séc. XX, princípio do séc. XXI, Dr. Mário Soares:

“You very well might think that. I couldn’t possibly comment”

Absolutamente correcto politicamente, perfeitamente maquiavélico!

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3 thoughts on ““O Optimista pragmático ou o Legado do Dr. Mário Soares”

  1. É muito agradável ler algo inteligente muito mais se acontece na net. Mas não é nada de novo, antes cá fora já era assim não era Dr. João de Sousa? Não desista! P.S.

  2. João já fiz chegar à tua família que estou aqui para ajudar-te no que precisares. Até na candidatura de que falavas antes de te fazerem esta vergonha. Continuo a acreditar em ti e sei que tu acreditas em ti. Abraço

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