“Odisseia: O regresso de Ulisses”

Liberdade daqui a: 1000 dias!

– Traz-me, por favor, a Odisseia – eu.

– Qual delas? – a “mãe da ninhada”.

– A tradução do Frederico Lourenço… O “prémio Pessoa” deste ano… está na estante dos clássicos…

Ainda estou em 2016 a escrever este texto. Pedi o livro na passada semana. Só vou começar a ler o mesmo no dia 1 de Janeiro de 2017. Vou reler. Tenho esta Tradição: começar a ler um livro no princípio do ano.

Porquê a Odisseia?

Dividida em três partes, como nos elucida Frederico Lourenço – “Telemaquia”, “Regresso de Ulisses” e “Vingança de Ulisses” – identifico-me com o herói, a personagem principal!

Claro que temos que afastar os quatro primeiros cantos porque o meu “Jr.”, “o meu filho-homem”, “o meu Telémaco” não tem vinte anos, tem dois aninhos. Não tinha apenas um mês de idade quando o pai foi para uma guerra em Tróia contrariado. Não, não tinha: ainda não tinha nascido quando o pai ficou retido na ilha de “Ébola”!

Vamos também afastar os poemas homéricos a partir do canto XIII, quando Ulisses acorda em Ítaca e inicia a sua vingança: não pretendo assustar ninguém!

Foquemo-nos na narrativa do canto V ao canto XII: aqui, neste espaço narrativo, encontro eu similaridade…

“Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou […] os sofrimentos que passou para salvar a vida […]”

Recordo as minhas primeiras declarações em tribunal quando disse à Meritíssima que era um ardil (uma questão de astúcia) a forma como lidava e comunicava com arguidos, ofendidos e/ou familiares de vítimas, no âmbito da minha actividade profissional.

– Ardil?! Ardiloso!?! Segundo a Lei isso é crime! – a Juiz.

– Meritíssima, com a devida vénia: ardiloso como Ulisses, compreende? – o arguido João de Sousa.

Creio que a Meritíssima não compreendeu: não quis compreender ou desconhece os Clássicos!

Quiçá por causa do aspeto da Juiz-Presidente, invoquei Ulisses, uma invocação inconsciente; observe Caro(a) Leitor(a):

“[…] Pois ele jaz agora numa ilha, em grande sofrimento,/no palácio da Ninfa Calipso, que à força o retém […]” – Atena junto de Zeus a interceder por Ulisses.

“[…] declara a nossa vontade à ninfa de belas tranças” -/o retorno do sofredor. Que ele regresse, mas sem ajuda de homens mortais ou de Deuses […]” – Zeus a Hermes.

A ninfa de belas tranças”: a Juiz do meu Julgamento, cujos belos cabelos loiros encaracolados constantemente enrolava de forma juvenil nos seus dedos durante as audiências!

A “minha” Calipso que me retém na sua ilha de Ogígia, mas neste caso não é consequência do seu “amor sufocante” por Ulisses.

Com a devida vénia, com o máximo respeito, sempre senti uma atracção por esta “ninfa cruel” que me retém na sua ilha, olhando eu, triste, o mar: a estrada do meu regresso a casa.

Se fizermos um paralelismo entre o “Concílio dos Deuses” da “Odisseia” e o Tribunal da Relação… não, perdoem-me, neste particular não se aplica: enquanto Hermes informou Calipso da vontade do pai Zeus – “[…] Manda-o então embora. Receia a ira de Zeus. / E que contra ti se não encolerize no futuro […]” – a Relação Lusa tem dado razão a minha Calipso de belas tranças.

Mas a minha fascinação pela Meritíssima não se ficou por aqui. Após o “mui fraco acórdão” por si lavrado e proferido, após os cinco anos e seis meses de pena, após o seu último despacho sobre a minha medida de coacção que transcrevo – “[…] o perigo de perturbação da ordem e tranquilidade públicas […] sendo certo que a audiência de julgamento e a leitura do acórdão suscitaram a curiosidade dos órgãos de comunicação social, sobretudo atenta a qualidade de Inspetor da Polícia Judiciária do arguido/condenado, com algum contributo efectivo do próprio […]”: continuo fascinado!

Ainda me fascina como da primeira vez… só que agora já não é a bela Calipso, já navegou após sair da sua ilha Ulisses… agora ela é, a Meritíssima, a Deusa-bruxa Circe: “[…] Aportámos à ilha de Eia, onde vivia/Circe de belas tranças, terrível Deusa de fala humana […]”.

Conhecem esta bela Circe, não conhecem? Claro, é aquela que transformou metade dos companheiros de Ulisses em porcos, servindo-lhes queijo e vinho. Ulisses, avisado por Hermes, ingerindo uma droga, não foi afectado pelos encantamentos de Circe, resistindo-lhe!

Por ter resistido Ulisses à Deusa-bruxa, esta enamorou-se por ele, libertando-o e aos seus companheiros. Eu ainda aqui resisto mas Liberdade para mim e para os meus companheiros: nada!

Acompanhem-me num pulinho até ao presente! Manuel Alegre após visitar Mário Soares no Hospital da Cruz Vermelha, esta semana:

– Mário Soares dizia que a Liberdade é em si mesma um valor revolucionário… a liberdade de palavra, de pensamento, de discordar. Esta é a herança do Mário Soares! – comovido.

“Curiosidade dos órgãos de comunicação social […] com algum contributo efectivo do próprio […]”

Será que esta “Deusa-bruxa” (a Meritíssima) com o máximo respeito, para além de não ler os Clássicos (presumivelmente) desconhece a história contemporânea de Portugal?

Será que deseja destruir a herança, o legado do Dr. Mário Soares?

Será que ao pobre e isolado João de Sousa não é permitido discordar, pensar, falar?

Esta semana, no dia 29, atingi metade da pena; no mesmo dia estreou nas salas portuguesas o filme de Martin Scorsese , “Silêncio”. Deseja a minha bela e cruel Circe (a Meritíssima!) que eu me remeta ao silêncio, que eu me submeta ao Jugo?

Opressão material e moral? Preito de obediência, é isso?

Fazendo um balanço do ano, recordo todos aqueles que por aqui passaram – os “famosos” – e que mantém-se em silêncio, acoitados, longe dos holofotes, comprometidos com os seus compromissos comprometedores: todos eles em Liberdade, já fugidos das suas Calipsos, Circes. Já em Ítaca, em casa!

Afinal, estou muito distante da astúcia, do ardil de Ulisses, sou um ingénuo que grita no deserto.

Novamente o paralelismo da minha condição com Ulisses! Quando ficou fechado com os seus companheiros na gruta do ciclope Polifemo, ardilosamente Ulisses disse ao descomunal ser que o seu nome era “Ninguém”!

Após cegá-lo, utilizando o seu rebanho, Ulisses saiu da gruta, escapando-se com os seus companheiros, agarrado às ovelhas, ocultado pela farta lã.

Quando os outros Ciclopes acorreram em socorro a Polifemo, perguntaram a este: “[…] Será que algum homem mortal te leva os rebanhos,/ou te mata pelo dolo e pela violência? […]”.

Todos Vós sabem a resposta: “[…] De dentro da gruta lhes deu resposta o forte Polifemo:/Ó amigos, “Ninguém” me mata pelo dolo e pela violência! […]”.

Os “outros”, os que por aqui passaram, optaram pelo silêncio, por anular a sua personalidade, optaram por ser “Ninguém”, agarraram-se às ovelhas escondidos na farta lã!

Tudo bem: é ardil, estratégico; aqui distancio-me do “astuto Ulisses”, neste particular não posso agradar à bela ninfa das belas tranças!

Já recorri da decisão da “Deusa-bruxa” para o “Concílio dos Deuses”. Ainda tenho mais um degrau no Olimpo para recorrer se estes imortais não se condoerem com a provação de Ulisses…

2017… o “Regresso de Ulisses!”

2017: no dia 29 de Março de 2017 faço 3 anos de prisão preventiva…

A Meritíssima… a minha Calipso/Circe… com todo o respeito, e espero que a mesma compreenda: 3 anos de reclusão, privado de muita coisa, fez-me ver beleza e sensualidade divina em praticamente tudo, até nela brincando com os seus cabelos durante as audiências de Julgamento!

2017…  o “Regresso de Ulisses”. Vou reler a “Odisseia”… já partilhei com o/a Leitor (a) que tenho em minha Casa um arco e várias lanças, não?

Tenho pois!

2017…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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11 thoughts on ““Odisseia: O regresso de Ulisses”

    • Caro João, o D. Quixote foi escrito pelo Cervantes há 400 anos. Você bem tenta explicar a situação mas os argumentos não pegam, pois cada caso é um caso, etc. e tal, e assim, a justiça (juízes e juízas) vão protelando a sua libertação.
      Os juízes e os tribunais só tremem quando colocam a sua corporação em cheque. A melhor maneira de o fazer, é comparar a justiça no tempo do fascismo e na democracia. Eu vou-lhe dar um exemplo que prova que o sistema de justiça actual é pior que o do fascismo.
      O meu pai participou numa tentativa de golpe de Estado contra o Salazar. O chamado assalto ao quartel de Beja na noite da passagem de ano de 1961/1962. Os militares estavam preparados para agir e a tomada do quartel de Beja seria o arranque para o golpe. O capitão Varela Gomes foi baleado estupidamente, porque entendeu que deveria ser ele a prender o comandante Calapez por ser o oficial com maior patente. Foi baleado pelo Calapez e o golpe abortou devido a esse incidente imprevisto.
      O caso de Beja foi o maior e o mais importante julgamento do sistema fascista. Eram mais de 80 réus e mais de 80 advogados. O meu pai esteve preso preventivamente durante 28 meses até ao julgamento. Foi julgado por um Tribunal Plenário e apanhou 2 anos e 2 meses de pena maior. O tempo de prisão preventiva só contava por metade, os 28 meses de preventiva contaram apenas 14 para o cumprimento da pena, acabou por cumprir 40 meses no total.
      Conclusão, no tempo do Salazar (1962), o maior crime que se poderia cometer seria um golpe que o derrubasse, certo? Foi condenado com 2 anos e 2 meses. O cabecilha do golpe, Varela Gomes, apanhou menos de 5 anos, esteve preso 6 anos devido à contagem dos 50% da preventiva.
      Como vê, por aqui se prova, que a justiça do Salazar era melhor que a da Democracia.

  1. Como é que o Sr. Insp. quer ir para casa?
    Está a chamar de inculta uma Juíza? O que escreve é maravilhoso pela inteligência e cultura e ainda chama burra à Juíza e diz que ela é bonita? Era loira… burra?
    O Insp. ri de toda esta gente é preciso ter um grande par de tomates!
    Maiores que os do Ulisses! Força homem que você tem razão. Boa leitura.

  2. Que este ano lhe sorria mais. Eu ri-me a ouvir o Marco Paulo! 😀
    Força, João!
    (percebo a sua batalha mas a ninhada não deixa de ter razão)

      • Não, sei bem o que se passou nas escutas deste trafulha em tribunal. E eu, tal como o MP, achamos maravilhoso este recluso ter pedido recurso para a relação. Quando ler o articulado terá uma surpresa, muito provavelmente a sua pena ser maior!

      • Ou menor!
        É lixado ser lixado e não poder lixar quem nos lixou a nós. Agora a Joana substitui todas as palavras do verbo lixar por outro verbo, neste caso iniciado pela letra F. Soa melhor não é !
        Sousa és grande.
        Abraço.

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