“Tecido Cicatricial e Instinto”

Liberdade daqui a: 1007 dias!

Nesta altura do ano – quadra Natalícia – todos Vós, e bem, nutrem pensamentos calorosos, sentimentos nobres, partilham, sorriem, logo, pensar em iniquidades, elucubrar, ou seja, “compor à custa de vigílias e trabalho” é algo que todos nós dispensamos, mas…

Mas esta semana um Juiz alemão considerou manifestamente desproporcional a prisão de um cidadão português a pedido das autoridades lusas!

Refiro-me a Lalanda e Castro.

O nosso Código Penal e Processual Penal não tem como fonte o Direito germânico?

Será que a fonte é germânica, a letra da Lei, mas quem a aplica é latino, profundamente imbuído do espírito judaico-cristão da penitência, do jugo, da acção inquisitorial?

Reconheço que a época é mais de amor e carinho e compras de última hora, mas para quem, como eu, encontra-se em autêntica penitência, factos como este fazem-nos pensar, elucubrar, revoltar.

Indivíduo cujas vítimas tinham 6 e 9 anos, as quais foram abusadas sexualmente pelo mesmo trinta e seis (36) vezes, foi condenado a cinco anos e meio de prisão!

Tal e qual como eu!

Um Padre que abusou sexualmente de duas meninas de 10 e 13 anos (a idade das minhas filhas) foi condenado a 20 meses de pena suspensa!

Um elemento da P.S.P.- Escola Segura, de 42 anos (menos um ano que eu) abusou sexualmente de uma menor de 13 anos (a idade da minha filha mais velha) e não está aqui em “Ébola”?

O Sr. Ricardo Salgado tem uma casa na Comporta arrestada pela Justiça e utiliza a mesma, enquanto eu e todos Vós vamos desembolsar 280 milhões de euros para indemnizar as vítimas do BES (do Sr. Espírito Santo) defraudadas pelo mesmo?

Eu sei, eu sei, é Natal, daqui a uma semana é Ano Novo, que chato que eu sou: só pensamentos negativos, pouco “natalícios”!

Perdoem-me o negror da minha escrita… é que no próximo dia 29 de Dezembro de 2016 atinjo o meio da minha pena e ainda estou aqui!

Estou em recurso, ou melhor: “recursos”, da medida de coacção e da sentença!

Eu, ao contrário de todos os outros, devo, tenho, é imperioso para a manutenção da ordem e tranquilidade públicas, estar em prisão preventiva, até porque, ao contrário de todos os outros, tenho perigo de fuga!

Há três anos seguidos que não passo o Natal em casa com os meus!

Com o meu filho de 2 anos que nunca vi a brincar em casa!

O ano passado, e no ano anterior, chorei ao escrever o texto nesta data: hoje não!

A data é-me indiferente! Já só penso em 2017! Só projecto o Futuro, não vivo no presente! Não tenho doçura em mim! Estou frio como a cela húmida onde agora escrevo, com luvas nas mãos e os pés gelados!

Não tenho fome, não tenho fome de carinho: quero que o Tempo se esgote!

Sou forte, estou acima do sentimento, sou aquele sobre o qual podem erigir uma imensa Igreja, sou Cefas: “Tu és Simão, filho de João. Vais chamar-te Cefas (que quer dizer Pedra)(João, 1,42)

Sou o cacto da Natália!

“Quando nos acontece o pior que nos poderia acontecer e o aguentamos, então somos o homem mais forte do mundo… o que na realidade, pode não ser uma coisa boa […]”

(in “O quarto Kennedy”, Mario Puzo)

Pode não ser uma coisa boa…” Será? Será assim?

Tenho medo. Muito medo! Estou a alienar quem amo porque antes quebrar que vergar!

– Não quero a “ninhada” aqui! Nem a 24 ou a 25! Depois os vejo! – eu, decidido.

Decidido ou com medo, com receio de sofrer ao vê-los a saírem da sala de visitas?

Longe dos olhos, longe do coração!

A Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu um conto belíssimo (entre vários): “O Cavaleiro da Dinamarca”.

A história de um valoroso cavaleiro que após uma morosa peregrinação à terra da Palestina, deseja mais do que tudo regressar a sua Casa para celebrar o Natal com os seus mas depara-se com enormes dificuldades, somente vencendo os obstáculos através da sua Força, firme, inabalável.

A questão que coloco é esta: o que perdeu o Cavaleiro durante o regresso?

O Amor dos seus? Esqueceu-se quem era? Perdeu humanidade? Tornou-se frio?

Todos os dias, aqui em “Ébola”, coloco a máscara! Visto a armadura! Desenho o sorriso forçado quando a “ninhada” vem ver o Pai!

Amo aqueles seres mais do que à própria Vida mas por vezes nem os quero ver. Eu sei, é cobarde da minha parte, mas a seguir dói tanto vê-los partir!

Estou forte, sólido ainda que vazio. Não sinto nada porque sentir é sofrer; tenho medo daquilo em que me estou a tornar. Quem ou o quê sou eu agora?

O meu sorriso é de escárnio, não é de alegria.

Qualquer voluntarismo da minha parte é interesseiro.

Estou dormente, indiferente, há muito que não tiro a máscara…

No teatro “Nō” Japonês (o teatro tradicional nipónico), as personagens são identificadas pela máscara. Existe uma personagem – o ancião místico com poderes divinos – cujo actor que desempenha esse papel sujeita-se a vários rituais de purificação porque depois de ter colocado a máscara torna-se Deus.

A minha máscara está a tornar-me no quê?

Este “ritual” a que me sujeitam não é de purificação! Estou sujo, maculado!

Estou há 994 dias a protagonizar um papel que não é o meu!

Dia 1 de Janeiro de 2017 estarei preso, sem condenação “transitada em julgado”, há 1000 dias!!!

Como isto tudo, esta máscara, pode afectar a minha personalidade?

À luz da teoria cognitivo-comportamental da personalidade, a situação que enfrento no momento e a forma como estou a agir e a pensar, acções e pensamentos produzidos ou resultado da situação, vão influenciar a persona João de Sousa!

Tenho medo, receio o que tudo isto está a operar em mim!

James Rollins, “O olho de Deus”: “[…] não tinha medo que ele visse o seu rosto verdadeiro, mas receava não ter rosto. Após ter passado tantos anos a desempenhar papéis diferentes para sobreviver, temia que não restasse nada. Se baixasse a guarda, sobraria alguma coisa? Será que não passo de tecido cicatricial e instinto?[…]”

Será que comigo se está a passar o mesmo?

Receio tirar a máscara! Digo a mim próprio e aos que amo que depois se vê, mais tarde falamos sobre isto ou aquilo. Nada de lágrimas ou abraços mais calorosos, exuberantes: “Estamos na prisão, aqui não!”

Quando eu sair depois resolve-se! Agora não posso, estou preso!

Quem sou eu agora, que raramente esboço um sorriso?

Tenho medo de retirar a máscara e deparar-me com o rosto da imagem que ilustra este texto: uma vítima mortal da lepra!

Estimados, um melhor 2017 para todos Vós e não se esqueçam: de quando em vez, retirem a máscara e sorriam carinhosamente para quem Vos ama! Acreditem em mim porque sei do que falo!

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3 thoughts on ““Tecido Cicatricial e Instinto”

  1. My favorite note was one from my daughter that was written when she was around six. I loved to have her sound out her words rather than me spelling them for her. I received a note from her that took me a week to decipher because she insisted I sound out the words as she wrote them. I still have the note. She is 39 years old now.

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