“Comparações”

Liberdade daqui a: 1035 dias!

 

“[…] Tal é, com efeito, a verdadeira causa de todas as diferenças: o selvagem vive em si mesmo; o homem sociável sempre fora de si, não sabe viver senão na opinião dos outros, e é, por assim dizer, exclusivamente do seu julgamento [dos outros] que tira o sentimento da sua própria existência […]”  (in: “Discurso sobre a origem da desigualdade”, J.J. Rosseau)

Constantemente nos comparamos com o Outro. Diariamente olhamos para o Outro por forma a vermos melhor quem somos. O que o Outro nos dá é a medida do que vamos retribuir; o que o Outro nos retira é a dimensão que avaliamos para dosear o nosso desgostar!

Permanentemente examinamos em conjunto, estabelecemos paralelismos, tentamos encontrar traços comuns ou dissonantes, é intrínseco à condição humana, comparar!

Thomas Hobbes, profundo conhecedor da natureza humana, deixou-nos um exemplo excelente da nossa necessidade de comparação e da dissonância cognitivo-afectiva que uma falsa percepção que possamos ter de nós e do Outro pode causar. Escreveu Hobbes no seu “Leviatã”: “[…] Porque mesmo que um homem (como muitos fazem) atribua a si mesmo o mais alto valor possível, apesar disso o seu verdadeiro valor não será superior ao que lhe for atribuído pelos outros […]”

O homem (agora com “h” pequeno) é muito mais inseguro que a mulher; necessita de comparar a sua força com os outros machos da espécie (à semelhança do restante mundo animal), constantemente estabelece paralelismos entre o seu desempenho, postura, destreza e tamanho.

Aqui em “Ébola”, destituídos de Poder, recluídos, adestrados para a obediência, os “jogos de Poder” e as comparações são o “pão-nosso de cada dia”!

Caminhando pelo pátio, o último a desviar-se da sua trajectória inicial: é o mais forte!

Na fila para o refeitório, o primeiro a entrar: é o mais forte!

O que consegue ter precárias: o mais inteligente/habilidoso/colaborador!

E, até nas situações mais primárias, reveladoras da profunda insegurança que o macho da nossa espécie experimenta, verificamos o que explanamos antes: a hora do banho diário!

Desde muito cedo que o macho da espécie humana compara a sua genitália com os outros machos da sua espécie!

Não interessa qual é o peso que o recluso levanta no ginásio se no final, aquando da higienização conjunta, a exposição das suas partes pudendas faz levantar a comissura dos lábios ao Outro num sinal evidente da comicidade provocada pela pequenez alheia!

As caldeiras aqui em “Ébola” estão constantemente a avariar. Eu e mais dois camaradas reclusos decidimos, desde Agosto do presente ano, tomar banho de água fria independentemente da estação do ano e da temperatura ambiente (por vezes aqui atingem-se os 1,2 graus negativos no Inverno!).

Os urros que emitimos ou as árias de ópera que interpreto, são a manifestação histriónica da nossa superioridade em relação aos fracos que percorrem os dois balneários, subindo e descendo escadas, tremendo, em busca de água quente!

O pior vem depois… comparando, tudo em mim se recolhe, e se demonstro braveza enfrentando a frialdade, o Outro retribui com a bravata avançando com desdém: “Sr. João, parece que hoje a salada é com “tomate cherry” e a dose é muito pequena!”

É inevitável comparar, é humano experimentar inseguranças, é normal!

Mas tudo isto (possivelmente estou a reconfortar o meu Ego!) é uma questão de água mais quente ou mais fria; uma “dissonância cognitiva” é  algo mais grave, pernicioso.

Dizem-nos os lentes que a “dissonância cognitiva” é “uma inconsistência entre algumas experiências, crenças, atitudes e sentimentos. De acordo com a teoria da dissonância, isto desencadeia um estado desagradável que as pessoas tentam reduzir reinterpretando algumas das suas experiências, a fim de as tornar consistentes com as restantes”  (in: “Psicologia”, Henry Gleitman et al.)

Não, Caro(a) Leitor(a), não estou a referir-me ao “estado desagradável” que experimento quando, após o banho, sou alvo de comparação; nada disto tem relação com a água fria: estou a falar da Justiça Lusa e da igualdade de todos perante a Lei, direito constitucional que não experimento, o que mais do que me tornar friorento, leva-me a epitetar a cega Justiça do nosso Portugal de frioleira!

Lembrem-se: é uma necessidade humana, comparar!

“Pena suspensa para Jorge Silva Carvalho. Decisão: ex-director do SIED condenado a quatro anos e meio e absolvido do crime de corrupção” (in: “C.M.”, edição de 19 de Novembro de 2016).

Devo confessar que gostaria de ter declarado às televisões o que declarou o Dr. Jorge Silva Carvalho quando saiu do Tribunal após ter sido condenado pelos crimes de acesso ilegítimo a dados pessoais, abuso de poder, violação de segredo de Estado e devassa por meio informático MAS absolvido pela prática do crime de corrupção, declarou: “Há uma grande impreparação para este tipo de matérias da parte dos Tribunais em geral”;

“Voltaria a pedir a facturação detalhada de um jornalista, como é óbvio”; acrescentando ainda críticas ao seu superior hierárquico, Dr. Júlio Pereira, “falando num comportamento absolutamente reprovável.”

Comparando, as pesquisas que eu realizei também declarei que as faria novamente porque, “como é óbvio”, é um procedimento normal na P.J. ainda que a Coordenadora Maria Alice Fernandes tenha tido um “comportamento absolutamente reprovável” ao afirmar que não era prática dos Inspectores, mentindo quando disse desconhecer o relacionamento pessoal/profissional que eu mantinha com o meu co-arguido.

No mesmo jornal diário: “Juíza perplexa com práticas nas secretas censura super espião”. Comparando (é inevitável), a “minha” Juiz-presidente não criticou, estranhou somente as práticas, revelando “uma grande impreparação para este tipo de matérias”!

Nuno Vasconcelos, da “Ongoing”, empresário acusado da prática de um crime de corrupção activa, foi absolvido. O Dr. Jorge Silva Carvalho facultou informações ao referido empresário, tendo, posteriormente, ingressado nos quadros da “Ongoing”.

Comparando, eu fui condenado pela prática de um crime de corrupção passiva e três dos meus co-arguidos condenados pela prática de um crime de corrupção activa, uma vez que eles prometeram-me vantagem patrimonial futura (sem qualquer prova material: escutas telefónicas, documentação, declarações em Tribunal dos próprios ou de terceiros).

Neste particular – a corrupção – a Juiz-presidente nem “esperou” que eu fosse trabalhar com os meus co-arguidos, que recebesse algo destes, bastou a sua convicção de que eles, de certeza, tinham prometido algo!

O Dr. Jorge Silva Carvalho é um homem possante, de larga estatura: será que ele tem maior que a minha a sua presunção de inocência ?!?

A revista “Sábado” desta semana faz capa com o Dr. Jorge Silva Carvalho, colocando em evidência uma frase sua: “Nos serviços secretos todos sabiam das ilegalidades”.

Não falei em ilegalidades no meu Julgamento, mencionei procedimentos que poderiam ser considerados (para olhos e ouvidos “leigos”) promíscuos. Será que a credibilidade do Dr. Jorge Silva Carvalho é maior que a minha?!?

Ex-elemento da Polícia Judiciária, o Sr. Tavares Rijo, actualmente comentador na RTP1, programa “A praça”: “Estive lá [na P.J.] trinta e tal anos. Deixávamos cometer pequenos delitos para alcançar um objectivo maior”. Estão a ver o paralelismo?

RTP1, 13 de Novembro de 2016, “Bom dia Portugal”: (em rodapé) “Armando Vara já pode contactar outros arguidos e sair do país”.

O que terá o Dr. Armando Vara maior que eu? Presunção de inocência? Influência?

Tudo isto desencadeia em mim um “estado desagradável” (mais do que a água fria de “Ébola”) e confesso que não consigo interpretar, reinterpretar ou aceitar esta experiência.

TVI, 7H42, “Diário da Manhã”: “Manuel Palos para evitar encerramento do SEF e porque queria manter o cargo, agilizou, acelerou processos de indivíduos conhecidos de Miguel Semedo. IGAI considera Manuel Palos brilhante e conclui que o mesmo nada recebeu, apenas praticou os ilícitos para salvar o SEF!”

O Dr. Manuel Palos dormiu aqui na minha cela, tomamos banho juntos e nessa altura eu ainda não tinha optado pela água gelada, pelo que assumo a minha perplexidade (à imagem da Juiz do Julgamento do Dr. Jorge Silva Carvalho) e tenho que obrigatoriamente colocar a questão: o que tem o Dr. Manuel Palos a mais ou maior que eu? Credibilidade? Ética? Moral? Boas intenções?

Jornal “i”, 25 de Novembro de 2016: Duarte Lima afirmou que é no Brasil que tem maiores hipóteses de defesa quando soube que ia ser julgado em Portugal!

O Dr. Duarte Lima tem mesmo que ter algo mais do que eu, do que todos nós!

Primeiro, do outro lado do Atlântico não! Agora, deste lado, também não!

O que terá o Dr. Duarte Lima maior que eu? Aversão a Julgamentos?

Uma desmesurada presunção de inocência? Desfaçatez? Ou um cartão do Monopólio: “Está livre da prisão”?

É humano comparar, precisamos de “balizamentos”, necessitamos de coerência e verificar congruência em nós, nos Outros, naquilo que nos rodeia!

Tem sido, ao longo destes 2 anos e 8 meses (no dia 29 de Novembro de 2016) “esquizofrenizante” esta minha experiência, autêntica provação e privação.

Em Dezembro deste ano, a 29, atinjo a metade da minha pena e ainda estou em prisão preventiva.

Interpus recurso da minha medida de coacção. Ainda não obtive resposta, o que me leva a equacionar a hipótese de ter algo a menos ou menor do que todos os outros mencionados (e dos que não mencionei mas todos nós conhecemos).

Interpus recurso do acórdão, da minha condenação a 5 anos e 6 meses, porque prometeram algo, quiçá um laboratório, e eu deixei-me corromper; conquanto outros ultrapassem os prazos da prisão preventiva, realizem manobras dilatórias para não se realizar julgamentos, eu não “sinto” a Justiça da mesma forma, inferindo que só posso ter em menor quantidade ou tamanho aquilo que “estes outros” notoriamente possuem.

A temperatura da água posso eu, aqui em “Ébola”, controlar por forma a não confranger os meus tecidos intumescentes, quanto à Justiça… sinto-me completamente impotente (salvo seja) !!!

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