“Inferência e Especulação: o caso do Pedro Dias, de Aguiar da Beira”

Liberdade daqui a : 1063 dias!

Sábado, dia 29 de Outubro de 2016: estou preso há 2 anos e 7 meses.

“Primeiro Caderno” do jornal “Expresso” (22 de Outubro de 2016): “[…] muita gente inocente condenada, mais do que devia. Quem não tem dinheiro para pagar a um advogado é condenado liminarmente. Reconhece que o seu caso é “diferente”, pois teve meios para se defender: “Gastei à volta de 300 mil na defesa e ainda devo €40mil” […]”. Declarações de Isaltino Morais.

Eu gastei 7000 euros com um advogado relapso e depois fiquei com a minha diligente e profissional advogada oficiosa nomeada pelo Estado! Sem comentários! Força Dra. Sónia Santos Lima, vamos a eles!!!

Inferência: operação intelectual pela qual se passa de uma verdade a outra, julgada tal em razão de seu liame com a primeira . (in “KLS”, léxico comum).

Especulação : pesquisa abstracta, teoria, por oposição a prática (ibid.)

Neste mesmo dia em que escrevo, Pedro Dias, presumível homicida de Aguiar da Beira, está em fuga há 17 dias! Faço votos para que quando este texto for publicado – a 31 de Outubro de 2016 – o indivíduo já tenha sido detido pelas autoridades!

Gárrulos comentadores descerebrados, alguns dos quais ex-funcionários da Polícia Judiciária, diariamente têm debitado gritantes lugares-comuns, desempenhos que somente evidenciam o puerilismo dos mesmos, declarações que demonstram a parvulez das suas especulações!

Mas isso até se suporta (exceptuando os ex-funcionários da P.J.) o que é incompreensível, inquietante, é a incapacidade das autoridades para deterem  o fugitivo.

Incompreensível para quem não conhece a realidade das instituições envolvidas (P.J. e G.N.R., até ao momento) e que dá crédito aos verberantes ou aos defensores dos OPC`s em questão; inquietante para aqueles que sabem (porque o experimentaram) que se trata de facto de descoordenação, incapacidade técnica e logística (por falta de meios) das polícias e, como não pretendo ser mais um dos “comentadores-cogumelo” ou outro corporativista, falarei só do que conheço: a Polícia Judiciária e a “coordenação” que mantém com os outros OPC`S em casos desta natureza.

Antes: “Correio da Justiça”, Ricardo Valadas, Presidente da ASFIC/P.J. Título: “Respeito e Decoro” (“Correio da Manhã”, 23 de Outubro de 2016).

Sobre a descoordenação P.J./GNR: “[…] Apesar de quem efectivamente entende destas matérias não necessitar, apraz-nos produzir um esclarecimento […]” Sobranceria, distanciamento elitista e, se não é preciso: porquê fazê-lo?

Compreendo a posição de defesa do Presidente da ASFIC/P.J., inclusive louvo a diligência até porque o Director da P.J. não diz nada de jeito e não deixa falar o responsável da G.N.R. puxando-o pelo braço, dando por terminadas as declarações do mesmo, como foi demonstrado pelas televisões (fabuloso exercício de coordenação!). Mas afirmar que existem “demiurgos de um cenário inventado de descoordenação” não ajuda em nada ao melhoramento das capacidades da P.J. e, mais importante, é falso! Ninguém inventou, existem limitações e ocultá-las é o princípio do fim da instituição que neste mês de Outubro completou 71 anos, que tem profissionais abnegados que “não dormem e não vêem as suas famílias” porque querem encontrar o Pedro Dias, mas cujo esforço se revela inglório porque estão a reiterar no erro, a alimentar a incapacidade porque não se resolvem os problemas estruturais, apenas se tapam os buracos ao sabor da conjuntura!

Trabalhei durante 8 anos no Departamento de Investigação Criminal (D.I.C.) de Setúbal, colocado nos homicídios.

O D.I.C. de Vila Real tem menos Inspectores do que o D.I.C. de Setúbal. Até muito recentemente eram os Inspectores que realizavam as recolhas lofoscópicas porque não existiam técnicos disponíveis em Vila Real!

Um Inspector nestes D.I.C.`s tem de fazer “clínica geral”, não se especializando em nenhuma área.

No D.I.C. de Setúbal, a 40Km da capital Lisboa, um Inspector está sozinho com somente um técnico lofoscopista (que fotografa, recolhe sangue, ajuda a virar os cadáveres, por vezes até ajuda na detenção) de quarta-feira a quarta-feira, 24 horas de prevenção: tudo o que falece do lado de lá do Tejo até Alvalade do Sado é da exclusiva competência da P.J. de Setúbal!

Vamos a todas? Claro que não, é humanamente impossível! Muitas situações são tratadas via telefone com os outros O.P.C.`s (G.N.R., Policia Marítima, P.S.P.): a famosa triagem do Piquete!

– O colega veja lá se existe indício de crime… como?! A porta não foi arrombada? Eu confio na sua análise… mexa no corpo, veja lá! – o Inspector da P.J.

E depois quando a coisa “dá barraca” porque o C.M. esteve lá, porque a vítima era filho/filha de alguém com (A) grande, lá tocam os alarmes e reúnem-se as forças mínimas muitas vezes coordenadas pela entidade máxima.

Então, na viatura da P.J., com o rotativo azul avariado e a sirene no mesmo estado, os pneus carecas, a luz do óleo acesa e uma luz laranja do sistema eléctrico ora a piscar, ora acesa, ora apagada, consoante os buracos da estrada que a suspensão do carro mais do que morta não consegue suavizar, “metemo-nos” pela auto-estrada para chegar mais depressa e na faixa de rodagem da esquerda (a mais rápida) seguimos enquanto outras viaturas ultrapassam pela direita, ao mesmo tempo que o condutor das mesmas com a mão nos presenteia com a mais típica linguagem não-verbal do típico condutor lusitano!

Isto tem que ser dito, debatido.

– Não conseguimos resultados porque o O.P.C. que chegou primeiro adulterou a cena de crime! – um qualquer elemento da P.J., um qualquer ex-elemento da P.J. agora comentador, um qualquer comentador que “bajula” a P.J., a G.N.R. ou a P.S.P., consoante o O.P.C. envolvido que pode fornecer informações a troco do elogio vazio!

Se outro O.P.C. adultera, é porque nós, P.J., não comparecemos logo ou concluímos não ser necessária a presença; isto tudo apurado à distância.

Mas a questão é mais grave. Em 2011, de 14 a 17 de Setembro, na ilha da Madeira, realizou-se um Congresso de Ciências Forenses, com 104 países de todo o Mundo, realizando-se igualmente o “19th Triennal Meeting of the International Association of Forensic Sciences”, em simultâneo com o “9th Triennal Meeting of the World Police Medical Officers” e o “5th Meeting of the Mediterranean Academy of Forensic Sciences”; realizou-se também o “1º Encontro de Medicina Legal e Ciências Forenses dos países de Língua Portuguesa”, o “10º Congresso Nacional de Medicina-Legal e Ciências Forenses” e o “Vº Congresso Luso-Espanhol de Medicina Legal”. Fabuloso! Sabem quem co-organizou com o Instituto de Medicina Legal e o seu Presidente na altura, Prof. Duarte Nuno Vieira, pela primeira vez?

A Polícia Judiciária, representada pelo Director do Laboratório de Polícia Científica da P.J., Dr. Carlos Farinha!

Um dos melhores eventos científicos de sempre no âmbito das ciências forenses”, teve uma “workshop” sobre diagnóstico diferencial na cena de crime: homicídio ou suicídio. Excelente tema!

Sabem quem foi o orador/formador? Alguém da P.J. porque são especialistas e a competência exclusiva da investigação é deles? Não. Um elemento da G.N.R., representando a G.N.R.!!!

Os elementos da G.N.R. adulteraram a cena do crime? Nós deixámos por desleixo, incompetência (acreditem! Eu estive no “lado de lá das grades”) sobranceria e falta de meios, ocuparem o nosso lugar!

Eu denunciei e insurgi-me contra esta ingerência nas nossas competências mas ninguém me ouviu, afinal aquilo foi co-organizado por um “chefe máximo” (Dr. Carlos Farinha) das “forças mínimas”!

“Expresso”, 22 de Outubro de 2016. Página 8. “Cativações. Poupanças de Alto Risco”. Podem funcionar mas não sem causarem danos colaterais até 2017: P.J. sem dinheiro para mudar pneus. Só em Lisboa, mais de 40 viaturas paradas, dívida acumulada à GALP.

Almeida Rodrigues [Director da P.J.] não respondeu às questões [colocadas pelo “Expresso”].

Estão a ver?! Não é má-vontade ou ressabiamento do agora caído em desgraça e recluído Inspector João de Sousa!

O Director não respondeu às questões! E quando fala, está tudo bem! Claro, porque exigir mais ou reconhecer erros e limitações era reconhecer a falência da sua gestão… e o Pedro Dias em fuga!

Não respondeu a questões colocadas!!! A 8 de Novembro de 2014, foi publicado neste espaço o opúsculo, “Então Polícia Judiciária? Esclarecimentos, por favor!”

Invoquei Steve Adubato: “[comunicação de crise] é um método estratégico de resposta que permite informar, confirmar, cimentar lealdade e suporte, ou, pelo menos, garantir o benefício da dúvida […]”.

O Exmo. Sr. Director, Dr. Almeida Rodrigues, apareceu cerca de 2 semanas depois acicatado pelas primeiras páginas dos jornais, acompanhado pelo responsável da G.N.R., somente para debitar uns quantos chavões de circunstância que se traduziram numa fraca pieira com acentuado sotaque. Ah! E puxou o braço do responsável da G.N.R., num claro: porque não te calas!?

As populações estão alertadas, as pessoas transidas de medo, querem explicações, necessitam de ver profissionalismo, cientificidade …

… surge então o número dois da Hierarquia da Polícia Judiciária, Dr. Pedro do Carmo:

“Alguém que não quer ser encontrado [o Pedro Dias] dificulta muito o trabalho”;

“Não se exclui a possibilidade de estar a ser ajudado”;

“Mais cedo ou mais tarde será detido”; “Houve desde o primeiro momento convergência de esforços”; “Não se exclui a possibilidade de estar em Portugal”.

Ninguém é tão decidido, ou transmite a ideia de o ser, como aquele que não sabe para onde vai!

Destas declarações podemos com segurança infirmar que se trata de uma batata, uma cenoura, pode estar cru ou cozido, seco ou molhado!

A P.J. tem uma longa experiência nestes casos… 31 de Julho de 1992, Maria Valentina, 22 anos. 2 de Janeiro de 1993, Maria Fernanda, 24 anos. 15 de Março de 1993, Maria João, 27 anos. Vítimas do “estripador de Lisboa”; autor dos crimes: paradeiro desconhecido, pode já ter falecido… ou não… não se pode excluir a possibilidade de estar vivo… mais cedo ou mais tarde, se estiver vivo, será detido… houve convergência de esforços das várias brigadas da secção de homicídios da P.J. … não, não houve e era colaboração interna, imaginem agora, com outro O.P.C., cerca de 25 anos depois, O.P.C. que tem meios no terreno e até faz “diagnósticos diferenciais de cena de crime”!

Mas a P.J. é científica, tem um gabinete de psicologia, faz perfis; e se não fizer, fazem aqueles senhores comentadores ex-funcionários: falem com eles que eles debitarão algo (vulgo “posta de pescada”!)

É claro que a P.J. já está a elaborar (mais relevante do que o perfil psicológico do presumível homicida) “Geographic Profiling” (perfil geográfico) que permite determinar o provável “comportamento espacial” do fugitivo, atendendo ao contexto das localizações conhecidas e a relação espacial entre elas e os locais dos crimes.

Está atenta no “princípio do menor esforço” (“Least Effort Principle”) que demonstra que um indivíduo colocado perante duas opções de acção (como uma fuga) escolhe a que se revela (para si, atenção!) mais cómoda, o que permite pro-activamente, actuar.

Não deverá esquecer a questão da “Distance delay”, ou seja, que quanto mais se afasta o agressor do espaço familiar, diminuem as agressões (primeiro matou, depois espancou e colocou batatas na boca das vítimas) e claro, como é óbvio, a Teoria do Círculo (“The Circle Theory”) “nascida” directamente do campo da psicologia: os designados comportamentos do agressor “marauder” e “commuter”!

“Marauder” (o que saqueia, pratica saque) e “Commuter” (pessoa que viaja com bilhete).

Obviamente que a P.J. e os seus responsáveis que nada dizem, estão a estudar estas questões!

Não, não estão! E isso é preocupante.

Os Inspectores que de facto dão tudo no terreno, que apesar da decrepitude dos carros ou de ganharem menos à hora do que uma empregada de limpeza, estão a trabalhar! Os elementos de Vila Real estão diariamente a exercer aquilo que é uma verdadeira profissão de vocação conquanto tudo o que foi exposto, mas… mas de que vale caminhar sem destino? Sem orientação? Navegar à vista, reagindo, não antecipando.

Faltam meios, especialização, coordenação, falta a coragem de realizar exercício de “Metacognição”, auto-monitorização!

Krugger e Dunning (1999) afirmaram que “Quando as pessoas são incompetentes nas estratégias que adaptam para alcançarem o sucesso e a satisfação, sofrem duplamente: não só alcançam conclusões erradas e fazem escolhas desastrosas, assim como a sua incompetência subtrai-lhes a capacidade de se aperceberem desse facto. Em vez disso, elas ficam com a impressão errada de que estão a fazer tudo bem.”

A “Metacognição” é pensar sobre o próprio pensar. É o reconhecimento das fraquezas, deficiências, capacidades (reais) e no fundo, ser honesto intelectualmente consigo próprio.

A P.J. tem que realizar este exercício, para seu bem e para servir melhor, não se deixando cair em “guerras políticas”, corporativismos serôdios, vaidades pessoais… Como? Eu?!?

Vaidoso? Opinador como os outros?!?

Caro(a) Leitor(a), estou consciente que uma andorinha não faz a Primavera, nem quando morre uma andorinha, acaba a Primavera (e eu estou morto e enterrado … por enquanto) mas permitam-me a defesa da Honra: tenho escrito sobre tudo isto, antecipando o que está a suceder, estive lá, os factos dão-me razão (infelizmente) e… eu nunca disse que não era vaidoso ou que era ignorante! Eu faço constantemente o meu exercício de “Metacognição”!

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