“Amnésias Psicogénicas”

Prisão Preventiva: 2 anos, 5 meses e 7 dias!!!!

Leitura da sentença, faltam: 15 dias!

Amnésia, parcial, total, temporária ou definitiva!

Provocada por causas orgânicas ou psicológicas. Factores externos ou internos.

Síndrome de Korsakoff (encefalopatia induzida por álcool) quadro grave de amnésia no qual se podem verificar episódios de confabulação!

Perturbações mnésicas com desenvolvimento de um défice de memória; amnésia dissociativa: “incapacidade para recordar informação pessoal importante, geralmente de natureza traumática ou de stress, demasiado vasta para ser explicada por vulgar esquecimento.”

Amnésia anterógrada: “verifica-se após um trauma cerebral e é caracterizada pela incapacidade de recordar informações novas. Lembranças de experiências recentes desaparecem, mas a pessoa consegue recordar com clareza eventos anteriores ao trauma.”

Amnésia retrógrada: “a pessoa consegue recordar-se dos eventos que ocorreram após o trauma, mas não consegue lembrar-se de factos e informações que lhe eram familiares antes do trauma ocorrer.”

Existe para todos os gostos; o(a) Leitor(a) escolherá. Só mais uma definição, uma vez que julgo aplicar-se ao que explanarei de seguida:

Amnésia psicogénica. Verifica-se neste caso um quadro de pantomima, “no qual o examinado refere não se lembrar de certos eventos para no fundo não se prejudicar.”

A 20 de Agosto de 2016, o jornal “Correio da Manhã” noticiava a transferência/substituição/afastamento de vários Directores de Estabelecimentos Prisionais (E.P.´s): “[…] Directora afastada depois de vídeo polémico […]” (Sintra); “[…] Final das comissões serviu para uma remodelação global nas cadeias […]” (Angra do Heroísmo, Montijo, Guimarães, E.P. de Lisboa e Linhó).

E “Ébola”? Perdão! E o Estabelecimento Prisional de Évora? A prisão especial? Será que o Sr. Director da Direcção Geral dos Serviços Prisionais (D.G.S.P.) esqueceu-se? Terá sido um quadro de amnésia? Psicogénica? Pantomima?

Esqueceram ou tentaram fazer esquecer o “abaixo-assinado” (44 em 47 reclusos assinaram) protestando e solicitando uma auditoria ao E.P. de Évora, uma vez que a gestão do mesmo era, no mínimo, negligente?

O referido abaixo-assinado – acção inédita pelo grau de adesão – foi enviado ao Presidente da República, Ministra da Justiça, Director dos Serviços Prisionais, Dr. Celso Manata e ao Provedor de Justiça. Será que foi esquecido mesmo depois de noticiado nos “media” nacionais?

Olvidaram a morte do recluso João Furtado?

Não desejam recordar a entrevista que passou na CMTV, na qual o recluso João de Sousa denunciava a presença de ratazanas mortas no contentor existente que serve de cozinha, sem condições para quem lá trabalha?

Amnésia selectiva relativamente à questão da ausência de técnicos especializados em ressocialização e reinserção social ou técnicos para apoio e acompanhamento, orientação e terapia dos abusadores sexuais e pedófilos aqui recluídos? (escrevi sobre esta situação a 14 de Setembro de 2015, texto do blogue “De Commodo et Incommodo”).

É possível que tenham esquecido que nesta prisão, especial, somente com 44 reclusos (actualmente), ainda não tenha sido implementado o protocolo para reclusos autores de crimes sexuais?

Esqueceram os decisores que este E.P. é o único que não disponibiliza a plataforma digital para que os reclusos que estão a estudar possam realizar os seus estudos?

Já não se lembram que foi neste E.P. que um recluso foi castigado por opinar, denunciar, propalar o que aqui se passa?

Está esquecida Dra. Margarida Estevinho que foi “despudoradamente” afastada, afastamento que só pode ser explicado pelo voluntarismo, profissionalismo e humanidade que eram evidentes nas suas acções, algo inédito em “Ébola” e que só veio sublinhar, evidenciar a autêntica ausência de vontade, interesse e capacidade de fazer cumprir a Lei: ressocializar e reinserir!

– Então, João, o Director fica cá? – um recluso – Era como eu dizia: não vale a pena lutar, só nos prejudicamos!

Invoquei Roberto Saviano na resposta: “Dizem-nos que não existe esperança! Eles querem convencer-nos de que assim funciona o mundo, que só é possível ter sucesso nas coisas através do compromisso, da concessão, porque, no fundo, todos se vendem se quiserem chegar a algum lado!”

O meu camarada recluso encolheu os ombros olhando para mim e deixou-me na minha cela, talvez pensando que eu era um lírico e o tal de Saviano um novo reforço do Sporting!

Esta semana, o mesmo recluso, com mais outros dois na minha cela:

– João, posso? – batendo na porta do jazigo.

– Sim! – felizmente não estava na sanita.

– Podemos? – apontando com a cabeça os outros dois – O Director vai-se embora e vem para cá a Directora de Pinheiro da Cruz … – enquanto entravam.

A seguir a estes, muitos mais me interpelaram na cela, nas alas, no refeitório e até no banho.

– É pá o Gajo (Director) mentiu-me dizendo que no final de Setembro tratava da minha situação! – um.

– Não é que o fulano garantiu-me que em Outubro resolvia o meu problema! – outro.

– Se calhar o Director não sabia que ia embora! – um “cromo” que espera precárias, prometidas há muito tempo pelo Director em questão!

– Se calhar esqueceu-se que ia embora! – eu, com a toalha secando o baixo ventre.

Qual a razão para  ocultar o facto aos “media” e à população recluída de “Ébola”?

Amnésia? Psicogénica?

Ou: não vamos dar a ideia a estes indivíduos que denunciaram, queixaram-se, propalaram o que aqui se passa nesta instituição totalitária foi útil, um direito que possuem!

Não, não pode ser! Quem vai ligar a presos? Quem vai dar ouvidos àqueles que se banham nas “águas do olvido” do rio Letes? Aqueles que aos cinco sextos, obrigatoriamente, recuperados, reinseridos, ressocializados ou não, vão ser devolvidos à sociedade?

Não, claro que não! Trata-se apenas de finais de comissões, transferências normais.

Que peso pode ter um abaixo-assinado ou um blogue de um recluso?

Voltemos ao tal “tipo contratado pelo Sporting”, o Roberto Saviano, jornalista e escritor italiano: “[…] Mas quem mete medo não é o homem que escreve, são as muitas pessoas que ouvem, os olhos que leem uma história, as muitas línguas que a contarão depois. A palavra torna-se permissa da acção e em muitos casos a própria acção […]”

Esta semana, o anterior Director de “Ébola” foi transferido (coitados dos reclusos de Vale de Judeus!). Não reuniu a população recluída e despediu-se, nada disso, esqueceu-se ou então não queria ver o franco sorriso na cara dos reclusos!

Há uns meses um recluso abordou-me: “João, quando saíres daqui vais continuar Delegado da APAR (Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso)? Vais continuar a falar e escrever sobre isto tudo ou vais esquecer?”

Respondi-lhe que não esqueceria e continuava a lutar por um sistema judicial e penitenciário melhor, afinal eu tinha sentido na pele (e ainda sinto) as deficiências de ambos.

É lógico, humano, que saia daqui (quando sair, espero eu ainda este mês!) com “cicatrizes psicológicas”, traumatizado, mas não vou enfermar de “Amnésia psicogénica”!

A pantomima, o fingimento, o esquecimento conveniente, deixo-os para o ex-Director de “Ébola”, para o Director da D.G.S.P., para os cínicos decisores da Justiça Lusa!

Essa pantomima, essa “amnésia psicogénica” convenientemente “anterógrada” é para os “Sócrates” e todos os outros que por aqui passaram; estão lá fora, sendo que aqui dentro, diziam que iriam mover mundos para mudar este sistema desumano, injusto.

Muitos deles com responsabilidades directas no que se legislou, legisla, promoveu e decretou por esses tribunais nacionais.

– João, eu não conhecia esta realidade … quando sair vou fazer algo! – todos eles pronunciaram estas palavras.

Actos: nada!

Talvez por medo de represálias aqui dentro (afinal trata-se de quem legislou, de quem fazia parte do Ministério Público), tudo prometeram e até agora pouco fizeram.

Amnésia psicogénica. Burlões cujo único desejo foi promover a comiseração geral, foi o compromisso e a cedência para sobreviver.

O Director já se foi. Acredito que a luta realizada contribuiu para o facto.

Espero que a nova Directora faça melhor e diferente, o que não será difícil atendendo ao desempenho do seu antecessor.

Quanto a mim, não esqueço nada, aponto tudo para escrever depois e registado ficar.

Não esqueço a minha palavra dada quando me convém, por isso, este mês, a 20 de Setembro de 2016, quando for para casa, cumprirei: nu integral público para festejar a minha liberdade!

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