“Pequenos nadas que são tudo, sem falsa humildade”

Prisão Preventiva: 2 anos, 4 meses e 17 dias!!!!

Leitura da sentença, faltam: 36 dias!

No texto da passada semana, invoquei António Lobo Antunes, esta semana volto a fazê-lo!

Devo confessar algo que para um Leitor compulsivo, um bibliomaníaco, é uma vergonha: nunca li um livro do Lobo Antunes.

Pior ainda: o único livro/autor que não consegui acabar de ler foi o Lobo Antunes (“Memória de Elefante”).

Tinha 16 anos quando iniciei a leitura, a obra estava em casa dos meus pais (presentemente faz parte da minha biblioteca) e não consegui concluir o livro.

Mais tarde – 29/30 anos – tentei “Os cus de Judas”. Igual desfecho.

Julgo que a culpa é minha, não “me entra”, não o entendo.

É uma falha tremenda, eu sei.

Agora as crónicas… delas sou fã: possuo todos os livros das crónicas!

Leio semanalmente as mesmas.

Conheci o autor numa edição da feira do livro de Lisboa. Autografou-me dois livros: um para mim (que ainda não li), outro que ofereci a um colega da P.J. porque os livros não se emprestam, são objectos pessoais valiosíssimos. Como nos legou Umberto Eco: “O saber não é como a moeda que permanece fisicamente íntegra mesmo através das trocas mais infames: ele é, antes, como um fato belíssimo, que se consome através do uso e ostentação. Não é assim de facto o próprio livro, cujas páginas se esfarelam, cujas tintas e ouros se tornam opacas se demasiadas mãos lhe tocam?”

Lobo Antunes, na sua crónica semanal na “Visão” (edição nº 1222): “[…] – Não vou aos cemitérios porque não está lá ninguém. E é verdade, não está. Nem sequer eu um dia porque me hão-de pôr de certeza nos Jerónimos, entre Camões e Vasco da Gama, com quem formarei um novo Trio Odemira. Deus há-de gostar das nossas cantorias e já o imagino a bater o ritmo com o pé […]”.

Lobo Antunes terminava assim a sua crónica.

Palavras somente? Falta de humildade? Devaneio narcisista?

Oscar Wilde, no seu “Retrato de Dorian Gray”, alerta para a incontornável evidência científica que um bom escritor é sempre desinteressante como pessoa, uma vez que coloca todo o seu fascínio pessoal na sua obra. No caso de Lobo Antunes, talvez por desconhecer a sua obra, acho o personagem fascinante: nada de falsa humildade. “Eu serei Nobel mais tarde ou mais cedo. Se não o for? Que se foda!” (Palavras do próprio!)

Mas tudo isto são palavras. Sim, as palavras contam mas os actos provam!

E já agora: humildade é “o rebaixamento voluntário por um sentimento de respeito ou … de fraqueza”!

Lobo Antunes pode dar-se ao verdadeiro luxo de não respeitar ninguém e de não demonstrar fraqueza; eu, e agora é falsa humildade, não me considero melhor ou pior, apenas diferente!

E diferente porquê, diferente de quem? E como aferir isso mesmo?

Consegue-se aferir através de pequenos nadas que são tudo. Através de pequenos gestos!

Aconteceu-me aqui, no “Inferno de Ébola”, há duas semanas. Confirmei (sem falsa humildade) o quão diferente sou enquanto pessoa e profissional da P.J.

Refeitório cheio. Chegou um novo recluso. Como baratas loucas, num frenesim orgíaco, os reclusos do costume: “Sr. João, chegou um tipo novo! Tem uma cara de pedófilo!”; “Burlão, burlão, acho que é burlão!”; “Não, violência doméstica!”

Refeitório cheio. Tudo a olhar, a escrutinar o tipo novo. Eu, concentrado no levantamento do tabuleiro da comida, sinto alguém a vir na minha direcção:

– Sr. Inspector, como está? – é o tipo novo com a mão estendida!

Cumprimentei o indivíduo e toda a gente viu, sorrindo alguns para mim:

– Este entrou logo a pés juntos, João! – outro recluso com a boca cheia.

Enquanto comia, estudei o sujeito: “Acho que o conheço!” – disse aos meus comensais.

Já fora do refeitório, interpelei o indivíduo e questionei-o:

– “O senhor conhece-me?!”

– Inspector João de Sousa, não é? – de novo a mão estendida, de novo tudo a olhar!

– Eu sou o “X”, o senhor investigou-me!

As voltas que o Mundo dá, e nós a rodar com ele!

Um dos colegas que já aqui esteve e agora em casa se encontra com pulseira, encontrou por aqui alguma “má-vontade”!

Antes de o mesmo chegar, chegou-me “cirurgicamente” aos ouvidos que o “P.J.-da-droga-que-está-para-entrar” tinha prendido um recluso que por aqui estava e terá dito de forma jocosa a este aquando da “entrega” do preso em “Ébola”:

– Este Natal já o passa aqui! – referindo-se ao E.P. de Évora.

Claro que agilizou-se tudo por aqui para que o meu colega não tivesse problemas. Não fiz nada de extraordinário, sei que ele faria o mesmo por mim (sem ironias!).

Voltando ao “novo tipo que o Judite (sou eu!) investigou e está preso por causa dele”, como por aqui se diz.

Já aqui recluído, realizou-se “vídeo-conferência” com o Tribunal de Setúbal. Prestei declarações no âmbito do processo-crime do “novo recluso”.

Os factos. Passagem de ano 2008/2009. 22h35. Telemóvel da prevenção aos homicídios do D.I.C. de Setúbal toca. A família De Sousa a jantar, toda a gente congela.

Subo ao mezanino do “Castelo”. Serviço: um cadáver numa estação de serviço.

Quando se começam a ouvir os disparos de arma de fogo no “bairro da Jamaica”, é meia-noite, passagem de ano, eu estou a passar a perna por cima do cadáver!

Começam a chover chumbos dos disparos de caçadeira – o bairro está a cerca de 500 metros.

Um impacto por cima da minha cabeça, numa janela de um primeiro andar. Olho e estão elementos da P.S.P. deitados no chão: “Sr. Inspector baixe-se, estão a disparar sobre nós!”

Um dos elementos das equipas de intervenção rápida da P.S.P. está aqui preso comigo: reconheceu-me quando aqui entrei a 29 de Março de 2014. As voltas que o Mundo dá, e nós a rodar com ele!

– Sei quem tu és. Trabalhei contigo naquela noite lixada!

Liguei à Dra. Maria Alice:

– Saia daí João! O que foi isso? São os tiros? – histérica.

Não saí. Fiquei lá e acabei o serviço. Fui com seis romenos para o D.I.C. de Setúbal. Ninguém estava disponível para ajudar: passagem de ano!

Dia 1 fui a casa. Dia 2 já lá estava outra vez, desde as 15h30 do dia 1 de Janeiro de 2009!

Os romenos nada. Testemunhas nada. Informação: nada.

Andei a passear os romenos, a manipular os romenos, a “burlar” os romenos (como dizem os meus colegas) sozinho. Falávamos em italiano: “João, também fala italiano?” – a Maria Alice.

Passados 22 meses recebo os romenos, sozinho, num hotel da nossa capital. Consigo que os mesmos indiquem a moradia onde o agora falecido filho e irmão tinha ido urinar junto ao muro (versão “soft” dos romenos)!

Consigo convencer o Juiz de Instrução a não prender os romenos que assaltavam habitações em Portugal (sim, é mesmo assim que se faz por cá, o poder da P.J., nomeadamente do simples Inspector que sozinho trabalha com a conivência da sua Coordenadora, é desmesurado. O objectivo era identificar o homicida!)

Os romenos, à noite, levam-me à moradia onde a vítima, na passagem de ano, vendo que a casa estava com as portadas fechadas, às escuras, foi urinar junto ao muro.

Os romenos com os quais eu andei durante dias, que me ofertaram uma garrafa de vinho (horrível, o português é melhor) foram ouvidos para “memória futura” e partiram para o seu país.

Busca domiciliária à habitação onde a vítima foi urinar, tendo sido baleada mortalmente, sendo que o irmão da mesma colocou o seu corpo numa estação de serviço da Galp, a vários quilómetros do local da ocorrência, só revelando meses após o sucedido uma versão “soft” do que realmente se passou: assalto a uma residência com escalamento de um muro!

Quem residia no local? Um elemento das forças de segurança já reformado.

– Bom dia! O meu nome é João de Sousa, sou Inspector de homicídios da P.J. e estou aqui para realizar uma busca à sua residência, conforme o despacho do Juiz que agora faculto a si uma cópia. Dá-me licença?

– Sim… entre!

– O Sr. “X” possui uma arma de fogo?

– Sim… – estupefacto.

– Disparou a mesma recentemente?

– Sim, aquando da passagem de ano, em 2008! Dei um tiro para o ar, na parte de trás da casa.

Uns indivíduos estavam a saltar o meu muro… Está ali em cima a arma, eu entrego-lhe…

– Lamento informá-lo: o senhor matou um indivíduo!

Não, não o detive. Não, não ficou preso após ser constituído arguido e interrogado.

Sim, após 8 anos, foi condenado a 11 anos de prisão efectiva, condenação que após recurso ficou em 6 anos de prisão em “Ébola”! O Sr. “X” tem 65 anos, estava em casa e tentaram roubar a sua residência: a inacreditável Justiça Lusa!!!!

No dia 7 de Agosto de 2016, às 9h15 recebi a visita de um verdadeiro Amigo e colega da P.J.

Na sala de visitas, às 9h25, entram um casal jovem e uma senhora mais velha.

Olham-me fixamente. Estou a falar com o meu Amigo e referencio o comportamento “daquela gente”. Talvez alguém que viu a entrevista na CMTV, lê o blogue ou lia as crónicas do C.M.

A porta de acesso dos reclusos à sala de visitas abre-se e entra o Sr. “X”, o dos 6 anos e ainda o pagamento de uma “choruda” indemnização!

Fez-se luz. Era a esposa do Sr. “X”, julgo que seria o genro e a filha que se apresentou como tal e fez questão de me cumprimentar. Todos fizeram questão de me cumprimentar.

O meu Amigo olhou-me, percebi a questão no seu olhar:

– São os familiares deste sujeito que entrou, que eu investiguei e que apanhou 6 anos de pena efectiva!

Então não existem ressentimentos, má vontade, gestos maus?

Muitos aqui comentaram: “Então o “Judite” prende o gajo e ele respeita-o!”

Claro que sim! O segredo? Manipulação? Burla?

Não, nada disso, algo muito simples, mas que dá um trabalhão: profissionalismo!

Profissionalismo sem falsa humildade. Nem melhor nem pior, apenas diferente (agora com tremenda falsa humildade. Tem que ser porque para sermos aceites pelos outros, temos que cultivar em nós alguns defeitos!)

Finalizando. Os meus co-arguidos foram vítimas de sequestro e roubo. Na ocasião mataram um dos assaltantes. Isto em 2008. Tratei o processo da mesma forma que o fiz com o Sr. “X”. Invoquei o facto em Tribunal, dei o exemplo do caso do Sr. “X” (sem imaginar que este entraria aqui em “Ébola” alguns meses após as minhas declarações).

A Dra. Maria Alice e os meus colegas afirmaram desconhecer se auxiliava os familiares das vítimas dos meus processos, ironizaram: “Se o Sr. João de Sousa fazia trabalho de Segurança Social? Que eu tenha conhecimento, não!”

Palavras!

Palavras: investiguei mal os meus co-arguidos porque formámos uma associação criminosa!

Palavras: nunca auxiliei as pessoas nos meus processos; negligenciava investigações!

Pequenos nadas que são tudo para justificar uma falsa teoria lógico-dedutiva que tem sustentado 2 anos, 4 meses e 17 dias de prisão preventiva!

O que vale mais: uma palavra ou um gesto? Uma intenção ou um acto? Uma hipótese ou um facto? Um indício ou uma prova?

Não irei para os Jerónimos como o Lobo Antunes, nada disso.

Estou num local que pode ser considerado um cemitério, metaforicamente falando/escrevendo!

Ao contrário dos cemitérios, aqui está muita gente, por aqui passam muitos que como no cemitério são esquecidos.

São apenas palavras ou números de reclusos, mas, diferentemente do lugar deserto e silencioso onde enterram os mortos, aqui não estão estátuas inertes, aqui estão pessoas que são visitadas por outras que apenas reagem àquilo que nós ofertámos enquanto profissionais.

Aqui, os nossos gestos passados foram as sementes dos gestos presentes daqueles que interagiram connosco, em outro tempo com outra luz…

… e o gesto é tudo!

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One thought on ““Pequenos nadas que são tudo, sem falsa humildade”

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