“O meu nome é João Pedro Sebastião de Sousa, também eu […] MAS …”

Prisão Preventiva: 2 anos, 4 meses e 3 dias!!!!

Leitura de sentença, faltam: 50 dias!

Estimado(a) Leitor(a),

O meu nome é João Pedro Sebastião de Sousa, tenho 42 anos, sou casado, tenho três filhos menores e sou Inspector da P.J.; também eu estive na presença do “super-juiz”, Dr. Carlos Alexandre, MAS continuo preso preventivamente há 2 anos, 4 meses e 3 dias!

Nunca uma conjunção foi tão determinante, tão diferenciadora!

“MAS”, expressa fundamentalmente oposição ou ressalva; tem como sinónimos “porém”, “contudo”, “todavia”, “entretanto”, “no entanto”!

“Vem por aqui – dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que os ouvisse

Quando me dizem: “Vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços),

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…”

No dia 22 de Julho de 2016, o meu colega Inspector-chefe e o seu co-arguido saíram de “Ébola”, da cela ao lado da minha, e foram para casa sujeitos a vigilância electrónica.

Dei um caloroso abraço ao colega, daqueles que somente quem partilha o infortúnio pode ofertar. Ainda durante o instintivo amplexo disse-me:

– Calma João! Dia 20 (de Setembro) também vai ser o teu dia! – emocionado.

– Vamos ver, vamos ver … – respondi-lhe – Que tudo corra bem para ti! – acrescentei.

Na ocasião não disse mais nada, o momento era de alegria … MAS como acreditar na sua previsão para dia 20 de Setembro, ele que já tinha desabafado comigo:

– João já me “deram” especial complexidade ao processo, portanto ficarei aqui tanto tempo como tu!

Enganou-se! Assim como se equivocou o Procurador. Dr. Orlando Figueira:

– Acredite João, eu vou ficar por aqui até ao último dia do final do prazo da especial complexidade do inquérito!

A ambos respondi: “Olhe que não! Não se trata da mesma coisa!”

Se não se trata “da mesma coisa” então trata-se do quê?!

Não são crimes da mesma natureza? Mais graves até?

Não são ambos elementos da P.J.? Não se trata de um Magistrado?

Não é o mesmo juiz, o Dr. Carlos Alexandre?

NO ENTANTO aqui estou eu, ainda, sentado ao lado da sanita, no “jazigo”, a escrever …

Mais um pouco do “Cântico Negro”, do Régio, que ajuda a perceber:

“Prefiro escorregar nos becos lamacentos / Redemoinhar aos ventos / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos / A ir por aí …”

Também eu estive perante o juiz, Dr. Carlos Alexandre.

Numa sala cheia de curiosos – o que grande gáudio proporcionou ao “super-juiz” – comecei a falar. Passados cinco minutos, o juiz interrompe o meu discurso, vira-se para o meu advogado e vocifera:

– Dr. Santos Oliveira é para isto … foi para isto … o Sr. Dr. conhece-me há anos … é para isto … – colérico.

Eu, serenamente fecho o Moleskine, arrumo os papéis, afasto um pouco a cadeira demonstrando estar pronto para sair assim que a indicação fosse dada para tal …

– Bom! MAS continue Dr. Sousa, continue eu vou ouvi-lo … – mais afável.

Quem presenciou sabe o que se passou: Falámos das contas bancárias e dos empréstimos do … Dr. Carlos Alexandre. Mostrámos as etiquetas dos nossos fatos um ao outro. Ele contou-me uma história, eu retribuí-lhe a gentileza contando-lhe outra!

Ele, Carlos Alexandre, deu-me “piedosas intenções”, pediu-me “definições”, convidou-me a “ir por ali”, eu, como o poeta, respeitosamente repliquei: “Sei que não vou por aí!”

MAS o que desejava o Dr. Carlos Alexandre?

Eu digo-vos e vamos fazer um exercício conjunto. Vamos começar apresentando o “Lado Lunar” da questão, como canta o Rui Veloso: o João de Sousa é culpado, criminoso, como a imprensa referiu: “Um Inspector da P.J. ao serviço do crime”.

Tese da Maria Alice (investigação) e do Dr João Davin (Ministério Público).

– o Inspector João de Sousa foi avisado por alguém no interior da P.J. de que era alvo de uma investigação (vamos admitir que é verdadeira a hipótese).

Tendo negado desde o meu primeiro interrogatório o facto, tendo negado por mais duas vezes, em sede de interrogatório complementar, perante os meus dois colegas e o Dr. João Davin, por que raio é que haveria de o confessar ao histriónico, Dr. Carlos Alexandre?

Mais importante: se alguém me avisou, vou trair quem me ajudou!?!

Sou bandido, criminoso e junto a esse “lado lunar”, a terrível nódoa da traição, da delação?

“Malandro que é malandro não faz barulho, muda de esquina”.

Então “aperta-se a mão ao Sinatra” e depois para não penar “abre-se a gasosa”?

Afinal José Sócrates tinha razão: a prisão preventiva serve para “vergar o indivíduo”, serve para a delação!

Na série documental “A Pide antes da Pide”, o narrador diz-nos que somos um povo que, devido à “delação premiada informal”, contribuiu para o medrar da polícia política, do opressor.

Actualmente, num suposto regime de Direito Democrático, um juiz em particular – o Dr. Carlos Alexandre – e muitos dos presos preventivos (muitos com formação em Direito, muitos que sabem como o “Sistema” opera) têm contribuído decididamente para o desvirtuar, para a deturpação do instituto da prisão preventiva!

Nós só temos as instituições que queremos, que permitimos que existam!

MAS continuemos com esse “Lado Lunar”:

– o Inspector João de Sousa lucrou com a sua associação criminosa e tem dinheiro, ouro e diamantes, acrescido do facto de saber da atividade criminosa dos seus co-arguidos, PORÉM não o confessa!

E sou criticado e castigado por isso?! Não posso “dar à morte” quem me fez ganhar tanto dinheiro ilicitamente! É lógico!

“Omerta”, o código do silêncio lucra a todos, assim como não vou “dar o ouro ao bandido”, perdão, ao Dr. Carlos Alexandre!

E estou a ajudá-lo evitando a vergonha que deve estar a sentir por ter que libertar os bens do Álvaro Sobrinho após decisão da Relação que lavrou o seguinte acórdão: “[…] supor ou presumir não basta. As presunções têm de assentar em factos conhecidos e demonstrados por outra prova, sob pena de estarmos na presença da presunção da presunção […]”

Claro que o Dr. Álvaro Sobrinho não tem o meu “lado lunar”, eu sei!

O José Veiga já não tem polícia à porta. José Sócrates já corre no Parque das Nações, dá palestras, entrevistas, TODAVIA não apresenta o meu “lado lunar”.

Todos estiveram perante o “super-juiz” Dr. Carlos Alexandre e ENTRETANTO viram a sua medida de coacção desagravada ou mesmo desaparecer.

O que se passa comigo? Não encontrei eu a “soga de Teseu”? Onde está o “fio de Ariadne” que me conduzirá para a saída deste labirinto?

A “soga de Teseu” era a toga do Dr. Carlos Alexandre: confessa e vais para casa!

“Porquê auto-infligir a estrapada, Dr. João de Sousa? Eu posso tirá-lo da polé!”

Não foi isso que o “super-juiz” fez com o colega da P.J. que entrou recentemente aqui em “Ébola”?

Não ofertou – de forma escabrosa, pornográfica mesmo, inquisitorial – o Dr. Carlos Alexandre, o exemplo do Sr. Paulo Pereira Cristóvão dizendo ao agora preso Inspector: “O Paulo Pereira Cristóvão só depois de ter estado preso é que confessou, veja lá você, não quer dizer onde está o resto do dinheiro?” (Como sei disto? Eu estou aqui em “Ébola”, em “carne e osso”, em “primeira mão”!)

Ninguém vê o perigo desta indecorosa prática?

E se não existir nada para confessar?

E se não existir “lado lunar”? E se aquilo que se declarar não confirmar a teoria lógico-dedutiva da investigação: ficamos presos até dizermos que sim?

Até dizer: Fui eu!

Isto é medievo!

Eu tenho visto toda a gente a passar por aqui, eu leio os jornais, as crónicas, os artigos insinuando novos nomes, os mesmos nomes que aqueles que já não estão cá sussurraram aos meus ouvidos. Aqueles que murmuraram aqui, após falarem com o “dono da polé”, já aqui não estão.

A subtileza levou-a o vento ou talvez a dor de estar sujeito a tudo isto obrigue a esquecer a hombridade, o que em nada ajuda à aplicação da Justiça, nada auxilia ao esclarecimento do que é de facto e para que serve o instituto da prisão preventiva.

E se de facto não existir nada para confessar? E se o indivíduo não calar a sua voz, sofrer mas não temer?

A imprensa, os “comentadores de serviço” nada dizem, optam pelo comentário populista, pela análise fácil e simplista.

Alguém que muito respeito como profissional da imprensa portuguesa, que admiro como pessoa pelo seu lado humanista (que o manifestou à minha Família por diversas vezes) que recebe os meus textos do blogue via “e-mail” (a minha mulher envia, incomodando-o, semanalmente) escreveu há umas semanas: “Olá Carla! Obrigado pelo envio. A argumentação revela má-fé, claro. Mas, não me leve a mal, penso que o João está a ser vítima da sua atitude de altivez intelectual. É estúpido que assim seja porque as únicas motivações para manter alguém na cadeia deviam relacionar-se com a sua culpabilidade. Compreendo a frustração do João (com quem estou solidário) mas acho que no seu interesse não devia prosseguir com esta luta verbal.”

Ao contrário do que possam pensar, eu escuto com muita atenção e assimilo aquilo que são as críticas, conselhos ou sugestões dos outros.

Mais uma vez um conselho sensato MAS não posso parar!

Eu assisto a tudo aqui. Eu oiço, vejo, entendo: como não denunciar se tenho três filhos, futuros homens e mulheres que vão viver neste país?

Tudo isto está a custar-me, estou esfolado vivo, NO ENTANTO, na semana que passou, falando com um guarda prisional, um indivíduo experiente, muitos anos de profissão temperados por uma profunda sabedoria telúrica, fruto de muito observar, no rescaldo da saída do meu colega e do seu co-arguido, incentiva-me, quase como uma admoestação:

– Sr. João aguente até ao fim, tem de aguentar, sabe porquê? – com os olhos de um azul forte, muito abertos.

– Diga lá! – solicitei.

– Você está a sofrer, MAS quando sair daqui, é um Senhor!

A minha expressão foi de admiração, CONTUDO deve ter interpretado erroneamente:

– Não quer dizer que antes não fosse um Senhor, está a entender-me, não está? – apressou-se a dizer.

Como faz toda a diferença um simples “MAS”

Robert Frost escreveu: “Two roads diverged in a wood, and I took the one less traveled by, and that has made all the difference.”

(“Duas estradas divergiram num bosque e eu segui pela menos usada e isso fez toda a diferença”)

Na Vida, como na Política e na Justiça, a forma e o modo contam.

De que forma, qual o modo de sair daqui do “Inferno de “Ébola””?

Vamos alimentar o erro do sistema? Vamos pactuar com a injustiça, deixar definhar a Justiça célere e equidistante, suportada na norma, na Constituição ou “sacudir a água do capote”: “Nomear para me safar”?

Não desejo ser um segundo Marques Mendes antecipando factos porque tenho contactos, MAS, perante o que ouvi e vi, é uma forte possibilidade que outros entrem porque alguns conseguiram um acordo para sair!

Não faz mal, é tudo “farinha do mesmo saco”, tudo tratantes, criminosos, que muito escondem e não dizem!

E se assim não for? E se nada se esconder e não tivermos vergonha de o dizer, de lutar pela nossa inocência?

O meu nome é João Pedro Sebastião de Sousa, tenho 42 anos, sou filho de Fernando António Ramos de Sousa e de Julieta Leitão Sebastião Ramos de Sousa, sou casado, tenho três filhos menores e sou Inspector da P.J.; também eu estive na presença do “super-juiz”, Dr. Carlos Alexandre, MAS continuo preso preventivamente há 2 anos, 4 meses e 3 dias!

E isto, Caro(a) Leitor(a), faz realmente toda a diferença!

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2 thoughts on ““O meu nome é João Pedro Sebastião de Sousa, também eu […] MAS …”

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