“Emoções”

Prisão Preventiva: 2 anos, 3 meses e 19 dias!!!

Leitura da sentença, faltam: 64 dias!

“Quando eu estou aqui, eu vivo este momento lindo / Olhando para você e as mesmas emoções sentindo […]”

O verso é de Erasmo Carlos e de Roberto Carlos. A canção: “Emoções”!

O ano é de 1982. Tenho 9 anos, estou em Cabanas de Tavira (Algarve) de férias com a Família.

A Itália vence uma fabulosa selecção do Brasil, a selecção que tinha o nosso apoio. Portugal estava muito distante das finais. Diego Armando Maradona (na modesta opinião deste esquerdino preso, sem talento para o desporto-rei) o melhor jogador de todos os tempos, estava a 4 anos de se tornar imortal no México!

Nessa altura, nesse tempo, há 34 anos atrás, tudo era azul brilhante, sol, felicidade!

Mesmo com a derrota do Brasil e a ausência da selecção das quinas.

O ano é 2004. A minha casa, o tal castelo fruto da corrupção, estava cheia, com a Família.

A minha “Princesa Piu-piu”, a Leonor, tinha 15 meses!

Foi uma tragédia grega. Chorámos ao ver os portugueses a apoiarem a Selecção, antes do jogo, chorei ao ver o miúdo Ronaldo a prantear!

O meu afilhado ao ver o Padrinho chorar, com 6 anos, questionou-me:

– Porque choras padrinho? – tocando-me na mão, antecipando, em cerca de 12 anos, a imagem de um menino que consolou um adepto francês!

“[…] São tantas já vividas, são momentos que eu não me esqueci / Detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui […]”

As minhas filhas aprenderam o hino nacional – “A Portuguesa” – a verem as celebrações do 25 de Abril, do dia de Portugal e os jogos da selecção!

Pára tudo em casa! Todos em linha em frente ao televisor. Mão no peito. A Helena sempre colocou a mão esquerda sobre o lado direito! Desde pequenina. Aprendeu a colocar a direita sobre o peito, aprendendo também que o coração não fica à esquerda, está ligeiramente à esquerda. E a mão direita porque a “canhota” (conquanto o pai seja “canhoto”) atendendo à tradição judaico-cristã, não é muito “bem vista”!

Sempre que oiço o hino nacional, emociono-me. Sempre que o oiço, desde o nascimento das minhas filhas, emociono-me mais porque olhando-as ao meu lado, sinto orgulho nelas e em ser português. Durante o campeonato da Europa de 2016, emocionei-me a ouvir o hino distante, um som abafado porque mudava de canal. As minhas filhas não estavam ao meu lado. Eu estou sozinho numa cela!

O meu “filho-homem” tem dois anos e eu nunca o vi ao lado da mãe, das irmãs, com a pequena mão direita, no pequeno peito, a olhar para elas a ouvir o hino e no final a erguer a pequena mão e gritar: “Gall!!!” (entenda-se “Portugalll !!!”)

Na quinta-feira, 7 de Julho de 2016, vesti a camisola da selecção que a minha “ninhada” me ofereceu, em 2014, repito, em 2014, para vestir e acompanhar o Mundial, para cantar o hino antes de cada jogo, enquanto eles cantavam lá em casa!

Em 2014, estava em prisão preventiva, em 2016, ainda estou em prisão preventiva.

Na camisola mandaram estampar o número “10”, à frente e nas costas, sendo que nas costas colocaram também o nome: “De Sousa”! “10”: o número do Maradona!

– É para estarmos juntos, pai! – isto em 2014!

Na quinta-feira, antes do jogo, vesti a camisola. Queria que a Família ficasse feliz.

O pai também estava feliz com a selecção! Foi dia de visita.

O dia do jogo, a final, foi um dos dias mais tristes que passei aqui. O dia das emoções estranhas, incómodas.

Mais triste, só o dia em que o Jr. nasceu (estranho, não é?) e os dois 25 de Dezembro: o de 2014 e o de 2015!

“Onde estavas, quando a D. Amália faleceu?”; “Onde estavas, quando o Carlos Lopes ganhou a maratona?”; “Onde estavas, no 25 de Abril?”; “Onde estavas, quando Portugal foi campeão da Europa pela primeira vez?”

Estava sentado, sozinho, no beliche, na cela 9 (olha! O número do Éder! Eu não ligo à numerologia, só aos números da minha medida de coacção!) preso preventivamente há mais de 2 anos e 3 meses! Desde o Mundial de 2014!

Estava a chorar, sozinho!

De alegria? Não, a chorar de tristeza, a mais profunda e excruciante tristeza!

“[…] Amigos eu ganhei, saudades eu senti partindo / E às vezes eu deixei, você me ver chorar sorrindo […]”

Uma tristeza horrível, estranha, incómoda! Sabem como assisti ao golo?

Aqui em “Ébola” temos notícias sempre com atraso: os jornais não entram, só entram pelas visitas, estamos sempre com um dia ou dois (ou mais) de atraso.

Com o golo foi a mesma coisa, só que ao contrário!

O Cabo Costa (“serial killer” de Santa Comba Dão) no outro extremo da prisão, onde fica a sua cela, tira o som à televisão e ouve o relato da rádio.

Assim sabe mais depressa, antes dos outros, quando o seu Benfica marca! Com a selecção é a mesma coisa! Ele está sempre atento, alerta, vigilante (sim, mais uma vez, eu, o “soberbo”, é que tenho o perfil, eu é que o observo há mais de 2 anos, mais uma vez, “arrogantemente”, vou colocar em causa os comentadores, os falsos estudiosos; o que depois vou escrever tem o cunho da experiência e do saber real! Eu estive lá! Em carne e osso, a observar atentamente!).

Então, vi assim o golo: ainda flectia o Éder para o centro, tinha suportado o encosto do chauvinista central francês, ainda não tinha rematado, e já gritava o famoso Cabo Costa: “Golo de Portugal! Golo!” – enquanto histérico batia nas grades.

Portanto, antes de ser já era! É bom, não foi?

Não tive reacção imediata: apenas senti tristeza!

Entretanto Portugal tornou-se Campeão da Europa de Futebol!

Olhei em volta e não vi as minhas filhas, o meu menino, a Família! Olhei em volta e estava só!

Ouvi gritos, impropérios, festejos de raiva: batiam nas grades porque Portugal era Campeão ou batiam nas grades porque estavam atrás das grades? Um barulho infernal!

Vi um sujeito na televisão a dizer: “Tenho esta para contar aos meus filhos e aos meus netos” – chorando.

Não aguentei e, chorando, apaguei a televisão. Só no dia seguinte vi o Ronaldo a erguer a taça!

O meu Sporting quase que era campeão este ano! Foi um sentimento agridoce: tinha prometido às “princesas” que íamos ao estádio e depois para o Marquês festejar quando os Leões fossem Campeões. Estava preso, faltaria ao prometido. Os “outros” ganharam o campeonato mas eu não faltei ao prometido! Com a selecção, eu não estava lá!

Há 2 anos e 3 meses que não estou lá, sem estar condenado.

A semana passada a minha filha Helena, na piscina, saltou da prancha dos 3 metros! Eu não estava lá! O meu filho já deu umas braçadas! Eu não estava lá!

“[…] Sei tudo o que o amor é capaz de me dar / Eu sei já sofri mas não deixo de amar / Se chorei ou se sorri / O importante é que emoções eu vivi […]”

Orlando Figueira, magistrado, quando aqui preso preventivamente, em certa ocasião disse-me que ninguém o repararia pelo facto de o terem afastado do filho durante 4 meses, que não poderia estar com ele na despedida no aeroporto! Compreendi a sua angústia na altura, entendi tão bem que nem relevei o facto de ele estar a falar com alguém que há mais de 2 anos e 3 meses não está com os seus filhos, menores. Não foi falta de consideração, ou falta de empatia, ou mesmo egoísmo: são as emoções a falar, o amor incondicional aos nossos, ao nosso sangue!

Quanto à conquista do título de Campeão Europeu, o que vamos fazer com ele?

Como pode ajudar o país?

Eu, vou emular vários exemplos da selecção!

Diz-nos o Erasmo e o Roberto Carlos:

“[…] Em paz com a vida e o que ela me traz / Na fé que me faz optimista demais […]” 

À semelhança do Eng. Fernando Santos, permitam-me que vos diga, ainda que tudo possa indicar o contrário:

Já avisei a minha mulher e a “ninhada” que volto para Casa a 20 de Setembro de 2016 e vou ser recebido em festa! (comuniquei-lhes esta quinta-feira, 14 de Julho de 2016)

É uma questão de fé? Não, não fui ainda receptor desse dom da Graça, sou agnóstico!

É o optimismo de Erasmo e do Roberto Carlos? Não, conquanto tente sempre ver o “copo meio-cheio”: é fruto de um elementar exercício de racionalidade!

Mas, racionalmente, não podemos esquecer a sentença canónica:  Quia in Inferno nulla est redemptio  (“Para quem está no Inferno não há redenção”). Ou seja: foi mantida a medida de coacção – prisão preventiva – a três meses da leitura da sentença, estás no “Inferno” e aí ficarás! Não! Dia 20 de Setembro de 2016 volto para Casa e vou ser recebido em festa!

Só não vou a 20 de Setembro se a Meritíssima for mazinha e ler o acórdão muito devagar, adiando assim o final da leitura para 26 de Setembro de 2016, como previsto!

A Meritíssima não é mazinha, ela está somente a aplicar a Justiça; assim sendo, dia 20 de Setembro de 2016 volto para Casa e vou ser recebido em festa!

Mais, à semelhança do Eduardo Madeira, mas com uma parede abdominal mais sexy (porque ando a trabalhar para isso!) está prometido que farei nu integral (só com um pequeno objecto – um pequeno cravo vermelho – porque não é necessário algo maior a cobrir o que a descoberto ficará) no dia em que regressar a Casa:

20 de Setembro de 2016!

E se assim não for? E se a minha análise estiver errada?

Voltemos ao exemplo da Selecção Nacional, ao capitão Ronaldo:

“Vai João! Anda, João! Tu bates bem… tu bates bem… anda marcar! É uma lotaria, que seja o que Deus quiser. Se perdermos que se f …!”

“Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!”

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