“Melancolia”

Prisão Preventiva: 2 anos, 2 meses e 15 dias!

O texto desta semana nasce num momento, num ponto para o qual convergiram várias situações, notícias e um acumular denso de sentimentos e emoções.

Na passada semana entraram em “Ébola” os meus DVD`s do Maestro Pavarotti: “Pavarotti Forever”, “Pavarotti and Friends”.

Revendo, recordando com dor as manhãs de Domingo em minha Casa, onde acordávamos ao som de Pavarotti, Bach ou, mais recentemente, “One Direction”; dançando ao som de Paco de Lucia, tentando imitar Joaquín Cortés com a Helena a bater os pés como quem mata baratas, a certa altura, dentro da cela, nos meus nove metros quadrados, ora húmidos ora angustiantemente abafados, oiço o “Intermezzo” da “Cavalleria Rusticana” (DVD “Pavarotti: My heart delight”, com Nuccia Focile, soprano. Vejam e oiçam!). E sentado que estava na cadeira de plástico que tenho (permitindo uma das duas posições possíveis durante as mais de 16 horas que passo diariamente no “jazigo”: sentado ou deitado!) como na célere transmissão que se verifica no ponto de contacto entre duas células nervosas, fulmina-me a imagem de Al Pacino, já idoso, sentado numa cadeira, num pátio de uma vila siciliana, com um cão pequeno de volta das suas pernas, desfalecendo o Dom Michael Corleone, caindo nos braços da morte enquanto se ouve o “Intermezzo”!

Da “Piazza Grande”, em Modena, 1993, dei um salto de memória a 1990, ao filme “Padrinho III”!

Tudo isto também porque fui notificado a 6 de Junho de 2016 que o meu julgamento, mais uma vez, foi adiado!

A mente humana é maravilhosa, podemos viajar economicamente mesmo fechados num “jazigo”!

Mas este efeito ou acção de memorar pode ser igualmente pernicioso. Na Psicologia falamos de “memoração” como a integração de lembranças na personalidade do indivíduo: se as memórias são boas, óptimo, se não o são …

2 anos, 2 meses e 15 dias de profunda dor, incerteza e até disfarçado (às vezes mal disfarçado) desespero, não deve ser muito saudável!

Acompanhem-me, por favor!

Perturbações do Humor: Perturbação Distímica “[…] É caracterizada pelo menos por 2 anos de humor depressivo durante mais de metade dos dias, acompanhado por sintomas depressivos adicionais que não preenchem os critérios para Episódio Depressivo Major[…] Os sujeitos com Perturbação Distímica descrevem o seu humor como triste ou «em baixo» […]” (in “DSM, Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais”)

Que quero eu dizer; que sofro de Perturbação Distímica porque há 2 anos, 2 meses e 15 dias, durante várias horas do dia, experimento humor depressivo?

Não, não creio. Creio estar a experimentar outra coisa!

Na mesmíssima semana (tudo contribuiu para este opúsculo psicanalítico) li a entrevista de Terry Gillian ao jornal “Expresso” sobre o filme que vai realizar, “The man who killed D. Quixote”:

“[…] – é um homem melancólico?

 – Sou. “D. Quixote de la mancha” também é. Melancolia é uma palavra que as pessoas já quase não usam. Não é depressão, é um sentimento de perda de qualquer coisa, ou algo extraordinário que já foi vivido e que não voltará a ser. […]”

Fiat lux!

É isto mesmo, Mr. Gillian: eu estou melancólico!

Nova sinapse: a imagem da “Melancolia I”, de Albrecht Dürer (1514).

Ali está ela a ilustrar este texto.

Os meus alunos sabem que sempre recorri a obras de arte para ilustrar conceitos, explicar enviesamentos cognitivos, para melhor explicar a forma de realizar de modo profícuo uma “gestão holística da cena de crime”. Pois bem, aqui verificou-se de forma inconsciente o mesmo (leiam a monografia de Panofsky sobre Dûrer!)

“[…] Sentimento de perda de qualquer coisa […]”

É verdade. Como as coisas simples são as mais belas … um simples sorriso, um simples poema, um poema que pode ser tão intenso e transmitir aquilo que nos faz sentir um frio na barriga, um nó na garganta …

… O “Quijote” de Julio Iglesias: “ Soy de aquellos que sueñan con la libertad / Capitán de un velero que no tiene mar / Soy de aquellos que viven buscando un lugar / Soy Quijote de un tiempo que no tiene edad […]”.

Eu estou a perder há tanto tempo, há tanto tempo que busco e quero o meu lugar …

E como diz o Julio, também eu “Soy feliz con un vino y un trozo de pan”, eu aguento aqui “sem” o vinho e um pouco de pão mas, como ele, acrescento: “Y también, cómo no, con caviar y champán”. Tenho a garrafa de champanhe lá em casa à espera, há 2 anos, 2 meses e 15 dias!

Mas o poema continua “Y mi Dulcinea, dónde estarás? / Que tu amor no es fácil de encontrar / Quise ver tu cara en cada mujer / Tantas veces io soñé que soñaba tu querer …

Melancolia … tudo contribuiu para este texto …

Dia 9 de Junho de 2016 a minha mãe fez anos!

Lamento, minha querida, teres que ver o teu filho a passar por isto. Lamento a dor. Parabéns!

E agora o mais importante: quando Dürer fez a “Melancolia I”, nesse ano, 1514, a mãe dele também teve uns problemas de saúde. Minha querida Mãe, 503 anos depois já não se fazem sangrias e a Medicina evoluiu muito, assim sendo, hoje tudo se resolve e a Medicina portuguesa é muito mais célere, capaz e humana que a Justiça Lusa! Mais, se eu tenho aguentado tudo isto é porque a tua genética e educação deram-me ferramentas para o fazer, logo, tu tens contigo as armas e o escudo para esta tua batalha. Lamento não estar aí agora, mas sabes que estou. Beijo!

Melancolia …

Dia 13 de Junho de 2016, dia de Santo António, a minha mulher, mãe dos meus filhos, “irmã”, completa 40 anos! Parabéns!

Dia 13 de Junho de 2016, dia de Santo António, a minha mulher, mãe dos meus filhos, “irmã”, celebra também 14 anos de casada. Casámos no dia do seu aniversário! Já o disse aqui: não fui uma prenda muito boa. Lamento, “minha irmã”, amiga, tudo isto! Lamento toda a dor, toda a desilusão, toda a privação e provação. Lamento …

Melancolia …

Ouvindo Pavarotti recordei-te: “Donna non vidi mai”, Giacomo Puccini, “Manon Lescaut”. “Donna non vidi mai / Simile a questa!” (“Eu nunca vi uma mulher, como esta!”)

Lamento, tudo, minha “irmã”!

Melancolia …

Sinto-me um autêntico “cavaleiro da triste figura” porque, ainda, não posso estar junto dos meus quando eles mais precisam, incerto o meu futuro deixo aqui palavras como uma mensagem numa garrafa deitada ao mar, para os vindouros, para alguém …

Esta semana, que semana, li também a entrevista da Exma. Sra. Ministra da Justiça, Dra. Francisca Van Dunem.

“[…] Costumo dizer – e isto mantém-se actual – que o meu presente é o mais imprevisível de todos os futuros que pudesse imaginar […]”

Como a entendo: disse aos meus, e partilhei com o(a) Leitor(a), que neste meu Calvário todos os prazos seriam criteriosamente respeitados no seu limite máximo – decisões, despachos, deferimentos e indeferimentos – na 24ª hora do último dia!

Aqui estou eu no mais imprevisível dos futuros há 2 anos, 2 meses e 15 dias!

“[…] ou algo extraordinário que já foi vivido e não voltará a ser[…]”

Para além de ter perdido 2 anos da vida do Jr., das “princesas”, também Melancólico estou porque há coisas que já não voltam mais … ou voltarão? O “Peter Pan”, o conforto, o carinho, o prazer …

Melancolia … tenho saudades das aulas, das inspecções judiciárias, dos homicídios, de mim …

Analisemos a figura.

Vejam, atentem no olhar do anjo de asas caídas, um olhar de descontentamento, fúria contida, uma tristeza, um vazio pessoal como se tudo fosse derrota, sem esperança!

Dizem os estudiosos que a imagem do anjo poderá representar uma “pausa depressiva” depois de algo, ou, o “compasso de espera pela revelação de algo”.

As asas caídas: a espera!

O compasso na mão: a medição, o cálculo, a ordem que deve imperar, a razão.

A ampulheta: o tempo, da espera, da privação, o novo tempo?

E a escada? O caminho, a ascensão, o subir a um plano mais elevado.

O cão deitado? Deitado ao pé do dono, símbolo de resiliência, coragem, perseverança.

Na “Revista Lusófona de Ciência da Religião (2012)”, José Carlos Calazans (Centro de Estudos em Ciência das Religiões) debruça-se sobre “A Melancolia de Albrecht Dürer”.

Lê-se: “[…] Exprimiu o problema da apatia e do desalento pelos enigmas que as suas especulações não conseguiram resolver […]”.

Mais à frente: “[…] De facto, todos os elementos simbólicos representados nesta gravura estão ligados à personalidade de Dürer, expressando o seu pensamento religioso e místico mais íntimo, a sua situação face ao mundo que conhecia, o sentimento de dúvida e de angústia, a experiência da vida e da morte, mas também a preocupação de deixar uma marca muito pessoal, incontornável e inequívoca da sua identidade e do grau iniciático que tinha atingido […]”.

É isso, é isto, tenho agora a certeza, Caro(a) Leitor(a), estou Melancólico, o que experimento é Melancolia! A mente humana é maravilhosa, as coisas que enquadra e correlaciona! Obrigado minha mãe por todos os livros que compraste para eu ler!

Estou Melancólico, experimento desalento porque ainda não consegui resolver isto tudo, alimento sentimentos de dúvida que muito me angustiam: o que vai ser de mim e da minha Casa?

Face ao mundo da Justiça que bem conheço: o que irá suceder?

Dia 16 de Junho de 2016, quinta-feira, está prevista a realização de audiência de Julgamento (espero que se realize)!

Nesse dia, a Exma. Sra. Magistrada do Ministério Público vai fazer as suas alegações finais. Ficarei nesse dia (se não adiarem mais uma vez) a saber qual a pena requerida pela Acusação, quantos anos!

Compareçam! Agora se perceberá tudo! A audiência é pública, aberta a todos! É o momento antes do final momento (a sentença).

Qual é a minha previsão?

Depois de tudo isto não o consigo fazer: prever racionalmente alguma coisa no meu processo!

Invoco a imagem novamente: a balança está lá, a ampulheta também, o sino que toca boas novas ou repica quando o carro fúnebre entra no cemitério … mas também lá está a escada e o radioso sol, a Aurora Consurgens! E vejam! O arco-íris! Visível às vezes no céu durante ou após um aguaceiro …

 

 

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