A Paixão de João de Sousa

Já está! Amanhã, um dia após a publicação deste texto: já está!

Dia 29 de Março de 2016: 2 anos de prisão preventiva!

“[…] Naquela noite, o Povo de Deus foi finalmente libertado da escravidão. A Páscoa é, assim, uma celebração do dom divino da Liberdade […]”

Assim destaca a “Bíblia Sagrada”, o “Livro da Verdade” (Editada pela Pia Sociedade de São Paulo, Paulus Editora), a Páscoa, o período do calendário liturgico ocidental que presentemente se celebra.

Liberdade!

“[…] Na festa da Páscoa, o governador costumava soltar o prisioneiro que a multidão quisesse. Nessa ocasião tinham um prisioneiro famoso, chamado Barrabás. Então Pilatos perguntou à multidão reunida […]” (Mateus, 27, 15-17)

A pergunta todos nós conhecemos, a resposta também, assim como tudo o mais que sucedeu: a Paixão daquele que foi zombado.

A Liberdade!

Estou a escutar, enquanto escrevo, da ópera “Rinaldo”, de Georg Friedrich Händel, a ária “Lascia ch’io pianga”: “Lascia ch’io pianga, mia cruda sorte / E che sospiri la Libertà…” (“Deixa que eu chore o meu cruel destino / e que suspire pela Liberdade …”)

A voz que escuto foi apurada através do contributo da soprano Ewa Mallas-Godlewska e do contra-tenor Derek Lee Ragin, assim como da “mistura” de ambas as vozes num computador. Tudo isto para reproduzir a voz do “Castrato”, Carlo Broschi, mundialmente conhecido por “Farinelli”.

A fabulosa e apaixonante história deste invulgar ser humano encontra-se retratada no filme de Gérard Corbiau, “Farinelli, il Castrato” (1994)!

A personagem da ópera de Händel “chora pela sua Liberdade”, anseia por ela.

Como suportei eu 2 anos de privação da minha Liberdade, de zombaria, de atentados à minha Dignidade?

Hoje, antes de ser fechado pela milésima vez, realizando pela milésima primeira vez (ou segunda, talvez terceira…) a minha caminhada pelos “passos perdidos”, na companhia do meu companheiro de deambulação, de vagueação a esmo, que foi preso pela brigada onde eu trabalhava (imagine-se lá isto!) conversávamos olhando o infinito ladrilho:

– É já terça-feira, dia 29: 2 anos de prisão preventiva – eu, com o mais amarelo dos sorrisos.

– Dois anos… – com a expressão de quem já os viveu e tem a certeza de lhe faltarem três vezes o mesmo número, que após adicionar aos já vividos duas vezes estes dois, na melhor das hipóteses, experimentará a desejada Liberdade – o pior é que são dois anos perdidos para nada! Não achas?

– Não! Claro que não, aprendi imenso… – decidido, convicto, sem qualquer verniz porque aqui o verniz nota-se à distância, aqui somos obrigados à autenticidade.

– Eu dispensava o ensino e a sabedoria, preferia ser ignorante! – e rimos os dois.

Aqui está toda a diferença e a forma de suportar. A minha forma de suportar. A forma insuportável para aqueles que me obrigam ao insuportável: eu estou a aprender, eu estou, ainda, supreendentemente, a medrar!

Será que a Maria Alice perante a clausura, o confinamento, a exclusão, identificava-se, deleitava-se, vertia as suas lágrimas invocando a beleza de uma composição de Händel?

“[…] o alcance de uma obra de arte mede-se pelo número e pela variedade dos elementos provenientes de experiências passadas, organicamente absorvidos na percepção vivida aqui e agora […]” (John Dewey, “A arte como experiência”)

“Obra de arte”?! Estás louco, João? Qual “obra de arte”? Estás preso, acusado de corrupção!

Nada disso!

Vinicius de Moraes, na sua obra “O operário em construção e outros poemas”, apresenta-nos Jaime Ovalle, no seu poema “A última viagem de Jaime Ovalle”.

Ovalle, como todos nós vamos ser convidados, foi chamado pela Morte para a última viagem e a Morte que “Levou-o em bela carruagem / A viajar – ah, que alegria / Ovalle sempre adora viagem.”

E perante a finitude do seu ser, cada vez que a Morte lhe mostrava a escuridão, a sua condição humana e a dos outros, Ovalle, maior que a Vida, retribuía:

“A cada vez que a Morte, a sério / Com cicerônica prestança / Mostrava a Ovalle um cemitério / Ele apontava uma criança!”

Assim se sobrevive a 2 anos de prisão preventiva!

Desejava isto? Claro que não!

“Meu Pai, se é possivel, afaste-se de Mim este cálice” (Mateus, 26,39)

Até Ele, questionou o Pai e, esperançoso, tentou eximir-se ao cálice amargo; era condição desse mesmo Pai que ele o degustasse, assim como é condição imposta pela estranha Justiça lusa que eu sinta o sabor do fel.

Recordo nova passagem do Evangelho segundo S. Mateus, quando João Baptista baptizou Jesus: “«Sou eu que devo ser baptizado por Ti, e tu vens a mim?» Jesus, porém, respondeu-lhe: «Por enquanto deixa como está! Porque devemos cumprir toda a Justiça» E João concordou […]” (Mateus, 3, 14-15)

Eu, também João, mas De Sousa, igualmente considero que se deve cumprir a Justiça, mas Jesus encerrava em Si uma certeza (que alguns que por aqui passaram e outros que nem por aqui estiveram, também a tiveram ou têm!): “Depois de três dias ressuscitarei” (Mateus, 27,63)

A Páscoa não é igual para todos, assim como a aplicação da Justiça lusa, concluindo-se o enunciado pela observação do número de estações da “Via Sacra” a que uns estão sujeitos e outros, milagrosamente, se eximem!

Observa-se diariamente indivíduos que ressuscitam ao “terceiro dia”, e eu, passados 732 dias (2 anos) ainda encontro-me dentro do sepulcro, aguardando: “Então eles foram manter o sepulcro em segurança: lacraram a pedra e montaram guarda” (Mateus, 27,66)

“Ó suprema soberba, Ó vaidade desmesurada! Mesmo preso, repelido, descontado, compara a sua condição à Paixão do Outro?”

Concerteza! A exclusividade, o “extra-ordinário” são vocês, os anónimos e os revelados que atribuem à minha pessoa, a importância é ofertada por vós:

Quantos estiveram em prisão preventiva 2 anos?

Quantos foram castigados por delito de opinião, 41 anos após o final da censura, da injusta reclusão por opinar?

Quantos tiveram um Judas que até Pratas, como as moedas, tem como apelido (Pedro Miguel Ventura Pratas da Fonseca)?

Quantos experimentaram isto: “Ora, os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum falso testemunho contra Jesus a fim de O condenarem à morte. E nada encontraram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas” (Mateus, 26, 59-60)

129 testemunhas ouvidas, vinte e uma sessões depois, as próprias testemunhas de Acusação contrariaram a tese da investigação (P.J.)!

“Então o Sumo Sacerdote levantou-se e perguntou a Jesus: Nada tens a responder ao que estes testemunham contra Ti? Mas Jesus continuou calado” (Mateus, 26,62)

Mas este João não ficou, não fica nem ficará calado!

Mesmo se no dia 6 de Abril de 2016, a Juiz-Presidente considerar que o pressuposto previsto na alínea c), do artigo 204º do C.P.P. existe: “[…] c) perigo, em razão […] da personalidade do arguido […] perturbe gravemente a ordem e a tranquilidade públicas […]”; justificando, desta forma, a manutenção da minha prisão preventiva!

Se isto se verificar, depois de assistirmos aos Salgados, Sócrates, Manueis Godinhos, Duartes Limas e afins, então, Estimado(a) Leitor(a), cautela, muita cautela ou muitos contactos no “sistema” e maior disponibilidade económica e, mais importante que tudo isto: “Bico calado”, falsa humildade, resignação, coluna vergada, “respeitinho do bom”, ignorância visível porque, como dizia o Filho que celebramos agora: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu” (Mateus, 5,3)

Utilizo beati pauperes spiritu (“Bem-aventurados os pobres de espírito”) no seu sentido deturpado, uso-o ironicamente, ou seja, aqueles que realizam com pouca inteligência, os ignorantes que não desejam mais, os ignorantes da Lei, aqueles que passivamente aceitam, os que não contestam.

Não serei mais um “primitivo da espera no cais”, como o nosso Pessoa descreveu.

Como o fado nos diz, “choro a chorar tornando maior o mar”! Se sorrio, é por nutrir profunda repulsa por tudo isto. Alberto Gonçalves, sociólogo, cronista da revista “Sábado”, no seu espaço “Juízo final”, na edição nº 620, sobre o porquê dos portugueses ainda se rirem apesar do “estado” de todos nós, compara a lusa gente com as hienas: “[…] acrescento a inevitável analogia da hiena, bicho que ri imenso, acasala uma ou duas vezes na vida e se alimenta parcialmente de fezes. Eis a “punch line”: Um bicho que não fornica e come merda ri do quê? […]”

Conquanto deseje ser um Leão, forte, resiliente, sujeitam-me a ser uma hiena, senão vejamos: Há dois anos que não faço “o Amor” e a comida aqui é uma… porcaria!

O que vou fazer? Lutar!

A semana passada a APAR (Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso) convidou-me para ser o Delegado da APAR no Estabelecimento Prisional de Évora!

O que fiz? Aceitei de imediato. Que tipo de homem/mulher é alguém que não tenta mudar, para melhor, o local por onde passa?

Prejudica-me? Não é sensato? Estrategicamente errado?

O tal Filho pródigo que celebramos nesta Páscoa alerta-nos para a necessidade de superarmos a Justiça dos hipócritas: “Prestai atenção! Não pratiqueis a vossa Justiça diante dos homens só para serdes elogiados por eles. Fazendo assim, não tereis a recompensa do vosso Pai que está no Céu” (Mateus, 6,1)

E eu, que até sou agnóstico: Não espero recompensa do Pai!

Antecipo, pelo contrário, resistências, condicionamentos, adversidades, mas, como nos disse o poeta Ruy Belo, “Só é vencido quem desiste de lutar” e este João não consegue oferecer a face esquerda após ter sido esbofeteado na face direita!

Na semana passada, a minha diligente defensora apresentou no Tribunal um requerimento, solicitando a revogação da medida de coacção a que estou sujeito.

Singelo texto, vinte e oito pontos, porque simplex sigillum veri (a simplicidade é o sinal de Verdade).

Não é necessário ornamentar o que foi produzido em Tribunal, a Verdade foi apresentada, não estão reunidos os pressupostos para manter o arguido João de Sousa em prisão preventiva!

O número de estações da Via Sacra está definido, estabelecido. Só será cumprida a Justiça se, com equidade, distanciamento, pragmatismo, decidir o Tribunal de acordo com a Lei!

Menos que isto ou mais que isto é um sinal de improbidade de quem decide.

A minha Paixão dura há 2 anos! A impudência será continuar o sacrifício, sustentar o castigo, o meu e o dos meus.

Dois anos sem ordenado, dois anos preso, dois anos longe dos meus filhos, da minha mulher, dos meus pais, sogros, amigos, distante da minha Casa!

Eu aguento porque escuto Händel, conheço Vinicius de Moraes, comparo a minha Paixão à do Outro, aprendo sobre mim e sobre os outros, mas já chega porque o Outro era Divino, sabia, antecipadamente (por via directa), que estaria no final do dia sentado à direita do Pai. Eu desconheço, não tenho garantias e a única coisa que asseguro ao Leitor(a) é que isto é uma profunda injustiça: comparem, num exercício simples, o que estou a passar com tudo aquilo que outros não passaram!

No monte Gólgota, as cruzes estão sem ninguém. Será o momento antes da crucificação ou o exacto momento após a retirada dos corpos crucificados?

Será possivel que ninguém seja pregado na cruz?

Não sei! Sei, porque o sinto, que há dois anos que estou a caminhar carregando a cruz, a pesada cruz que, não “um homem chamado Simão, da cidade de Cirene” (Mateus, 27,32), mas sim, a minha mulher e “ninhada” ajudam a transportar.

Cansado, exausto, eu e os que me auxiliam, só tenho uma alternativa: continuar a caminhar, suportando!

Caminho, vergado, vivendo a minha Paixão, nutrindo a esperança de que o “sistema” não se defenda, não faça questão de manter o erro, não condene o homem e a sua personalidade, mas condene somente os actos, até porque sangrando, sujo, obrigado à ignomínia, garanto-vos algo, algo que se manterá: a firme e inamovível vontade de gritar bem alto esta vil INJUSTIÇA!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s