“Foi medo, Pedro, ou os meus “Idos de Março”?

Mais importante que tudo o mais, mais nobre, elevado e inspirador, uma nota prévia:

No dia da publicação deste texto, uma parte de mim, fora de mim (uma das três melhores partes) celebra a data em que apareceu na minha vida.

Parabéns, minha filha Leonor, pelos teus 13 anos de Vida! Como o pai te ensinou, não vou dizer que te amo muito porque não se ama muito ou pouco, ama-se, e o pai, incondicionalmente, ainda que condicionado pela reclusão, simplesmente AMA-TE!   

Dignitas

A mais intangível de todas as possessões de um nobre romano: Dignitas.

A auctoritas era a sua capacidade de influência política, a sua capacidade de influenciar a opinião pública e todas as instituições públicas, desde o Senado aos Sacerdotes passando pelo Tesouro.

Dignitas era outra coisa. Era algo de intensamente pessoal e muito privado. E, no entanto, estendia-se a todos os parâmetros da vida de um homem. Tão difícil de definir. Era por isso, evidentemente, que existia uma palavra para a designar. Dignitas era a capacidade que um homem tinha de se elevar acima dos outros, a sua capacidade de Glória. Dignitas equivalia àquilo que um homem era. Enquanto Homem e enquanto Líder da sua sociedade. Era o total do seu Orgulho, da sua Integridade, da sua Palavra, da sua Inteligência, dos seus Feitos, das suas Capacidades, do seu Conhecimento, da sua Posição, do seu valor como Homem. A dignitas sobrevivia à morte de um homem, era a única forma que ele tinha de triunfar sobre a Morte. Sim, essa era a melhor definição.

Dignitas era o triunfo de um homem sobre a extinção do seu ser físico!

(in colecção “O Primeiro Homem de Roma”, de Colleen McCullough)

“Acautelai-vos com os “Idos de Março”” – com voz trémula, o cego áuspice adverte Júlio César.

Os “Idos de Março”, no calendário do mundo romano da antiguidade, era a 15 de Março.

Na terça-feira, 15 de Março de 2016, celebram-se os 2060 anos da morte de júlio César às mãos de vários conspiradores, homens esquecidos, só lembrados pelo acto praticado.

Como nos legou John Fitzgerald Kennedy: “Perdoa os teus inimigos, mas nunca te esqueças dos nomes deles”. Assim sendo: Caio Cássio, Décio Bruto, Metelo, Cina, Casca, Trebónio e, claro, o célebre Marco Bruto, célebre porque César, segundo Plutarco na sua obra “Vidas dos Nobres Gregos e Romanos”, terá pronunciado antes de morrer: “Et tu, Brutus?”, ficando para todo o sempre o seu nome associado à palavra Traição, assim como Judas, depois dele.

É por aqui, Caro(a) Leitor(a), que quero abordar a temática de hoje: O que motivou Marco Bruto a assassinar, há 2060 anos, Júlio César?

A Inveja? “O monstro de olhos verdes” que assolou Iago e que conduziu à morte, a bela Desdemona, Otelo e o próprio vil Iago?

A sede de poder que o monstro Ricardo III possuía e que o conduziu à usurpação e à mais demoníaca planificação e requintado ardil, sujeitando-o à insustentável condição que o obrigou a gritar por um cavalo: “O meu reino por um cavalo!”

Shakespeare revela-nos um nobre Bruto que amava César, mas amava mais Roma.

Admirava César, mas não admitia que um homem se elevasse acima dos demais, amava a República e desprezava a deidificação de um só indivíduo.

Na adaptação da peça “Júlio César” de William Shakespeare, realizada por Joseph L. Mankiewicz, em 1953, deleitamo-nos com a fabulosa interpretação de Marlon Brandon, que dá vida a um Marco António que assim resume Marco Bruto nas palavras do Bardo Inglês: “Foi o mais nobre romano dentre todos. Todos os conspiradores, excepto ele, fizeram o que fizeram por inveja do Grande César. Apenas, Bruto, com mente honesta e para o bem comum de todos, juntou-se aos outros.

A sua vida foi gentil, e os elementos tão unidos nele que a natureza se poderia levantar para proclamar ao mundo: “Eis, aqui, um homem!””

Na quarta-feira, 9 de Março de 2016, 2060 anos (menos 6 dias) após Bruto matar por um ideal, e não esquecendo as palavras de John Kennedy, Pedro Miguel Ventura Pratas da Fonseca, Coordenador da P.J., apresentou-se às 16h09 na sala de audiências do Tribunal do Seixal e prestou declarações.

E a questão coloca-se 2060 anos depois: O que motivou Pedro Miguel Ventura Pratas da Fonseca a prestar as declarações que ofertou, o que o motivou a desempenhar aquele papel?

“Por uma questão de lealdade para com a Dra. Maria Alice Fernandes e salvaguarda da investigação, comuniquei-lhe de imediato, logo após ouvir o Inspector João de Sousa …”

“Foi um tiro no porta-aviões quando falei com a Dra. Maria Alice …”

Entendi. O que motivou a acção do Pedro Miguel Ventura Pratas da Fonseca foi o dever de lealdade! Nobre propósito.

Esta é mais para quem trabalha na P.J.: será que a nobre Lealdade para com a Dra. Maria Alice surgiu depois do “leal Pedro” sair de Setúbal? Sim, porque enquanto por lá andou, e muito falou ao telemóvel com o “escutado” João de Sousa, por vezes com recurso ao impropério fácil e brejeiro, criticava a sua superior hierárquica, não abonando muito favoravelmente a opinião que o mesmo tinha da coordenação desta, expondo as limitações e defeitos da mesma, contrastando, exuberantemente, essas mesmas falhas com as auto-reconhecidas virtudes do próprio no campo da liderança e gestão de brigadas, ou, se necessário fosse, do próprio departamento de Setúbal!

Para alguém que já se encontra reformado e assistia às conversas: o “leal Pedro” muito se indignava e revoltava porque foi colocado no gabinete do outro Coordenador-Superior., numa pequena secretária, parecendo o “menino Tonecas”, em sala de aula com o professor. Quem o obrigou à desprestigiante condição? A Dra. Maria Alice! Como reagia o “leal Pedro”?

Com um amarelo sorriso quando o Coordenador-Superior, reconhecido pelo sentido de humor mordaz apuradíssimo, invocava “Tonecas”; revoltado e profusamente descritivo em relação às faltas da Maria Alice quando comigo privava e soltava o verbo!

Como é lógico, as conversas posteriores sobre tudo o que se descreveu, e que, para sempre, ficou marcado a fogo na mente do “leal Pedro” (muito cuidado com os homens magros!) não se revestiram de interesse para os autos.

O “leal Pedro” afirmou ter sido um dos patrocinadores da carreira do Inspector João de Sousa, um bonus pater (conforme declarou) mas nunca manteve relação estreita com o mesmo!

Eu nunca parqueei a minha carrinha na garagem do “leal Pedro”, porque a garagem deste é no -3, e “não cabia um carro tão grande”!!!

Eu só pontualmente, poucas vezes, fui a casa do “leal Pedro” e nem sequer conseguiria reconhecer a minha mulher e filhas se as visse (isto, somente após insistência da minha advogada)!

Somente duas vezes deu aulas após eu o ter convidado e a título gracioso (aqui o “leal Pedro” cometeu o erro, e ele estava tão bem no seu imaculado papel!)

Nunca o “leal Pedro” fez pesquisas sobre o meu co-arguido, ou com situações relacionadas com este, a meu pedido. Mais tarde, menos taxativo: “Não me recordo de o ter feito!”

Quem conhece (e muita gente conhece) a relação que eu mantinha com o “leal Pedro”, chega facilmente à conclusão a que cheguei quando o ouvi e vi no Tribunal. Não foi um sentimento nobre que conduziu o seu acto, não foi a lealdade, foi uma emoção a todos comum e muito primária: Puro Medo!

Eu posso ser corrupto, bandido, ardiloso delinquente, mas em sede de Julgamento, afastei qualquer tipo de suspeição sobre colegas, amigos, conhecidos e “ambíguos” que comigo se relacionavam e contactavam. Afirmei que o “leal Pedro” nunca, de forma ilícita ou para favorecer o meu co-arguido (acrescentando que eu poderia valer-me da confiança dele ou de outros, sem que estes soubessem o porquê de solicitar esta ou aquela informação), colaborou comigo em qualquer prática criminosa.

Mas o “leal Pedro” que de facto pesquisou, relacionava-se comigo, deu aulas e lucrou, criticou quem coordenou o departamento de Setúbal e foi escutado, não venceu o Medo e a insegurança relativamente à isenta prática dos seus actos e, comprometido, não pelas acções, porque foram lícitas, mas pelo peso das palavras que frontal e publicamente não ousou proferir, rendeu-se ao básico instinto de sobrevivência e como Juvenal nas suas “Sátiras” nos legou, pela vida perdeu a razão de ser da Vida!

Alienou a sua Dignitas!

Charles Darwin na sua obra, “A expressão das emoções no homem e no animal”, revela-nos a profunda semelhança de ambos; na sua explicação da teoria evolutiva, coloca-nos no mesmo ramo que os primatas. Todo o animal tem medo e reage fugindo ou lutando.

Como nos dizia Albert Camus: “A grandeza do homem está na sua decisão de ser maior do que a sua condição.”

Não somos nós e as circunstâncias, mas sim nós próprios apesar das circunstâncias!

“Leal Pedro”, eu já podia estar em casa com os meus, no conforto do lar, se tivesse compactuado com a tese da Maria Alice e da acusação e denunciado o(s) colega(s) que eles acham que me avisaram!

“Leal Pedro”, embora a minha Fortuna, tenha mudado, não mudou a minha condição: eu sou um Homem!

Compreenderia e enalteceria a atitude (caso se tivesse verificado aquilo que foi relatado) se fosse a virtude que tivesse conduzido o acto, mas o Medo, o irracional Medo … a falta de confiança nas acções praticadas …

Num artigo DN/The New York Times, “Amor moderno-mudar de pele no zoo”, Amy Bonnaffons escreve: “[…] A frase de Dar Williams que mais frequentemente humedecia a manga azul da minha t-shirt dos gorilas era: “Estou decidida a nascer, e assim resignada à coragem” […]”  

“Leal Pedro”, para sermos mais que uma ameba temos que, necessariamente, resignarmo-nos à coragem!

Quando li as declarações (prestadas somente um ano depois do que alegou ter acontecido) e que se encontram no inquérito, previ a “actuação” da passada quarta-feira.

Desassossegou-me o que li, e como no “Livro do Desassossego” de Pessoa, soube-o “com uma antecipação amarga e irónica”, mas soube-o “com a vantagem intelectual da certeza” de que o “leal Pedro” iria representar o mais vil papel na sala de audiências.

Nem os mafiosos o fazem, mas o “leal Pedro” fê-lo: envolveu a Família.

Declarou que eu tinha preparado a Família e a minha residência para uma eventual busca domiciliária. A minha mulher estava grávida de 7 meses, da terceira melhor parte de mim que conheceu o Mundo já estava eu preso, tendo passado mal com o sucedido.

“Leal Pedro”, a Família não! Não vale tudo!

Mais uma vez, o grande Mestre Umberto Eco: “Quando pensamos num livro não devemos perguntarmo-nos o que é que diz mas o que significa”.

O que significam as palavras do “leal Pedro”, mais do que dizem? Significam Medo!

André Malraux: “A verdade de um homem é em primeiro lugar aquilo que ele esconde”.

E o que esconde o “Leal Pedro”? Medo!

Dois colegas arrolados como testemunhas pela Acusação, compareceram antes do “leal Pedro”, poderiam ter compactuado facilmente com a Maria Alice, não o fizeram, e numa manifestação de apoio, um piscou-me publicamente o olho, o outro, à vista de todos, num gesto, desejou-me força e declarou ser meu amigo. Não se macularam ou foram considerados corruptos, apenas assumiram as suas acções, confiantes nas mesmas e na sua idoneidade.

Somente se deve olhar outro homem de cima para baixo, “leal Pedro”, quando se lhe estende a mão para o ajudar a erguer-se!

Há dias lia sobre os “Sonderkommando”, judeus que trabalhavam nos campos nazis, policiando os outros judeus, trabalhando na queima dos cadáveres. Li o seguinte: “[…] Além de ser moralmente abusivo fazer apreciações sobre a atitude de seres humanos involuntariamente colocados em situações-limite (“um homem na prisão não é um homem, é um homem na prisão”, disse um dia o escritor Mário de Carvalho”) deve notar-se que a esmagadora maioria dos prisioneiros, em todos os lugares dos campos, não tiveram um comportamento moralmente irrepreensível para os (nossos) padrões convencionais: lutavam ferozmente entre si por um pedaço de pão ou pelos melhores lugares nos beliches, roubavam-se e agrediam-se, mentiam, atraiçoavam, formavam grupos e facções, denunciavam os caídos em desgraça […]” (in, revista “Ipsilon, 26/Fev/16, por António Araújo, “Sonderkommando: a morte entranhada na pele”)

Vês, “leal Pedro”, eu até nem posso ser moralmente condenado se, à semelhança do que o “leal Pedro” fez, mentisse e praticasse traição, porque há dois anos que estou “involuntariamente colocado em situação-limite”!

Então porquê, “leal Pedro”? Medo?

Quando questionado por um advogado (não foi a minha defensora) a quem tudo aquilo que disse o “leal Pedro”, o fez sentir fétido miasma: “Quando ouvi o que o Inspector João de Sousa me disse, nada do que disse o comprometeu.”

Mas, segundo declarou, de imediato comunicou à Dra. Maria Alice, conquanto as suas declarações só surjam nos autos, um ano depois do que afirmou ter sucedido!!!

Assim vivi eu os meus “Idos de Março”!

Não sendo eu grande quanto César foi, não possuindo o favor da Musa que sorriu para o bardo Shakespeare, vou adaptar ao “leal Pedro” o discurso final de Marco António perante o cadáver de Marco Bruto. Assim será porque o “leal Pedro” não apresentou, apesar de tentar fazê-lo crer no Tribunal, a nobreza de Bruto. Se assim fosse, poderia terminar com um “Et tu, Pedro?”, mas este Pedro não foi nobre nos actos e propósitos.

Vamos adaptar e terminar assim: “É o menos nobre e mais vil entre todos. Todos os conspiradores, ele incluído, fizeram o que fizeram alimentados por algo medíocre. O “leal Pedro”, com desonesta mente, e para se salvaguardar, juntou-se aos outros.

A sua vida foi maculada pelo seu acto, e os vários falsos elementos tão unidos nele, que a natureza pode levantar-se para proclamar ao Mundo: “Eis, aqui, um Rato!””

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