“Homem com H”

Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2016: 22 meses de prisão preventiva!

(Aquando da publicação deste texto, faltarão 57 dias para se completarem 2 anos de prisão preventiva).

“Nunca vi rastro de cobra / Nem couro de lobisomem / Se correr, o bicho pega / Se ficar, o bicho come / Porque eu sou é “home” / Porque eu sou é “home” / Menino, eu sou é “home” / Menino, eu sou é “home” / E como sou!”

Trata-se da letra da canção “Homem com H”, versos que ouvi e vi Ney Matogrosso interpretar como só ele o sabe fazer.

O que mais me inquieta neste momento, é manter a minha dignidade, suportar dignamente tudo aquilo a que me sujeitam.

O atavio, a preocupação com a imagem, a apresentação, são os meus apetrechos, os meus aparelhos de defesa – os “atavios de guerra” – o último reduto da minha dignidade.

Tom Ford e o seu lema de vida: “Vestir bem é uma forma de ter boas maneiras.”

E nós, perante o colectivo de Juízes, temos que ser bem educados!

Muitas vezes, já aqui relatei ao meu Leitor(a), que sorri ou chorei, muitas emoções eu sopeteei. Também escrevi que chorar, só dentro do “jazigo” com a porta fechada. Aqui em “Ébola”, sozinhos, à noitinha, muito se chora.

E à frente dos guardas, perante o Tribunal, no “palco” com os jornalistas e as suas câmaras indiscretas? Nunca! Dignidade! “Homem com H”, sempre!

Desde 26 de Março de 2014, data da minha detenção, que estou preparado. Sim, assim que um colega meu disse: “João, tenho aqui um mandado de detenção fora de flagrante com o teu nome!”

“Homens aos seus postos!”; “Atenção redobrada! Estamos sob ataque!”

E assim, entrei em “modo de sobrevivência” há 675 dias atrás, pensando sempre que tinha de resistir, ser racional, não odiar ninguém porque é um sentimento que condiciona o nosso discernimento, os nossos critérios. Controla a emoção ou deixa-te levar, faz a tua catarse, mas sempre dentro da cela, só!

No Domingo, 24 de Janeiro de 2016, com os fatos, as gravatas, os cremes e afins (somente os permitidos pelo normativo vigente) fui colocado algemado no interior de uma carrinha de transporte de presos.

Veículo pequeno, parecido com uma carrinha do pão, ou com as carrinhas do canil municipal, o recluso é transportado no seu interior, sem qualquer luz solar, sem ver o céu ou a rua.

Sem problemas. Técnicas de visualização, meditação, relaxamento: na semana anterior até adormeci, como aqui relatei. Eu aguento: pela “ninhada”, pela minha mulher, por mim!

Homem com H!

Mas o coração tem razões, que a razão desconhece, já o dizia Pascal!

O guarda prisional, pela primeira vez em praticamente dois anos, abre a pequena portinhola – 10 cm por 10 cm – que permite ver os dois elementos do corpo de guardas prisionais que seguem no veículo e … e vê-se a estrada, os carros, o céu azul, o “mundo normal”.

Do que é que me estou a queixar, pergunta o meu Caro(a) Leitor(a)?

Então não é que o Inspector João de Sousa, “Mentalista”, arquitecto de uma perigosa associação criminosa, psicólogo, mestre da manipulação e afins, não começa a emocionar-se com as ruas de Évora, a auto-estrada e pensa: “Se os guardas olham para trás e falam comigo ainda percebem, pela minha voz embargada, que eu estou emocionado. Ainda pensam que estou com medo do Julgamento. Fui-me abaixo!”

Então lembrei-me de mais um verso da canção do Ney: “Quando eu estava prá nascer / De vez em quando eu ouvia / Eu ouvia a mãe dizer: “Ai, meu Deus, como eu queria / Que esse cabra fosse “home” / Cabra macho prá danar / Ah! Mamãe, aqui estou eu / Mamãe, aqui estou eu / Sou homem com H / E como sou!”

Controla-te João! Tens de ser “cabra macho prá danar”, agora mais do que nunca.

Recompus-me, mas o pior estava para vir! Quando vi o Cristo-Rei de costas voltadas para mim, a ponte 25 de Abril e, como uma mulher recebendo-me, Lisboa menina e moça, a namorar o Tejo num fim de tarde … (não existe outra forma de o expressar): “borrei-me todo” e como um menino, chorei copiosamente, envergonhado porque se os guardas olhassem para trás …

Chorei de tristeza? Raiva, porque me sujeitam a isto?

Não, nada disso! Chorei de emoção porque há cerca de dois anos que não via a minha cidade, os restaurantes onde comia, as livrarias, as pessoas, o céu, o azul do céu de Lisboa. Claro que já tinha vindo a Lisboa antes, mas um preso só vê os calabouços dos Tribunais, as garagens dos estabelecimentos prisionais, eu vi outra vez Lisboa.

Quando cheguei ao estabelecimento prisional junto da P.J., porque a dignidade e o gesto são tudo o que me resta, estava recomposto, firme, hirto.

Assim tem de o ser porque dentro de minutos já estava outra vez em frente a um guarda prisional que solicitava que baixasse as cuecas e agachasse com o objectivo de apurar se algo cairia do interior da última parte do meu intestino grosso (nunca exercitei tanto a musculatura pélvica, o músculo pubococcígeo, como nestes últimos 22 meses!)

Isto é que é um teste à dignidade, “Porque eu sou é “home” / Porque eu sou é “home” / Menino, eu sou é “home” / Menino, eu sou é “home” / E como sou!”

Nada disto interessa, eu tenho que estar digno amanhã, amanhã aos “olhos do mundo”, perante o Tribunal; que interessa se ontem perscrutaram o meu orifício externo do reto!

O Papa Pio XI afirmava: “Os tempos difíceis não permitem a ninguém ser medíocre.”

Eu acrescento: “Medíocre ou sentir medo, temos de enfrentar com coragem a adversidade, destemidamente, lutar!”

Pois! Mas será que Pio XI alguma vez esteve preso, transferido para uma prisão cujos reclusos não vêem com “bons olhos” (isto é claramente um eufemismo) “bófias” entre eles?

A serenidade que se deve ter no primeiro dia em que vamos prestar declarações é muito importante. Eu, João de Sousa, também fiquei nervoso, ansioso, sou humano. Mas tudo isso, todos esses sentimentos, emoções, foram relegados para segundo plano, quando o guarda prisional do E.P. junto da P.J. abriu umas cinco celas com quatro indivíduos no interior de cada uma e fiquei, ainda que impecavelmente vestido, sozinho perante vinte e poucos presos!

Pensei: isto não é nada bom!

Recordei o Ney: “Se correr, o bicho pega / Se ficar, o bicho come.”

Todos a olharem para mim. Eu sozinho. O guarda no outro extremo do piso.

Ouve-se: “É o gajo da P.J.!”

“Se Correr o bicho pega / Se ficar o bicho come.”

Coloquei a minha expressão “31”: olhar confiante, ainda que não permitisse um dos meus esfíncteres, a introdução de qualquer tipo de artefacto, de tão apertado que estava.

Felizmente, o “31” ficou-se pela expressão e não se verificou nenhum verdadeiro “31”! “Sou homem com H / E como sou!”

Diz a Juiz-presidente do colectivo do meu Julgamento que os arguidos são livres de declarar o que desejam e estão livres na sua pessoa na sala de Julgamento, sem condicionamentos ou condicionantes.

Bom, se o que relatei não condiciona, o que condicionará?

Talvez o aparato policial montado no Tribunal do Seixal, facto que motivou a indignação de um dos advogados presentes (cujo constituinte não estava presente uma vez que alguns arguidos solicitaram autorização ao Tribunal para serem dispensados porque ficavam prejudicados se fechassem as suas lojas de compra/venda de ouro) causídico que interpelou o colectivo:

– Meritíssima, com a devida vénia, eu gostava que explicasse a razão para a existência de todo este aparato policial… sinto-me inseguro… estive no Julgamento das “FP25” e não existia metade disto…

A explicação solicitada não foi ofertada, tendo a Meritíssima invocado que o Tribunal, em tempos, tinha sido assaltado… “Nunca vi rastro de cobra / Nem couro de lobisomem…”

Mas para mim, o importante é manter-me digno, se tiver que cair, se morrer que seja como as árvores: de pé!

Isto é o que desejo mas… estando eu já de pé (terminada a discussão entre o advogado e a presidente do colectivo) eu de pé como as árvores, não é que os intestinos traem o Inspector João de Sousa: “Porque eu sou é “home” / Menino eu sou é “home””, ou para ser mais correcto: “Meretíssima eu sou “home” e a barriga está às voltas! Posso interromper e ir à casa de banho? (“expelir” os nervos por baixo!)

Como o Estimado(a) Leitor(a) pode verificar, é muito difícil mantermos a nossa dignidade perante a Lusa Justiça!

Senão vejamos, pegando no exemplo das árvores!

Abraham Lincoln: “Se tivesse seis horas para deitar abaixo uma árvore, gastaria as primeiras quatro a afiar o machado.”

A nossa imprensa rotula o Juiz, Dr. Carlos Alexandre, de “Super-Juiz”, um trabalhador incansável, a espada afiada que se vê nas mãos da vendada deusa da Justiça.

Como a analogia é com árvores, diremos que o Dr. Carlos Alexandre é o Machado, mas não afiado, sem atender ao sábio conselho de Abraham Lincoln, um machado de lâmina romba!

O “Processo do ouro” que defraudou, prejudicou o Estado em 6,6 milhões de euros, com um Inspector da P.J. envolvido, investigou empresas que não facturavam, empresas que fugiam ao fisco.

Como já escrevi antes neste espaço, considero humanamente impossível um indivíduo, no caso em apreço, o Dr. Carlos Alexandre, ser capaz de avaliar de forma séria e com honestidade intelectual, 15 000 páginas de um inquérito, em 15 dias.

Responsável pela Instrução do processo no âmbito do qual estou preso preventivamente há cerca de 2 anos, medida de coacção que o Juiz, Dr. Carlos Alexandre, no seu despacho de pronúncia decidiu manter, fui notificado, assim como os restantes sujeitos processuais que as empresas constituídas arguidas pelo Ministério Público (Dr. João Davin), cujo estatuto de arguido foi mantido pelo Dr. Carlos Alexandre, por decisão do colectivo de juízes do Julgamento, já não o são (arguidos)!

Eu vou transcrever partes do despacho da Juíz-presidente e deixo à consideração de quem possa estar agora a ler: “[…] Na sequência da decisão instrutória, o Sr. Juiz de instrução proferiu despacho de pronúncia relativamente a todos os arguidos, entre os quais as sociedades […] Porém, a pronúncia e a acusação [leia-se o Juiz Carlos Alexandre e o Procurador, Dr. João Davin] não imputa às arguidas-sociedades a prática de quaisquer crimes, nem mesmo descrevem concretamente, em relação às mesmas, factualidade susceptivel de integrar prática de ilícitos […] a omissão da descrição de factos imputáveis às sociedades arguidas e da menção de quaisquer normas incriminatórias, obsta, nesta parte, à apreciação de mérito. […] Pelo exposto, declaro a nulidade da pronúncia e manifesta improcedência da mesma relativamente às arguidas-sociedades […]”

Como?!?!? “Nunca vi rastro de cobra / Nem couro de lobisomem…”

Então inverteram os tempos indicados por Abraham Lincoln: Foram quatro horas “à machadada”, diria mesmo “martelando” o que eram indícios ou suposições e somente duas horas a afiar a lâmina?

Então o que significa esta frase do Dr. Carlos Alexandre: ”[…] O facto das contas bancárias de João de Sousa, pese embora os escassos depósitos ATM, não reflectirem movimentos considerados suspeitos, não é de estranhar tendo em conta a qualidade daquele […]”

“Não é de estranhar?!” Outra “martelada”. Não há prova, mas… “Se correr o bicho pega / Se ficar o bicho come”

E esta frase: “O arguido João de Sousa recebia, pelo pagamento dos seus serviços dinheiro, admite-se acondicionado, por norma, num envelope […]”

Admite-se?! Por norma?! Como admitiu com as empresas-arguidas?!

Então uma fraude de 6.6 milhões sem as empresas como arguidas?

“Cobra! “Home”! / Pega! Come! / Nunca vi rastro de cobra / Nem couro de lobisomem”

Questiona-me a minha mulher e amigos: “Está a correr bem o Julgamento?”

O que posso responder? Posso responder que está a ser como uma sensação de absorção só que ao contrário. Um misto de Kafka e Monty Python . Posso afirmar que apresento extensas lesões de natureza contundente, uma vez que o machado, ainda que com a lâmina romba, causa graves lesões: estou preso preventivamente, sem condenação, há cerca de 2 anos!!!

A minha preocupação: “Apresentar-me condignamente. Controlar a emoção, tentar manter a racionalidade mesmo perante as “marteladas” da Justiça.

“Jornal das 8”, TVI: “João Rendeiro (BPP). 6 arguidos acusados de fraude fiscal, branqueamento. Lesaram o Estado em 16 milhões de euros.” Em Liberdade!

Não interessa. Importante é o facto do Jr. ter visto na televisão o “tipo-careca-que-visita-aos-fins-de-semana” e ter apontado e sorrido. Quando a mãe perguntou quem era, ele respondeu: “Pai!”. “Porque eu sou é “home” / Porque eu sou é “home””

Segunda-feira, dia 1 de Fevereiro de 2016, vou continuar. O segundo dia de declarações.

No dia anterior, domingo, viajarei novamente para Lisboa, não sei se com a portinhola aberta.

A emoção já não será a mesma, já estarei habituado. Quanto ao “baixar da cueca”… é sempre difícil! Parte-se do princípio que eu levo e trago algo escondido no orifício situado ao fundo das costas. Isso, Caro(a) Leitor(a), não é coisa de homem e “Eu sou homem com H, e com H sou muito “home”! ”

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