“2015, Um Breve Balanço”

640 dias! No dia da publicação deste texto: 640 dias! No dia seguinte, 29 de Dezembro de 2015: um ano e nove meses!

Aqui já há quem me chame “Doutor Sénior” ou “P.J. antigo”. Sou o recluso que há mais tempo por cá se mantém em prisão preventiva.

Consultando o segundo Moleskine, verifico que por esta altura, no ano passado, tenho um apontamento de uma passagem de “Hamlet”, de William Shakespeare: “O que é um homem, quando o seu principal bem e a principal ocupação são dormir e comer? Um animal e nada mais. Certamente aquele que nos formou com esta razão, capaz de abarcar o passado e o futuro, não nos deu esta capacidade, esta faculdade divina para que fiquem inactivas em nós. Se será esquecimento bestial ou escrúpulo medroso de pensar demasiado no acto a praticar, pensamento no qual entram um quarto de prudência e três quartos de cobardia, não o sei! Porém, continuo a dizer que isto deve ser feito, se tendo a causa, a vontade, a força e os meios para o fazer.”

Quando transcrevi esta passagem, a minha maior preocupação era a inacção, a passividade, a incapacidade de agir, falar. Mas confiante na razão que me assiste, consciente da capacidade para abarcar o passado e o futuro, tendo sempre presente que a “acção agora” justifica e é causa determinante do “resultado depois”, inverti a proporção “Shakespeariana” prudência/cobardia, acrescentando uma variável: necessidade!

Tudo o que fiz, tudo o que tenho feito, o que agora escrevo, é também fruto da necessidade.

Da necessidade de manter a minha Casa, sustentar a minha Família. Necessidade de manter-me mentalmente são. Necessidade de teorizar e compreender tudo a que me sujeitam.

Tudo o que fiz durante este ano, tudo que tenho feito, por acção ou mesmo omissão, a forma como me agarro ao leme da minha frágil embarcação, não é só pela minha vontade. Como o homem do leme do “Mostrengo” de Pessoa: “Aqui ao leme sou mais do que eu: sou um povo que quer o mar que é teu; E mais que o Mostrengo, que a minha alma teme. E roda nas trevas do fim do mundo, manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!”

O Mostrengo é para mim a prisão, a sujeição a um castigo antecipado, uma medida de coacção absolutamente desproporcionada e injusta.

A embarcação é a minha Casa, a minha Família, a minha Honra e bom nome.

O mar que é dele (o Mostrengo): a minha Liberdade!

A Vontade não é de um Rei, conquanto reine sempre nas minhas acções. A Vontade, que surpreendentemente se mantém, alimenta-se do Amor que felizmente, durante um ano, de diversas formas fizeram chegar até aqui, ao Inferno gelado. “Como as coisas simples são as mais belas …”

O balanço de 2015 é manifestamente negativo!

Há mais de um ano, há 19 meses, que não recebo ordenado ou a parte que legalmente assiste a um funcionário que se encontra na minha situação, conquanto outros (ex-Director do SEF, Manuel Palos ou a ex-Secretária-Geral da Justiça, Manuela Antónia Anes) estejam a receber, até ao julgamento do “Caso Vistos Gold”. Mais grave, a medida cautelar que interpus há mais de um ano não obteve qualquer resposta.

Como o meu Caro(a) Leitor(a) vai ter oportunidade de ler no texto da próxima semana, esta questão do ordenado foi escandalosamente determinante na tomada de decisão que eu protagonizei no dia 18 de Dezembro de 2015! Explicarei para a semana.

O processo de violação do segredo de Justiça no meu inquérito-crime, no âmbito do qual encontro-me preso preventivamente, não apresentou até esta data qualquer conclusão!

Eu, ainda estou por aqui e por aqui vou ficar, iniciando um julgamento cujas sessões realizar-se-ão com uma periodicidade diária, acarretando um desgaste físico e psicológico brutal, uma vez que diariamente sairei daqui, de “Ébola”, algemado, mal alimentado, voltando outra vez ao “buraco”, não podendo descansar ou organizar a defesa de forma profícua.

Estou a 18 dias do início do julgamento e ainda não tive acesso às declarações dos meus co-arguidos, ainda não tive acesso ao meu “IPhone” e “IPad”, onde se encontra informação fundamental para a minha defesa.

A responsabilidade é do Tribunal ou da acusação? Não! Eu para a semana explico.

O balanço é dolorosamente negativo porque a minha Família está há cerca de dois anos à espera.

Tudo suspenso: o presente e o futuro. Tudo distante e incerto.

Os nossos projectos futuros resumem-se à preparação de compras dos poucos alimentos que podem entrar na prisão, as viagens são sempre para Évora. No balanço do activo e passivo da felicidade, existe um claro “deficit” de alegria, a dor ultrapassa em muito os quase ausentes momentos prazerosos!

O balanço é manifestamente negativo, mas eu ainda cá estou de pé, e não me limitei a dormir e comer.

Critiquei, alertei, denunciei, ri e chorei, continuo a amar (ainda que à distância) e tornei-me um fanático!

O meu “fanatismo” é o da Florbela Espanca: “Minha alma, de sonhar-te, anda perdida. / Meus olhos andam cegos de te ver. / Não és sequer razão do meu viver. / Pois que tu és já toda a minha vida!”

Espanca fala do ser amado, eu refiro-me à Liberdade! Nunca foi razão do meu viver pois nunca a tinha perdido, e agora, sem ela, sonho-a e tornou-se razão da minha vida.

Correm aqui diariamente as cortinas gradeadas que não me deixam ver o céu e o sol, tudo aqui sufoca, não posso gritar, mas a ideia da “minha Liberdade” dá-me força. Desejo-a como a um corpo de mulher, a vontade é tanta que receio voltar a “Ébola” pela prática de crime de violação!!!

Passou “mais” um ano. 365 dias intensos. Muitos deles provocaram um frio na barriga, um nó na garganta. Muito não conto, não digo, mas senti tudo! Continuo a sentir.

Por vezes a dor é tão forte que penso não conseguir suportar. Depois, penso nela e na alegria de a ter. Todas as noites penso nela. Antes de dormir velo por ela. É ela que agora me mantém e dá força. Porque ela, a Liberdade, é sinónimo da minha Casa, da minha Família, dos meus amigos, do Júnior, da Leonor, da Helena e da minha corajosa mulher.

A “minha Liberdade” é tudo isto e também o encerrar deste segundo annus horribilis, do começo de um novo ano, do início do meu Julgamento, do princípio do fim desta travessia do Inferno.

A todos, especialmente aqueles que velam por mim, e a si Caro(a) Leitor(a), boas saídas, melhores entradas e um 2016 em Liberdade!

P.S. – O texto é breve: é a minha prenda, humilde, para ti minha querida mulher que durante um ano abnegadamente copiaste e publicaste 64 opúsculos de qualidade duvidosa!

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