“Vou Sonhar o Meu Natal”

Está frio. Tenho as orelhas geladas. Estou só com o nariz de fora, deitado, enrolado nos lençóis, na cama de cima do beliche; em baixo não está ninguém. Estou sozinho no pequeno espaço onde me encontro.

Oiço vozes lá fora!

A temperar as vozes, a presença de um odor, uma fragância, um aroma que consigo mastigar. Desperto com o cheiro do Natal na casa dos meus pais: cheira a fritos castanhos com cristais brancos, despertei com as “fatias paridas”, as “filhoses” e os “coscorões”, que na cozinha a minha mãe e a minha avó paterna preparam.

Sempre associei o Natal a estas duas vozes e a este maravilhoso cheiro.

É dia 24 de Dezembro. Tenho 9 ou 10 anos. O beliche em baixo está vazio porque o meu irmão deve ter ido correr, treinar. O meu pai está no talho a vender os últimos cabritos e rolos de carne recheada, perus e outras iguarias. O meu avô está a passear pela serra, para ver os pássaros: os “bico-de-lacre”, os pintassilgos, os pintarroxos, para saber onde vai “armar aos pássaros”.

Eu deixo-me estar um pouco mais na “ronha”, a cheirá-las, escutá-las, feliz, seguro, com o “mundo” a fazer todo o sentido para mim:

– Leonor, ponho mais aguardente? – a mesma pergunta todos os anos.

– Julieta, quantos quilos de abóbora? – questiona a minha avó.

– Quatro!

– Põe, mal não faz!

É uma das memórias doces que guardo dos meus Natais.

Todos os anos o meu irmão ia à serra cortar um pinheiro, sempre com a mesma machadinha. Um dos rituais de passagem foi ter ido pela primeira vez com o meu irmão cortar o pinheiro. Estava a caminhar orgulhosamente para a idade adulta.

Depois “fazer a Árvore e o Presépio”. Os adornos, que agora estão na minha Árvore, na minha casa, eram por mim entregues ao meu irmão – porque era nove anos mais velho – e colocados por este.

No final, colocava-se a estrela, por ele feita na escola quando tinha 10 anos, estrela que está na minha casa, emoldurada, e que é o ponto final da Árvore de Natal, estrela que tem agora 41 anos!

Depois o Presépio. A imagem que acompanha este texto ilustra as peças, há 5 anos recuperadas por mim: pintadas novamente.

Nova deslocação à serra para recolher o musgo, tapete húmido que recebe as figuras que têm hoje cerca de 90 anos!

Há uns anos tentei comprar mais figuras destas mas não encontrei quem as vendesse.

Outra Tradição Familiar é a colocação das calças do “Homem da casa”, com a braguilha virada para a massa das “filhoses”, a cobrir a mesma, ficando a massa a levedar durante um dia.

Se as “filhoses” crescerem e forem gostosas, não se trata de acertar nas quantidades dos ingredientes, na dose da aguardente. Nada disso, é a braguilha!

Devo informar, modéstia à parte, que todos os anos em que a minha braguilha operou a Tradicional magia, as “filhoses” apresentaram uma qualidade superior!

Vários pinheiros, Presépios e braguilhas depois, casei e fiz a minha Casa.

O desenho da casa que recuperei foi por mim idealizado com uma preocupação: uma sala grande para receber a Família, no dia da Família; o dia de Natal.

A consciência ecológica surgiu, e o pinheiro agora e artificial, só o musgo é verdadeiro. A estrela é a mesma, as imagens do Presépio também, as avós são agora outras mas as receitas e as dúvidas quanto à quantidade de aguardente a adicionar, mantêm-se. Não sou eu que agora faço “ronha”, agora tenho de fazer a Árvore e o Presépio enquanto as minhas filhas passam as decorações que ainda são as mesmas: um cartão de boas festas que é pendurado, feito por mim quando estava na primária, e que tem uma data inscrita, 1979 (tinha eu 6 anos), entre outros artefactos.

Algumas bolas têm mais de 50 anos, mas também há cartões novos, feitos pela Leonor e pela Helena. A Tradição mantém-se e renova-se!

Outras Tradições foram iniciadas na minha casa: a Árvore e o Presépio “fazem-se”, sempre, a 1 de Dezembro (seja feriado ou não!); todos colocam o seu barrete de Natal, e, ininterruptamente, até tudo estar terminado (o que demora um dia inteiro) ouvem-se músicas de Natal, principalmente o “Blue Christmas” interpretado pelo Elvis!

Depois, lareira acesa, casa iluminada, casa cheia, muita comida, mesa decorada para 13 pessoas – agora menos porque algumas já partiram, conquanto estejam presentes na “Parede da Família”, olhando-nos do alto dos seus retratos.

Entretanto: “Cent`anni”! Um brinde, em italiano, que as pequeninas, agora maiores, aprenderam muito cedo a dizer. Significa: Cem anos! A Família junta e feliz mais cem anos.

Após jantar: “Loto”. Com cartões que no verso têm inscrito o nome de avós, tios que já não estão entre nós, mas presentes na “Parede da Família”. Joga-se ao “Loto” que ainda é marcado com feijões. É outro ritual de passagem: a Leonor há dois anos já jogou, “já está feita uma mulherzinha”!

As prendas só se abrem dia 25 de manhã. Na noite de 24, com toda a casa a dormir, a minha mulher esgotada a descansar, o meu momento! Só com as luzes da Árvore e a luz do fogo da minha lareira, que alimento com mais um cepo, sento-me no sofá e fico a olhar a minha Árvore, a “Árvore da Família”, e, em cada enfeite, em cada uma das peças do Presépio, renovo a Tradição e invoco todos os Natais passados que se revivem naquele Natal presente.

Nessa altura recordo sempre o momento em que despertava no beliche do meu quarto, partilhado com o meu irmão, e ouvia, cheirava, a minha mãe e a minha avó a prepararem o Natal.

Está frio. Estou todo gelado. Tenho uma boina na cabeça e nas mãos colocadas umas meias. Estou deitado na cama de cima do beliche; em baixo não está ninguém. Estou sozinho no pequeno rectângulo de 9 metros quadrados, as paredes escorrem água, a janela gradeada escorre água.

Oiço gritos lá fora. Portas a bater, chaves a rodagem em portas iguais à minha que fecham rectângulos iguais ao meu.

Acordo sempre sobressaltado, o cheiro é a mofo, a bafio, à gelada humidade que não permite que eu aqueça.

Cheira a ódio, a mágoa, a revolta. Estou dentro de uma cela, é dia 24 de Dezembro de 2014, a véspera do dia mais esperado: o dia de Natal, o dia da Família!

Não vou ver as minhas filhas, nem o meu pequeno “filho-homem”. Vi-os dias antes. As princesas choraram, eu aguentei-me. A minha mulher quase que aguentou.

A Árvore de Natal foi “feita”, assim como o Presépio, mas não colocaram a estrela no topo.

No jantar de 24 a minha casa estava na penumbra, as luzes da Árvore estiveram apagadas, não houve brindes ou “Loto”. A minha mulher levou a “ninhada” para a casa dos pais, porque não suportava ver a cadeira vazia.

Este ano, daqui a três dias, vai-se repetir a dor, a penumbra, a minha casa vazia.

A Árvore já foi “feita”, o Presépio também, a estrela não foi colocada.

Vou despertar na manhã de 24, experimento tudo mais uma vez, e, ao contrário do que sentia quando despertava e ficava na “ronha”, na casa dos meus pais, o “mundo” não fará sentido, não estarei feliz, não me sentirei seguro.

“Dois anos disto!?” Não faz sentido, como é que é possível!?

Há dois Natais que não vejo os olhos das minhas filhas, sorrindo, ansiosas, a abrirem as prendas. Apenas recordo os olhares de Natais passados. Do júnior, o meu “filho-homem”, a próxima “braguilha das filhoses”, nem uma recordação tenho do seu olhar, nunca o vi a abrir prendas junto à lareira, na minha Casa!

O equilíbrio é instável, o frio está sempre presente, dentro e fora de mim.  Há dias, a ver televisão, observo um anúncio de uma operadora móvel, no qual um casal de filhos grava a mãe em várias ocasiões e faz um vídeo que envia ao pai ausente na ceia de Natal, pedindo a mãe (mensagem orquestrada pela “ninhada”) para o pai comparecer na refeição do dia da Família porque sente saudades. Vê-se uma Família à mesa. A campainha toca. Olhares de surpresa. Entreolhar cúmplice da “ninhada”. A mãe abre a porta, olham-se nos olhos. Mãe e Pai abraçam-se!

O Inspector da P.J., João de Sousa, debulha-se em pranto aflitivo! Com um anúncio!

A porta da cela está aberta: “João, posso entrar?”

– Espera um pouco – abro a torneira e começo a molhar a cara.

O outro recluso vê-me. Fica a olhar.

– Entrou-me sabão para os olhos; estava a lavar a cara! – foi o melhor que consegui com  a voz embargada.

– Eu volto mais tarde, deixa estar! – saindo.

Fiquei sozinho de novo, e novamente “entrou-me sabão nos olhos”, durante cerca de 5 minutos. O outro recluso não voltou, muito possivelmente ele também já tinha visto o mesmo anúncio e soube de imediato o que se estava a passar.

Estou a escrever este texto com a porta do húmido “jazigo” fechada. Está a demorar muito a escrita: tenho os olhos cheios de sabão!

Nada disto faz sentido!

Aqui também fizeram uma Árvore de Natal, com luzes e tudo, e até um Presépio!

Ofende-me o gesto! O contraste entre a acção de colocar fitas de Natal, um pai Natal pendurado nos gradões existentes, e a infiltração que por cima de mim vejo, infiltração da sanita da cela do piso superior, é atentatório à minha dignidade.

O horrível frio e fome que experimento por aqui é insultuoso, agravado pelo facto de decorarem as grades com enfeites de Natal!

No vaso que contém a Árvore de Natal de “Ébola” não vejo anjos ou musgo, vêem-se pontas de cigarros!

Há dias, o menino Jesus tinha sobre as fraldas uma mão de loiça, quebrada, possivelmente de um dos reis magos! A piada? Era uma provocação aos condenados por pedofilia!

Nada aqui é santo, prazeroso, quente, reconfortante. Possivelmente nem deveria ser assim.

Aqui não há Natal, somente o dia 24, 25, 26, 27, 28, 29 de Dezembro. Um dia como os outros.

A minha questão é outra: como é que se justifica eu ter estado aqui todos esses dias, agora pela segunda vez?

Nada aqui é santo ou sagrado. É tudo bazófia e dor. E por assim ser, à semelhança do ano passado, não vou ver a minha mulher e a “ninhada” a 24 e 25 de Dezembro. Não quero aqui quem amo, não quero que vejam este Natal, o Natal a que me sujeitam, incompreensivelmente, há dois anos.

O meu 24 e 25 vai ser igual ao do Natal passado. Castigarei o corpo de manhã, e quando for fechado, às 19h00, vejo as notícias, e, ansioso, esperançado, apago as luzes no “jazigo” pedindo uma prenda ao “Pai Natal”: que o sono chegue depressa e possa sonhar com o meu Natal!

Um Santo Natal para o Estimado(a) Leitor(a) na companhia calorosa daqueles que ama!

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