“Futurologia? Não, Obrigado!”

– Viu o horóscopo, Sr. João? Isto está mau para os “virgens”! – taxativo.

Aqui em “Ébola” medra o “pensamento mágico”. De manhã, muita gente por cá vê com muita atenção a Sra. Maria Helena a aconselhar com recurso às cartas e às disposições da venal Lua e do majestoso Sol.

O mito surge na mente humana alimentado pela ignorância dos fenómenos que rodeiam o indivíduo, a crendice e a superstição são ignaras, e a indolência, a negligência intelectual, torna o sujeito ignavo.

A simplicidade com que os fenómenos são entendidos, simplicidade consequência das necessidades presentes que obrigam à submissão do ignorante a todo aquele que aparenta encerrar na sua pessoa, através do seu discurso, a solução salvífica, alimentam o status quo e reforçam a dependência intelectual.

O desconhecido alimenta o medo, a subserviência.

Esta semana os meus progenitores visitaram o filho recluído. Estão preocupados.

– E se te condenam injustamente, Pedro? – pergunta a minha ansiosa mãe.

Recordei de imediato o famoso diálogo de Sócrates (o filósofo) com a sua mulher, após esta ter conhecimento da sentença do Tribunal: pena de morte.

– Aqueles malditos juízes condenaram-te à morte injustamente! – a indignada esposa.

– Preferias tu que me tivessem condenado justamente? – questionou, replicando, o sábio filósofo.

Direccionando o seu olhar para a opaca janela do Futuro, os meus pais hesitam, colocam hipóteses, preocupam-se. A falha, a lacuna com que necessariamente têm de conviver, impacienta-os, desgasta-os, envelhece-os!

Alberto Manguel, na sua obra, “Uma história da curiosidade”, conta-nos que os “leitores da Idade Média usavam a “Eneida” de Virgílio como ferramenta de adivinhação, fazendo uma pergunta e abrindo o livro em busca de uma revelação. Robison Crusoe faz basicamente a mesma coisa com a Bíblia, para encontrar orientação nos seus longos momentos de desespero”.

Vou agora fazer o mesmo, Caro(a) Leitor(a). Tenho aqui comigo a Bíblia Sagrada, edição pastoral (Paulus Editora). Vou abrir ao acaso e ver o que me diz o livro da verdade. Vejamos: “[…] E Deus continuou a dizer a Abraão: «Quanto a ti, observa a aliança que faço contigo e com os teus futuros descendentes. E a aliança que faço contigo e com os teus futuros descendentes, e que deveis observar, é a seguinte: circuncidai todos os homens. Circuncidai a carne do prepúcio. Este será o sinal da aliança entre Mim e vós […]” (GN. 17, 9-11)

Alto! Alto! Chega! Até me arrepiei e não é por causa do frio que aqui se faz sentir!

Como é que isto responde às minhas incertezas? Como pode isto ajudar-me em Julgamento?

Que culpa tem o meu “filho-homem” que o pai não consiga ver o futuro e confie o prepúcio de ambos à aleatoriedade de um texto?

A curiosidade dos meus pais é válida, também eu estou curioso quanto ao meu futuro.

Adoro Fado. Adoro a D. Amália: “Fado é sorte / E do berço até à morte / Ninguém foge por mais forte / Ao destino que Deus dá!”

Adoro o saudoso Tony de Matos: “O destino marca a hora / Pela vida fora / Que havemos de fazer / O que rege a sorte agora / Foi escrito outrora / Logo ao nascer / O relógio marca o tempo de viver / Todos nós somos iguais / Se o destino nos condena / Não vale a pena / Lutarmos mais!”

Respeito quem crê. Respeito quem acredita no alinhamento dos astros, mas não posso partilhar o credo. Se assim fosse, como admirar as palavras de Einstein: “Todos acham que algo é impossível de realizar, até que alguém aparece que não sabe e o inventa!”

Se por acaso aceitasse tudo isto a que me sujeitam, não tinha conseguido, até ao momento, suportar as despesas da família.

Um blogue? Onde é que isso já se viu?!

Cronista de um jornal? Impensável!!!

Voltando a Alberto Manguel e à sua “História da Curiosidade”: “[…] As nossas ambições são definidas tanto pelo que não alcançamos como pelo o que alcançamos, e a Torre de Babel continua inacabada, mais como um monumento à nossa exultante audácia do que como um memorial aos nossos falhanços”. Aqui está um fabuloso exemplo do “copo meio-cheio”!

Valeu a pena o castigo de 6 dias por “delito de opinião”? Como pode o castigo ser entendido como uma vitória?

– Pedro, não achas que a entrevista à televisão pode comprometer tudo? – o meu preocupado pai.

– Tudo o quê, pai? – sorrindo, porque é importante eles verem-me bem.

– Não serás castigado outra vez?

Diz-se que quando perguntaram a S. Tomás de Aquino por que estava mais grato a Deus, respondeu: “Por me dar o dom de entender cada página que leio.”

Meu querido pai, não interessa agora o castigo, isso é futurologia. Eu sei o que leio, compreendo o que leio neles: no Director, na Juíza do T.E.P., no Sub-director, no Tribunal que me mantém aqui preso. O que importa é dizer, pronunciar as palavras que nos sufocam, falar a injustiça, agora, no presente.

“[…] Assim era o meu Mestre. Não só sabia ler no grande livro da natureza mas também do modo como os monges liam os livros da Escritura e pensavam através deles […]” (in, “O nome da Rosa”, Umberto Eco. Guilherme de Baskerville nas palavras de Adso de Melk).

É mesmo assim, sem falsas modéstias!

A interminável derrota que é a manutenção da minha prisão preventiva, permitiu-me apurar o meu entendimento do sistema, da máquina da Justiça.

Estou a preparar o meu Julgamento, lendo as peças processuais definitivas, sem condições, sem a tão propalada “igualdade de armas”. Quem disser que consegue fazê-lo proficuamente num espaço frio com 9 metros quadrados, com a humidade a escorrer das paredes e a sanita da cela de cima a verter para o tecto do meu “jazigo”, escurecendo ainda mais a já escura “caixa de solidão”, sem acesso livre a livros, manuais, com restrição de contacto com o advogado, então quem o disser, e conseguir, é o meu herói.

Estou a ler a minha acusação, a “antecipação da decisão final”, o “projecto de sentença”. E o que vejo? Observo aquilo que S. Tomás de Aquino assinala que Santo Agostinho observou, ou seja, “mais coisas são procuradas do que encontradas, e das coisas que são encontradas, menos ainda confirmadas”!

– Então, filho, exactamente por causa do que dizes, já não devias estar em casa? Eu tenho muito medo do que o Futuro te possa reservar! – a dor da minha mãe.

– Minha querida, é assim que eles lêem o livro da natureza, é assim que está desenhado o sistema, temos que o denunciar!

– Tu, filho? Mas tu és muito pequenino comparado com “eles”! – possivelmente desejando que eu de facto ainda fosse pequenino para no final da visita me levar ao colo, protegido, nos seus braços.

– Pedro, muitas portas estão fechadas, e eles é que têm as chaves. – alertou-me o meu pai.

Para os sossegar, para aliviar o fardo de verem o filho preso:

– Sabem quem é a pessoa que mais portas permitiu que se abrissem na história da humanidade?

– Alguém com poder, influência, coisa que tu não tens, ainda que possas ter razão! – acrescentou sensatamente o meu pai.

– Não! Um homem simples: o inventor da dobradiça!

Eles, os meus pais, não conseguem compreender como, ao fim de 20 meses (1 ano e 8 meses) ainda mantenho o sentido de humor.

É simples. Manguel, mais uma vez: […] A imaginação, enquanto actividade criativa essencial, desenvolve-se com a prática, não por meio de êxitos, que são conclusões e, portanto, becos sem saída, mas por meio de fracassos, por meio de tentativas que se mostram erradas e exigem novas tentativas que, também elas, se os astros forem bondosos, conduzirão a novos fracassos. A história da arte e da literatura, como a da filosofia e da ciência, é a história desses fracassos iluminados. “Falhar. Tentar outra vez. Falhar melhor”, foi o resumo de Beckett […]”

Eu tenho que retirar de tudo isto Conhecimento, Sapiência. Churchill afirmou que “a vida dá lições que só se dão uma vez”.

E conhecendo, sabendo, o que fazer com esse património?

Fazer como o outro que daqui saiu e não permite o contraditório? Ocultar os erros e incongruências daqueles que me sujeitam ao castigo (sim, porque isto já é um castigo) por receio de os contrariar e assim prolongar o jugo?

Ao contrário da investigação de que fui alvo, e que presentemente se materializou numa acusação, eu não tenho certezas, e assaltam-me muitas dúvidas. Francis Bacon, muito mais sábio que a Dra. Maria Alice e o Dr. João Davin, afirmava que, “Se um homem começar com certezas, terminará com dúvidas; mas se se dispuser a começar com dúvidas, terminará com certezas”.

A investigação nunca sentiu dúvidas, mesmo quando as suas premissas iniciais não obtiveram confirmação. O ponto de que partiram para construir o seu raciocínio revelou-se incerto, ao não confirmarem o seu “pré-conceito” justificaram as suas insuficiências com supostos ardis meus. A força das suas convicções, a intensidade dos seus sentimentos, mesmo o cúmulo de ambos, não podem servir para refutar a evidência ou ausência de um fenómeno.

Karl Popper sabia-o! “O que é a verdade? – a célebre pergunta de Pilatos a Jesus. Pode-se responder à questão de um modo simples, a saber: uma asserção, proposição, declaração ou crença é verdadeira se, e apenas se, corresponder a factos!”

– Virás para casa quando começar o Julgamento? – questionaram-me os meus pais.

Respondi que não possuo informação suficiente para, em razão de ciência, conseguir responder à questão; infelizmente, porque o que queria mesmo era animar ambos.

Entenda o meu Caro(a) Leitor(a), que não se trata de má vontade para com os meus pais. Nada disso!

Trata-se de honestidade intelectual, trata-se de não fazer exactamente aquilo que critico na investigação, e que detecto naqueles que partilham o Inferno aqui comigo: teimar no preconceito, expectar crentes em algo insubstancial, alimentar o “pensamento mágico”.

Futurologia? Não, obrigado!

O Futuro é agora, e, é esse mesmo “Futuro que proporciona o critério que dá sentido à complexidade do (meu, aqui em “Ébola”) dia-a-dia. Especial é o que vais fazer”.

Este texto vai ser publicado dia 7 de Dezembro de 2015, de manhã. À tarde, aqui em “Ébola”, contrariando todos aqueles que consideravam impossível, uma estação de televisão comparecerá no estabelecimento prisional de Évora para realizar entrevista ao Inspector da P.J., João de Sousa, preso preventivamente há 618 dias, 88 semanas, 20 meses, 1 ano e 8 meses; acusado, entre outros, da prática do crime de corrupção. Verificar-se-á a existência de contraditório, abertamente se falará de Justiça e sem qualquer tipo de condicionalismos intelectuais.

As consequências deste evento? Desconheço! Os frutos que vou colher? Desconheço, não sou formado em pomologia.

Só tenho uma certeza (algo que como se sabe não é muito saudável para a Sabedoria) como nos legou Saint-Exupéry através da raposa no seu “Principezinho”: “Tu tornas-te sempre responsável pelo que cativas.”

 

 

 

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