“Alvíssaras! Escutai! Alvíssaras!”

Alvíssaras, Caro(a) Leitor(a)! Alvíssaras!

Interjeição, é uma palavra que serve para exprimir de modo enérgico e conciso um sentimento violento, uma emoção. “Alvíssaras”, é uma interjeição que serve para anunciar boas novas!

Alvíssaras!

Qual é a boa nova? Pergunta o(a) Caro(a) Leitor(a) se vou para casa?

Não, não é isso (infelizmente). O motivo de tamanho Júbilo (vejam lá o desespero!) é simples: finalmente, após 602 dias, foi agendada a data para o início do julgamento! Alvíssaras!!!

A primeira sessão realizar-se-á no dia 12 de Janeiro de 2016, pelas 9h15, nas Instalações do Tribunal do Seixal!!!

Quando eu comparecer no dia 12 de Janeiro de 2016, perante o colectivo de juízes, nessa data, estarei preso preventivamente há 655 dias! Faltarão menos de dois meses para completar 2 anos de prisão preventiva!!! Alvíssaras!!!

A notícia “apanhou-me” a reler “O retrato de Dorian Grey”, do genial Oscar Wilde. Releio Wilde porque há 20 meses que não degusto uma refeição saborosa, não visto um fato, não posso oferecer-me o pequeno luxo de aspergir o meu “Acqua di Gio” sobre a minha pele, não estou com quem me ama, não defeco na minha sanita, não tenho o meu bidé para as minhas abluções íntimas, e, para agravar o facto, já não permitem compras no “Continente”, o que inviabiliza a aquisição dos indispensáveis toalhetes perfumados!

E Wilde não me decepcionou, mais uma vez! Atentem: “[…] Desde sempre o tinham atraído os métodos das ciências naturais, mas o assunto comum dessas ciências parecera-lhe trivial e insignificante. E por isso começara a dissecar-se a si próprio e acabara por dissecar os outros. A vida humana parecia-lhe a única coisa que valia a pena investigar. Comparado com ela tudo perdia o valor. Era verdade que, observando o estranho cadinho de prazer e dor da vida, não se podia usar uma máscara de vidro sobre o rosto, nem evitar que os vapores sulfúricos afectassem o cérebro e turvassem a imaginação de fantasias monstruosas e sonhos grotescos. Havia venenos tão subtis que, para conhecer as suas prioridades, era preciso adoecer pelo seu efeito. Havia doenças tão bizarras que era preciso sofrer na pele para compreender a sua natureza.

E, porém, como era grande a recompensa! Como o mundo se tornava maravilhoso aos nossos olhos! Seguir a lógica difícil e singular da paixão, e os arroubos emocionais da inteligência, atentar no ponto de fusão de ambas e no ponto onde se separavam, em que momento estavam em Uníssono e em que momento divergiam – o prazer que dessa actividade retirava! Que importa os custos que tinha? Jamais se podia pagar um preço demasiado elevado por uma sensação […]”.

Não estou louco! Ainda. O preço que estou a pagar é elevadíssimo: a dor estampada nos olhos da minha mulher, exausta, porque tudo isto suporta, sozinha. A bela face triste das minhas filhas quando, semanalmente, se despedem de mim. O meu “filho-homem” que ainda não sabe dizer “pai”, nem o sente quando me vê!

Mas tudo isto é de facto maravilhoso. A sensação de estarmos a “conhecer”, de estarmos a confirmar o que equacionámos, de se cumprir o que afirmámos e escrevemos. Sim, eu sei: pura soberba intelectual!

O fascínio incómodo que lhe causava, Dra. Maria Alice, a forma como o Inspector João de Sousa interagia com homicidas, pedófilos, com o Outro, a tal “manipulação”, ou mesmo o “espírito burlão” (porque quando desconhecemos, ou somos incapazes, depreciamos) está agora apurado, aguçado, calibrado.

Adoeci aqui – até fisicamente – mas o espírito, a personalidade prevaleceu.

O pouco subtil veneno que administraram afectou mas não derrubou. Sopetear foi o verbo transitivo que aqui utilizei, desfrutei tudo, saboreei tudo, ainda o faço neste preciso momento.

Retiraram-me o ordenado. Presentemente, passados 20 meses, o Tribunal Administrativo ainda não se pronunciou sobre a medida cautelar interposta! Sofri, a Família sofreu e sofre, mas prevalecemos. Não desenterrei ouro escondido, não trafiquei, reinventei-me, lutei, e perante tudo isto, muitos – familiares, amigos, desconhecidos – ajudaram e ajudam!

“Arroubos emocionais da inteligência” detectei na investigação, pontos de “fusão” entre “lógica difícil e singular da paixão” e os “arroubos” de Wilde, foram visíveis e notórios: “[…] o arguido João de Sousa recebia, pelo pagamento dos seus serviços dinheiro, admite-se acondicionado, por norma, num envelope […]”; “[…] o facto das contas bancárias de João de Sousa, pese embora os escassos depósitos em ATM, não reflectirem movimentos considerados suspeitos, não é de estranhar tendo em conta a qualidade daquele […]”.

O mais famoso dos “presumíveis inocentes” (grupo a que notoriamente não pertenço) brada aos quatro ventos (e até nos aparelhos de ar condicionado) que não apresentam prova, que só fazem suposições, insinuações. A minha acusação, parida a 13 de Março de 2015 (há 8 meses atrás!) está pejada de termos como “admite-se”, “aparente”, ou frases como: “não foi possível cabalmente apurar”, ou mesmo, “em circunstâncias não apuradas”!

Sem acusação ainda, o mais famoso dos “presumíveis inocentes”, repete até à exaustão (mais a nossa que a dele) que tudo é uma “canalhice”. Imaginem se a acusação dele fosse como a minha!

Todos os comentadores, simpatizantes e não simpatizantes, o próprio e até eu, partilhamos a mesma opinião relativamente ao “prender para investigar”, assim como partilhamos a indignação atendendo ao facto de se ter prendido alguém durante 11 meses e não apresentarem a acusação.

Repare o meu Leitor(a) que eu escrevi “alguém”, não escrevi “um ex-1º ministro”! “Alguém”, porque milhares de portugueses passaram pelo que passou José Sócrates, passam por isso, ou até suportam pior: estou a suportá-lo há 20 meses, e suportarei mais até à primeira audiência de julgamento e ulteriores audiências!

Violação de segredo de Justiça. Todos falam, todos opinam. Passados 18 meses, tendo apresentado prova material o meu advogado, da violação do segredo de Justiça, nada! Ninguém responsabilizado.

O mesmo Procurador, Dr. João Davin, que me acusa de violação de segredo de funcionário, o titular do inquérito que tendo à sua guarda o processo no âmbito do qual, e por sua promoção, encontro-me preso preventivamente há 20 meses, tem de explicar a razão pela qual foi permitida a realização de fotografias ao inquérito em questão, fotografias que depois foram difundidas pelos “média”. Imaginem o mais famoso dos “presumíveis inocentes” com estas provas na mão!

Arguia de imediato a anulação do inquérito e solicitaria indeminização ao Estado português. Eu, presumível culpado conforme convicção do Dr. João Davin, aguardo o resultado do processo-crime no qual se investiga a violação de segredo de Justiça há 18 meses!

O Inspector da Autoridade Tributária, Paulo Silva, surge agora propalando que não possui a investigação meios suficientes. Opinião pública, Sócrates, comentadores e afins indignam-se! Aquando do debate instrutório no meu processo, o Exmo. Sr. Procurador, Dr. João Davin, afirmou, para espanto dos presentes (inclusive do Juiz Carlos Alexandre), que a investigação não confirmou as suas suspeições consequência da escassez de meios do Departamento de Setúbal da P.J., mas era sua convicção que o Sr. Inspector tinha praticado crimes!

No caso do Eng. José Sócrates, esta insuficiência traduz-se em atrasos, dúvidas em relação à idoneidade de Investigadores, Procuradores, Juízes; no caso do Inspector João de Sousa, resulta em 20 meses, até à data, em prisão preventiva!

Como o mundo se torna maravilhoso aos nossos olhos quando compreendemos! Nas suas “Geórgicas”, Virgílio sublinha a felicidade daqueles cuja inteligência penetra os segredos da natureza e ultrapassa as vulgares superstições: Felix qui potuit rerum cognoscere causas ( “Feliz aquele que pode conhecer as causas das coisas”).

E como não conhecer, não perceber o que se está a passar: eu, 18 meses sem ordenado, e o Dr. Manuel Palos (ex-director do SEF, caso “Vistos Gold”) reintegrado no serviço até julgamento! O mesmo Manuel Palos que partilhou a minha cela onde agora estou, fechado, a escrever. O mesmo que partilhou comigo a sanita que está aqui ao meu lado!

Maria Antónia Anes, ex-secretária-geral da Justiça, já não está suspensa de funções, poderá regressar à Polícia Judiciária! Eu, sem ordenado e já culpado!

Uns, os famosos presumíveis inocentes, em liberdade plena ou presos no aconchego do lar, falando, ofertando a sua “narrativa”, limpando o “bom nome”, lançando a sua candidatura à presidência do país (quiçá), outros, aqui o “filho de um Deus menor”, castigado por delito de opinião, por expressar o seu livre pensamento!

Mas alvíssaras, novamente: Fui autorizado a dar uma entrevista (uma verdadeira entrevista com contraditório e tudo!) Aqui em “Ébola” para a CMTV!

Como diz o meu Caro(a) Leitor(a)!?! Queixo-me de “barriga-cheia”, é isso?

Olhe que não, olhe que não!

O estabelecimento prisional, cumprindo a lei, questionou o Tribunal relativamente à autorização, ou não, para o arguido preso João de Sousa dar entrevista ao órgão de comunicação antes referenciado. Fui autorizado… constando, no despacho do Tribunal de Almada, algo como: “autorizado, pressupondo-se que não ultrapassará os limites da liberdade de expressão!!!”

Como dizia Oscar Wilde, há doenças tão bizarras que é preciso sofrer na pele para compreender a sua natureza. Eu não me sinto, com este despacho, nada, mas nada mesmo, condicionado. Porque haveria de me sentir assim?

Chegam ao ponto de não se pronunciarem sobre aquilo que é da sua competência – prejudica ou não prejudica a investigação – condicionam o indivíduo impondo limites ao seu pensamento. Leiam a crónica do Ricardo Araújo Pereira – “Assassinos sanguinários que se melindram facilmente” (in, “Visão”, nº 1185, 19/11 a 25/11/2015) e interiorizem os perigos das limitações da liberdade de expressão!

Dia 12 de Janeiro de 2016. Tribunal do Seixal.

O mesmo tribunal que permitia ao Inspector João de Sousa, coordenador-formador do curso de enfermagem forense, leccionar, in situ, a disciplina por si criada: “Gestão Psicológica de Testemunho em Tribunal”.

As mesmas instalações onde inúmeras vezes passava os dias a inquirir vitimas e testemunhas, das investigações de homicídio e abusos sexuais, na sala de arquivo (também utilizada para as rápidas refeições dos funcionários judiciais) facilitando desta forma as deslocações dessas mesmas vitimas e/ou testemunhas. Será nesse mesmo espaço que vou chegar escoltado, algemado, vai ser nesse local, numa das salas onde ensinava outros a depor, atendendo a variáveis como a postura, a prosódia ou até mesmo a roupa, a cor das roupas que deveriam vestir!

No dia 12 de Janeiro de 2016, tenho que comparecer à 9h15!

Terei que acordar às 6h00, desfazer a barba e rapar o cabelo com água gelada do lavatório da minha cela, olhando a película metálica que serve de espelho.

Às 7h00 vão abrir a cela para eu realizar o meu banho. Levarei um saco com fruta, um pacote de leite, e pão com queijo. Transportar-me-ão numa carrinha claustrofóbica, sem visibilidade para o exterior, algemado.

Já no Tribunal aguardarei numa cela, fechado, que me chamem. Das 9h00 até à última hora de julgamento desse e de outros dias (possivelmente 18h00/19h00), só vou urinar ou defecar acompanhado, almoçarei na cela a refeição que será apresentada em caixas de plástico, e saberá a plástico!

Depois, novamente o regresso na carrinha claustrofóbica, a cela, e repetir tudo no dia seguinte. Estão agendadas sessões diárias, quatro sessões por semana e outras “modalidades temporais”, até Março de 2016!

Os meus alunos que possam estar agora a “ler-me”, vejam bem o teste extremo à capacidade de “sprezzatura”, ao domínio da palavra e do gesto ou à resiliência que já irá faltando ao fim de 22 meses (tempo decorrido quando começar o julgamento).

E diz o Sócrates que sofreu “uma violência injustificada”, que o seu “bom nome, dignidade e o governo anterior foram lesados”?!

E afirma o Tribunal da Relação que “é aceitável Ricardo Salgado estar num estabelecimento prisional como medida de coacção”!?

E grita ao mundo José Sócrates que “foi uma selvajaria aquilo a que o sujeitaram”, e tem o “direito a defender-se”?!

“Para o tolo a sabedoria é coisa inacessível, e no Tribunal não abrirá a boca” (Pr. 24,7)

Encontra-se na Bíblia este provérbio. Não me considero tolo e adoro falar, conversar, dizer, ainda que ultimamente tenha sentido na pele o quanto custa exercer esse direito.

Estou animado, diria mesmo, feliz. Dia 12 de Janeiro de 2016, inicia-se a batalha.

Quantos de nós já saborearam tanto? O fel e o mel!

Oscar Wilde afirmava que jamais se podia pagar um preço demasiado elevado por uma sensação, eu asseguro que nunca é demasiado o preço a pagar pelo conhecimento: De nós mesmos e dos outros!

Conhecer os nossos limites, as limitações dos outros, a falibilidade do sistema, o sentimento nobre e o pior da humanidade. Nunca o desejei, mas é um privilégio ter estado dos dois lados das grades! Uma enriquecedora aventura.

Uma última palavra para a Família. Sofia de Mello Breyner, nas cartas que escreveu a Jorge de Sena, colocou no papel: “O verdadeiro aventureiro moderno é o pai de uma família numerosa.”

Que grande aventura temos vivido, não é assim Família? Vamos agora entrar num novo capítulo, e como se diz no teatro, mesmo nas tragédias: no final, tudo acabará bem!

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