“Os Malefícios da Indiferença na Saúde Pública”

Ainda que modesto, desejo deixar aqui o meu contributo para a manifestação de profundo repúdio que deve animar todos nós, em relação à bárbara e cobarde acção terrorista que feriu Paris.

Não podemos, nem devemos, ser indiferentes!

A temática que pretendo abordar neste texto é a “Indiferença”. Antes da barbárie na cidade Luz, já se formava na minha mente debruçar-me sobre o tema, atendendo a tudo o que se passou relativamente ao meu castigo por “delito de opinião”. Observando o sucedido em França, reforcei a convicção da pertinência do assunto.

Na passada semana relatei-vos parte do cumprimento do ignóbil castigo. Como na canção, na voz gigante do pequeno Nelson Ned, tudo passou, porque tudo passa e passará, sempre!

E como tudo passa, o que realmente importa é a forma como realizamos a caminhada, nós e os outros. Assim como é de capital importância retirar consequências, adquirir experiência, colher conhecimento sobre as pessoas, as instituições e o sistema.

De acordo com o regimentado, quando um recluso é sujeito à medida disciplinar que me foi imposta, o visado fica sob vigilância clínica, sendo regularmente observado pelo médico (art.º 109º do Código da Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade). Aqui em “Ébola”, o médico aparece às terças e sextas, mas o serviço é assegurado por enfermeiras (quatro indivíduos que realizam escala).

No primeiro dia de castigo, como se impõe pelo normativo vigente, fui observado: foram registados os valores de tensão arterial e pulsação, única forma de apurar objectivamente, para além da conversa que se mantém com o sujeito, se o mesmo encontra-se ansioso, ou pelo contrário, está a aceitar e a experimentar o castigo com “uma perna às costas”.

No segundo dia, perguntaram como estava, e, por sugestão minha, lá fomos “medir a tensão”, caso contrário ficaríamos por aí!

Como era expectável, porque “quem não se sente não é filho de boa gente” (e os meus progenitores são gente excelente!) a minha tensão arterial estava alterada.

As regras, as normas, os protocolos, existem para se colmatar a variável subjectiva inerente à condição humana. Como a beleza do ser humano é a diferença na igualdade, das quatro profissionais de enfermagem, três são de facto profissionais, uma é o exemplo vivo da arbitrariedade, da falta de vocação e da indiferença!

Um procedimento que existe para assegurar a integridade física do recluso, mas também para salvaguardar os profissionais que têm por obrigação garantir essa mesma integridade, não deveria de ser exigido pelo visado, mas sim praticado como regimentado.

Como é lógico, resultou numa discussão, breve (porque perante a evidência, argumentar é sinónimo de estultícia) o facto de a designada enfermeira colocar entraves ao cumprimento do estipulado.

Igualmente lógico, é resultar da discussão uma alteração dos valores da tensão arterial.

Monitorizados os valores após a troca acesa de palavras, e como alterados se encontravam, a designada enfermeira resolve a situação: administrar um “comprimido para colocar debaixo da língua!”

Primeiro: a falta de profissionalismo!

Segundo: químicos para cima do problema!

Bastava não apresentar elevados índices de indiferença, e a “pílula” prescrita (que recusada foi) não precisava de ser invocada!

Neste caso, é a indiferença consequência do traço de personalidade e da falta de profissionalismo, mas existe outro tipo de indiferença, quiçá mais perniciosa. Uma indiferença consequência da miopia gritante e alarmante da nossa sociedade.

Outra enfermeira (“o dia em relação à noite”) disponível, profissional. Novamente a monitorização dos valores da tensão arterial.

– Sr. João, tem a tensão muito alta. Vamos aguardar um pouco para medir novamente – disse enquanto apontava o registo do tensiômetro. – Não há razão para estar assim, fechado ou fechadinho vai dar ao mesmo! – contemporizou sorrindo.

Referia-se ao facto de eu estar preso e só diferir do habitual porque estava, somente, um “bocadinho mais preso”, de castigo!

– E você está sempre a sorrir, bem-disposto, está a levar isto bem! – acrescentou.

Não citei Voltaire – “Nem sempre podemos agradar, mas podemos falar agradavelmente” – para demonstrar à simpática profissional de enfermagem que podemos discordar, repudiar algo com veemência, mantendo sempre a elegância e a urbanidade, mas (e admito que não se faz) questionei-a: “Que idade tem?”

– 33! – expectante.

– Perdoe-me o reparo, mas já tem idade suficiente para saber que 41 anos depois do 25 de Abril, alguém ser castigado por “delito de opinião”, deveria alterar os parâmetros da tensão arterial a todos nós! – e esperei, também expectante, a reacção às minhas palavras.

– … Ah! Isso … – alheia.

Alheamento, desinteresse, indiferença.

Outra enfermeira, já depois de terminado o impensável castigo (terminou às 8h00 de quarta-feira, 11 de Novembro de 2015) monitorizou a minha tensão arterial:

– Está elevada Sr. João! Agora já não existe razão para estar assim! – convicta – já acabou o castigo!

Expliquei-lhe que, conquanto o castigo tivesse terminado, a minha revolta perante a injustiça e notório atentado à nossa Constituição, mantinha-se.

– Pois, mas já terminou. Está preocupado com algo, alguma coisa o deixa ansioso?

– Estou preso há 594 dias, sem julgamento marcado, não recebo ordenado! Não ficava ansiosa se estivesse nesta condição? – questionei sorrindo.

– Certo, mas já está assim há muito tempo, agora já deveria estar estabilizado! – garantiu-me.

Simon Blackburn, na sua obra, “Vaidade e Ganância no séc. XXI”, diz-nos: “Para isso, o lado mais humano do estoicismo, o que é admirável é manter-se firme perante a adversidade, e não o tipo de indiferença anestesiada e melancólica que nem sequer sente a adversidade.”

Conforma-te, resigna-te, consolida filho, consolida!

A indiferença da sociedade perante o atentado aos direitos do outro é preocupante. Tudo está distante de nós. Diariamente observamos na televisão atentados no Médio Oriente, náufragos no Mediterrâneo, e como que anestesiados, na maior parte das vezes sem qualquer melancolia (tristeza vaga, pressão intensa traduzindo sentimento de dor moral) fazemos “zapping” porque é “mais do mesmo”!

Para despertarmos desta letargia, tem de aparecer uma criança, parecida com a nossa, parecendo dormir como a nossa, mas numa situação onde é notório não estar a dormir porque nunca conseguiria respirar, pois a sua pequena boca e delicado nariz estão enterrados na areia, na mesma areia onde a nossa criança brinca e nós a vigiamos porque receamos deixar de a ver.

Somente em Atocha, Madrid, aqui ao lado, ou em Paris onde passeámos e fomos ao Louvre, próximo de nós, ainda que suficientemente distante para nos sentirmos seguros, sentimos algo, sentimento que podemos afastar com o nosso comando da televisão.

O nosso umbigo obriga-nos a seleccionar unicamente aquilo que nos pode afectar ou beneficiar. Weber alertou-nos: “O nosso interesse determinará a gama de valores culturais que determina a história”.

E posso ofertar ao meu Caro(a) Leitor(a) um exemplo vivo e vivido do que anteriormente explanei.

O mesmo recluso que me alertava para o facto de que tudo o que escrevo poder prejudicar-me, o mesmo que notoriamente se sentia incomodado, possivelmente por não reunir a força necessária para “falar” também, abordou-me esta semana. A Juíza do Tribunal de Execução de Penas de Évora, não decidiu por forma a satisfazer a sua pretensão.

– Esta Juíza, João… revolta-me tudo isto… não é justo, não existe justiça! – Indignado.

– Eu tenho afirmado isso, lembras-te? Até foste crítico em relação ao meu posicionamento – confrontei-o.

– Está bem, mas agora toca-me a mim! – ironizou.

Claro que acabámos a rir. Desta forma ele reconheceu a sua indiferença e egotismo extremos.

“O egoísmo motiva, e pode aguçar a nossa atenção aos pormenores essenciais.” (novamente Simon Blackburn, “Vaidade e Ganância no séc. XXI”).

Só atendemos ao que nos toca, o Outro não nos diz respeito, esse quintal ainda não é o nosso, esquecendo que por vezes tudo o que separa os quintais contíguos são pequenos muretes facilmente transponíveis! E as muralhas de indiferença que erguemos, oferecem falsa protecção e real isolamento, assim como nefasta miopia.

Conforme esquecemos o “Charlie Hebdo” (abjecto atentado terrorista ocorrido há cerca de 11 meses) vamos esquecer esta vil acção em Paris. Da mesma maneira vai ser esquecido, ou nem sequer foi referenciado, o facto de um cidadão português ter sido castigado por “delito de opinião”, em pleno séc. XXI, em Portugal.

Pouco ou nada incomodou os portugueses o facto de a imprensa nacional ter sido censurada por um concidadão nosso, prejudicando todos os outros, mantendo os mesmos na obscuridade, no desconhecimento, na mais profunda ignorância.

Que interesse pode ter isso? Prejudica-me como?

O idiotismo é uma insuficiência de desenvolvimento mental relacionado com lesões ou deformações cerebrais, que acarretam a incapacidade de aquisição da linguagem e a inaptidão para se governar.

Trata-se do grau mais grave do retardamento.

Estamos, consequência da nossa indiferença, a criar uma sociedade de idiotas, de indivíduos com visíveis sinais de retardamento afectivo, de ausência de sentimentos, de partilha, de sentimento de pertença, sem prejuízo do nosso egotismo (como se verifica com os psicopatas!).

Ainda que as enfermeiras não percebam, continuo a apresentar aumento anormal da tensão arterial ou nervosa.

Ainda que sorria, seja cortês e educado, não estou feliz.

Espinosa afirmou que “vivemos num estado de variação perpétua, e, segundo formos mudados para o melhor ou o pior, diz-se que somos felizes ou infelizes”.

Aqui, em “Ébola”, a mudança é sempre para pior. Aqui, em Portugal, estamos a regredir.

Aqui, no deserto em que caminho, há 594 dias (no próximo dia 18 de Novembro de 2015, novo marco temporal: 600 dias, mais de 19 meses, sem julgamento marcado, preso preventivamente!) a indiferença dos outros é como ferro em brasa, a queimar, a marcar-nos para sempre!

Mas, optimista como sou, ainda que por vezes a força nas pernas me vá faltando, não esqueço as palavras de Elias Canetti: “Quanto mais tempo assim permanecer, tanto mais viva se torna a esperança num súbito sucesso. Mas para que, por fim, algo se consiga, a sua paciência tem de crescer indefinidamente. Se esta lhe faltar um momento antes do tempo, foi tudo em vão e ela tem, com a sobrecarga da desilusão, de começar outra vez do princípio.” (in, “Massa e Poder”).

Aprendi a ser paciente. Tenho esperança que, finalmente, acabem por agendar o julgamento. Sei que não existe prisão perpétua em Portugal. Estou profundamente convicto que tudo isto indigna alguns e que muitos mais vão partilhar essa indignação. Já me reinventei aqui inúmeras vezes, estou desiludido mas não me sobrecarrega muito mais do que a força que a indignação me dá.

Quando a força me falta, a Família apoia e os amigos também. Vou buscar força nos comentários que semanalmente aqui me deixam (a todos!)

Não vou deixar de opinar, apesar dos castigos provocarem-me hipertensão e a indiferença que sinto em relação à injusta decisão de castigar por “delito de opinião” ser por vezes esmagadora, e prejudicar mais que o sal em demasia na comida!

Não sejam indiferentes. Renunciem à idiotice. Participem na construção de uma sociedade mais justa. Indignem-se!

Permitam-me, porque “com a minha mão queimada eu tenho agora o direito de escrever frases sobre a natureza do fogo” (Flaubert), não sejam indiferentes para com a injustiça, garanto-vos que quando a sentirem na pele, no vosso quintal, fará horrores à vossa tensão arterial!

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