“O Preso nº 2 e o Desafio de Sócrates”

Esclarecimento prévio:

Estimado(a) Leitor(a), como pode constactar, este domingo (5 de Julho de 2015) iniciei uma crónica no “Correio da Manhã”.

Quero fazer uma correcção: a crónica não será focada no recluso José Sócrates; abordarei os temas que considerar relevantes, sem quaisquer condicionamentos; caso contrário deixarei de colaborar com o CM.

Continuarei a colocar textos no “blogue”, “dos dois lados das grades”; devo isso a todos que por aqui passaram, a todos que difundiram este espaço, o que me valeu o convite do jornal diário.

Consequência da limitação de espaço, o texto que o CM publicou não foi apresentado na sua totalidade, vou colocar o texto aqui, na íntegra, será uma excepção, excepcionalidade devido à importância da temática em apreço.

Grato a todos pela atenção dispensada.

Sabem quem é o preso nº 2 do Estabelecimento Prisional de Évora? Claro que não. O recluso nº 2 do E.P.E. faleceu no dia 30 de Junho de 2015, enquanto cumpria uma pena de 3 anos. Pedi autorização à Sra. Ana Alves, esposa, para identificá-lo, porque até as normas prisionais obrigam a fazê-lo, humaniza mais a reclusão: na terça-feira faleceu o João Carlos Fonseca Furtado.

As batidas na porta da cela, com todos já fechados, não auguravam nada de bom. Os gritos do colega de reclusão, “29! 29!” – o número da cela – obrigou-nos a baixar o volume da televisão. A urgência nas vozes dos guardas, levou-nos às janelas gradeadas que se debruçam sobre o pátio, iniciando-se  a tentativa de se perceber o que se passava: “talvez um dos mais velhos, por causa do calor!”

Era o João Furtado, 46 anos, faleceu. Como é possível? Foi.

O responsável pela direcção geral dos serviços prisionais, personagem incapaz e “mole” enquanto secretário de estado do governo de José Sócrates, segundo este, afirmando-o quando me relatou que na crise de 2008 dos camionistas, por causa do preço do petróleo, teve que assumir directamente a gestão do problema, afastando-o, não diligencia no sentido de dotar os guardas prisionais de conhecimentos e técnica, que permitam prestar auxílio médico a um recluso, vitimizando igualmente os mesmos, que, impotentes, têm agora que lidar com este trágico evento.

O Sr. Director do E.P.E., está mais preocupado com aquilo que um recluso, exercendo o seu direito à liberdade de opinião, escreve sobre outro, do que a dotar o espaço físico que gere, de condições para salvaguarda de situações como a que experimentámos na segunda-feira.

Em vez de colocar câmaras de vídeo-vigilância (ainda que necessárias) deveria garantir a capaz funcionalidade do intercomunicador que existe no interior das celas (tipo botão de pânico) algo que permitiria maior celeridade no auxílio a um recluso em dificuldades. Na segunda-feira, antes de identificarem quem batia na porta, chegaram a vir à minha cela que fica no piso inferior, agonizando o João Furtado no seu espaço confinado no piso de cima.

Se o Sr. Director permitisse mais uma ventoinha num espaço onde dois homens pernoitam, sendo que um deles é um diabético referenciado, espaço esse onde se registam temperaturas sufocantes, talvez se evitasse o ocorrido.         

Se o Sr. Director atendesse às inúmeras reclamações, consequência das precárias condições deste E.P.E., que, ironicamente, foi designado por “prisão especial” pelo governo do recluso José Sócrates, como atendeu à ridícula questão das botas, talvez, com uma gestão válida, capaz, humanizante, nada disto tinha acontecido.

Se o Sr. Director, ao contrário do que me assegurou, tivesse lido o texto que publiquei em Março (3 meses antes) poderia ter reflectido sobre o seguinte: “[…] um recluso sente-se mal, suores frios, arritmia, desfalecimento. Nenhum guarda se aproxima pois não tem formação para prestar primeiros-socorros, e o problema de alguém “falecer nas suas mãos”, é enorme. Solução: não se pode ter hipoglicémias ou afins, porque senão morres mesmo!” 3 meses antes e o Sr. Director só referenciou as “pulgas do José!”

E que dizer à Juíza do Tribunal de Execução de Penas de Évora, ao recluso José e aos “Miguéis Sousa Tavares” deste país, quando o João Furtado, que não se enquadra no perfil daqueles que sem honra e dignidade aceitam a “anilha” (segundo Sousa Tavares) porque não foi condenado por pedofilia, não batia na mulher e não era criminoso contumaz, podia estar em casa a cumprir os 16 meses que restavam da pena, local onde, com toda a certeza, seria auxiliado evitando-se a sua morte?

O preso nº 2 não era um preso político, nem sequer um político preso. Na terça-feira, 2 reclusos interpelaram-me e perguntaram se eu, que já tenho algumas pessoas a lerem o que escrevo, iria escrever algo sobre o João Furtado. Também disseram que era bom que o Sócrates, que está sempre nas notícias, o fizesse. Podia alertar para o que aqui se passa.

Eu não estou preso preventivamente porque querem prejudicar o meu partido; eu não sou um preso político, sou apenas um Inspector da P.J. acusado de corrupção. Mas o José é credível, o José vai com certeza demonstrar àqueles que afirmaram que não escreveu sobre a tortura, sobre a confiança no mundo, que é ele o autor, porque vai aceitar o meu desafio; vai mesmo assumir-se como o “Mandela português”, não vai abandonar as 4 linhas melindrado porque foi desafiado. O recluso José Sócrates vai, ao contrário do que nunca fez durante 6 meses, abandonar as entrevistas controladas e encomendadas por si, deixar a “apologia de Sócrates”, o “auto-panegírico do José”, e dar a sua conhecedora opinião (porque foi essa a temática da tese do seu mestrado) sobre tratamentos desumanos, condições de reclusão, no fundo ofertar um pouco da sua imagem e visibilidade pública à causa comum.

Creio que se o recluso José, colega de reclusão do falecido João Furtado, aceitar o desafio, vai assistir de seguida o país a verdadeiras manifestações à porta do E.P.E., nascidas espontaneamente, e não programadas como cesarianas. Força José, todos nós aqui em “Ébola”, e no resto do país aguardamos com expectativa!

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