Júnior

Recordo-me de frequentar a cadeira de “Introdução ao Cristianismo”, assim como a cadeira de “Hermenêutica do Texto Filosófico e Bíblico”, no primeiro ano da licenciatura em ensino de Filosofia, na Universidade Católica de Lisboa, e de não conseguir compreender como era possível um Pai sujeitar o seu Filho único a tanta dor, ou obrigar outros pais a sacrificarem os seus Filhos com o objectivo de demonstrarem a confiança final em Deus.

Tinha na altura dezassete anos, o meu irmão, vinte e seis, e tinha a absoluta certeza que o nosso Pai nunca sacrificaria nenhum dos dois!

[] Depois destes acontecimentos, Deus pôs Abraão à prova, e disse-lhe: «Abraão, Abraão!» Ele respondeu: «Estou aqui». Deus disse: «Toma o teu Filho, o teu único Filho Isaac, a quem amas, vai à terra de Moria e oferece-o lá em holocausto, sobre uma montanha que Eu te vou indicar» [] Abraão pegou na lenha do holocausto e colocou-a às costas do Filho Isaac, levando ele próprio nas mãos o fogo e a faca [] Isaac disse ao Pai: «Pai!». Abraão respondeu: «Sim, meu Filho!»

Isaac continuou: «Aqui estão o fogo e a lenha. Mas onde está o cordeiro para o holocausto?» Abraão respondeu: «Deus providenciará o cordeiro para o holocausto, meu Filho!» [] Quando chegaram ao lugar que Deus lhe indicara, Abraão construiu o altar, colocou a lenha, depois amarrou o Filho e colocou-o sobre o altar, em cima da lenha. Abraão estendeu a mão e pegou na faca para imolar o Filho [] (Mateus, 22, 1-9)

O desfecho é conhecido, Abraão superou a “grande prova”, Deus não pretendia o sacrifício, a morte de Isaac, apenas desejava conhecer a profundidade da fé de Abraão!

Na altura questionei-me: “E se Deus estivesse ocupado com o “livre arbítrio humano” noutra parte do planeta?”; “O que aconteceria se o anjo que impediu a morte de Isaac se tivesse enganado no destinatário da palavra do Senhor?” Sim, porque omnisciente só Deus, não os seus mensageiros!

“E se Abraão, condicionado pela comoção do acto, não escutasse o anjo do Senhor?”

Nunca entendi este Pai – o Abraão – nem o Pai Supremo do Antigo Testamento!

Mais tarde – no segundo semestre, creio eu – mais incrédulo fiquei: como é que um Pai exige isso a um Filho?

Em Getsêmani, o Filho deste Pai, por três vezes dirigiu-se ao Progenitor e suplicou-lhe:

«Meu Pai, se é possível, afaste-se de Mim este cálice. Contudo, não seja feito como Eu quero, mas como Tu queres.» (Mateus, 26, 36-46)

E o Pai quis, foi sua condição o Filho beber o cálice amargo! Como foi possível?

Eli, Eli, lamá sabactâni?: Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?.

Questionou o Filho, o seu Pai! E morreu.

Com todo o respeito por quem acredita, com a devida vénia aos meus professores: nunca compreendi este amor paterno!

“Nature” vs “Nurture”.

Francis Galton influenciado pelo livro do seu primo Charles Darwin – “A origem das espécies” – popularizou estes dois termos quando se debruçou sobre a influência da hereditariedade genética (“nature”) e a influência do meio (“nurture”) no desenvolvimento do indivíduo.

Os genes determinam os traços físicos de cada um de nós – cor de olhos, cor do cabelo, tamanho das orelhas, altura – e também as características da personalidade (“nature”).

John Watson, um dos mais acérrimos defensores da influência do “meio” no desenvolvimento da personalidade do indivíduo, reconhece que os genes influenciam os traços da personalidade de alguma forma, mas são os factores ambientais – influência parental, inserção social, tipo de educação – que vão ser determinantes na formação da personalidade.

Foram realizadas experiências com gémeos, que separados à nascença, com inserções sociais distintas, apresentaram em adultos diferenças substanciais quanto à forma de se comportarem.

O meu exemplo paterno (“nurture”).

Na década de 60 do século passado, Lisboa registou um abalo sísmico de magnitude considerável. Os meus pais, com o seu Primogénito – o meu irmão mais velho – estavam a dormir, quando a casa tremeu. O meu Pai colocou-se sobre a minha mãe e o meu irmão, na altura bebé, objectivando proteger os dois com o seu próprio corpo.

Esta é uma daquelas histórias de família que eu ouvi deliciado, aos pés do meu Pai, junto do meu irmão, avós, tios, etc. O meu Pai herói. O exemplo a emular!

Sonhava com o dia em que um sismo abalasse a minha casa, e eu, à imagem do meu Pai, protegesse os meus Filhos, obedecendo assim aos genes (“nature”) demonstrando desta forma ter aprendido pelo exemplo (“nurture”)!

A fotografia que o meu Leitor(a) pode ver a acompanhar este texto, aquela de um homem de bigode “à anos 70”, com um bebé ao colo com cabeça de “ Américo Thomaz”, como dizia a minha avó paterna, sou eu com o meu Pai em Angola, a terra onde nasci.

Faz parte do meu imaginário. Não me recordo de nada, tinha três meses quando a fotografia foi tirada.

Sem bigode, porque não tenho cara para isso, tirei fotografias, na mesma posição, com a Leonor e com a Helena, numa das fotografias até coloquei umas algas a fazer de bigode, para gozar com o meu Pai. Cumpria-se a Tradição (“nurture”).

Mas para se cumprir a Tradição de facto, tinha que ser um “Filho-homem”!

Aquelas mãos, as do meu Pai, que sempre me pareceram enormes, deram-me umas boas palmadas porque sempre fui “reguila”. Quando eu ouvia ele dizer, “Pedro! Não estou a gostar do que oiço!”, de imediato se fazia silêncio. Aquelas mãos que sempre me lembraram, e lembram, o “fado falado”, do João Villaret: Mãos carinhosas, generosas. Que não conhecem o rancor.

Mãos que o fado compreendem e entendem a sua dor. Mãos que não mentem. Quando sentem. Outras mãos para acarinhar. Mãos que brigam, que castigam. Mas que sabem perdoar.

Mãos que me castigaram, mas que depois faziam “cafuné” ou carícias nas costas enquanto eu ronronava.

Em 2014, depois de horas à espera da médica, num pequeno ecrã em tons de cinza e preto, a ouvir um coração a bater forte e rápido, foi com desmesurado orgulho e satisfação que ouvi dizer: Parabéns, Pai e Mãe, desta vez acertaram: é um menino!

A caminho de Setúbal, dirigindo-me para o Departamento de Investigação Criminal da P.J., só ouvia na minha cabeça a Simone de Oliveira a cantar a “Desfolhada” do Ary: Corpo de linho, lábios de mosto. Meu corpo lindo, meu fogo posto. Eira de milho, luar de Agosto. Quem faz um Filho, fá-lo por gosto. É milho-rei, milho vermelho. Cravo de carne, bago de amor. Filho de um rei que sendo velho, volta a nascer, quando há calor…”

Já no meu local de trabalho fui directo ao bar, onde comuniquei à simpática Isabel, a funcionária do espaço que guardava as moedas de 2€ para o tesouro da Leonor e da Helena:

– Isabel, é um menino. Temos de juntar mais moedas!

– Parabéns João, era o que querias. Desta é que foi! – exibindo um sorriso generoso.

No mesmo local estava a minha colega que me investigou, que ouvia as minhas conversas telefónicas.

  • Quantos Filhos tens?
  • Este é o terceiro. – respondi inchado de orgulho.
  • Deves estar rico! – afirmou.

Na ocasião socorri-me de outra história familiar (“nurture”). Relatei-lhe que a minha avó paterna – a primeira Maria Leonor de Sousa – era uma de sete Filhos da minha bisavó, que sozinha, separada do meu bisavô, chefe da polícia de segurança pública, com espada à cintura e tudo (conforme o retrato que tenho na “parede da família” na minha casa) criou a sua “ninhada” de sete!

Conta-se que a minha bisavó, passando muitas necessidades, colocou a minha avó Leonor ao cuidado de uns primos ricos que viviam na Rua Castelo Branco Saraiva, Lisboa. Menos uma boca para alimentar, mais restava aos outros seis!

Certo dia, deslocou-se à casa dos primos, realizavam estes a refeição do almoço, e não vendo a filha Leonor à mesa familiar, perguntou pela menina.

Responderam-lhe que estava a comer com a criadagem!

Acto contínuo, de imediato, a minha bisavó pegou na filha e levou-a para sua casa.

Comeram menos os sete, mas sempre com a cabeça erguida e muito amor.

Relatei esta história familiar à minha colega que me investigava, com o propósito de lhe ilustrar que a família e o amor são mais importantes que a “Nike”, o “Hugo Boss” ou o carro de luxo familiar.

Agora entendo a frieza das palavras da minha colega: “mais um Filho? Só podes ser corrupto!”

A esta mesma colega, aquando da terceira vez que prestei declarações perante o Ministério Público, disse que a investigação só acreditaria no meu testemunho quando vissem a minha Casa falida, arruinada, quando, por isso se verificar, concluíssem que não tinha ouro, diamantes, dinheiro ou qualquer envolvimento em fraudes ou branqueamento.

Pois bem, estou quase lá. Há pouco tempo precisámos de comprar uma cadeira para o automóvel, para transportar o meu “Filho-homem”. Não desenterrei nenhum “lingote de ouro”, não levantei dinheiro de uma qualquer “off-shore”: foi a mãe de uma vítima de um crime de homicídio que investiguei, que nos ofertou a cadeira da sua filha que agora já não utiliza. Obrigado, Lassalete! (mais uma vez).

Se me sinto mal com isto? Se tenho vergonha? Claro que não, ainda que sofra porque trabalhei, estudei, geri a minha Casa, por forma a conseguir ter e criar o meu “Filho-homem”, e agora estou na dúvida: pagar ao advogado ou solicitar um advogado oficioso, porque necessito de pagar as vacinas do meu Filho!

Ao que chega o “Inspector corrupto da fraude do ouro!” Tanto dinheiro escondido! “Isto é “manha” do tipo!” “Ele quer é a reposição do ordenado!”

Mas como já o afirmei: “relativiza, João!”

O que me faz mesmo sofrer é que perdi a oportunidade de tirar a tão desejada fotografia, 40 anos depois, com o meu “Filho-homem” ao colo, nas águas quentes de uma qualquer praia portuguesa. Ele já não tem 3 meses de idade!

O que me desespera é a possibilidade de se verificar um abalo sísmico e eu não poder estar junto da minha “ninhada” e da mãe deles, e oferecer o meu corpo para os proteger.

O que me mata por dentro é o meu “Filho-homem” não saber que sou o Pai dele, não me reconhecer, quando de semana a semana me visita na prisão.

O que me desfaz é não ter tido a oportunidade, até esta data, de o adormecer fazendo-lhe “cafuné”, ou acariciando-lhe as costas como o meu Pai fazia.

O que me seca totalmente é não ter sequer a oportunidade de contestar Deus, desafiando-O, dizendo-LHE: “Escolhe outro, que daqui não levas nada. Manda-me para as profundas do Inferno que no meu Filho não toco!”

No passado domingo, 10 de Maio de 2015, a minha mulher e a ninhada vieram visitar-me.

Como sempre, o Júnior fica um pouco intrigado com o sujeito careca que lhe diz: “vem cá ao Pai, “boquinha linda”!”.

Pai! Devido à forma como se pronúncia, devido ao fonema, ao som, é das primeiras palavras que as crianças tentam articular. É fácil para o aparelho fonador das mesmas. O meu Júnior já sabe dizer “Avô”. Diz algo como: “Vô”.

Quando a mãe diz: “Onde está o avô, João?” Ele procura o avô na sala. Quando ela diz: “E o Pai?!”. Não há reacção!

Não vi o primeiro gatinhar do meu “Filho-homem”. Sei que gatinha porque colocámos o menino em cima da mesa plástica da sala de visitas – 50cm por 50cm – e ele mexe as pernas, percorrendo 49cm da mãe até mim! Parece quase o Pai na sua cela quadrada: não pode andar muito mais.

Colocar o Jr. no chão da sala de visitas e vê-lo gatinhar?

A Helena já pensou nisso, mas o chão está muito sujo.

Nunca vi o meu Filho nu. Não sei se tem sinais nas costas, no peito. Apenas da cintura para baixo, quando muda a fralda. Sim, é um verdadeiro “macho lusitano”, eu já vi!

Sei que os seus lábios são bonitos, lábios de mosto, o corpo não o vi, imagino lindo, mas é o meu fogo posto. É o meu cravo de carne, bago de amor, e dá-me muito calor.

O meu Filho. Conhecem o “Perfume” do Patrick Süskind?

A que cheira o meu Filho? Nos primeiros meses, eu dava-lhe o leite, com ele ao meu colo, cantando-lhe baixinho, com a mãe e as irmãs a assistirem. Como a sua cabeça ficava no meu antebraço, o cheiro da sua pele impregnava a manga da camisola. Quando me deitava na minha cela, “vestia” a minha almofada com a camisola, e colocava o meu nariz sobre o pedaço de tecido onde tinha estado a sua cabecita, e assim adormecia, sonhando que ele dormia junto a mim, como tantas vezes aconteceu com as irmãs!

Não vou conseguir tirar a fotografia que podem ver junto ao texto.

Somente sei como ele se comporta, brinca, chora ou ri, através dos relatos semanais da minha mulher e das minhas filhas, ou através de fotografias como esta em que ele brinca em casa.

É um espectáculo o meu “Telémaco”, a quem eu deixarei o meu ceptro e a ilha, como no poema de Alfred Lord Tennyson, “Ulysses”. Ali está ele, o meu “Filho-homem”, o meu Júnior. É belo!

Muitos afirmam invejar a imortalidade dos deuses. Eu acho que os deuses nos invejam, porque nós, mortais, conhecedores dessa condição, valorizamos os efémeros momentos irrepetíveis da nossa existência: nunca vamos ser tão jovens como agora, nunca vamos amar tanto como naquele momento, nunca vamos saborear um prato, a vida, da mesma forma. Os deuses, esses, monotonamente vão repetir ad eternum tudo isto!

Mas eu, confesso, invejo-os! Sei que é um sentimento desprezível. Mas compreendam: durante um ano perdi tanto, tudo, do ano de vida do meu Filho, e não o posso recuperar!

Quinta-feira, 14 de Maio de 2015, ele faz um ano de idade! (escrevo este texto a 11/05/15).

Não o vou ver porque está a decorrer uma greve do corpo dos guardas prisionais, não o vou ver porque não quero que ele esteja dentro de uma prisão, ainda que junto do Pai que ainda não conhece, no dia do seu aniversário.

Disse à minha mulher para ir passear com a “ninhada”, festejar o aniversário do nosso Filho. Eu aqui ficarei feliz. Eu aguento e ele ainda não se apercebe. Ou será que os genes, o “Gene Egoísta”, como a ele se referiu o Richard Dawkins, se apercebe da ausência do Pai?

Em 1976, Richard Dawkins escreve o “Gene Egoísta”, apresentando uma teoria que pretende explicar a evolução das espécies, focando-se no gene, e não no organismo, na espécie ou no meio.

Possivelmente está correcta a teoria. No passado domingo, quando o guarda alertou para o final da visita – “está na hora, Sr. João!” – o Jr., que estava ao colo da mãe, dirigindo-se para a porta, começou a chorar e lançou os braços para mim, pedindo o meu colo.

Nessa altura compreendi porque a gelatina abana: as minhas pernas pareciam uma gelatina “tutti-frutti”!

O meu “Filho-homem” queria o colo do tipo careca que de domingo a domingo fala com ele!

Nunca pensei ficar tão feliz ao ver uma criança chorar! Seria um apelo primevo dos genes? A componente “nature” a falar mais alto?

O que foi não sei, só sei que experimentei uma emoção tão forte, indiscritível, que nem jantei e fiquei com uma dor de cabeça do tamanho da cabeça do Américo Thomaz!

Perdi a oportunidade de tirar aquela fotografia 40 anos depois. Tinha planeado até deixar crescer bigode!

“Ó tempo volta p´ra trás! Dá-me tudo o que eu perdi …” Não pode ser. É impossível.

Vai tudo correr bem. Como no teatro: no fim tudo acaba bem!

Se por acaso o meu Leitor(a) observar uma senhora a tirar “resmas” de fotografias a três crianças, não julgue tratar-se de uma mãe oriental de visita a Lisboa, nada disso!

É somente a minha mulher a tentar cristalizar o “tempo” em que a minha “ninhada” era pequena e eu estava retido pela deusa Justiça, durante a “Guerra de Troia”, perdendo assim mais um “momento”.

Parabéns João de Sousa, Jr., tem um dia feliz. Daqui a uns anos, o Pai, mantendo a Tradição, há-de contar-te o annus horribilis da nossa família, na companhia das manas, dos avós, dos tios, etc. E tu vais escutar com muita atenção, sossegado, junto do teu Pai!

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