LIBERDADE, JUSTIÇA, SAUDADE!

Quando este texto for publicado, sábado, 2 de Maio, nessa altura já o quadragésimo primeiro aniversário da revolução dos cravos, o dia da Liberdade, foi celebrado.

O ano passado – 2014 – vivi o meu primeiro 25 de Abril preso! Estava há 27 dias recluído. No sábado estarei preso há 400 dias. Um ano e trinta e cinco dias! Preventivamente!

No ano passado, fechado na cela, assisti ao filme da Maria de Medeiros, “Capitães de Abril”, e chorei. Não verti lágrimas porque sentia a injustiça da minha prisão, não cedi ao pranto porque identificava-me com os milhares de presos políticos que muito sofreram durante o regime da “Velha Senhora”, nada disso. Eu estava preso por fraude fiscal, corrupção e afins, e nunca confabulei considerando-me um “preso político”, conquanto tenha dito ao José, só para o ver a ranger os dentes (diverte-me!) diversas vezes: “Entre nós os dois, José, o “preso político” sou eu!”

Eu chorei copiosamente porque no início do filme vê-se um eléctrico a percorrer as ruas de Lisboa.

Um ano antes tinha levado a Leonor (com dez anos) como prometido, a conhecer a casa onde o avô paterno tinha nascido, a escola primária do pai – onde ainda existe a indicação do “lado feminino” e do “lado masculino” – o pátio onde o pai foi criado e a pastelaria onde eu ia com a bisavó dela (a minha avó paterna, Maria Leonor, o nome da minha filha) comer um “russo”!

Quando vi o eléctrico, recordei o dia em que ela viajou comigo desde a Graça, deslumbrada porque nunca o tinha feito. Depois, como eu fazia com o meu pai, e com o pai dele, caminhámos de mão dadas por Lisboa: fomos à Estrela, levei-a a conhecer a Assembleia da República, Cais do Sodré, Santa Apolónia, Av. de Roma, a Morais Soares, a “Lido”, a baixa lisboeta, Museu do Carmo, as outras escolas do pai (“Luísa de Gusmão”, “Nuno Gonçalves”) a biblioteca da Penha de França …

Depois fomos almoçar ao elevador de Santa Justa e iniciámos a caça ao tesouro: encontrar nos alfarrabistas a edição da “História Interminável”, do Michael Ende, editada pelo Círculo de Leitores, com capa cinzenta e o “Auryn” ilustrado na mesma.

Não encontrámos a obra. Durante o ano passado, comigo já recluído, conseguiram encontrar o livro, tendo a Leonor enviado cartas resumindo os capítulos que ia lendo.

Saudade.

Menciono este episódio porque julgo ilustrar o sentimento que amiúde me envolve: saudade!

O primeiro livro que solicitei à minha mulher, depois de ter entrado “aqui”, foi a Autobiografia de Nelson Mandela, “Um longo caminho para a Liberdade”.

Estou agora com uma das cinco fichas de leitura que manuscrevi. Retirei este excerto da página 123: “[…] “Onde vive o papá?” Costumava chegar tarde a casa, muito depois de estar a dormir, antes de ele acordar. Não me agradava ser privado da companhia dos meus filhos. Senti-lhes imenso a falta durante esses dias, muito antes de saber que viria a passar décadas longe deles […].”

Este apontamento está datado de 1 de Maio de 2014. Escrevi também uma nota minha: “Não serão décadas, mas como o entendo!”

Presentemente o “entendimento” mais aguçado se encontra, porque já lá vai mais de um ano!

A ausência de Liberdade para mim é uma mistura de (in)Justiça com um forte, inultrapassável, travo amargo de Saudade!

Saudade! Essa palavra que só existe na nossa bela língua portuguesa, e que felizmente não sofreu alteração com o novo acordo ortográfico!

Muitas vezes o disse, quando olhava para as minhas filhas a cantarem, a dançarem, ou a fazerem peças de teatro em casa – “Shakespeare caseiro”, como ficou conhecido. A Helena é uma excelente Julieta, chorosa do alto do “mezzanine” do “castelo”. Muitas vezes o dizia: “Não estou triste filhas, gostei muito. O pai tem é saudades deste momento!”

Elas não compreendiam, nem a mãe, mas o sentimento é tipicamente luso, fadista: viver a alegria, usufruir o momento, mas saber que é efémero, fugaz, e nesse preciso momento sentir saudade!

“Já fui p’ra além da vida, do que já fui tenho sede. Sou sombra triste encostada a uma parede …”

Era assim que a D. Amália cantava. A mesma D. Amália que afirmou que “quem esquecer que veio cá para morrer, é mais feliz que eu!”

Aqui não sinto a ausência da Liberdade. Não é isso que me afecta. Enquanto o Alzheimer não me tocar, encerro na minha mente vastos territórios sem fronteiras, sem grades, sem imposições. O único problema é que todas essas recordações estão cristalizadas, não evoluem, são sempre os mesmos cenários.

A semana passada o Jr. não quis mostrar ao pai, que ainda não reconhece, onde põe a galinha o ovo – na palma da mão!

A mãe e as irmãs tentaram que ele fizesse, mas ele “não estava para aí virado”. E isto sim, isto eu sinto como injustiça, como falta de Liberdade, até porque não sinto agora saudade, sinto raiva, dor.

Grandes homens foram privados da sua Liberdade, como Mandela, e falam disso mesmo: da ausência dos seus entes queridos. Devo estar perto da verdade, pois eu, sem ser grande – 1,73 m. – sinto o mesmo!

Dar um passeio quando se quer, falar ou optar por ficar calado, entrar numa loja e comprar algo, deitar-me quando eu desejar, fechar-me quando quiser, defecar sossegado sem abrirem a porta, é isto a Liberdade?

Não creio. Muitas pessoas, aí, desse lado das grades, não o fazem!

Podermos expressar a nossa opinião, não seguir a regra, revoltarmo-nos contra o sistema, é isto a Liberdade?

É também, mas eu aqui preso posso fazê-lo, e muita gente aí, desse lado das grades não o faz!

No tempo da “Velha Senhora”, no tempo em que Mandela esteve preso, nada disto era possível, mas, como no poema de William Ernest Henley, “Invictus”, mesmo assim podemos ser livres: “It matters not how strait the gate. How charged with punishments the scroll. I am the master of my fate: I am the captain of my soul.”

Mesmo recluídos podemos ser senhores do nosso destino, capitães da nossa alma, é possível. Agora a Saudade… a amarga Saudade…

Hoje, 23 de Abril de 2015 (dia em que escrevo) estive preso dentro da prisão. Passo a explicar.

Conforme foi noticiado, alegadamente agredi outro recluso. No próprio dia fui fechado na minha cela, onde permaneci oito dias fechado, 22 horas por dia, somente saindo para duas horas de pátio, isolado da restante população recluída. Um quadrado com 10m. por 3m, este espaço de recreio, como aqui chamam, era os meus Campos Elísios, onde caminhava às voltas, qual perfeita quadratura do círculo!

Oito dias de medida disciplinar cautelar! Sem processo, sem nada. Quando o processo veio, condenado a 10 dias, cumprindo os restantes dois dias em data a agendar!

O outro recluso? Nada. Sem castigo algum. O atentado ao meu bom nome e honra, a falta de respeito por outro recluído, pública, nada. Eu: 10 dias!

Hoje, conquanto o meu advogado ter interposto recurso da decisão, apesar de ter comunicado o facto, ontem, ao director do estabelecimento prisional: “Sr. João vai ficar fechado de castigo, dois dias!”

E já está! O “Judite”, muitos dizem que se trata dos “herdeiros da Pide” (a polícia Judiciária) sujeito a “processo pidesco”.

Mas como estamos a dois dias da celebração do dia da Liberdade – relembro que estou a escrever a 23 de Abril, e que este texto será publicado a 2 de Maio – pelas 12h25 abriram a cela e devolveram-me a minha Liberdade dentro da prisão.

A Relação deu razão ao meu recurso e a Juíza do tribunal de execução de penas de Évora, que se está marimbando para as declarações dos reclusos, esses bandidos, teve de ceder!

Viva Abril! Viva a Liberdade! A Justiça funciona! O recluso unido jamais será vencido!

Como está a Justiça em Portugal quarenta e um anos depois?

Fraca, muito fraca. Mas não podemos exigir mais: a nossa democracia é muito novinha!

O instituto da prisão preventiva e o seu aproveitamento para extorquir informação, para fazer medrar o delator, para destruir reputações. A falta de contraditório. A “notícia-prova”, ou seja, se o jornal noticiou é porque o sujeito o crime praticou!

A falta de respeito pelo preso preventivo e a presunção da inocência do mesmo. O facto de a opinião pública, e, mais grave, a investigação (Ministério Público, Polícia Judiciária) Juízes de instrução incluídos, considerarem que um suspeito que é sujeito a vigilância electrónica na sua habitação é porque os seus crimes não são tão graves como inicialmente se pensava, ou, assim foi “contemplado com o prémio”, porque não vai ser condenado! Pode-se estar em casa preso – porque é disso que se trata – e vir a cumprir pena efectiva!

O que de facto é extremamente grave, é manter alguém preso preventivamente, porque “a moldura penal abstractamente aplicável é grave”, mas depois não é condenado a pena efectiva.

Um ano, um ano e meio, até três anos e depois afinal não era bem assim!

Solicita-se indemnização ao Estado? E o que se perdeu entretanto? Como reaver?

Como revisitar o momento em que o meu “filho-homem” explicou com as suas minúsculas mãos onde a galinha põe o ovo?

Liberdade? Eu tenho, mesmo aqui, nunca a perdi!

Justiça? Ainda hoje fui colocado em Liberdade dentro da prisão: o normativo que rege os recursos funcionou!

Quanto à questão da Saudade…

Ary dos Santos, magistralmente, de forma telúrica, a sua, afirmou que as portas que Abril abriu ninguém as fechará …

Eu só queria as escancaradas portas da Saudade encerrar. Oxalá!

(2 de Maio de 2015)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s