Parabéns Maria Leonor de Sousa

Estimado(a) Leitor(a), faltam somente, na presente data (14 de Março de 2015) quinze dias para se completar um ano, um ano em que estive aqui, em Évora, recluído.

Familiares, amigos, “ambíguos” e outros já me questionaram várias vezes: “Como tens suportado tudo isto, tudo isso aí? Onde vais buscar força para tudo suportares?”

A verdadeira questão é saber se vou vencer este terrível desafio e quais as estratégias que adoptei, ou mesmo recriei para superar tudo o mais.

Estaria, muito mais, fragilizado com “tudo isto” se por acaso a Fortuna tivesse, ao longo destes 41 anos, sorrido invariavelmente para mim. Mas não, e precisamente porque assim o foi, por saber que a Vida “é como uma pedra de amolar que nos desgasta ou afia, conforme o metal de que somos feitos”, e porque a Vida, a maravilhosa Vida, algumas partidas já me pregou, apresento a coriácea pele do resistente.

Quando, a 29 de Março de 2014, os meus colegas trouxeram-me algemado e aqui me deixaram, durante a viagem, sempre a descer, pensei na Capela dos Ossos – “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos!” – mas de imediato afastei essa imagem porque o que estava a experimentar não tinha esse lado tão definitivo, não existe prisão perpétua em Portugal, e, muito importante, convém não esquecer que “apesar de tudo, isto é melhor do que falecer!”

Depois entrei na prisão. De fato e gravata, já noite, celas amarelas fechadas, corredores vazios, o guarda conduziu-me à camarata.

A porta é aberta, e, de imediato as palavras do poeta: “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!” (“Perdei a esperança, vós que entrais!”; “Inferno”, canto III, “A Divina Comédia”, Dante).

Cinco camas alinhadas, distando um metro umas das outras, uma nuvem de fumo, cheiro indescritível, duas televisões acesas, canais diferentes sintonizados, volume alto e quatro reclusos idosos!

Senti-me como Frodo Baggins preso na torre dos orcs. Onde estás Samwise Gamgee?

A meio da noite acordo com um dos “velhos orcs” com a cabeça junto das minhas pernas, tacteando, e penso aterrorizado: “É agora! O meu maior receio materializou-se. Vou ser sodomizado pelos orcs de Sauron!”

Mas não. O sujeito que usava fraldas (vá se lá imaginar tal coisa) queria apenas mictar e procurava, desnorteado, os chinelos. Ajudei então o indivíduo, grato aos deuses por manter inviolada a minha região in posteriori parte spini dorsi!

No dia seguinte, de manhã, no pátio, outro recluso veio avisar-me, “entre dentes”, que tinha sido colocado na camarata com quatro pedófilos, sendo que um deles tinha sido preso por mim e que o mesmo tecia comentários pouco dignos em relação à minha progenitora.

Que consciente, válida e sábia gestão da entrada de um novo recluso por parte do estabelecimento prisional de alta segurança. Que inferno o meu!

Como geri tudo? Como suportei? Como tenho suportado tudo o que tem acontecido aqui?

Relativizando! Passo a explicar.

Estão a ver a imagem da “bela senhorita” que acompanha este texto?

Foi a única imagem, até agora, que escolhi. As outras, um querido amigo selecciona após ler os textos.

Mas voltando à “bela senhorita”. A 14 de Março de 2003, ela nasceu. Maria Leonor de Sousa, a nossa primogénita!

Cerca de 3/4 meses depois, pais primários com o tesouro a dormir junto a nós, na sala, a ver um filme protagonizado pelo Denzel Washington, “John Q.” (no qual se retrata a história de um pai – Denzel W. – que por não ter seguro de saúde não consegue ser atendido num hospital norte-americano, quando o seu filho menor colapsa consequência de patologia cardíaca) a menina acorda, chora, não se acalma. Não se vê o filme (até hoje ainda não o vi) e seguimos para a urgência do CUF Descobertas.

Após observação do tesouro, sou chamado a uma sala, onde médico e enfermeira iniciam questionário que notoriamente visava apurar se eu sujeitava um pedaço de mim, o melhor pedaço de mim, a maus-tratos!

Relativizando: o que é estar fortemente indiciado da prática de crime de corrupção, quando somos confrontados com uma suspeição destas?

Esclarecidos, médico e enfermeira, esclarecimento prestado de forma cordata e urbana, algumas horas e alguns exames depois (o que são para mim prazos de recurso ou respostas aos mesmos comparado com o que vivi na ocasião?) uma “troika” de médicos comunica aos pais primários:

– A menina não tem luxação, não é nenhuma fratura, o que ela tem na axila é um tumor, é um hemangioma!

Explicaram que iria crescer, a minha “princesa piu-piu” ficaria deformada, mas poderia regredir, já em idade escolar.

Qual prisão preventiva? Qual Maria Alice a dizer que comprava electrodomésticos ao ex-colega, justificando-se, não sei ainda do quê? Quais perguntas do “Freeport” que ficaram por fazer?

O inferno é isto e não tudo o mais!

José Mário Branco dizia, “Consolida, filho, consolida!” Eu digo constantemente: “Relativiza, João, relativiza!”

Mas ainda faltam os resultados de alguns exames. Mais umas horas (o tempo é mesmo relativo, não o aprendi aqui, ou mesmo com o tio Albert, foi naquela noite, naquele hospital) e novamente a “troika”:

– Lamentamos, mas depois, de analisar os exames complementares, apurou-se que a vossa menina é um caso de “abate médico”.

Como!?

Em silêncio, pensei que iriam abater o melhor pedaço de mim, não era possível.

– Explique lá doutor! – enquanto agarrava o meu tesouro com mais força, amparando a mãe.

– É uma doença rara, habitualmente verifica-se em infantes: Síndrome de Kasabach-Merrit.

Percebem agora porque frequentei o curso superior de medicina legal, percebem porque tento sempre saber mais, porque estudo enviesamentos cognitivos no testemunho: é trauma. Odeio a ignorância, a ignorância que sempre alimenta a impotência, a mediocridade.

Haig Haigouni Kasabach e Katarine Krom Merrit, dois pediatras que primeiro descreveram a síndrome em 1940.

Aqui em “Ébola” não existe apoio psicológico, o apoio é dado pela medicação, entopem o recluso de Zolpidem, Alprazolam, tudo calmo e “dormem bem”. Também me questionaram se durmo bem, se estou ansioso: sempre dormi bem, sem milagroso auxílio químico!

Explico porquê: porque quando foi diagnosticado a terrível síndrome à “bela senhorita”, avisaram os médicos que na eventualidade de a bebé apresentar focos petequiais (algo que eu observava no meu trabalho diário nos mortos, nomeadamente nos enforcados) deveria com a máxima urgência levá-la para o hospital porque a menina estaria com um quadro hemorrágico que se poderia revelar fatal!

A Leonor chegou a apresentar valor de plaquetas da ordem dos 9 mil!!!

Nessa altura, aí sim, não dormia, literalmente, durante um mês. Também não podia recorrer ao milagre químico porque tinha que velar ao lado do tesouro que dormia, observando-a, enquanto a mãe descansava.

Problemática a prisão preventiva? Relativiza, João, relativiza!

Pai desesperado, consultei e utilizei os recursos da P.J. (reconheço aqui o crime de peculato, não aquele pelo qual agora também estou indiciado!) e obtive o contacto e respectiva morada do Prof. Gentil Martins, verdadeiro homem de coração bondoso e génio, que operou o melhor pedaço de mim, extraindo totalmente o “bicho”. Ficou apenas a marca da sutura na axila, o resto ultrapassou-se.

Até há muito pouco tempo eu dizia à Leonor que aquela cicatriz era a marca que ela tinha porque quando era bebé eu tive que a proteger do capitão Gancho, que também a mim tinha atingido (altura em que lhe exibia a minha cicatriz da apendicectomia, qual vitorioso Peter Pan gabando-se à sua Sininho!).

A Leonor conheceu o Prof. Gentil Martins o ano passado, aquando do lançamento do seu livro de memórias, “Ser bom aluno não chega”, livro no qual escreveu uma dedicatória para a “bela senhorita”. Nessa ocasião já estava aqui, recluído.

Foi uma dolorosa e preciosa experiência que permitiu afirmar na altura que em comparação, tudo o que viesse depois era canja! Não é canja isto aqui em Évora, mas é tudo relativo, suporta-se!

Mais fácil de suportar porque ela existe. A “bela senhorita” que podem observar, ali estava em Sevilha, junto à catedral, “lê” a ementa, para depois, por forma a agradar ao pai, dizer a palavra espanhola que então aprendera: “Gracias!” Tinha quatro anos (2007). Sei que sou um pai babado, desculpem!

Em 2009, em Roma, com seis anos, na “Chiesa di San Paolo dentro le Mura”, na Via Nazionale assistiu com os pais a um recital de ópera. A quando da interpretação do tenor, da ária do “Rigoletto”, “La donna è mobile”, a “bela senhorita”, ainda não tinha acabado a interpretação já aplaudia enquanto acompanhava no seu, muito seu, italiano: “Má mó mi móli!”

A assistência, de pé, aplaude o tenor e a inopinada soprano. O tenor, no final do recital pediu aos “pais – babados – um – pouco – envergonhados” para tirar uma fotografia com ela porque afirmava que a ousada menina era: “Fortuna! Bella Fortuna!”

Uma pausa breve: de repente lembrei-me das palavras do meu advogado, “Veja lá João, não escreva nada que o prejudique!” Sevilha, Roma, recitais, almoços e jantares … serão os tais sinais exteriores de riqueza? Isto foi há 7 ou 8 anos atrás. Será que já andava metido no ouro?

Não interessa. Permitam-me que transborde de orgulho e vaidade, até porque não a vou ver no sábado: estou preso e há greve dos guardas!

Orgulho. Numa destas semanas passadas, aquando da visita semanal, quando eu estava junto do elemento do corpo dos guardas prisionais, antes de passar pelo detector de metais, encontrando-se já na sua sala contígua a ninhada e a mãe, o guarda, indivíduo simpático, diferenciado, num exercício nobre de humildade intelectual, muito raro de se ver, sinal de inteligência, interpelou-me:

– Sabe, Sr. João, aprendi uma palavra nova num dos seus textos!

– Ainda bem que servem para algo positivo – disse – Qual foi?

– Estultícia!

Olhando para a Leonor que esperava ansiosa o pai, não me contive:

– Leonor, chega aqui meu amor! Não passes o pórtico! Diz a este senhor que palavra se deve usar em vez de parvo.

– Boa tarde – saudou a minha Princesa, acrescentando de seguida – Estulto!

Se por mero acaso o Orgulho fosse de metal composto, inchado como eu estava, ainda agora o pórtico, detector de metais, apitava e apitava!

Orgulho. A Leonor assiste às conversas, observa, vê se o pai está triste ou alegre durante as visitas.

Por vezes pega no irmão, agarra na mão à irmã e pede para se levantar e levar os irmãos para um pequeno corredor existente, para que o pai, que está a transformar-se no “monstro” (como elas dizem) possa falar com a mãe, a mãe que, sem qualquer responsabilidade pelo “animus” do momento, mais uma vez, é o receptáculo de toda a revolta e raiva que consomem o “monstro”.

Orgulho e dor. Numa das visitas a Leonor questionou-me relativamente à pulseira electrónica:

– Pai, quando fores para casa com a pulseira, não podes sair de casa?

– Assim será. – respondi sem perceber onde queria chegar.

– Quer dizer que vais estar sempre em casa, sem trabalhares, estás sempre lá quando chegarmos, não vais para a universidade e chegas tarde?

– Claro, filha!

Virando-se para a irmã pediu para esta dar “mais cinco”, enquanto gritavam: “Yes!!!”

É tudo relativo, uma questão de prioridades e perspectiva: mesmo preso em casa, não interessa, já têm o pai para brincar, para tocar piano e cantar.

Sim, porque a Leonor toca piano. Orgulho. Num recital, há dois anos, no final, a professora comunicou à sala cheia que a Leonor queria fazer uma surpresa ao pai, o pai que não estava de prevenção, não estava a dar aulas, não estava no estrangeiro, estava presente, finalmente!

A “belíssima senhorita” tocou “Für Elise”, de Beethoven. Uma das composições preferidas do pai. Sala de pé! Pai a chorar!

Tudo é relativo: uma lágrima “aqui” pode conter toda a dor ou um oceano de alegria imensa por se recordar a “belíssima senhorita”, com mãos pequeninas a tocar Beethoven: a melhor interpretação de todos os tempos, capaz mesmo de curar a surdez do compositor, em lá menor!

Conquanto eu não estar em casa, a Leonor, todos os dias, antes de se deitar, toca “Für Elise”! E por vezes eu oiço aqui!

Um exemplo, maduro, da beleza e grandeza da pequena senhorita:

Escutando atentamente os pais a falarem durante a visita, a Leonor apercebe-se que muito desgastados estamos a fazer “cortes na despesa”, porque o pai está sem ordenado. Pedindo para falar, comunica solenemente que não se importa de abandonar as aulas de piano até as coisas mudarem, assim como não se importa de não se fazer a festa de anos como é tradição, acrescentando que ajuda a mãe a fazer um bolo de iogurte “para se poupar dinheiro!”

Como já disse antes, recorri – providência cautelar – para o Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa, por causa do meu ordenado. Sem resposta até agora, sem resposta desde 10/10/14!

O José fez o mesmo – providência cautelar – e mantém as botas. A Leonor não percebe a questão e eu não consigo explicar.

A revolta é grande, maior quando a Ministra da Justiça, na oposição e resolução fundamentada se pronuncia assim: “81º – por fim, o ora Requerente tem que adaptar as suas despesas à nova realidade da sua vida”. Sem condenação em processo disciplinar ou processo-crime?

Sra. Ministra, V. Exa. entenda, mesmo que eu deseje viver outra realidade a Leonor não deixa! A “bela senhorita” de 11 anos qualquer dia ainda nos surpreende a todos, com exemplos tão demonstrativos da sua maturidade, qualquer dia ainda surpreende declarando que quer começar, já, a pagar a segurança social, porque à “mulher de César, não basta ser séria…”

Orgulho. Conversando com a mãe, falando sobre a busca domiciliária de que fomos alvo, ironizei:

– Não encontraram nada e esteve sempre à vista!

– Então é verdade! – disse uma preocupada e triste Leonor.

– É, amor meu! O pai tem lá em casa uma pérola e três diamantes!

– Escondidos? No cofre? – enquanto olhava a mãe.

– Não, amor. Aqui ao pé de mim: a mãe, tu, a mana e o mano. São todo o meu ouro!

De imediato alertou-me, como se tivesse descoberto a solução para o nó górdio:

– Tens de dizer isso ao Juiz antes da acusação. Tens de explicar!

Compreende o meu Caro(a) Leitor(a) como suporto isto tudo: tenho três diamantes e uma pérola, e “tudo isto” comparado com “eles” nada é!

Perdoem-me o desmedido orgulho, mas é a minha “bela senhorita” e ela hoje faz anos, 12 anos. Vou agora dirigir-me somente a ela, a ela que agora está a ajudar a mãe a copiar este texto.

Ordens do Grande Mestre da Ordem dos Magos e dos Feiticeiros, para a aprendiz de feiticeira, Maria Leonor de Sousa:

1º Não gastes o teu desejo ao apagares as velas do bolo com isso, porque já falta pouco para o pai ir para casa, pede outra coisa qualquer!

2º Parabéns Leonor, “bela senhorita”, “princesa piu-piu”, tem um dia feliz, é uma ordem, e lembra-te, tudo isto que escrevi pode ser resumido (e poupávamos o trabalho à mãe) através de cinco letras, um hífen e um ponto de exclamação, a saber:

AMO-TE!

(14 de Março, 2015)

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