“Média e Justiça: Algo Está Mal!”

Uma pergunta para o meu Caro(a) Leitor(a): O que é uma notícia?

Alguma vez pensou nisso?

Recentemente uma jornalista apresentou-me uma definição: “género jornalístico constituído pelo conjunto de dados essenciais sobre qualquer acontecimento ou ideias actuais ou actualizáveis e que possuam factores de interesse informativo e projecção social. Este conceito é a base da informação jornalística e o ingrediente básico de todos os géneros jornalísticos.”

Muito bem. Acho que pacificamente se pode aceitar a definição.

Mas eu, valendo-me da boa vontade e paciência da referida jornalista, instei a mesma a demonstrar o que nos leva a dizer de algo que é notícia.

Eis o que ela expôs: o momento do acontecimento, a intensidade, a clareza, a proximidade, a consonância, a surpresa, a continuidade, a composição e os valores sócio-culturais!

Enriquecido pelo exposto, atento ao que a jovem jornalista explanou, dei por mim incomodado e surpreso com algo que se passou nos “média” nesta semana transacta.

Afonso Camões, Director do “Jornal de Notícias”, na edição de segunda-feira, 19 de Janeiro de 2015, escreveu um editorial com o título: “Estado não cumpre e assobia para o lado”. Alguns excertos da peça jornalística: “[…] Erro criminoso é ser verdade a possibilidade de a fuga de informação sobre a investigação Sócrates ter vindo do Juiz Carlos Alexandre […]”, ou ainda “[…] Narrei à Procuradora-Geral da República o gravíssimo atentado à credibilidade do JN. Aconselhou-me a consultar um advogado […]”.

O que me incomoda não é a “intentona” de um jornal a outro, o que me surpreende não é a “imobilidade judicial” da Procuradoria ao ter conhecimento de um crime – violação do segredo de justiça – aquilo que me deixa com cara de ponto de exclamação é o silêncio ensurdecedor a que se remeteram os jornais nos dias seguintes a esta verdadeira bomba, ou melhor, a seguir a este “furo jornalístico”!

Somente a SIC – com a presença do desconcertante advogado do Engenheiro Sócrates – e a TVI, deram cobertura jornalística na terça e quarta-feira!

O Correio da Manhã – a “coisa publicada” como escreveu Afonso Camões – jornal que desvenda, desmascara, jornal que contra tudo e todos lutou contra José Sócrates, jornal que nos dias seguintes à prisão do Engenheiro apresentou editoriais, primeiras páginas, fundo e verso propalando terem visto à distância a manha do agora recluso 44, o jornal que se considera também parte fundamental da recolha de informação sobre todos os actos negros do “menino de ouro” do PS, este mesmo jornal não reagiu? Não repôs a verdade?

Não esclareceu o que queria o Sr. Afonso Camões dizer com a seguinte frase: “[…] É verdade: disse-me um jornalista do grupo empresarial da coisa que a prisão de Sócrates estava iminente […] Ele deveria ter publicado a informação, que lhe veio, disse-me depois, por um seu camarada, directamente da investigação, liderada pelo Juiz Carlos Alexandre e pelo Procurador Rosário Teixeira […] Sim, eles falam com jornalistas! […]”

Perdoe-me o meu Estimado(a) Leitor(a) mas vai ter de ser: “Há moral ou mamam todos!”

E nem uma única notícia, um quadradinho, sobre o assunto? Não foi só o Correio da Manhã a remeter-se ao silêncio, foi toda a gente, todo o universo jornalístico!

Voltando à jovem jornalista.

Será que este editorial – do Director Afonso Camões – não é “um conjunto de dados essenciais sobre um acontecimento ou ideias actuais ou actualizáveis”?

Será que o “momento do acontecimento” não é o melhor? Não tem “intensidade”?

Não foi Afonso Camões “claro” no que escreveu? Não é uma “surpresa” tudo o que relatou? (Se calhar não, nós já desconfiávamos!). Consonância, composição, valores sócio-culturais? Está tudo lá! Esperem, não está não! Falta uma condição para ser notícia: continuidade! Mas não está lá porque quem tinha o dever de dar continuidade, de fazer jornalismo saudável – investigação jornalística – não o fez, transformou uma denúncia gravíssima numa “não-notícia”!

Tudo isto podem ser “intentonas”, interesses políticos, “zangam-se as comadres descobrem-se as verdades”, isso até compreendo, o que não compreendo por mais que me esforce é o “assobiar para o lado” da Procuradoria-Geral da República! Estamos perante a denúncia de um crime! Não compreendo mesmo o porquê, a razão pela qual o jornalismo português não “explorou” esta verdadeira notícia.

Serão as botas do Engenheiro José Sócrates uma notícia, serão as visitas, os lençóis, o “edredon”, o cachecol, quantas vezes este corre, bebe agua ou vai mictar, verdadeira notícia?

Será que noticiar-se quantas vezes urina José Sócrates é urgente, é intenso?

O que posso extrair? Que  a uretra do mesmo e a dimensão da próstata estão excelentes?

Quantas pessoas relevam mais o facto de alguém denunciar um crime do que “info” sobre o aparelho urinário do Ex-Primeiro Ministro?

Algo está mal.

Poderá ser, afinal, uma notícia aquilo que os “poderes instituídos” desejam? Aquilo que alguém sussurra ao ouvido do jornalista?

Ou será a notícia aquilo que o público deseja ouvir/ler?

É possível que o público não se indigne?

Não defendo, nem acuso José Sócrates, considero que a hagiografia jornalística é tão condenável quanto a omissão pura e simples, muito mais grave que a maledicência ou a campanha difamatória, mas tenho que reconhecer que algo está mal.

Quanto a nós, Caro(a) Leitor(a), antecipo já a notícia: para a semana, porque isto de falar por trás da cortina não é sinal de grande coragem e credibilidade, apresentar-me-ei!

Até lá!

(24 de Janeiro de 2015)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s