Prisão ou apneia do “eu”

“As emoções que falham nestas descrições são as da raiva, medo, rivalidade, ambição e desejo. Todas estas emoções têm um enorme valor de sobrevivência. O não se permitir a si próprio e aos outros que sintam e exprimam estas emoções é manietar a pessoa num colete de forças. Quando se permite que estas emoções sejam parte legitima e valorizada da interacção, as dificuldades podem ser resolvidas com maior flexibilidade e mais humanamente do que quando são suprimidas.”

Carl Rogers

Estamos em apneia! Não respiramos. Tudo é contagem decrescente: o prazo para a resposta ao último recurso para a relação, o tempo que falta para a porta da cela se abrir e podermos caminhar cá dentro, quanto tempo tenho ainda de pátio para conseguir treinar, quanto tempo falta para a visita do meu amor e dos nossos filhos. Já acabou o tempo da visita!? O único tempo que corre célere!

A vida não parou, o mundo gira e avança, só que para mim nas mãos da Justiça e não na mão da minha criança, aquela que de semana a semana me visita e ainda não se habituou ao pai, quando falo o “boquinha linda” olha para a mãe!

Tudo isto se passa no tempo, na espera, tudo isto se respira mas para mim não, para mim o tempo é diferente, eu estou em apneia.

Apneia moral porque aqui o regime politico é consequencialista, utilitário. O que me podes dar? O pequeno tráfico: troco um pacote de bolachas de aveia por dois pacotes de leite. Passo-te à frente na fila do refeitório porque assim como mais do menos que aqui servem!

Apneia de sentimentos. Nunca dou um abraço prolongado à minha mulher porque receio não a largar mais. Não ligo aos filhos encostados à parede, junto à porta da saída, como o pai à espera que o guarda abra, a chorarem! Coragem! Um dia, um dia o pai vai para casa. Coragem! Costas direitas! Nariz empinado, meninas!

Quando pai, quando voltas? Coragem meninas porque eu preciso ver coragem em vocês para eu aproveitar o reflexo e vos parecer corajoso!

Apneia da vaidade. Desfazer a barba somente em dias de visita porque o director não permite a entrada das Mach 3 ou 4, temos de comprar as do estabelecimento prisional. Cabeça rapada. Não posso ter o champô que quero, não é permitido. Rapada a cabeça porque nunca tive tantos cabelos brancos, envelheci!

Apneia de emoções. Chorar somente depois das 19h00 até às 08h00, nesta altura estamos sozinhos e fechados. Convém referir que somente os sortudos, aqueles que estão sozinhos, porque nas exíguas celas com beliches não podemos, está lá outro com tanta vontade de chorar, como nós, mas ele é duro, não chora. Chorar é fraqueza, coisa de violador, coisa de pedófilo.

Apneia de emoções ou só respirar as emoções adequadas: raiva, indignação, violência.
Representar durante o dia para à noite retirar a máscara e ceder ao pranto, chorar a impotência.

Apneia de “ser-eu-próprio”, de sonhar e ambicionar.

“Uma vez que seja dada oportunidade, um organismo vivo tende a realizar as suas potencialidades mais complexas, em vez de estagnar em satisfações mais simples.”

Mais uma vez sábias palavras de Carl Rogers. Acertadas, ou talvez não, tivesse Rogers de as escrever com as mãos geladas, agarrado a uma garrafa velha de plástico com água quente, água quente da dose diária que o recluso coloca no seu “termos”. Uma fonte de calor fruto da criatividade e da necessidade pois o director não permite radiadores nas celas, local onde a temperatura marca -1º (e não são permitidos “edredons” também!).

Tenho frio, passo fome, literalmente. Se me ofertassem agora um Caravaggio queimava-o para me aquecer. Nada em mim é complexo neste momento, nada em mim é potencialidade, somente sinto necessidade!

Não penso em mistérios maiores que tudo, não estou a assimilar nada, não estou a retirar algo do que agora experimento, não tenho epifanias. É tudo muito simples. É como a metafísica que existia nos chocolates da pequena da “Tabacaria” do Pessoa… chocolates… um luxo aqui!

Mas que presunção, que descaramento! Estás preso é porque fizeste alguma coisa, mereces!
Quantos anos está a cumprir? Qual é o crime que cometeu?
Desconheço, não me deixaram consultar o processo, sei que existem fortes indícios.
Estou preso preventivamente!

De forma deturpada os jornais contaram tudo. Eu sei, eu sei: estou preso e agora é conveniente dizê-lo. Violação do segredo de justiça, agora é moda!

Não, meu caro Leitor. Foi mesmo assim. Facultaram informações aos média e estes deturparam.
O José Sócrates diz o mesmo? Esperem! Eu tenho provas físicas, concretas, e denunciei. Estou a aguardar resposta há 5 meses!

Não leram os jornais? Pois é, infelizmente não é notícia. Somente a minha mulher e a “ninhada” sabem. Não consigo encaixar isto na agenda mediática.

É mesmo assim, eu melhor que ninguém sei como se joga o jogo. Deixei de existir. Só existo aqui, fechado. Sou um pária, um preso. Sou Coriolano.
Estou na prisão, neste lado das grades, em apneia de mim.
A onda já passou? É agora! Vou colocar a cabeça de fora e respirar. É a minha vez. Vai começar!

(10 de Janeiro de 2015)

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One thought on “Prisão ou apneia do “eu”

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