Sob o signo da necessidade: o futuro da investigação do Meco

Estimado(a) Leitor(a), confesso-me surpreso. Não sei dizer se é o nosso modesto “Blog” que imita a realidade ou se foi a realidade que imitou a nossa peça ficcionada, porque na dura vida real surgiu agora a solicitação de um exame pericial à roupa do indivíduo sobrevivente.

Que exame é este? Trata-se de um exame “conhecido tecnicamente como exame forense de cultura diatomácea”, noticiavam os “média”!

Mas voltemos à ficção para provar o que a seguir pretendemos explanar. Atentem em Platão!

“[…] Mais três mulheres estavam sentadas em círculo, a distâncias iguais, cada uma em seu trono, que eram as filhas da Necessidade, as Parcas, vestidas de branco, com grinaldas na cabeça – Laquésis, Cloto e Átropos – as quais cantavam ao som da melodia das Sereias, Láquesis, o passado, Cloto, o presente, e Átropos o futuro […]”

Não recuperámos este excerto do livro “A República” por causa das sereias e a sua relação com o mar. Invocamos esta passagem porque, consequência da ignorância e incompetência daqueles que investigaram inicialmente, agora, acossada pelo chicote da necessidade, a investigação tem de prestar maior homenagem e atenção às Parcas, ou seja, tem de encerrar em si a sapiente capacidade de avaliar o que se fez e o seu contrário (o passado – Laquésis) o que agora deve fazer à luz do realizado, pois estará a investigação a operar sobre o erro ou a omissão (o presente – Cloto) e perceber que a resposta que se espera (não os “média”, mas as famílias) tem de ser cientifica, congruente e idónea (o futuro – Átropos).

Solicito ao meu Leitor(a) paciência e boa vontade para, na minha companhia, olhar agora para dois momentos decisivos da investigação que, segundo propala a imprensa nacional, vão ocorrer, a saber:

– O exame às roupas (“cultura de diatomácias”) e o interrogatório do sobrevivente.

Observemos sempre celebrando e homenageando as Parcas, expondo as questões que podem comprometer o sucesso da empresa.

Muito bem, diatomáceas que seja!

Primeiro problema. Segundo os autores que estudam a matéria, estas algas unicelulares de microscópio tamanho apresentam-se com uma biodiversidade enorme, estimada em cerca de 5600 espécies.

Questão problema: o Laboratório da Polícia Cientifica da Polícia Judiciária (L.P.C.) ou o Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses (I.N.M.L.C.F) realizaram algum estudo, possuem alguma “tabela de espécies de diatomáceas lusas”, nomeadamente as diatomáceas autóctones das águas do mar da Praia do Moinho de Baixo, no Meco?

Esta questão é de capital importância! Não basta afirmar que se faz entomologia forense em Portugal, por exemplo, desconhecendo-se as espécies de moscas (Taxonomia) que por cá voam.

Com as diatomáceas aplica-se o mesmo.

Inicialmente esta pericia não foi realizada. Porquê? Ignorância dos investigadores?

Nunca foi realizada semelhante perícia em Portugal? Se for ignorância ou por omissão é algo que pertence à Parca do passado, agora estejam atentos às colheitas! Possuí o L.P.C. ou o I.N.M.L.C.F. uma padronização na recolha? Existe protocolo quanto à quantidade de meio ou aos critérios que orientaram a recolha? Possuem o conhecimento que permite uma boa prática, isto é, saberão que devem ser recolhidos “aproximadamente 1000ml de meio na zona superficial”, e que nos casos em que se trate de “um ribeiro, um leito de um rio ou margens de um lago, devem ser igualmente recolhidas cerca de 200ml de amostra ao nível do fundo”? Esta modalidade de recolha é importante para responder a uma questão deste género:

Será que o sobrevivente ficou-se pela “beirinha” ou andou “enrolado nas águas?”

Conhecem os investigadores e peritos a diferença entre diatomáceas bentónicas e perifíticas? As algas de superfície e de fundo. Será que existe em Portugal estudos sobre as referidas bentónicas e perifíticas?

Só mais uma, Laquésis (o passado) obriga-nos. Sabendo nós que os “primos janotas” (P.J.) contaminaram as roupas da Inspectora Ana Saltão, inviabilizando desta forma a prova, conquanto a roupa em questão também não ter sido devidamente preservada e tratada, saberão estes novos protagonistas (esperemos que não deleguem a investigação nos mesmos!) salvaguardar a contaminação das colheitas e análises?

Apesar de nunca terem realizado o exame pericial em questão, com o objectivo/quesito presente, informem-se, porque devem “realizar uma colheita sequencial, numa ordem pré-definida e com recurso a instrumentos e reagentes, incluindo água de lavagem, completamente isentos de diatomáceas na sua superfície ou composição (atenção que as diatomáceas existem, ainda que em menor número, no ar!)

Segundo momento decisivo, patrocinado por Cloto (o presente) é o interrogatório do sobrevivente. Para facilitação do nosso argumento, vamos afastar o cenário em que o sobrevivente, indivíduo conhecedor dos seus direitos, presciente, olhando mais além para Átropos, a Parca do Futuro, exerce o seu constitucional direito de se remeter ao silêncio, não prestando quaisquer declarações. Sejamos optimistas! Afinal isto é ficção!

Encontrando-se o sujeito disponível para prestar declarações, o que perguntar? Como perguntar? O que se deve observar?

Temos de falar sobre Memória. Saberá o meu amigo Leitor(a) que as nossas memórias para se cristalizarem passam por três fases/momentos? Permita-me a partilha.

Primeiro dá-se a codificação (aquisição). Através dos sentidos, momento falível se estes (os sentidos) de alguma forma estiverem comprometidos – por exemplo, se o sujeito for invisual, se existirem ruídos, se uma comoção muito forte “toldar” a percepção do evento (descansem que o sobrevivente não deve ler este “Blog”, pelo que não vai utilizar este argumento, ainda que muito válido).

Segunda fase: o armazenamento. Observado o fenómeno o sujeito vai “guardar” o que presenciou. Recorde que a codificação pode enfermar consequência dos factores antes referenciados, logo o armazenamento vai ser incorrecto, condicionado pela falibilidade do processo anterior. Guardarmos o que vimos e não o que de facto ocorreu.

Terceira fase: a recuperação. A mais importante das fases. Neste momento o indivíduo vai recuperar a informação que codificou e armazenou, podendo recuperar o evento presenciado com alterações, é humano – por vezes preenche “espaços” na narrativa com informação inexistente inicialmente, mas que serve para dar congruência ao seu discurso ou agradar ao interlocutor.

O povo é sábio, tem sempre razão, é o aforismo popular: “Quem conta um conto, acrescenta um ponto!”

Como pode verificar o meu paciente Leitor(a), questionar alguém sobre algo que experimentou é uma tarefa muito delicada, exige arte, ciência e engenho, pode ser considerada uma tarefa fascinante mas não tão acessível como o faz crer Tim Roth no “Lie to Me”.

No caso dos investigadores que o terão de fazer junto do sobrevivente (vamos manter o optimismo: ele vai falar!) existe um acréscimo de dificuldade um vez que o sujeito está a ser pressionado, acha-se no papel de suspeito, mas mais do que tudo isto, será tarefa difícil porque muito se falou e fala sobre o sucedido, o sobrevivente já relatou a sua versão dos factos a uma revista – “Sábado, nº536, de 7 a 13 de Agosto de 2014” – e tudo o que agora declarar será em sintonia com o que já disse, assim como será em tudo conforme com as estultas conclusões dos investigadores.

Solução? Uma profunda análise do conteúdo do discurso. Antes de se interrogar o sobrevivente, escutando atentamente Láquesis (o passado) analisar as declarações do indivíduo, a entrevista, o “tsunami” de notícias debitadas pelos “média”, fazer um estudo rigoroso dos conteúdos semânticos, significados e significantes presentes nas notícias, declarações dos pais, colegas e responsáveis da Universidade das vítimas, e apurar quanto do discurso do interrogado é constructo com base no que este considera expectável por parte de quem o interroga. Talvez aplicar uma bateria psicométrica ao sujeito não é de todo despiciendo – uma avaliação de desejabilidade social ou mesmo avaliação de personalidade.

Referimos antes que o sujeito pode responder declarando o que é, para si, expectável por parte de quem o interroga mas não vamos desprezar o facto de também aquele que interroga ter um objectivo expectável, e que através das suas questões e comportamento pode transmitir, involuntariamente, ao questionado informação que pode comprometer o que objectivava alcançar.

Observem este teste que os psicólogos realizaram por forma a ilustrar como é fácil “criar” falsas memórias e como as perguntas  (a pragmática da instrução) pode condicionar o discurso/narração/recuperação de memórias no sujeito.

Colocado perante a mesma fotografia de um veículo automóvel que colidiu com uma árvore, o indivíduo responderá à questão, “A que velocidade seguia o carro que tocou na árvore?” que o veiculo seguia a cerca de 50kms. por hora, mas se questão for, “A que velocidade seguia o carro que se esmagou contra a árvore?”, a velocidade aumenta para 100/120kms! Está estudado! É um facto cientifico! Era a mesma fotografia!

Nós somos optimistas, nós temos uma das melhores polícias do mundo, eles sabem tudo isto concerteza, possivelmente da primeira vez estavam distraídos; eles (investigação com o Ministério Público incluído) sustentam-se em fontes cientificas, em dados comprovados, aquilo de dizer que foi o destino que causou a morte de seis pessoas… também foi distracção.

A Necessidade e as Parcas.

Há dias vi na TV, naqueles programas que falam de coisas muito sérias e delicadas, especialmente para os familiares das vítimas, e que interrompem por causa do “jogo de casa” (o tal “600-600 e qualquer coisa”) a jornalista Ana Leal a alertar um ex-Inspector da P.J. para a cientificidade de uma perícia, exame pericial que referia valores numéricos relativos a certa substância presente no sangue de uma das vítimas do “Caso Meco”, dizendo qualquer coisa deste género o reformado investigador:

– Olhe que não é bem assim! – com veemência
– Desculpe. – interrompeu Ana Leal – Não se trata da sua ou da minha opinião, trata-se de um resultado pericial…
– Pois… mas… repare… desculpe… não é bem assim!

Como o poeta dizia que “a vida é um eterno voltar”, cantado pela fabulosa Alcione, regressemos, para terminar, a Platão e à sua utópica república de reis-filósofos.

Platão refere-se na sua obra a dois tipos de indivíduos: os “philodoxos” (amigos da doxa, da opinião) e os “philosophos” (amigos da sabedoria), vamos todos fazer votos para que “estes” que chegam agora à investigação possam ser mais como os segundos e menos como os primeiros, já que é notório que estão  muito distantes do que nós esperamos “deles”, ou seja, distantes daquilo que é exigível a uma Investigação (P.J., Ministério Público, L.P.C., Juizes) do séc. XXI!

(25 de Outubro de 2014)

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