Greve na Polícia Judiciária: o fim anunciado de uma instituição

Mais um movimento intestinal inopinado da senhora Justiça!

Os senhores Inspectores da Polícia Judiciária, ou melhor, a Associação Sindical dos mesmos (nem coragem demonstraram na génese e não lhe chamaram Sindicato) decidiu lutar pelos seus inalienáveis direitos recorrendo à greve, uma vez que não viram aprovado o estatuto profissional da classe.

Segundo comunicado da referida associação, o período de greve situa-se no espaço temporal entre as 18h00 e as 09h00 de cada dia útil.

Permitam-me a colocação de algumas questões:

  1. Estarão os senhores Inspectores arrependidos por não terem subido a escadaria, ou mesmo envergonhados, uma vez que o distanciamento (diria mesmo repúdio) que demostraram pelo sucedido agora vos atormenta?
  2. Será que os senhores Inspectores tropeçaram, só agora, no poema de Bertold Brecht, queimando-vos a consciência a última quadra:”Agora levam-me a mim / Mas já é tarde / Como eu não me importei com ninguém / Ninguém se importa comigo.”
  3. É possível que os senhores Inspectores tenham experimentado uma epifania percebendo que mais 10€ ou 20€ no Piquete ou no Serviço de Prevenção é parco valor para compactuar com o Poder, sacrificando mais altos valores éticos e deontológicos?
  4. Não seria conduta mais nobre e celebrada lutarem por melhores condições para exercerem serviço público (porque é disso que se trata) do que pensarem em conforto remuneratório?

É injusto o que digo?! Então expliquem o porquê de terminarem com a luta anterior quando o aumento de dez ou vinte euros surgiu?

As condições de trabalho alteraram-se? Para melhor? Não! Deterioraram-se? Sim! Então porquê compactuar com a mediocridade? Por dez ou vinte euros?!

Muito bem, vamos dar o benefício da dúvida: o Ministério da Justiça (o do “Citius”) prometeu, isto é, exigiu que a anterior manifestação de luta terminasse para que se pudesse “negociar” o estatuto profissional.

Se essa foi a razão então o problema é mais grave!
Afinal os “primos janotas” e a sua Associação estão, completamente, “a leste do paraíso”, direi melhor, se existir no Inferno de Dante um círculo para os ignorantes, exercem lá os mesmos a função de porteiros e são sócios honorários!

Nós sabemos que existe por lá um círculo para os soberbos, existe pois!
A questão que julgo ser pertinente os “primos janotas” colocarem é se a Polícia Judiciária tem razão para existir, e se assim não for, possam eles encontrar a razão pela qual isso se verifica.

O meu Caro(a) leitor(a) observe o período temporal da greve anunciada: dias úteis, das 18h00 às 09h00, somente operando o Piquete e os Serviços de Prevenção.

Já há muito tempo, sem greve, que a P.J. opera desta forma.

Quem no terreno, maioritariamente, notifica os intervenientes processuais são os elementos da P.S.P e da G.N.R., solicitados a fazê-lo pela P.J. via fax!

Existem unidades da Polícia Judiciária que não acorrem a situações que são da sua exclusiva competência (v.g. assaltos à mão armada ou abusos sexuais de menores) perdendo-se de forma irrecuperável prova testemunhal, indícios e vestígios. Depois, quando as investigações “debilitadas” não alcançam o seu mais nobre objectivo – o apuramento da verdade material dos factos – porque não foram analisados os locais, pessoas ou os objectos, atribuem estes “primos janotas” a culpa aos “provincianos G.N.R.’s ou aos “toscos P.S.P.’s”!

Uma instituição – Polícia Judiciária – que se encontra com notória insuficiência de chefias intermédias, chefias  superiores e pessoal de “campo”, não pode funcionar regular e proficuamente, encontrando-se em falência com seu fim anunciado.

O meu Leitor(a) alguma vez os viu chegar a uma ocorrência, por exemplo um cenário de crime de homicídio?

Já os vi inúmeras vezes chegar, somente dois elementos! A única coisa que fazem é dizer que já se pode levantar o corpo que depois vão à autópsia, e pedem o expediente que será lavrado pela G.N.R ou P.S.P, conforme seja a morte ocorrida em ambiente rural ou citadino.

Quando noticiam que a P.J. deteve indivíduo foragido, colaborando a P.S.P ou a G.N.R., o que de facto aconteceu foi que as duas últimas instituições estiveram no terreno à procura do meliante, e depois, já detido, entregam o sujeito à Polícia Judiciária. Tudo bem, compreendo, a função deles não é essa, depois vem o trabalho cientifico e ai os “tipos” brilham! Então como é possível tanto erro/omissão no “Caso do Meco”, dúvidas no “Caso Joana”, inquietações no “Caso Maddie”, ou então, gritante, o facto de trinta e tal anos decorridos desde o evento, aparecer um “megalómano narcisista” afirmado ser o “Estripador de Lisboa” e os “primos janotas” não saberem onde estava a recolha da impressão palmar de um dos locais de crime, para que comparando a mesma com o “megalómano narcisista” denunciarem que o que o homem desejava afinal eram os 15 minutos de fama prometidos por Andy Warhol, assim como era esse o desejo da jornalista à qual dispensaram muito mais do que 15 minutos!

Será que o atropelo das várias policias existentes, a sobreposição de serviços e a repetição de diligências não são razões mais do que suficientes para os “primos janotas” serem definitivamente integrados numa polícia nacional? O edifício novo? O investimento? Retirem a palavra “Judiciária”, coloquem a palavra “Nacional” e ainda poupam dinheiro ao erário público em duas letras!

A minha opinião? Foi a própria instituição Polícia Judiciária que contribuiu para o seu ocaso.

O processo de renovação organizacional e os processos de aprendizagem necessários não se verificaram. Seja por soberba – “nós temos história”, “nós é que sabemos” – seja por falta de visão estratégica, a P.J. não soube evoluir. É uma instituição fechada, cristalizada, hermética, manifestamente anacrónica.

Para se verificar evolução é necessário existirem actividades de aprendizagem, actividades essas com implicações directas no desempenho.

Aquisição externa de conhecimento: contacto com profissionais e especialistas, cooperando com instituições e universidades; encorajamento aos investigadores a fazerem parte de redes informais e formais compostas por pessoas exteriores à organização.

Quantas vezes viram um elemento da P.J. a fazê-lo? Só os reformados e para o consumo imediato e pouco informado do comentário nos “média”.

Aquisição interna de conhecimento: tem de existir uma política consolidada de investigação e desenvolvimento.

Quantos trabalhos científicos conhecem realizados pelos “primos janotas”, quantos “deles” teorizaram a sua prática diária. Reina o laxismo e o hábito, e não se pode revelar muito do que por lá se faz!

Distribuição do conhecimento: a instituição tem de possuir mecanismos formais  que garantam a partilha de boas práticas entre os diferentes domínios da actividade.

Quem já trabalhou com “eles” sabe que “cada cabeça sua sentença”, até em algo que deveria obedecer a procedimentos “standard”, como por exemplo a organização/apresentação de um inquérito no tribunal.

Interpretação de conhecimento: os elementos da organização partilham conhecimentos e experiências comunicando uns com os outros.

Na década de 80 do passado século XX, quando surgiu o “Estripador de Lisboa”, somente passado algum tempo (o bastante para comprometer a investigação) e umas quantas vitimas depois, é que os elementos da mesma secção perceberam que investigavam os mesmos factos!

Melhoraram? Um dia podemos falar dos “desaparecidos” e do caso do jovem cuja mãe ainda luta por encontrá-lo.

Memória organizacional: a instituição está dotada de bases de dados que lhe permitem armazenar experiências e conhecimentos de modo a ser permitida a sua utilização mais tarde.

O meu Leitor(a) vai dizer que eles possuem uma base de dados informatizada com os “bandidos” todos lá dentro. Vê-se no “Inspector Max”, não é? Mais do que este arquivo, o que vos falo é da capacidade de terem presente, por exemplo, que se o responsável pela investigação do “Caso Joana”, não tendo de forma alguma a sua coordenação sido pacifica (o adjectivo utilizado é um flagrante eufemismo) nunca deveria ter coordenado de seguida o “Caso Maddie”.

É uma questão básica de gestão de imagem, de memória organizacional.

Esqueçam-se agora, outra vez, e coloquem os mesmos a tratar do segundo acto do “Caso Meco”! Que se pretende demostrar? Demostra-se que foram os próprios que não souberam fazer medrar a competência, o rigor cientifico, a dedicação, tudo pilares indispensáveis para a garantia do prestígio que a Polícia Judiciária até tem, mas tem porque o cidadão médio não é informado, nem a instituição informa ou reconhece as suas graves limitações.

Tem de se destruir o mito auto-referenciável, a P.J. nunca foi melhor que a G.N.R. ou a P.S.P., os dois últimos é que estavam pior. Actualmente ambos evoluíram enquanto os “primos janotas” de forma soberba, auto-centrados, de forma insana, esquizofrénica e injustificadamente julgam-se ainda indispensáveis e com poder reivindicativo.

Vanitas vanitatum et omnia Vanitas!

(24 de Outubro de 2014)

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