11 de Outubro de 2014

Como a Justiça funciona por cá: Uma peça ficcionada.

“Sem a teoria, a prática não é nada mais que a rotina nascida do hábito”.

Pasteur assim postulou e nós assinamos por baixo, sempre que pensamos no nosso sistema de justiça.

Vejamos!

A acção passa-se numa praia qualquer, a horas tardias…

Um senhor agente questiona com uma sapiente: “Boa noite, o que é que se passa?”

Esta abordagem até é bastante recomendável uma vez que o agente da autoridade encontra-se desperto para a eventualidade de “algo” realmente se ter passado.

Por vezes eu assisti, a autoridade somente pronuncia lacónica frase: “Diga lá então!” Abordagem menos aconselhável porque nesta ficção o indivíduo que estava sozinho na praia não desejou dizer nada, ficando assim a autoridade sem nada saber do que se passou!

Dentro de um jipe, na mesma praia.

Entretanto, e porque isto até parece estar um pouco mal contado – “coisas” que a autoridade sente – é melhor ligar ao Ministério Público, “chutando-se para cima” a responsabilidade de decidir, contrariando a responsabilidade a gravidade, subindo a mesma às mais altas instâncias, aliviando quem na noite fria e escura se encontra na praia.

Este personagem, o Ministério Público, a horas tardias atende o seu telemóvel, que por um qualquer feliz acaso não está ligado ao “Citius”, e faz a sacramental pergunta: “O que é que o senhor agente acha? Desconfia de crime?” O agente, por uma questão de soberba intelectual ou somente devido ao facto de ter que esperar sempre longas horas pelos “primos janotas” (entenda-se os Inspectores da Polícia Judiciária) acrescido do facto igualmente relevante de na noite escura e fria geralmente não se achar nada, faz aquilo que é, invariavelmente, aceitável por cá: “Eu acho (sempre achou algo!) que não é nada demais. Foram apenas uns moços que desapareceram no mar enquanto estavam na “desbunda”, desculpe Sr. Dr., enquanto olhavam o mar. Foi um deles que me disse, o que está aqui comigo!”

“Muito bem, oiça em declarações o miúdo e envie o expediente depois!” Falou o “dono do processo”, ou para sermos mais profissionais e rigorosos que ambos os personagens que escutámos, assim falou o Dominus do processo: Roma locuta, causa finita.

Qual personagem sombria de uma qualquer tragédia de Shakespeare, talvez o malvado Iago, surgem agora os “média”. Entram em palco os fazedores de subjectividades, aqueles que nunca  leram Morin:

“Os caminhos da subjectividade passam pelo conhecimento e pela confissão da subjectividade do autor”.

Sobre os telhados do mundo propalam os “média” que desapareceram no mar salgado, que mais salgado ficou pelas lágrimas que entretanto se derramaram, exigindo a queda da inocência e a atribuição grátis da culpa.

Num gabinete cheio de papel, exíguo.

Vendo, lendo, ouvindo os ferozes “média”, o Sr. Ministério Público que pecou não por excesso mas sim por uma gritante e alarmante ignorância, fruto da displicência e soberba com que abordou a tragédia, conhecedor de alguns aforismo populares pensa e tardiamente executa: “Mais vale tarde que nunca (isto pensou porque pronunciá-lo era assumir o erro). Liguem para a Judiciária que eu já dei despacho para o processo ficar com eles!”

Entram os “primos janotas” (P.J.) e o que fazem?

Atrasados no tempo de intervenção, não por culpa própria, fazeram o costumado, sendo que o costumado também pode ser definido como a velhice do erro, não se esquecendo o meu Leitor(a) que não há disparate que não tenha sido legitimado por um costume. Os “primos janotas” levados pela corrente furiosa dos “média”, como se verificou também nos casos “Joana” e Maddie”, confirmaram empiricamente as palavras de Aldous Huxley:

“Experiência não é o que acontece a um homem, mas sim o que um homem faz com o que lhe acontece”.

Recorrendo à sua experiência (deles P.J.) cometidos novo(s) erro(s), adiantaram que a responsabilidade de não se ter “levado a bom porto”, “chegado mais além” na investigação, foi consequência do facto do primeiro O.P.C (Órgão de Polícia Criminal) segundo palavras da P.J., não ter feito uma análise inicial válida. É bastante falacioso o argumento porque não se pode devolver, primeiro por uma questão legal e funcional, depois porque estes chegam sempre várias horas depois da comunicação inicial! Estão sempre com outro serviço pendurado!

Esta nossa peça ficcional vai continuar para a semana, mas antes queria deixar esta imagem que retrata bem o que foi a investigação da personagem “primos janotas”.

Retido e adaptado do livro de Pine Aprile, “O elogio do imbecil”: Os “cabacelli” são peixes minúsculos que se dispõem em cardume para procurar alimento. De vez em quando um elemento separa-se do grupo seguindo outra direcção. Pode não ser a melhor direcção, pode não existir alimento ou até deparar-se com um predador emboscado. Von Holts (cientista) privou um exemplar da parte anterior do cérebro que preside às actividades de grupo e à vida social. Esse elemento quando se separava do cardume já não olhava para trás a fim de observar as reacções dos companheiros. Avançava a direito sem hesitar. O único peixe descerebrado do grupo tornava-se o chefe indiscutível deste último, justamente devido à sua insuficiência. Ninguém é tão decidido como aquele que não sabe para onde vai.

Assim foi a investigação do Ministério Público e dos “primos janotas”. Para a semana explico. Até lá.

(11 de Outubro de 2014)

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